Argentina

Dinheiro em campo: River Plate dribla regras da AFA para captar milhões

REPRODUÇÃO INSTAGRAM River Plate - Foto: Reprodução Instagram

O River Plate aposta em um novo modelo para conseguir investimentos sem alterar seu status institucional. A criação do “Club River Plate Financial Trust” é um marco na história do futebol argentino, permitindo ao clube captar recursos no mercado financeiro enquanto contorna a proibição da Associação de Futebol da Argentina (AFA) contra a transformação dos clubes em Sociedades Anônimas Desportivas (SADs).

Um novo capítulo para o futebol argentino

A criação do “Club River Plate Financial Trust” coloca o River Plate em um seleto grupo de clubes argentinos a buscar financiamento alternativo para impulsionar suas atividades. Agora, qualquer pessoa ou empresa que disponha de 12 mil pesos argentinos (aproximadamente R$ 67,4) pode adquirir cotas desse fundo e tornar-se investidor do clube. A movimentação foi uma resposta criativa à proibição imposta pela AFA em relação ao modelo de SADs, que tem sido alvo de controvérsias no país.

A AFA defende que o modelo de SADs fere a identidade dos clubes, transformando-os em empresas e perdendo o caráter associativo que é tradicional no futebol argentino. No entanto, o River Plate encontrou uma maneira de obter investimentos de longo prazo, sem abrir mão de sua estrutura tradicional. A proposta é usar o dinheiro arrecadado para modernizar suas instalações, incluindo a reforma do Monumental de Núñez e outras obras voltadas para a infraestrutura do clube.

Como funciona o investimento no River Plate?

O novo fundo de investimento permite que qualquer cidadão, investidor ou empresa compre cotas por meio da Bolsa de Valores da Argentina. Essas cotas representam uma antecipação de créditos do clube e oferecem aos investidores a chance de obter um retorno financeiro em um período de 30 meses. Durante esse tempo, o River Plate promete pagar a inflação ajustada mais um acréscimo de 9% ao ano.

Esse modelo, embora não transforme o River em uma SAD, se assemelha ao uso de debêntures no Brasil, uma forma de financiamento bastante comum que permite captar recursos por meio de títulos de posse. É uma forma de captação que atrai investidores que buscam retornos estáveis e, ao mesmo tempo, fornece ao clube uma maneira de levantar recursos sem recorrer a empréstimos bancários tradicionais.

O impacto das reformas no Monumental e na infraestrutura do clube

Os planos do River Plate vão além do Monumental de Núñez, que já passou por uma significativa reforma entre 2022 e 2023, aumentando sua capacidade para 83.196 lugares e tornando-o o maior estádio da América do Sul. Agora, a ideia é continuar as reformas, incluindo melhorias no estádio e a construção de novas instalações para as categorias de base.

Além disso, o River quer investir em um novo ginásio poliesportivo para fomentar modalidades como futsal, handebol, hóquei e vôlei. O Instituto River, a universidade do clube, também será expandido e ganhará uma sede própria dentro das dependências do Monumental, um marco para o clube que se orgulha de formar atletas e profissionais dentro e fora do campo.

O River Plate e o contexto político do futebol argentino

A estratégia do River ocorre em meio a um contexto de mudanças no futebol argentino. O presidente Javier Milei tem pressionado pela adoção das SADs, alegando que o investimento privado é essencial para a modernização e a sustentabilidade dos clubes no longo prazo. A AFA, no entanto, mantém uma posição firme contra a mudança, o que gera um impasse político que pode definir o futuro do futebol no país.

A legislação atual impede que clubes se transformem em SADs, e qualquer clube que adotar esse modelo é desfilado da federação. Contudo, Milei argumenta que essa restrição é um entrave ao desenvolvimento e à profissionalização do esporte. O River, ao buscar uma solução alternativa, destaca-se como um exemplo de inovação sem necessariamente romper com a estrutura atual.

O que isso significa para o futuro do River Plate?

O River Plate não apenas contorna a proibição, mas também abre um novo caminho para outros clubes argentinos. Ao invés de recorrer ao modelo de SADs, o clube adota uma abordagem que combina o financiamento externo com a preservação de sua identidade associativa. O sucesso dessa iniciativa pode motivar outras equipes a adotarem soluções semelhantes, especialmente em um cenário onde o financiamento é um desafio constante.

Embora os recursos captados sejam direcionados para infraestrutura, o River garante que o investimento não afetará o time principal. A prioridade é a manutenção e expansão do patrimônio físico do clube, criando uma base sólida para futuras gerações de jogadores e torcedores. Assim, mesmo em meio a mudanças políticas e econômicas, o River se posiciona como um clube preparado para o futuro.

Alternativa ao modelo de SADs: exemplo para o Estudiantes e outros clubes

O River não está sozinho nessa busca por inovação. O Estudiantes de La Plata também estuda formas de captar recursos sem alterar sua estrutura institucional. O clube tem negociado com o empresário americano Foster Gillett, que poderia aportar até 120 milhões de dólares na equipe. A ideia é semelhante à do River: manter a estrutura associativa e permitir a entrada de capital externo por meio de parcerias e fundos de investimento.

Essa abordagem, embora ainda seja rara no futebol sul-americano, pode representar um novo paradigma para clubes que desejam modernizar suas instalações e manter a competitividade sem abrir mão de suas tradições. A solução do River, assim como a negociação do Estudiantes, pode abrir precedentes importantes para a modernização do futebol argentino.

Os números impressionantes do River Plate

O River Plate já é conhecido por suas sólidas finanças, com um total de 350 mil sócios e um superávit de 6 milhões de dólares no último ano. A venda de jogadores como Enzo Fernández e Julián Álvarez, ambos campeões mundiais com a Argentina, trouxe receitas substanciais ao clube. Só na venda de Fernández, o River arrecadou cerca de 273 milhões de reais, um valor significativo que mostra a força do clube no mercado internacional.

Porém, ao invés de focar em contratações, o clube decidiu usar esses recursos para investir em sua infraestrutura e desenvolvimento de longo prazo. Com isso, espera-se que o River não apenas mantenha seu status no futebol argentino, mas se torne um modelo para outros clubes que buscam estabilidade financeira.

O futuro do River: um gigante preparado para novos desafios

Com essas estratégias, o River Plate está pavimentando seu caminho para o futuro, investindo em áreas que garantem sustentabilidade e crescimento contínuo. O clube, que já é um dos mais tradicionais e bem-sucedidos da América do Sul, demonstra que inovação e tradição podem caminhar juntas, mesmo em um ambiente político e econômico adverso.

Ao contornar as regras da AFA sem abrir mão de sua estrutura associativa, o River Plate oferece uma alternativa para clubes que querem captar recursos sem se tornarem empresas. Se essa estratégia se mostrar bem-sucedida, pode representar uma virada de jogo para todo o futebol argentino.

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