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Como a arte de Yoshitaka Amano deu à luz os mundos da franquia ‘Final Fantasy’

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – De olhos felinos e tez alva, as figuras espalhadas pelas paredes são pálidos objetos de desejo. Andróginos, perdidos entre a precisão das linhas e a dispersão das cores aquareladas, os guerreiros, princesas e seres mitológicos de Yoshitaka Amano são feitos num estilo difícil de reproduzir, mas cuja função é inspirar a difícil arte dos pixels e polígonos tridimensionais dos videogames.

Sempre aquém do conceito original feito pelo artista japonês, um dos mais renomados da indústria por seu trabalho como designer na franquia “Final Fantasy” desde os anos 1980, o que se vê na tela ganha mais força quando o próprio jogador consulta a fonte, em papel, lápis e nanquim, para alimentar sua imaginação.

“Com a evolução dos computadores, como o 3D, é possível reproduzir um mundo bastante realista. Mas o que faço não mudou em nada”, diz Amano, que ganha uma exposição em dois andares no Farol Santander, no centro de São Paulo. “Os computadores são apenas uma tecnologia para expressar as imagens em minha mente.”

A visão de Amano é um tanto modesta, considerando como seu trabalho foi central ao despertar a curiosidade de fãs ao longo de décadas, que perdiam tanto tempo jogando em TVs de tubo como contemplando as caixas e manuais ilustrados pelo japonês. E mesmo com todos os avanços, nenhum game ainda conseguiu reproduzir fielmente a força da sua arte.

“Os personagens moldam o caráter de quem joga”, diz Antonio Curti, curador da exposição e que se apaixonou pelo artista com os games. A seleção, que além dos trabalhos para os games contempla suas colaborações em quadrinhos, animações, revistas de moda, como a Vogue, e capas para os livros de “Vampire Hunter D”, traz ainda uma sala imersiva com projeções de trabalhos mais livres. “O Amano é um artista muito curioso, que modifica sua obra a partir das vivências, e consolidou um DNA precursor no gênero.”

Na mostra, essa força fica clara no imenso painel que Amano fez para celebrar os 35 anos da série de RPGs japonesa, completados em 2022, em que ele reúne, sobre papel dourado, um batalhão de protagonistas, vilões e monstros.

Esse panorama é o ponto alto do estilo do próprio Amano, que sofreu modificações ao longo dos anos, assim como a identidade da série. Se a arte dos primeiros “Final Fantasy” remetia a um mundo medieval em que o clássico capa e espada se mescla a curvas e turbantes estampados da cultura árabe, isso muda na virada para “Final Fantasy 6”, com seus navios voadores, e para o sétimo game da franquia, o primeiro em 3D, num mundo cyberpunk.

No traço de Amano, essa trajetória vai de um desenho mais limpo e preciso, no início dos anos 1990, para rascunhos indomáveis no final desta década, com encenações mais ousadas. Na série de designs para “Final Fantasy 8”, por exemplo, em um papel cinza, a canetadas roxas e tinta branca, vemos um guerreiro em posição de combate e, no reflexo da sua espada, o rival. Há ainda um original do logotipo de “Final Fantasy 7”, clássico do PlayStation, com um meteoro em nanquim.

Relembradas hoje em tom de nostalgia, a arte de Amano vem da mesma escola de Ayami Kojima, definitivo para o estilo rococó de “Castlevania”, e Yoji Shinkawa, cujas grossas pinceladas definiram o visual da série de espionagem “Metal Gear Solid”, com figuras que nascem como esculturas de luz e sombra.

Seus retratos do “Batman” ou dos personagens de “Sandman”, para falar do universo dos quadrinhos, reproduzem esse mesmo tom onírico e difuso, diferente do estilo ocidental original. Ao mesmo tempo, a série “Candy Girl”, por exemplo, com garotinhas pintadas em acrílica sobre chapas de alumínio, e as contribuições para o estúdio de animação Tatsunoko —com o design para as séries “Gatchaman” e “Casshan: Robot Hunter”— apontam como o artista circula naturalmente pela potente indústria de entretenimento japonesa.

“É apenas uma questão do gênero. O grau de liberdade criativa é o mesmo neles todos”, afirma Amano. “A verdadeira liberdade é desenhar livremente sem mostrar para ninguém.”

YOSHITAKA AMANO: ALÉM DA FANTASIA

Quando Ter. a dom., das 9h às 20h.

Onde Farol Santander – r. João Brícola, 24, São Paulo

Preço R$ 40

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