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É preciso engajar o jovem no debate político, diz presidente da CNBB

APARECIDA, SP (FOLHAPRESS) – A cidade de Aparecida (SP) recebeu na última semana mais uma reunião anual da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), e o tema central da 61ª Assembleia Geral foram as novas orientações pastorais para a Igreja no Brasil, a partir das diretrizes gerais para os católicos do mundo todo.

Vindos de todas as regiões do país, os 442 clérigos presentes trabalharam as novas posições que estão sendo definidas no Vaticano diante do diagnóstico da realidade brasileira, de desigualdade social e polarização política.

Iniciada em 10 de abril e encerrada no dia 19, a assembleia teve a presença do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que assumiu a função de pregador espiritual nos dois primeiros dias de Retiro dos Bispos. O mensageiro do papa Francisco veio ao país orientar o Caminho Sinodal, que deve ser inspirado em três eixos: comunhão, participação e missão.

Reunidos no Centro de Eventos Padre Vitor Coelho de Almeida, no complexo do Santuário de Nossa Senhora, os bispos e arcebispos brasileiros buscaram desenhar as novas diretrizes para a ação evangelizadora da Igreja no país inspirados por aquilo que está sendo urdido no Vaticano, afirmou o presidente da CNBB, arcebispo de Porto Alegre, dom Jaime Spengler.

Desde o início dos trabalhos, houve uma nítida preocupação da instituição em se expressar mais claramente sobre a missão evangelizadora da Igreja católica no sentido de engajar os fiéis nos três eixos citados. E ficou clara a preocupação diante dos fundamentalismos.

Do lado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin repetiu que o maior desafio está na crescente secularização na América Latina, cujo papel da religiosidade popular é destacado. A responsabilidade da cúria diante da perda da fé é ainda maior nos locais de grande espiritualidade, como é o caso do Brasil, segundo o mensageiro do papa. Uma das propostas no horizonte é atuar no engajamento dos jovens, que também devem ser incentivados à atividade política, atualmente desacreditada.

PERGUNTA – O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, conversou com o presidente Lula sobre como implementar o acordo entre Santa Sé e Brasil a respeito da liberdade de expressão religiosa. O que o senhor poderia nos dizer sobre isso?

DOM JAIME SPENGLER – O Estado é laico e isso é uma conquista. Agora, o Estado como tal respeita todas as expressões religiosas. É verdade que o Brasil tem um acordo com a Santa Sé, ou seja, é um acordo entre dois Estados, e eu creio que o acordo mesmo favorece também as outras expressões religiosas. É uma garantia, de alguma forma, dessa liberdade religiosa que todos nós almejamos.

É verdade que temos aspectos, no âmbito religioso da sociedade, que nos desafiam e que merecem aprofundamento. E naquilo que nós pudermos colaborar para promover essas liberdades, seja no aspecto do Estado laico, nós estamos juntos, seja também no sentido de compreender mais e melhor a importância da dimensão religiosa, que faz parte da vida de todo ser humano, no contexto da sociedade.

P. – Mas, com o fato de o avanço da extrema-direita estar ancorado na religião cristã, no Brasil e no mundo, como a Igreja lida oficialmente com o problema, e também como os bispos se colocam no dia a dia?

DJS – Eu diria que no diálogo político, propriamente dito, direita e esquerda se complementam, desde que estejam focadas naquilo que nós denominamos o bem comum. Talvez quando a senhora cita a extrema-direita, influenciada pela religião, estejamos falando de um fundamentalismo religioso. E o fundamentalismo, o próprio termo já diz, é perigoso. E aí, eu creio que nós como sociedade precisamos estar muito atentos. Os fundamentalismos, seja de um lado seja de outro, não ajudam na promoção do convívio social.

O fundamentalismo é algo, eu diria assim, que nos preocupa e nos desafia, de alguma forma, a pensar ainda mais radicalmente em que consiste a missão, e o trabalho de cada cidadão, no âmbito da política. Nós precisamos resgatar entre nós a atividade política. Nós somos essencialmente seres políticos, independentemente de credos religiosos.

Agora, o fundamentalismo sim, isso nos preocupa e nos impele a pensar o que compete a cada um de nós como seres religiosos, mas também como seres em sociedade.

P. – É possível perceber nas posturas do papa Francisco uma proposta de reencantar a política de um modo geral. Nesse sentido, o fundamentalismo religioso não seria um aprofundamento do desencantamento?

DJS – Nós temos, de alguma forma, que ajudar os nossos jovens a verem a atividade política ou o engajamento no debate político como algo necessário e salutar. Infelizmente, no Brasil, nós caímos numa espécie de descrédito da atividade política, do debate político, por razões diversas.

Mas é através do debate político no Estado democrático de direito que nós podemos cooperar para construir uma sociedade mais justa e uma sociedade mais integrada e integradora. Eu creio piamente que devemos, sim, incentivar, apoiar e estar juntos com os jovens em vista de um engajamento maior nessa atividade fundamental para o futuro da própria sociedade.

P. – Poderia nos dar uma visão geral sobre a paleta de preferências políticas que há entre o total dos 486 bispos brasileiros? Há esse diagnóstico?

DJS – Bom, eu poderia responder que todos os bispos, cada um de nós, somos seres envolvidos na sociedade, e como homens que vivem na sociedade, também têm suas posições políticas, isso é natural. Agora, para além de partidarismos ou de orientações, nós devemos e somos chamados a ser sobretudo homens do Evangelho.

O que deve pautar as escolhas e as manifestações de cada um, eu creio, é o Evangelho, pois o Evangelho é, por assim dizer, a referência maior. A outra referência é a Doutrina Social da Igreja. A Igreja possui uma tradição em termos de doutrina social muito rica e que precisa também ser melhor conhecida e divulgada.

P. – A encíclica socioambiental Laudato Si’ foi a primeira da Igreja no tema ecológico e surpreendeu pelo interesse dispensado ao texto. Como a Igreja brasileira participará da COP30?

DJS – Essa questão tem dois vieses com os quais estamos muito envolvidos. O primeiro aspecto vem da experiência da fé –as Sagradas Escrituras nos dizem que, quando Deus terminou a criação, ele viu que tudo era muito bom e precisava de cuidados; depois, com a experiência da fé cristã, entendemos que toda a criação participa da redenção. Então, tudo aquilo que é criado merece o cuidado, a atenção e a promoção dos homens.

O outro aspecto vem a partir da ética, nós estamos colhendo sinais de todos os lados que nos apontam para a necessidade da urgência no cuidado para com o meio ambiente. E não faltam sinais de que o próprio ambiente está pedindo socorro: nós não podemos permanecer surdos diante desses gritos que nos chegam da Terra, da natureza ou do meio ambiente. No fundo, o que está em jogo é: que casa comum, que ambiente nós queremos deixar para as futuras gerações, para os filhos e netos?

Ainda temos a possibilidade de tomar decisões corajosas em vista do cuidado. A COP30 é, assim, uma oportunidade privilegiada e que, como evento de nível universal a ser realizado aqui no Brasil, eu creio, põe em destaque ainda maior a necessidade do cuidado com a casa comum. Nós certamente temos aqui uma responsabilidade no evento, seja como brasileiros, seja como Igreja. E certamente não vamos nos omitir, ainda mais que possuímos a maior floresta tropical. O que está em jogo é o futuro do planeta.

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