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Roberto Medina: ‘Quero unir o Brasil polarizado’

Roberto Medina quer unir o Brasil polarizado. E o idealizador do Rock in Rio aposta na música como aliada. É por meio dela que o empresário iniciou na segunda-feira (29) um movimento que começou com a gravação da canção “Deixa o coração falar”, composta pelo produtor Zé Ricardo, curador do Palco Sunset.

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Diz assim: “Já passou da hora da gente conversar/ Ficou impossível só ignorar/ A gente pode discordar/ Mas não pode se perder/ O mundo anda perdido/ Divido igual a eu e você”.

Inspirada em “We Are The World”, single beneficente lançado em 1985 para arrecadar fundos destinados a instituições compromissadas a aliviar a fome, a nova canção contará com a participação de mais de 50 artistas brasileiros.

Gente como Ivete Sangalo, Alcione, Xande de Pilares, Rael, Criolo, Gloria Groove, Jorge Aragão, Luisa Sonza, Ludmilla, Péricles, Xamã e muitos outros abriram mão de seus cachês em prol dos projetos sociais Gerando Falcões e Ação da Cidadania, para os quais serão doados os direitos autorais.

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Muitos deles também estão escalados para a data que marca o ápice do movimento puxado por Medina: o “Dia Brasil”, em 21 de setembro, data que ganha programação 100% brasileira nesta edição em que o Rock in Rio celebra 40 anos. Com novidades: será a primeira vez que o festival receberá atrações sertanejas (Luan Santana, Ana Castela e Chitãozinho e Xororó) e da bossa nova (Roberto Menescal).

Por telefone, o empresário conversou com o GLOBO.

De que forma a música pode ajudar restaurar relações rompidas por conta da política?

A ideia é como a de um abraço, quero tocar o coração das pessoas. A música tem a capacidade de unir os diferentes, não tem lado, é a mesma linguagem no mundo inteiro. Qual o problema maior que a gente está vivendo hoje no Brasil? O distanciamento que aconteceu entre as pessoas na pandemia e pós-pandemia. Tem a fome, a educação, mas não se constrói um país dividindo. A gente passou por um trauma durante dois anos e meio. Vimos a morte de frente. Eu imaginava que isso mudaria o comportamento das pessoas para o bem.

O que não aconteceu…

A pandemia e as questões políticas separaram o país. Os radicais ocuparam o lugar do bom senso e do diálogo. Isso incomoda muito porque o país é de todo mundo: da esquerda, da direita e do centro. O mínimo que temos que fazer é ouvir o outro. Todo mundo tem uma história de uma pessoa que ficou para trás nos últimos três, quatro anos. Por que a gente não pode ser exemplo de país acolhedor? Estamos sem confiança no nosso Estado, e a música pode acordar o que tem dentro do brasileiro.

É verdade que procurou Quincy Jones, produtor de “We Are The World”?

Sim. Tentei entrar em contato com o Quincy Jones, o responsável por tudo aquilo. Queria fazer uma homenagem no clipe, mas não consegui. Está com 92 anos, sem sair muito. Vamos ver se consigo trazê-lo para fazer uma homenagem no palco. Depois desses anos todos, estou me inspirando para fazer a mesma coisa que ele fez com seu talento.

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Era preciso fazer algo diferente para celebrar os 40 anos do Rock in Rio?

Era. Em 2001, fiz aquele movimento grande para um mundo melhor, o Kofi Annan participou, fizemos 70 salas de música em favelas para marcar os 30 anos. Desta vez, a minha porta-bandeira é a música brasileira, inspirado pela inquietude de ver nosso país dividido. E com algo que é simples de fazer: mande a música para um amigo que deixou na estrada. É uma forma sutil de fazer as pazes.

Acredita mesmo que é possível conviver bem com ideias completamente opostas sobre o mundo que se quer?

Sim. O que não dá é esse acirramento de ideias. Não há abertura ao diálogo porque ficou uma mágoa muito grande. Muita gente se afastou dos amigos por causa de crença. E acho que a solução não é afastar, é ouvir. E assim, mudar de opinião ou até mesmo reforçar a sua. Essa foi a inspiração: queria fazer uma coisa de as pessoas se abraçando, se unindo. Minha ideia era de que a gente tinha que liderar um processo de pacificação entre as pessoas, não importa a ideia.

E o Dia Brasil, em 21 de setembro, vai ser o ápice do movimento…

Vamos juntar a tropa toda. Estão confirmados mais de 50 artistas. A ideia é o pop convida o rock, que convida o trap, que convida a bossa nova. Vão ser shows de uma hora e meia de vários artistas brasileiros de todos os ritmos e tribos. Primeiro, gravamos o clipe. Aí vem um documentário e um manifesto. Uma coisa conversa com a outra. Eu podia só botar um dia a mais e encher, mas quero tentar fazer a minha parte: que as pessoas se mobilizem por uma coisa incrível que é a música brasileira.

O que está sendo feito para trabalhar a narrativa sobre “união”, mote proposto para o Global Village?

O mundo está passando por momentos incríveis da história. A guerra na Rússia, os problemas na Palestina… Convidei uma banda israelense e uma palestina para tocarem juntas. A gente é uma coisa só, quero trazer essa mensagem. Quero que esse gesto seja lembrado, não só música-tema criada pelo Zé Ricardo, que estamos trabalhando para gerar dinheiro próprio. Nós do Rock in Rio vamos doar um milhão de pratos de comida. Quando fizemos The Town, a gente pegou a favela do Haiti e reconfiguramos. Ficou linda e tem até horta. Buscamos ensino profissionalizante e entregamos. Edu Lyra (da ONG Gerando Falcões) falou uma coisa que me ajudou a pensar: 80% das favelas no Brasil têm menos de 500 famílias. Ou seja, a questão das favelas no Brasil pode ser resolvida. O The Town fez uma favela para 350 famílias em São Paulo. Imagina se isso fosse uma política aplicada em escala? Isso não será resolvido com radicalismo, mas juntos, encontrando soluções que o mercado pode dar.

Quarenta anos depois, qual sentimento fica do primeiro Rock In Rio?

De agradecimento a quem acreditou no meu sonho. Quero homenagear essas pessoas. Muita gente não acreditava, e a gente fez uma revolução de marketing e entretenimento. Olhando para hoje pode ser óbvio. Mas não era. A vida da minha família na ditadura… enfim, a gente podia cantar de novo. Foi um movimento de uma pessoa na rua com sua bandeira. Era inspirador para um jovem e ao mesmo tempo uma grande aventura. A Barra era longe, a iluminação era ruim, pais e mães tinham que ter uma confiança muito grande.

E você tinha pouca experiência no mundo da música…

Tinha feito apenas o show do (Frank) Sinatra (em 1980), que ficou conhecido como o maior do mundo. Ainda não entendia que seria uma reunião de tribos: o rock, o pop… Fui buscar isso. Apesar da lenda urbana que era só pop, fui buscar o axé, o metal… Antes, tinha só festival de rock. E pensei que tinha que ter um dia de cada estilo. Isso foi uma inovação que fiz de maneira intuitiva e que tinha tudo a ver. Já tinha a ideia de mostrar a cara do Brasil para o mundo.

Motivo pelo qual o país é conhecido mundo afora. Porque não é pela soja, né?

Acho que a única solução para o Rio de Janeiro é trabalhar a cultura e a natureza do país como instrumento social e de turismo. Estranhamente isso é pouco trabalhado. Olhar separadamente a questão da segurança é falta de bom senso. Não pode ser um projeto elitista para a cidade, tem que ser consequência.

Faltava o sertanejo e a bossa nova no RIR e agora não falta mais…

Peguei Luan Santana, Ana Castela, Chitãozinho e Xororó. Chamei o (Roberto) Menescal para uma homenagem à bossa nova, que foi a cara do Brasil e está esquecida. Não há um espaço dedicado ao gênero. Quando se faz um trabalho democrático, tem que ser democrático de verdade. A gente foi avançando no funk, no trap e estava faltando essa parte. Há toda uma geração cantando música sertaneja, ganhou uma dimensão enorme. Dei aquele passo de chamar o Luan Santana para assistir ao The Town e gostei muito dele. Acho que é o início de uma caminhada, para desespero dos meus amigos roqueiros (risos).

Eles implicam muito?

Ficam loucos comigo, querem me matar (risos). Quando anuncio o pop, é a mesma coisa. Eles são barulhentos, fazem confusão e grita pelas redes, mas faz parte. Quando fiz o primeiro dia do metal e olhei as pessoas de preto com aqueles cruzes… Mas sabe que é o público mais tranquilo e o que mais consome? São do bem total. Não tem confusão no dia do metal, é muito mais uma questão da vestimenta…

Como anda o musical sobre o Rock in Rio?

Está espetacular. Estou animado porque mistura minha história e a do Rock in Rio. O Charles (Moëller, diretor) descobriu minha relação com Dom Quixote. Tenho ele por todo lado. Uns dez quadros, inclusive um que o Freddie Mercury pediu para o Salvador Dalí pintar e me deu de presente um dia antes de se apresentar no Rock in Rio. No musical, tem o Dom Quixote dialogando comigo.

O que, pessoalmente, você está mais curioso para assistir nesta edição?

Estou animado porque vai ser bem eclético. A Cidade do Rock vai estar maior, o Palco Sunset vai ter o mesmo tamanho do que o Mundo. Falaram: “Ah, você colocou a Mariah Carey no Sunset”. Mas é isso, os palcos estão iguais. Agora é passar o batom, maquiar a menina. Ajudei o Zé Ricardo com algumas coisas que achei pesquisando o perfil do Drake, que não vou contratar nunca! Não quero! Esse cara não merece estar no Brasil, não é educado (na edição de 2019, Drake deu muito trabalho ao festival, começando pela não autorização da transmissão de seu show). Mas pesquisando, encontrei Travis Scott. Acho que é o que vai vender mais rápido e eu não tinha ideia do tamanho dele. Mariah vai explodir, tem uma longa carreira. Gosto da Katy Perry, acho bonito o show, vou assistir. E tem a música brasileira com grandes nomes, pegando todas as idades, muito sentimento colocado ali.

Que outras novidades está guardando a sete chaves, mas vai nos contar agora?

Quero fazer fogos diurnos com aviões em cima soltando fumaça colorida, além do videomapping que contará a história do Rock in Rio. As pessoas olham as coisas macro, mas foi no detalhe, na paixão que ele ganhou a dimensão que tem. O dinheiro só faz a máquina girar. O mundo está perdendo a paixão pelo produto.

Conta uma história boa do passado do Rock in Rio?

Há histórias que nem lembrava, como a que vi no filme “A maldita”, sobre a rádio Fluminense. Quando contei a ideia do Rock in Rio na minha própria agência (de publicidade), me olhavam como se fosse um ET. Não conhecia rock direito, e a referência era a rádio Fluminense. Fui lá conversar com o Luiz Antônio (Mello, chefe da rádio). Disse a ele que faria o maior projeto de rock do Brasil. Ele acreditou. Me deu os nomes das bandas para eu contratar. Pediu para ser a rádio oficial, mas não dava. Era boa porque era pirata. Eu disse: “Não posso deixar você transmitir oficialmente, mas ponho um orelhão, seguranças em volta e você transmite”. E assim foi. Com ele colocando 200 fichas por dia no orelhão. Ele ainda tem as fitas. Sabia que o George Benson e a mulher chegaram de moto no Rock in Rio por causa do trânsito? E foi por acaso. Tem um improviso que a gente não conta, mas faz parte da nossa musculatura. Muito mais que os gringos, porque nasce da dificuldade. Olhando para trás, foi uma luta dura, mas valeu super a pena.

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