Nesta terça-feira, 29 de outubro de 2024, o notório contraventor Rogério de Andrade foi preso em uma operação policial no Rio de Janeiro. Andrade, amplamente conhecido por seu envolvimento no jogo do bicho, é acusado de ser o mandante do assassinato de Fernando Iggnácio, seu rival no submundo da contravenção, ocorrido em 2020. A prisão de Andrade marca mais um capítulo na longa trajetória de disputas violentas entre figuras-chave do crime organizado no Rio.
O crime e o conflito com Fernando Iggnácio
O assassinato de Fernando Iggnácio, que ocorreu em novembro de 2020, foi resultado de uma emboscada cuidadosamente planejada na zona oeste do Rio de Janeiro. Iggnácio, que também tinha uma forte influência sobre o jogo do bicho, foi morto a tiros em um heliponto no Recreio dos Bandeirantes, enquanto esperava sua esposa. A morte chocou a cidade, dado o perfil público de ambos os envolvidos e a natureza brutal do crime.
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) vem investigando o caso desde então, e novas provas foram reveladas nos últimos anos, indicando o envolvimento direto de Rogério de Andrade. Entre os documentos coletados, evidências mostram a relação entre Andrade e Gilmar Eneas Lisboa, que teria monitorado Iggnácio momentos antes do crime. Esta prisão ocorre no contexto dessas descobertas e após uma longa série de operações policiais para desmantelar a rede criminosa de Andrade.
O legado de Rogério de Andrade no jogo do bicho
Rogério de Andrade é sobrinho de Castor de Andrade, uma das figuras mais icônicas da contravenção no Rio de Janeiro nas décadas de 1980 e 1990. Castor de Andrade, que ficou conhecido por ser um dos pioneiros do jogo do bicho, estabeleceu uma verdadeira dinastia no submundo carioca. Quando Castor faleceu em 1997, Rogério assumiu o controle dos negócios ilegais, mas não sem enfrentar conflitos internos.
Após a morte de Castor, o poder da família foi dividido entre Rogério, o filho de Castor, Paulo Roberto de Andrade, e o ex-cunhado Fernando Iggnácio. Porém, a luta pelo controle dos territórios levou à morte de Paulo Roberto em 1998 e, posteriormente, de Iggnácio em 2020, ambos supostamente por ordens de Rogério. A rivalidade interna intensificou as disputas violentas, colocando Rogério no centro das atenções das autoridades e da mídia.
A operação policial e os próximos passos
A prisão de Rogério de Andrade foi conduzida pela Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do MPRJ. Ele foi detido em sua casa na Barra da Tijuca e levado para a Cidade da Polícia, no Jacarezinho, onde foi interrogado pelas autoridades. Além dele, outras figuras importantes do crime organizado também são alvos de investigação, como Gilmar Eneas Lisboa, e vários policiais militares que atuavam como seguranças particulares de Rogério de Andrade.
A operação que culminou na prisão de Rogério faz parte de uma série de ações policiais que têm como objetivo desmantelar a rede de apoio e proteção de contraventores no Rio de Janeiro. Recentemente, a polícia havia preso 17 policiais militares que atuavam na segurança de Rogério, sob a acusação de receberem propinas e facilitarem suas atividades criminosas.
Os investigadores seguem apurando novas provas que ligam Rogério de Andrade não apenas ao assassinato de Iggnácio, mas também a outros crimes associados à disputa pelo controle do jogo do bicho no estado. A polícia também investiga a possível retomada do pagamento de propinas a delegacias especializadas da Polícia Civil, o que teria sido articulado por membros da organização de Andrade.
O impacto da prisão de Rogério de Andrade no cenário criminal
A prisão de Rogério de Andrade representa um golpe significativo no jogo do bicho e no esquema de contravenção que ele liderava. Com uma rede de segurança que incluía policiais corruptos e ex-policiais, Andrade conseguiu por anos manter sua influência no Rio de Janeiro. Porém, a recente operação mostra a intenção das autoridades de desmantelar o poderio da família Andrade e outros grupos envolvidos na contravenção.
Além disso, a detenção de Rogério também tem repercussões para a escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, da qual ele era padrinho. O presidente da agremiação, Flávio da Silva Santos, conhecido como “Flávio da Mocidade”, também foi alvo de operações policiais recentes e teve sua residência vasculhada por agentes em busca de provas relacionadas ao assassinato de Fábio Romualdo Mendes, morto em 2021.
Um histórico de impunidade
Apesar de sua longa trajetória criminosa, Rogério de Andrade já foi alvo de diversas operações policiais ao longo dos anos, muitas das quais resultaram em sua absolvição por falta de provas. Em 2021 e 2022, ele foi investigado por outros crimes, mas conseguiu se livrar das acusações. Entretanto, as autoridades acreditam que, desta vez, com as novas provas coletadas, haverá maior dificuldade para Andrade escapar da justiça.
A história de impunidade e poder de Rogério é emblemática das dificuldades enfrentadas pelas autoridades brasileiras no combate ao crime organizado. Ele não apenas consolidou seu império no submundo carioca, mas também soube navegar pelas brechas do sistema jurídico para evitar condenações anteriores.
O que vem a seguir?
Agora, com sua prisão efetivada, Rogério de Andrade será julgado pelo assassinato de Fernando Iggnácio e por sua participação em outras atividades ilegais. A expectativa é que novas fases da investigação revelem mais sobre o funcionamento interno de sua organização criminosa, bem como sobre sua relação com outros contraventores e autoridades corruptas.
As autoridades esperam que essa operação não apenas leve à condenação de Rogério de Andrade, mas também enfraqueça o poder do jogo do bicho no Rio de Janeiro, uma prática ilegal que, há décadas, tem financiado e fortalecido redes criminosas na cidade. Contudo, resta saber se o sistema de apoio que Andrade construiu ao longo dos anos será completamente desmantelado ou se outros líderes tomarão seu lugar no controle das atividades ilícitas.