Últimas Notícias

Autora de ‘Persépolis’, iraniana Marjane Satrapi vence Prêmio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades

Uma menina iraniana olha para frente, de braços cruzados. Ela usa véu e tem uma certa firmeza no olhar. Apenas duas vinhetas depois, vemos homens e mulheres exaltados, protestando com os punhos erguidos: estoura a Revolução Islâmica. É com esses desenhos que começa “Persépolis”, título lançado no ano 2000 que mudou a história daquela menina, das histórias em quadrinhos e, talvez, até do Irã. Tanto que, durante anos, continuaram pedindo que Marjane Satrapi, a autora, voltasse a retratar aquela jovem. Ao que ela respondeu repetidamente: “Ela cresceu”. Ela se tornou uma mulher. Lenda dos quadrinhos, cineasta, franco-iraniana e oponente feroz do regime de seu país, Satrapi venceu, nesta terça-feira (30), o Prêmio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades.

Scholastique Mukasonga: Quem é a autora cuja missão é preservar a memória do genocídio em Ruanda

Em busca de um Brasil perdido: Como Proust inspirou memorialistas durante a ditadura militar

O júri definiu Satrapi, que vive em Paris, como “um símbolo do compromisso cívico liderado pelas mulheres”, descreveu-a como “uma das pessoas mais influentes no diálogo entre culturas e gerações” e lembrou que “‘Persépolis’ capta exemplarmente a busca por um mundo mais justo e inclusivo” Em entrevista coletiva por videoconferência nesta terça, a autora dedicou o prêmio à luta pela liberdade no Irã e ao rapper Toomaj Salehi, condenado à morte há poucos dias: “Ele é a voz de todo o país”.

Satrapi proveitou para mandar uma mensagem a Josep Borrell, alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança: “Se ele tivesse na minha frente, dava-lhe uma bofetada. O Irã está levando a cabo cinco guerras neste momento. O que mais a Guarda Revolucionária precisa fazer para ser declarada um grupo terrorista? Quando se falava muito sobre o Irã no Ocidente, não matavam ninguém. Quando pararam de falar, começaram as execuções. E o que a Europa está fazendo em vez de condená-las? Torna o Irã presidente do fórum social dos direitos humanos na ONU. Nenhum iraniano pediria ao Ocidente que fizesse uma revolução, mas que ao menos que reconhecesse que existe um movimento com 85% da população que não quer essa ditadura religiosa. A opinião pública conta e é por isso que estes prêmios são importantes, não para que me aplaudam”. Embora Borrell possa promover declarar a Guarda Revolucionária um grupo terrorista, tal medida teria de ser aprovada pelos 27 estados membros da UE.

Bahiyyih Nakhjavani: “Verdadeira riqueza do Irã não é petróleo, mas coragem dos jovens e mulheres”

Este Prêmio Princesa de Astúrias reconhece muitas coisas ao mesmo tempo. Acima de tudo, o talento de uma narradora capaz de aprender e dominar novos formatos. Quando criou sua obra-prima, Satrapi quase não tinha experiência. Tinha passado pouco tempo na Escola de Artes Decorativas de Estrasburgo, na França. Acreditava que jamais encontraria um editor, que se limitaria a distribuir cópias impressas aos amigos. Mas “Persépolis” se tornou um marco dos quadrinhos, “comparável apenas a ‘Maus’, de Art Spiegelman”, segundo a Reservoir Books, editora que publica a graphic novel na Espanha.

“Persépolis” retrata a sua infância em Teerã durante a Revolução Islâmica que, em 1979, derrubou o xá da Pérsia e levou o aiatolá Khomeini ao poder, até ao início da sua vida adulta com a sua chegada à Europa, para onde os seus pais a enviaram e onde ela reside desde então. A família de Satrapi, próspera e progressista, inicialmente simpatizou com a revolução, mas o movimento acabou dominado por setores islamistas, levando a um regime teocrático que restringiu as liberdades individuais e embarcou numa guerra com o Iraque em 1980, sob a vigilância dos Guardiões da Revolução. Tudo isso é narrado em “Persépolis”, mas o preto e branco do desenho também serve para destacar todos os tons cinzentos de um acontecimento tão complexo: a macro-história, entre o êxtase, a repressão, as prisões e as mortes, junto com o cotidiano e a perspectiva de uma adolescente que anseia por liberdade tanto quanto por uma fita cassete de Kim Wilde vendida no mercado clandestino.

Etaf Rum, escritora palestino-americana: ‘Sofremos dupla opressão, do Ocidente e de nossas comunidades’

“O desenho é a primeira expressão do ser humano, é anterior à escrita”, diz Satrapi sobre sua escolha pelos quadrinhos. Suas graphic novels incluem “Bordados”, que narra a vida de mulheres iranianas, e “Frango com Ameixas”, sobre os últimos oito dias de vida de um parente da autora chamado Nasser Ali, um conhecido tocador de alcatrão, o tradicional alaúde iraniano. Satrapi também não entendia muito de cinema quando se deixou convencer a adaptar “Persépolis” para a tela, a quatro mãos, com Vincent Paronnaud. Recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2007 e, posteriormente, a primeira indicação de uma diretora na categoria Melhor Filme de Animação da história do Oscar. Mais tarde, filmou o road movie “Gang of the Jotas”, “The Voices”, sobre um assassino no interior dos Estados Unidos, e “Madame Curie”, ainda inédito.

O Princesa de Astúrias também exalta a coragem de uma voz sempre pronta a dizer o que pensa. Que detesta o uso do véu, considerando-o símbolo de submissão, mas defende, ao mesmo tempo, que as mulheres que queiram possam usá-lo. Que se defini como “muito feminista” e rejeita categoricamente o patriarcado, mas também que a luta das mulheres seja contra os homens. “Ninguém tem o direito de dominar ninguém. Somos todos iguais. Não existem raças, nós somos a raça humana”, diz. “Existem muito poucas diferenças entre um judeu, um muçulmano ou um católico fanático. O problema da religião é que ela impede as pessoas de falar e refletir, tenta dar respostas em vez de levantar questões”, acrescenta.

Recentemente, Satrapi voltou aos quadrinhos pela primeira vez em anos para coordenar “Mulher. Vida. Liberdade”, antologia que reuniu estrelas como Paco Roca e Joan Sfarr — uma espécie de “brigada internacional dos quadrinhos”, em sua definição — com autores iranianos como ela ou Shabnam Adiban, para apoiar os protestos que abalam o seu país e denunciar a repressão sofrida por seus cidadãos. O estopim de tudo isso foi a morte, em 16 de setembro de 2022, de Mahsa Amini, jovem de 22 anos detida pela polícia da moralidade por não usar o véu obrigatório para as mulheres no Irã. Satrapi insistiu diversas vezes que só há uma palavra para explicar a ebulição de seu país. Nem “revolta” nem “movimento”, mas “a primeira revolução feminista do mundo”.

Oriente Médio noir: Na literatura e no audiovisual, ficção policial árabe entretém e explica complexidades geopolíticas da região

“A situação piorou no Irã desde ‘Persépolis’. Estamos vivendo sob uma ditadura ainda mais violenta. Mais de 85% da população quer um governo democrático e laico. 68% vivem abaixo do limiar da pobreza, apesar de o Irã ser um país muito rico. O dinheiro desaparece na corrupção. O governo não quer abrir mão do poder. É por isso que preciso continuar falando, falando e falando sobre isso”, afirma. Há artistas iranianos que se levantaram contra o governo e pagaram um preço por isso, como o diretor Jafar Panahi, condenado a seis anos de prisão por propaganda contra o regime. Outros, como o cineasta Asghar Farhadi, foram acusados de fazer vista grossa por anos. Há décadas, Satrapi pertence ao primeiro grupo. De certa forma, com “Persépolis”, ela até já mostrou o caminho.

“Vendi milhões de livros e dei centenas de conferências pelo mundo. Mudei alguma coisa? Sei lá. Despertei a curiosidade das pessoas? Sim. Contribuí um pouco. Só um pouquinho, embora essa seja a única maneira de mudar o mundo”, disse, em novembro, ao El País. Ainda hoje, Satrapi não tem clareza sobre o real impacto de sua obra. “Funcionou porque era um livro bom e honesto. Você tem que falar sobre o que você sabe. Se o que eu faço ajuda, fantástico. Mas muitas vezes tenho a impressão de que estou convencendo pessoas já convencidas. Se alguém como eu está recebendo este prêmio o mundo deve estar muito ruim. Não sou superlegal nem supertolerante.”

“Persépolis” também é um retrato realista do Irã e de seu povo, longe dos clichês de “colinas e burros” ou da imagem de uma nação “presa em tempos sombrios” que festivais ocidentais procuram na arte iraniana, como Satrapi lamentou há um mês ao jornal britânico The Guardian. Uma das palavras que ela mais repete em entrevistas é “decência”. Decência para não querer dar lições aos iranianos estando longe, e sim para apoiar e dar voz aos aqueles que lutam todos os dias no país. E para não reclamar que há décadas não volta para a casa, pois há outros que sofrem tragédias maiores.

Tudo isso norteou seu trabalho, sua carreira e sua vida. Com a mesma determinação, ela se opõe a uma ditadura e a ser enquadrada em uma categoria. “Quando eu era criança, me disseram: ‘uma moça não faz isso ou aquilo’. Um dia levantei o dedo e disse: ‘Talvez eu não seja uma moça educada, mas sou livre’. Sempre me recusei a ser doce. Sou doce quando quero, mas não porque sou mulher. Quando eu era menina, queria ser o Batman, porque não havia modelos femininos.” Hoje ela própria é uma referência para muitas jovens. A menina de Persépolis cresceu, mudou. Mas continua acreditando e lutando tanto quanto antes. Ou até mais.

To Top