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Escolhidos por vereador Milton Leite para substituí-lo na Câmara já fazem campanha em reduto do clã

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma raposa da política paulista conta que, na zona sul de São Paulo, há divisões de poder como no futebol brasileiro. A Série A é composta pelas famílias Leite e Tatto. A Série B, pelos clãs Caruso e Goulart –e por Ricardo Nunes.

Descontando o fato óbvio de que, após três anos como prefeito, Nunes deixou as divisões inferiores para se juntar à elite político-eleitoral da região, a dinastia Leite ganhou muita força na última década. Sobretudo graças à crescente influência política do patriarca, o vereador Milton Leite (União), presidente da Câmara Municipal de São Paulo pela sexta vez.

Leite, que no governo de João Doria (sem partido) expandira seus tentáculos pela esfera estadual, perdeu parte do poder com a chegada de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Gilberto Kassab (secretário de Governo estadual) ao comando do estado –mas segue soberano na Câmara, fortíssimo na prefeitura e aumentou sua ascendência no diretório estadual de seu partido.

A dinastia é composta ainda por dois dos seus cinco filhos, o deputado federal Alexandre Leite e o deputado estadual Milton Leite Filho, ambos também do União. Dez anos mais velho (45 a 35), Miltinho é o xodó do pai e está no quinto mandato seguido como deputado estadual.

Alexandre, tido como mais hábil que o irmão, cumpre o quarto mandato como deputado federal. Ficou mais conhecido por ter sido relator de um projeto que facilitava o acesso a armas (é atirador e armamentista ardoroso) e por ter matado a tiros um assaltante em dezembro passado. Em 2005, outro filho de Milton Leite, Felipe, foi preso por porte ilegal de arma.

Se confirmada a promessa de Milton Leite de que, pela primeira vez desde os anos 1990, não concorrerá em outubro a um novo mandato de vereador, a grande família Leite poderá ganhar em breve dois novos integrantes –nenhum deles é seu filho.

Silvio Antonio Azevedo, o Silvão, é chefe de gabinete de Leite na Câmara Municipal e presidente da escola de samba Estrela do Terceiro Milênio, do Grajaú (zona sul), da qual o patrão é presidente de honra.

Silvio Ricardo Pereira dos Santos, o Silvinho, é chefe de gabinete da Subprefeitura de M’Boi Mirim, região onde o patriarca dos Leite nasceu, cresceu e fincou sua base política. Os dois foram escolhidos pelo presidente da Câmara como seus candidatos a vereador em outubro.

Milton Leite controla hoje as subprefeituras de M’boi Mirim, Parelheiros (ambas na zona sul), Guaianazes (zona leste) e Jaçanã (zona norte). A primeira é a área de atuação de Silvinho. As demais têm supervisão de Silvão.

Técnico em contabilidade e bacharel em direito formado pela Unisa, Silvinho conta que desde o tempo da faculdade alimenta a ideia de se candidatar a um cargo parlamentar.

“A família Leite sendo a potência que é hoje, com toda representatividade dentro das comunidades, acredito que possa ser um apoio favorável, caso eu venha me candidatar”, afirmou.

Procurado em seu gabinete na Câmara e em uma loja de borrachas e metais da qual é sócio, Silvão não deu retorno. Apesar de ser Azevedo, ele tem adotado o sobrenome Leite para se apresentar –Silvinho diz que não pretende fazer o mesmo.

Seis meses antes da eleição de outubro –e quatro meses antes da data oficial permitida para propaganda eleitoral (16 de agosto)–, ambos estão em campanha a todo o vapor. Participam de inaugurações, discursam, supervisionam obras e colam cada vez mais suas imagens à da família Leite.

A reportagem esteve na região do M’Boi Mirim no dia 17 de abril. Num raio de cerca de 3 km do Jardim São Luís, havia 26 faixas de agradecimento a Milton, à família Leite, a Silvinho e ao prefeito, a maioria com fotos dos políticos.

Na esquina entre as ruas Geraldo Fraga de Oliveira e Adalto Batista de Lima, há um escritório para esclarecimentos sobre as realizações da Subprefeitura de M’Boi Mirim, onde eram distribuídos panfletos listando obras na região. Nome e fotos de Silvinho estão estampados nos folders. Indagado mais tarde sobre quem banca o escritório e o material de divulgação, ele não respondeu.

Perto dali, numa área de lazer no Conjunto Promorar contígua a uma quadra poliesportiva, as paredes do complexo público administrado por uma associação comunitária ostentam a logomarca Família Leite –onipresente em toda a região, em faixas e camisetas vestidas por aliados.

Voluntária na administração do local, Joseane Bandeira da Cunha conta que o espaço estava abandonado, e que a reforma foi possível graças a emendas da família Leite. Acrescenta que Silvinho libera verbas para transporte de doações e está sempre presente nas festas.

Alguns quilômetros adiante, no Jardim Felicidade, uma campo de futebol reformado tem uma pintura que retrata Milton Leite e Silvinho, e faixas agradecem a todos do grupo e ao prefeito Nunes.

No Grajaú, havia, em menor número, faixas celebrando “Silvão Leite”, com foto dele abraçado a Milton.

Especialistas em direito eleitoral (Fernando Neisser, professor da FGV) e administrativo (Odete Medauar, professora titular aposentada da USP) afirmam que o uso da logomarca da família pode ferir o princípio constitucional da impessoalidade e que as faixas com a logomarca da Prefeitura de São Paulo associada a políticos pode configuraria uso indevido de um símbolo público.

Já a campanha antecipada dos aliados de Milton Leite não fere a lei eleitoral –por ora só é proibido pedir votos expressamente.

Leite disse que não é o responsável. “Não tenho conhecimento sobre as faixas nem controle sobre quem as coloca. Não posso ser responsabilizado por faixas que a população coloca em agradecimento às muitas obras e projetos que apoiamos na zona sul e por toda a cidade”.

Sobre a presença disseminada da logomarca Família Leite pela região, reiterou: “Não tenho conhecimento nem responsabilidade sobre”.

Milton Leite Filho deu resposta semelhante: “Desconheço a existência de faixas e logomarcas, bem como os responsáveis por elas”. Procurado por meio de sua assessoria, Alexandre Leite não respondeu.

Tanto Silvão quanto Silvão integram o diretório estadual do União Brasil, repleto de aliados de Milton Leite –ele próprio é o tesoureiro e Alexandre Leite, primeiro vice-presidente. Miltinho e Felipe também são membros, assim como assessores e ex-assessores da família.

Nos últimos anos, o poder do clã liderado por Milton se alastrou pela cidade, por áreas distantes do reduto original como Guaianazes (zona leste) e Jaçanã (zona norte). Mas a sua hegemonia sempre foi (e continua a ser) mais explícita em M’Boi Mirim.

“Na eleição de 2012, enquanto eu tive uns 60 mil votos somando Capela [do Socorro] e Grajaú, em M’Boi só tive uns 500, pela força do Milton ali”, relata o ex-vereador e ex-deputado federal Antônio Goulart, cujo filho Rodrigo é atualmente vereador pelo PSD. “Aí depois ele também cresceu em Parelheiros, Grajaú…”

Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a 372ª Zona Eleitoral de São Paulo, em Piraporinha, região de M’Boi Mirim onde Milton Leite nasceu e cresceu, é a maior da capital, com 282,8 mil eleitores.

Os números e a influência sobre a administração da maior cidade do país ajudam a explicar por que Milton Leite sempre preferiu se manter como vereador, em vez de tentar se lançar como deputado, por exemplo.

“Ele tem uma visão política gigante. Não diria que um vereador de São Paulo é menos importante que um deputado federal. [Um vereador de São Paulo] tem uma importância enorme, que deputados federais podem ter dez mandatos e não alcançarão”, sintetiza Goulart.

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