A novela “Tieta”, exibida originalmente pela Rede Globo entre agosto de 1989 e março de 1990, conquistou a teledramaturgia brasileira ao abordar temas polêmicos para a época, como machismo, hipocrisia social, liberdade sexual e diversidade. Baseada no romance homônimo de Jorge Amado, publicado em 1977, a trama trouxe uma narrativa envolvente sobre a volta triunfante de Tieta à fictícia cidade de Santana do Agreste. Entre os vários personagens memoráveis, destacou-se Ninete, interpretada por Rogéria, uma artista trans que trouxe nuances à representação de gênero na televisão brasileira, tornando-se um marco de inclusão e representatividade.
Rogéria, uma das maiores referências da arte transformista no Brasil, deu vida à personagem Ninete, que também era chamada de Valdemar em sua cidade natal. Ao regressar para Santana do Agreste, Ninete enfrentou o conservadorismo local e serviu como um espelho para as contradições e preconceitos da sociedade. A personagem ganhou notoriedade não apenas pelo impacto de sua interpretação, mas pela força em abordar temas que, mesmo décadas depois, continuam sendo discutidos no contexto social e cultural do país.
Ao longo de seus 196 capítulos, a novela alcançou uma audiência média de 65 pontos no Ibope, consolidando-se como um sucesso absoluto. A história de Tieta e a inclusão de uma personagem trans foram elementos cruciais para alavancar o debate sobre identidade de gênero na teledramaturgia brasileira.
A história de Ninete e sua luta contra o preconceito
Ninete, interpretada por Rogéria, era uma mulher trans que representava um retorno à cidade natal sob o olhar inquisidor dos moradores de Santana do Agreste. A personagem vivia o desafio de ser aceita por uma comunidade presa a valores morais rígidos e a uma visão estreita sobre papéis de gênero. Sua presença gerava discussões e confrontos, mas também promovia momentos de empatia e reflexão.
O papel foi um divisor de águas tanto para a carreira de Rogéria quanto para a televisão brasileira. Apesar de estereótipos ainda prevalentes na época, a interpretação trouxe humanidade à personagem e levantou questões sobre a visibilidade e o respeito às pessoas trans, algo que permaneceu como um legado duradouro da novela. Rogéria, conhecida por sua autenticidade e carisma, foi fundamental para a construção dessa figura que ultrapassou a barreira do entretenimento e tornou-se símbolo de resistência e luta por igualdade.
Marcos da representatividade LGBTQIA+ na teledramaturgia
A inclusão de personagens LGBTQIA+ em produções televisivas tem evoluído significativamente desde a exibição de “Tieta”. Embora Rogéria tenha sido pioneira em levar uma personagem trans para as telas, outros momentos marcaram a história da representatividade:
- Bicha Bichérrima em “Pantanal” (1990): Um personagem excêntrico, interpretado por Sérgio Reis, trouxe elementos de comicidade, mas também abriu espaço para a discussão sobre sexualidade.
- Sandrinho em “A Próxima Vítima” (1995): A trama explorou o relacionamento homossexual do personagem vivido por André Gonçalves, trazendo o tema para o horário nobre.
- Ivan em “A Força do Querer” (2017): A jornada de um homem trans, interpretado por Carol Duarte, marcou um passo significativo na abordagem da identidade de gênero na televisão.
Esses exemplos mostram como a mídia pode influenciar a sociedade ao refletir, questionar e desafiar preconceitos, começando com representações como a de Ninete em “Tieta”.
A adaptação de Jorge Amado para as telas
“Tieta do Agreste”, livro de Jorge Amado publicado em 1977, já abordava questões sociais e comportamentais de maneira ousada e inovadora. Na novela, adaptada por Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, a essência da obra literária foi mantida, mas com adaptações para o público televisivo.
A narrativa literária é ambientada em uma fictícia Santana do Agreste, uma cidade nordestina que reflete os valores e desafios de comunidades interioranas. O humor ácido de Jorge Amado, misturado a críticas sociais, foi preservado na trama da Globo, que se tornou um dos maiores sucessos de adaptações de sua obra.
Fatos e curiosidades sobre a produção de Tieta
- A cidade cenográfica de Santana do Agreste foi construída em uma área de 10.000 m² no Projac, no Rio de Janeiro.
- Betty Faria, que deu vida à protagonista Tieta, enfrentou desafios para incorporar o sotaque nordestino e a personalidade extravagante da personagem.
- A trilha sonora da novela, incluindo a canção “Tieta” de Luiz Caldas, foi um sucesso de vendas e permanece na memória cultural do Brasil.
Linha do tempo da novela e seu impacto
- 1977: Publicação do romance “Tieta do Agreste” por Jorge Amado.
- 1989: Estreia de “Tieta” na Rede Globo, com alta expectativa e repercussão nacional.
- 1990: Final da novela, com audiência recorde e consagração da história no imaginário popular.
- 1994 e 2017: Reprises no “Vale a Pena Ver de Novo” e no canal Viva, reforçando seu apelo atemporal.
Dados relevantes sobre a trama e seus personagens
A novela contou com um elenco estelar, incluindo Betty Faria, Joana Fomm (Perpétua) e José Mayer (Osnar). Além disso, a narrativa abordava temas como:
- Machismo e liberdade feminina: Tieta retornava à cidade natal desafiando normas sociais e se posicionando como uma mulher empoderada.
- Corrupção e exploração ambiental: A instalação de uma fábrica na região ilustrava conflitos entre progresso econômico e preservação ecológica.
- Hipocrisia religiosa: Personagens como Perpétua simbolizavam o moralismo exacerbado, com críticas às contradições humanas.
Contribuições de Rogéria para a cultura brasileira
Rogéria, nascida como Astolfo Barroso Pinto, construiu uma carreira brilhante como transformista, atriz e cantora. Reconhecida como a “Travesti da Família Brasileira”, ela quebrou tabus e conquistou espaço em um cenário artístico repleto de preconceitos.
Ao longo de sua trajetória, Rogéria participou de diversas produções no teatro, no cinema e na televisão, sendo um ícone de resistência e autenticidade. Sua interpretação em “Tieta” consolidou sua posição como uma das maiores artistas trans do Brasil.
Temas de reflexão trazidos pela novela
“Tieta” abordou assuntos que continuam relevantes na sociedade contemporânea:
- Preconceito de gênero e orientação sexual: A história de Ninete abriu espaço para debates sobre identidade e aceitação.
- Contradições sociais: A hipocrisia dos moradores de Santana do Agreste espelhava dilemas enfrentados em muitas comunidades.
- Empoderamento feminino: A protagonista Tieta simbolizava a força das mulheres ao desafiar convenções e tomar o controle de sua vida.
Por que Tieta permanece relevante?
Mesmo mais de três décadas após sua estreia, “Tieta” segue sendo um marco na teledramaturgia brasileira. Sua capacidade de abordar temas delicados de maneira acessível, combinada ao talento de um elenco memorável, garante seu lugar na história da televisão.

