Castor Gonçalves de Andrade e Silva foi uma das figuras mais emblemáticas da contravenção no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro. Nascido em 1926 e falecido em 1997, ele foi mais que um simples “bicheiro” – termo usado para designar os responsáveis pela operação do jogo do bicho. Castor era uma personalidade poderosa e influente, com conexões que atravessavam o submundo do crime, o futebol e o carnaval, estabelecendo-se como um verdadeiro “padrinho” da contravenção carioca.
A herança do jogo do bicho e a ascensão ao poder
Descendente de uma família já inserida no universo do jogo do bicho, Castor herdou o império do pai, Euzébio de Andrade, também envolvido na contravenção. Ele expandiu os negócios da família e, nos anos 1970 e 1980, consolidou-se como uma das principais lideranças da atividade ilegal no Rio de Janeiro. Durante esse período, o jogo do bicho tornou-se uma operação altamente lucrativa e, ao mesmo tempo, conquistou status de atividade tolerada e até “romântica” na visão de muitos, pois não envolvia diretamente o tráfico de drogas.
Castor era conhecido por sua personalidade carismática e, ao mesmo tempo, intimidante. Ele usava sua influência para garantir uma estrutura de proteção e financiamento a políticos e autoridades, criando uma rede de apoio que lhe permitiu continuar com suas atividades, mesmo diante de tentativas de repressão. Além disso, ele buscava distinguir-se de outros contraventores, rejeitando práticas como o tráfico de drogas e limitando o envolvimento de menores nas atividades relacionadas ao jogo.
Castor de Andrade no futebol: patrono do Bangu Atlético Clube
Além do jogo do bicho, Castor tinha uma grande paixão pelo futebol, sendo o principal patrono do Bangu Atlético Clube. Sob sua liderança, o clube ganhou projeção e passou a rivalizar com grandes times cariocas. Na década de 1960, o Bangu viveu momentos gloriosos, conquistando o título de campeão carioca em 1966, com uma histórica vitória sobre o Flamengo. Já nos anos 1980, impulsionado pelos investimentos de Castor, o Bangu conseguiu alcançar o vice-campeonato no Campeonato Brasileiro, marcando um dos períodos mais bem-sucedidos da história do clube.
Castor não media esforços para garantir o sucesso de seu clube de coração. Ele ficou famoso por episódios em que “convencia” árbitros e adversários a seu favor. Em 1983, durante uma partida no Maracanã, invadiu o campo armado para confrontar o árbitro após uma decisão desfavorável ao Bangu. Esse tipo de episódio ajudou a consolidar a fama de Castor como uma figura inflexível e destemida, capaz de fazer qualquer coisa para defender os interesses do time que amava.
O envolvimento com o carnaval carioca e a Mocidade Independente
Outra grande paixão de Castor de Andrade era o carnaval. Como patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, ele ajudou a transformar a escola de samba em uma das mais respeitadas do Rio de Janeiro. Seu apoio financeiro foi decisivo para que a Mocidade conquistasse títulos e se consolidasse como uma das principais agremiações carnavalescas da cidade. Sob o patrocínio de Castor, a escola venceu os carnavais de 1979, 1985, 1990 e 1996, mostrando um crescimento notável tanto em qualidade quanto em prestígio.
Além de apoiar a Mocidade, Castor também foi um dos fundadores da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA), uma organização criada para administrar e fortalecer o carnaval carioca. A LIESA foi responsável por mudanças significativas na estrutura do carnaval e proporcionou maior visibilidade e organização ao evento. Através desse envolvimento, Castor ampliou ainda mais sua influência na sociedade carioca e demonstrou seu compromisso em manter o carnaval como uma das principais manifestações culturais do Rio.
Prisão, conflitos e o legado de Castor
Na década de 1990, o controle de Castor sobre o jogo do bicho e sua rede de influência sobre autoridades passaram a ser contestados. Em 1994, ele foi preso sob acusações de lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa, resultando em uma breve estadia na prisão. Durante esse período, ele ainda conseguiu manter certo nível de conforto na cadeia, reformando sua cela e garantindo regalias que desafiavam as limitações impostas pelo sistema prisional. Apesar da prisão, sua influência permaneceu forte e, logo após a detenção, Castor passou a cumprir pena em regime domiciliar, devido a problemas cardíacos.
A morte de Castor em 1997 marcou o fim de uma era no Rio de Janeiro. Ele sofreu um ataque cardíaco fulminante enquanto jogava cartas na casa de um amigo, encerrando uma vida marcada por polêmicas, poder e excessos. Após sua morte, a família Andrade enfrentou disputas pelo controle das operações do jogo do bicho, com brigas entre herdeiros e rivais que, em alguns casos, resultaram em episódios de violência.
Impacto social e cultural de Castor de Andrade
Castor deixou um legado controverso. Para alguns, ele foi um herói que ajudou a promover o carnaval e a fortalecer o Bangu Atlético Clube, contribuindo para o desenvolvimento cultural do Rio de Janeiro. Sua figura é lembrada como a de um “bicheiro romântico”, que se opunha a práticas violentas e se limitava ao jogo do bicho, atividade considerada relativamente inofensiva em comparação com o tráfico de drogas.
Para outros, Castor foi um símbolo do poder corruptor do dinheiro e da impunidade, usando sua riqueza e influência para escapar da justiça e controlar a sociedade carioca a seu favor. Seu envolvimento com políticos, juízes e policiais corrompidos evidenciou o grau de penetração do jogo do bicho nas estruturas de poder do Brasil, levantando questionamentos sobre a fragilidade das instituições democráticas.
O legado de Castor na atualidade
Hoje, Castor de Andrade continua sendo uma figura mítica no imaginário popular brasileiro. Sua vida foi tema de documentários e livros, e sua história desperta fascínio tanto pelo estilo de vida excêntrico quanto pelo papel que desempenhou na cultura carioca. O carnaval, o futebol e o jogo do bicho permaneceram como aspectos centrais de sua vida, e seu nome ainda é mencionado em discussões sobre o impacto dos bicheiros na sociedade brasileira.
A trajetória de Castor de Andrade é um reflexo de uma era em que a contravenção era vista por muitos como uma prática tolerável e até necessária para a economia local. Em uma cidade que luta constantemente contra a violência urbana e o tráfico de drogas, a figura de Castor é vista por alguns como uma lembrança de um tempo em que os “crimes” eram, de certa forma, mais controláveis e até romantizados.

