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Enredo da Mangueira fala do apagamento e da invisibilidade do povo preto desde a chegada dos escravizados

Acabou o mistério. Depois de espalhar pistas por alguns pontos da cidade, a Estação Primeira de Mangueira anunciou nesta quinta-feira o enredo para o carnaval do ano que vem. A escolha segue a mestra trilha de temáticas negras e afro que a maioria das escolas levará para a Sapucaí, em 2025. Com o título “À Flor da Terra – No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões”, a verde e rosa abordará na Avenida o processo de apagamento e de invisibilidade do povo preto desde a chegada dos escravizados ao cais do Valongo.

Mistério em verde e rosa: Mangueira espalha pistas sobre enredo que será divulgado nesta quinta-feira

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O enredo foi idealizado pelo carnavalesco Sidnei França, um estreante no carnaval carioca. Mas, apesar de ser pouco conhecido no Rio, ele acumula no currículo cinco campeonatos em São Paulo: quatro na Mocidade Alegre (2009, 2012, 2013 e 2014) e um na Águia de Ouro (2020).

França optou por um enredo que vai explorar as pesquisas que buscam desde os registros de milhões de escravizados, um resgate e uma valorização dos saberes e fazeres banto no Brasil até a construção de um cotidiano carioca a partir de suas violências e prazeres que traz à tona um olhar sobre as experimentações das camadas populares e invisibilizadas nas práticas socioculturais da cidade.

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— A Mangueira pretende com esse enredo trazer à luz o entendimento sobre toda uma trajetória de apagamentos e invisibilizações, provocadas intencionalmente, inclusive, no laço histórico da cidade do Rio, da figura preta, desde a chegada dos escravizados no caso do Valongo, em que aqueles seres humanos eram tratados como peças, como mercadorias, e isso perpassa o tempo. E hoje você encontra uma sociedade que não fomenta, não proporciona oportunidade para a comunidade preta, para a comunidade dos morros e que são os mesmos corpos que encontram entre muitas aspas as balas perdidas, que são dados como desaparecidos, que não têm acesso a muitos serviços que a sociedade deveria garantir — explica o carnavalesco.

Segundo Sidnei o enredo pretende também não só servir de alerta e de denúncia. Mas, também como ponto de mudança para uma sociedade mais igual e mais respeitosa com a identidade preta.

— É um enredo que fala do contraste entre dores e paixões que permeiam a vivência numa cidade caótica, mas apaixonante como o Rio de Janeiro.

— O entendimento da nossa terra revela a verdade sobre corpos assolados pelo apagamento de sua identidade preta. A alma carioca, atrevida por essência e banhada da ancestralidade bantu, é forjada por tantas dores e paixões, carregando na memória a cruel violência, mas também as experiências revolucionárias de liberdade, que nos ensinam a desafiar a morte, celebrar a vida e fazer carnaval

O anúncio do enredo da Mangueira foi antecedido por várias ações na cidade, nas redes sociais da Escola e nos meios de imprensa. A revelação do tema do próximo desfile foi precedido de uma ação que contou com a distribuição de quadros por alguns pontos da cidade, trazendo palavras que davam pistas de como será a abordagem.

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As pistas distribuídas por vários pontos da cidade nesta quarta-feira já deixaram antever que seria de temática afro. Além das ações nas redes, a escola optou por fazer uma intervenção pelas ruas, mais especificamente em localidades da Pequena África, região que se relaciona com o enredo.

Foram deixadas flores na Central do Brasil, no Cais do Valongo, no Cemitério dos Pretos Novos, no (Mucab), no Largo da Prainha, na Pedra do Sal, no Boulevard Olímpico (Museu do Amanhã) e na própria Cidade do Samba.

Os quadros onde as flores foram afixadas continham as palavras Africanidade, Afrofuturismo, Ancestralidade, Apagamentos, Cultura Negra, Dores e Paixões , Kalunga, Memória, Pretos Novos, Tradição Bantu, todas elas relacionadas ao enredo do Carnaval 2025 e ao modo como ele será abordado.

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Veja as outras escolas que já definiram enredo

Acadêmicos da Grande Rio

A escola de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, terá o Pará como enredo de 2025. Os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora repetirão a parceria. Em fevereiro, Helder Barbalho, governador do estado, fez o anúncio. Milton Perácio, fundador e presidente-administrativo da escola, deu a confirmação antes do desfile da agremiação na Avenida este ano. Em 2024, a Grande Rio ficou em terceiro lugar, atrás de Imperatriz Leopoldinense e da campeã Unidos do Viradouro.

Beija-Flor

A Beija-Flor de Nilópolis contará a história de Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, que morreu em junho de 2021 por complicações da Covid. Ele foi o responsável por uma sequência de títulos da Azul e Branco entre os carnavais de 1998 e 2018. A Beija-Flor foi campeã em 1998, 2003, 2004, 2005, 2007, 2008, 2011, 2015 e 2018, anos em que Laíla tinha a função de diretor de carnaval.

Imperatriz Leopoldinense

Em março, a Imperatriz Leopoldinense anunciou que terá um mito yorubá como tema de seu carnaval. Agremiação aposta na história resguardada pelo Itã que narra a ida de Oxalá ao reino de Oyó para visitar Xangô.

Portela

Milton Nascimento, que assistiu aos desfiles de 2024 na Marquês de Sapucaí, será o tema do carnaval da Portela em 2025. A homenagem será feita com o título “Cantar será buscar o caminho que vai dar no sol”. Em seu Instagram, o cantor disse:

“É com muita emoção que aceitei o convite da Portela para que a minha história seja retratada no maior espetáculo da Terra. Que honra ser homenageado pela escola com mais títulos na história, a Majestade do Samba! Vejo vocês na avenida! ‘A nossa procissão sai de Madureira, e é a estrada que vai fazer o sonho acontecer!'”

Paraíso do Tuiuti

— O título do enredo é uma provocação. A quem interessa apagar a história de Xica Manicongo? Ela foi transgressora em sua trajetória, foi fichada pela Santa Inquisição e virou símbolo de luta das pessoas trans — diz Vasconcelos.

A escola de São Cristóvão definiu seu tema no começo do mês. “Quem tem medo de Xica Manicongo?” é o título do enredo que trata da história da considerada a primeira travesti do Brasil. O tema será desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos.

Unidos da Tijuca

A Azul e Amarelo contará a história de Logunedé, fruto da história de amor entre Oxum e Oxossi. No Instagram da escola de samba, o tema foi explicado: “Rio que corre na mata. Num tempo, ele caça; no outro, dança no fundo do rio. Em uma mão, o ofá de Inlé; na outra, o abebé de Ipondá. O caçador e a senhora dos rios e cachoeiras. Metade pai, metade mãe. Tem a bravura do guerreiro e a beleza da iabá do ouro. Santo menino de nobreza ijexá que os mais velhos reverenciam. Em 2025, a Tijuca é Logunedé!”. Edson Pereira será o carnavalesco responsável.

Viradouro

Em busca do bicampeonato do carnaval do Rio, a Unidos do Viradouro apresenta um enredo sobre um líder de um quilombo que, junto com indígenas, desvendou os segredos das ervas e a força da natureza. Sob o tema “Malunguinho — O mensageiro de três mundos”, a vermelho e branco de Niterói promete uma viagem pela história de uma figura emblemática para a cultura afro-indígena brasileira e que ainda não havia sido homenageada na Marquês de Sapucaí.

Salgueiro

A escola de samba Acadêmicos do Salgueiro divulgou na semana passada o enredo para o carnaval 2025: “Salgueiro de corpo fechado”: preparo o tacho de óleo de oliva, arruda, guiné, alecrim, carqueja, alho e cravo. A vermelho e branca da Tijuca leva para a Marquês de Sapucaí a história e a cultura do fechamento do corpo. A escola vai exaltar símbolos sagrados da cultura negra.

Integrarão o Grupo Especial do carnaval do Rio, em 2025, Unidos de Padre Miguel — campeã da Série Ouro, Viradouro, Imperatriz Leopoldinense, Grande Rio, Portela, Salgueiro, Mangueira, Beija-Flor, Mocidade Independente de Padre Miguel, Unidos da Tijuca, Unidos de Vila Isabel e Paraíso do Tuiuti.

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