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Odair José: ‘Eu achava que, aos 70 anos, ia ver os seres humanos todos zen… mas eles andaram para trás!’

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Nos anos 1970, poucos artistas da música popular brasileira deram tanto o que falar quando o goiano Odair José. Identificado (à sua revelia) com a música cafona, ele chegou a ser apelidado de Terror das Empregadas por causa da canção “Deixa essa vergonha de lado” (dos versos “por você ser uma simples empregada/ não vai modificar o meu amor”).

Chamado ainda de Bob Dylan da Central do Brasil, ele tratou em suas canções, de forma humana, sempre despida de hipocrisia, de assuntos espinhosos como a prostituição (“Eu vou tirar você desse lugar”), a imposição do controle da natalidade (“Uma vida só (pare de tomar a pílula)”) e a religião (“Cristo, quem é você?”).

Agora, aos 75 anos, Odair José volta a lançar um álbum de inéditas com esse tema que lhe é muito caro — a Humanidade —, mas indicando muito objetivamente, já no título do disco, “Seres humanos e a inteligência artificial”, o uso de uma ferramenta digital que pode parecer até incoerente com o tema central.

— O ser humano é aquilo que ele esconde. Ele é aquilo que ele fala e aquilo que ele esconde. Ele é aquilo que ele ama e aquilo que ele odeia. E a proposta do disco é a de tocar o ser humano para ele ter mais coragem de fazer as coisas abertamente — explica o cantor, em entrevista ao GLOBO por telefone.

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Dessa maneira, o novo álbum se mostra como a renovação sempre fora do comum de um artista que continua a inspirar outros criadores. Tanto que em setembro, por exemplo, será lançado, como parte da coleção Sound + Vision, da Editora Barbante, “O evangelho segundo Odair”, livro do jornalista Leonardo Vinhas sobre “O filho de José e Maria” (1977), LP que virou do avesso a vida do cantor. E, ano que vem, a diretora Dandara Ferreira (de “Meu nome é Gal”) lança um documentário sobre o cantor e compositor.

“Seres humanos e a inteligência artificial” é um álbum cujas músicas ele começou a compor antes da pandemia, mas que realizou de fato ao longo dos dois anos que passou isolado, em casa. Todo o trabalho foi feito por Odair, pelo multi-instrumentista Junior Freitas e pela IA, que, assegura o artista, só não participou da composição.

— Ela tocou bateria, tocou percussão, criou vozes… na faixa “Seres humanos”, eu poderia até ter usado a minha voz, ou a do meu amigo Zeca Baleiro, que é grossa, mas resolvi usar a da inteligência artificial, para ficar algo diferente. E em “O submisso”, ela tocou baixo e piano e ainda programou a bateria eletrônica — conta. — As pessoas já estão usando inteligência artificial, eu apenas estou assumindo que usei. E poderia ter usado melhor se eu não tivesse estourado o meu prazo de lançamento do disco.

Mais uma vez, em um disco, Odair José investe contra tabus e preconceitos. Na faixa “Seres humanos”, por exemplo, ele fala de Adão, de Eva e do fruto proibido, e propõe “uma repaginada na desgastada relação” dos casais.

— De repente, a relação acaba ou então fica aquela coisa falsa a vida inteira, aquela coisa emperrada. O que estou sugerido para as pessoas de uma forma aberta é que talvez uma escapada, seja para a mulher ou para o homem, possa ser bom para a relação. Mas só para fazer sexo, não para se envolver emocionalmente — sugere ele, que, no entanto, ainda não aplicou o conselho em sua própria vida. — Estou casado há 40 anos com uma mulher maravilhosa. Se tenho vontade de fazer uma coisa, eu vou fazer com a minha mulher. Se ela vai topar é outra coisa, mas eu proponho.

Nas músicas de “Seres humanos e a inteligência artificial”, Odair expõe ainda suas ideias sobre o embate entre sentimentos (“o ser humano não saber separar amor de paixão e de desejo, é tudo uma grande confusão”), sobre o sono (“que é como se você não existisse, acho que a morte é a mesma coisa: você morreu, você deixa de existir”) e até sobre a bipolaridade, que (sem deixar de incorrer em alguma polêmica) ele considera “uma coisa positiva”:

— Às vezes, você tem uma pessoa presa dentro de você e você não solta ela. Todo mundo tem outras personalidades, outras vontades dentro de si. Mas você pode dizer: “Ah, a bipolaridade é um problema de saúde”… Isso eu não sei, apenas usei a coisa poeticamente. Então, poeticamente, para mim, o bipolar é positivo.

Odair José diz que, hoje, se você pedir para a inteligência artificial fazer uma música igual à de Tom Jobim, “ela não faz, porque ainda não chegou lá.”

— Mas se você pedir para ela fazer uma música, essas coisas mais simples, que estão fazendo sucesso, aí ela faz um monte, sim. Então quer dizer: ela talvez possa fazer um disco de Odair José — arrisca ele, um tanto assustado com o que vê em 2024. — Quando era jovem, eu tinha uma paranoia de que ia morrer antes dos 40, até pelo tipo de vida que eu levava. Eu achava que, caso chegasse aos 70, ia ver os seres humanos todos zen, as pessoas todas muito sábias, sem polarização nenhuma, as pessoas numa boa… e não vi isso. Na sua maioria, a Humanidade parece que estagnou ou andou para trás.

Excomunhão

Odair acredita, inclusive, que se lançasse hoje um disco como “O filho de José e Maria”, seria excomungado, como dizia a lenda que correu em 1977 (“hoje as coisas ficaram muito mais pesadas a nível de religião”, alerta).

— Esse disco foi importante de todas as maneiras na minha vida, seja para me derrubar ou me levantar. Não existiria o Odair José sem esse disco — afirma ele, que viu o álbum ser reabilitado pelo público jovem, décadas depois. — Eu tinha fechado um círculo com esse negócio de pílula, prostituição e empregada, coisas que ninguém falava, que foram muito boas e deram muito certo, e fui compor “O filho de José e Maria”. Ele me criou muitos problemas. Depois, não dava para fazer um trabalho pensado porque os produtores diziam: “Não deixe o Odair pensar, não, que ele vai pensar merda.”.

Segundo Leonardo Vinhas, mais do que contar a história de “O filho de José e Maria”, seu livro “O Evangelho segundo Odair” avalia o peso que o disco de 1977 teve na carreira do cantor, para o bem e para o mal:

— Também cuidei de investigar alguns mitos associados ao disco, como a suposta excomunhão do Odair. Um bispo do Mato Grosso o ameaçou, mas ficou nisso — esclarece o jornalista.

Hoje parceiro de artistas como Arnaldo Antunes (com quem fez canções para a trilha do filme “Meu álbum de amores”, de 2021, cantadas pelo ator Gabriel Leone), Odair José tem gravado entrevistas para o documentário de Dandara Ferreira.

— Sempre tive um pé atrás com esse negócio de documentário e de livro. Toda vez que me procuravam para falar disso eu inventava uma história e fugia. Aí, de repente, topei fazer negócio com a Dandara e estou na torcida para que saia uma coisa boa — diz.

Segundo a diretora, o filme, previsto para o ano que vem, vai se chamar (mesmo com um certo desagrado de Odair) “Vou tirar você desse lugar”:

— Sei que ele não gosta desse título, mas a ideia é justamente tirar Odair desse lugar do brega e mostrar um ator político de resistência à ditadura, com todo apelo popular.

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