Fernanda Torres, uma das maiores estrelas do cinema brasileiro, emocionou o público ao fazer um apelo por união e apoio ao filme “Anora” após a cerimônia do Oscar 2025, realizada no último domingo, 2 de março, no Dolby Theatre, em Los Angeles. A atriz, que concorreu ao prêmio de Melhor Atriz por sua atuação em “Ainda estou aqui”, dirigido por Walter Salles, viu a estatueta ser entregue a Mikey Madison, protagonista do longa americano dirigido por Sean Baker. Longe de demonstrar ressentimento, Torres utilizou uma coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, nesta terça-feira, 4 de março, para pedir que os brasileiros “mandassem só amor” à produção vencedora e à sua colega de profissão. O gesto reflete a postura generosa da atriz e o reconhecimento da força do cinema independente mundial, que brilhou intensamente na premiação deste ano. “Ainda estou aqui”, que resgata a história de Eunice Paiva durante a ditadura militar, não saiu de mãos abanando no cenário internacional, mas foi a atitude de Torres que roubou a cena e reacendeu debates sobre a relevância de narrativas autorais.
A indicação de Fernanda Torres ao Oscar marcou um momento histórico para o Brasil, sendo ela a segunda mulher do país a concorrer na categoria de Melhor Atriz, seguindo os passos de sua mãe, Fernanda Montenegro, indicada em 1999 por “Central do Brasil”. A atriz, que já havia conquistado o Globo de Ouro em janeiro por sua interpretação visceral de Eunice Paiva, destacou a conexão entre “Ainda estou aqui” e “Anora”, filmes que, segundo ela, compartilham processos criativos semelhantes e uma entrega única de seus elencos.
Dias após a cerimônia, o apelo de Torres já ecoa entre fãs e críticos, que veem na atitude da brasileira uma celebração da arte cinematográfica acima de qualquer competição. A atriz elogiou a performance de Mikey Madison, descrevendo-a como “muito legal” e reforçando a ideia de que o sucesso de “Anora” é também uma vitória para produções que desafiam os padrões de Hollywood.
Trajetória de Fernanda Torres ganha destaque mundial
A carreira de Fernanda Torres é um marco na história da cultura brasileira, abrangendo cinema, teatro e televisão com uma versatilidade que poucos artistas alcançam. Nascida em 1965, no Rio de Janeiro, filha dos lendários Fernanda Montenegro e Fernando Torres, ela deu seus primeiros passos nos palcos ainda adolescente, aos 13 anos, e logo se consolidou como uma das grandes promessas de sua geração. Em 1986, aos 21 anos, Torres venceu o prêmio de Melhor Atriz no prestigiado Festival de Cannes por sua atuação em “Eu sei que vou te amar”, um feito que a colocou no radar internacional e abriu portas para uma carreira que hoje é celebrada em todo o mundo. Sua vitória no Globo de Ouro em 2025, como a primeira brasileira a conquistar o troféu de Melhor Atriz em Filme de Drama, e a indicação ao Oscar semanas depois, apenas reforçam sua posição como ícone global.
Em “Ainda estou aqui”, Fernanda Torres entrega uma das atuações mais poderosas de sua trajetória, interpretando Eunice Paiva, uma mulher que enfrentou a ditadura militar brasileira em busca de justiça para seu marido, Rubens Paiva, desaparecido em 1971. A atriz revelou que o papel exigiu dela uma imersão emocional profunda, guiada pela direção precisa de Walter Salles, que apostou em um realismo cru para contar essa história. O filme, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice, não apenas emocionou o público brasileiro, mas também chamou a atenção de festivais e premiações internacionais, culminando na presença marcante do Brasil no Oscar 2025.
Além do drama, Torres também brilha na comédia, como provou na série “Os Normais”, exibida entre 2001 e 2003, onde contracenou com Luiz Fernando Guimarães em um dos programas mais queridos da televisão brasileira. Essa capacidade de transitar entre gêneros, sempre com autenticidade, é um dos pilares de sua longevidade artística e explica por que seu apelo por apoio a “Anora” foi tão bem recebido.
Cinema independente brilha no Oscar 2025
O Oscar 2025 será lembrado como uma celebração do cinema independente, e tanto “Ainda estou aqui” quanto “Anora” são provas disso. Realizada no dia 2 de março, a cerimônia premiou o filme de Sean Baker em categorias como Melhor Roteiro Original, enquanto o longa brasileiro, apesar de não levar estatuetas, deixou sua marca com indicações importantes e uma recepção calorosa. Fernanda Torres, presente no evento ao lado de Walter Salles e Selton Mello, descreveu a noite como um triunfo para produções feitas “em grupo”, longe das fórmulas comerciais de grandes estúdios. Ela revelou ter conversado com Baker, que elogiou o filme brasileiro, destacando a admiração mútua entre os cineastas.
“Anora”, estrelado por Mikey Madison, conta a história de uma trabalhadora do sexo em Nova York que busca autonomia em meio a um turbilhão de eventos, enquanto “Ainda estou aqui” mergulha na luta de Eunice Paiva contra a repressão da ditadura. Apesar dos contextos distintos, Torres enxerga nos dois filmes uma essência comum: a aposta em narrativas humanas e a confiança irrestrita nos diretores. “A maneira que ‘Anora’ foi feito é igual ao nosso”, afirmou a atriz na coletiva no Rio, apontando para o trabalho coletivo que define ambas as produções.
No Brasil, “Ainda estou aqui” já é um sucesso de público, com salas lotadas desde sua estreia em 2024. A obra reacendeu o interesse por filmes nacionais, levando espectadores de diferentes gerações a refletirem sobre o impacto da ditadura militar, um período que deixou cicatrizes profundas na sociedade brasileira.
Detalhes históricos em “Ainda estou aqui”
“Ainda estou aqui” não é apenas um filme, mas um resgate histórico que coloca em foco a luta de Eunice Paiva e sua família durante um dos capítulos mais sombrios do Brasil. Rubens Paiva, engenheiro e ex-deputado federal, foi preso em 20 de janeiro de 1971 por agentes da ditadura militar e nunca mais foi visto, tornando-se um dos símbolos dos desaparecidos políticos no país. Eunice, interpretada brilhantemente por Fernanda Torres, dedicou décadas de sua vida à busca por respostas, enfrentando intimidações e silêncios do regime. O filme, baseado no livro “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, filho do casal, mistura cenas de arquivo e reconstruções dramáticas para criar um retrato fiel dessa resistência.
A ditadura militar brasileira, que durou de 1964 a 1985, deixou um saldo de pelo menos 434 mortos ou desaparecidos, segundo dados da Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011 para investigar os crimes do período. A história de Rubens Paiva é apenas uma entre tantas, mas sua força reside na persistência de Eunice, que transformou a dor pessoal em uma luta coletiva por justiça. Walter Salles, diretor do filme, optou por uma abordagem realista, eliminando qualquer traço de artificialidade, o que, segundo Torres, faz a obra “parecer real, não parecer cinema”.
O impacto do filme vai além das telas, reacendendo debates sobre memória e reparação histórica no Brasil. Desde sua estreia, “Ainda estou aqui” já levou mais de 500 mil espectadores aos cinemas nacionais, um número expressivo para uma produção independente em um mercado dominado por blockbusters.
Paralelos entre as protagonistas de “Anora” e “Ainda estou aqui”
Fernanda Torres não poupou elogios a Mikey Madison, protagonista de “Anora”, com quem dividiu a disputa pelo Oscar de Melhor Atriz. “Aquela mulher é muito legal”, declarou a brasileira, destacando a entrega da americana ao papel de uma jovem em busca de liberdade em um mundo hostil. Assim como Torres em “Ainda estou aqui”, Madison confiou plenamente na visão de Sean Baker, resultando em uma performance que conquistou crítica e público. Ambas as atrizes, segundo Torres, atuaram “sem rede”, mergulhando em personagens complexos que exigiram intensidade e vulnerabilidade.
Enquanto Eunice Paiva enfrenta a repressão de um regime autoritário, a personagem de Madison em “Anora” luta contra as amarras de um sistema que a marginaliza. Apesar das diferenças culturais e temporais, os dois filmes exploram temas universais como resistência e dignidade, o que explica a conexão percebida por Torres. “Eu sinto ‘Ainda estou aqui’ como primo do ‘Anora'”, afirmou a atriz, reforçando que o sucesso de um não apaga o brilho do outro.
A troca de elogios entre os diretores Walter Salles e Sean Baker durante o Oscar também evidencia essa proximidade criativa. Baker, conhecido por filmes como “The Florida Project”, destacou a autenticidade do longa brasileiro, enquanto Salles retribuiu, celebrando a vitória de “Anora” como um marco para o cinema independente.
Marcos na carreira de Fernanda Torres
A trajetória de Fernanda Torres é repleta de conquistas que a consolidam como uma das maiores artistas do Brasil. Aqui estão alguns dos principais momentos de sua carreira:
- 1986: Vence o prêmio de Melhor Atriz em Cannes por “Eu sei que vou te amar”, aos 21 anos.
- 2001-2003: Protagoniza “Os Normais”, série que se torna um clássico da TV brasileira.
- 2025: Conquista o Globo de Ouro e é indicada ao Oscar por “Ainda estou aqui”.
Esses feitos mostram a evolução de uma artista que começou nos palcos e hoje é referência mundial, com uma carreira que atravessa décadas e fronteiras.
Repercussão do apelo de Fernanda Torres
O pedido de Fernanda Torres para que os brasileiros enviassem “só amor” a “Anora” e Mikey Madison rapidamente ganhou repercussão. Na coletiva de imprensa no Rio, a atriz arrancou aplausos ao enfatizar a união entre os filmes, um discurso que logo se espalhou pelas redes sociais. Fãs elogiaram a postura da brasileira, com mensagens como “Fernanda representa o melhor do Brasil” e “Que gesto lindo de apoio ao cinema”. A atitude também amenizou a decepção de alguns que esperavam uma vitória de “Ainda estou aqui” no Oscar.
No Brasil, o filme de Walter Salles segue em cartaz, com sessões lotadas e um público que não para de crescer. A obra já se tornou uma das mais assistidas do ano, reacendendo o interesse por produções nacionais que abordam temas históricos. Para Salles, o sucesso vai além dos números: é a prova de que o cinema pode ser uma ferramenta de memória e reflexão.
Legado de “Ainda estou aqui” no Brasil
Desde sua estreia, “Ainda estou aqui” tem emocionado espectadores ao retratar a luta de Eunice Paiva com uma sensibilidade rara. O filme não apenas resgata a história de Rubens Paiva, mas também joga luz sobre as milhares de famílias afetadas pela ditadura militar. A interpretação de Fernanda Torres, marcada por força e fragilidade, tem sido apontada como um dos grandes trunfos da obra, que já ultrapassou a marca de meio milhão de ingressos vendidos no Brasil.
A presença do filme no Oscar 2025, mesmo sem vitórias, é vista como um passo importante para o cinema brasileiro no exterior. A indicação de Torres e a visibilidade gerada pela premiação colocaram o país novamente no mapa das grandes produções mundiais, um feito que ecoa o impacto de “Central do Brasil” décadas atrás.

