A estreia de “Maré Alta” nos cinemas brasileiros, marcada para 20 de março, trouxe à tona uma narrativa que ressoa profundamente com questões contemporâneas. Estrelado por Marco Pigossi e dirigido por seu marido, o cineasta italiano Marco Calvani, o longa mergulha na vida de Lourenço, um jovem gay brasileiro que enfrenta os desafios de ser imigrante nos Estados Unidos. Com 1h41m de duração, o filme acompanha a jornada de autodescoberta de um protagonista abandonado pelo namorado, lidando com um visto prestes a vencer e a necessidade de sobreviver em um ambiente desconhecido. A trama, ambientada em Provincetown, Massachusetts, reflete tanto as lutas pessoais quanto as sociais de milhões de pessoas ao redor do mundo. Pigossi, que também atua como coprodutor, entrega uma performance visceral, carregada de camadas emocionais que conectam sua própria história à do personagem. Desde o abandono amoroso até os trabalhos informais como faxineiro, Lourenço representa a busca por um lugar de pertencimento, longe da família tradicional que rejeita sua identidade.
Com uma carreira consolidada na televisão brasileira, Marco Pigossi dá um salto significativo ao protagonizar seu primeiro longa após assumir publicamente sua homossexualidade em 2021. O ator, conhecido por papéis em novelas como “Caras & Bocas”, onde interpretou o icônico Cássio, agora explora um território mais íntimo e desafiador. A escolha de trabalhar ao lado de Calvani, com quem se casou em 2024, adiciona uma dimensão pessoal ao projeto. O filme, que já passou por festivais como o South by Southwest e o MixBrasil, onde venceu o prêmio de Melhor Filme pelo público, chega às telas com uma proposta que vai além do entretenimento, abordando temas como homofobia, racismo e os dilemas da migração.
A produção também reúne um elenco internacional de peso, incluindo Marisa Tomei, vencedora do Oscar por “Meu Primo Vinny”, e James Bland, de “Insecure”. A química entre os personagens reflete a construção de uma família escolhida, um conceito que ganha força em Provincetown, conhecida como uma meca da comunidade LGBTQIA+. Com exibições previstas em eventos como o Festival de Cinema LGBTQIA+ de Londres e uma indicação ao GLAAD Awards 2025, “Maré Alta” se posiciona como um marco na trajetória de Pigossi e uma janela para discussões urgentes sobre identidade e aceitação.
Uma jornada pessoal na tela
Marco Pigossi não esconde que “Maré Alta” carrega ecos de sua própria vida. Nascido em São Paulo, o ator se mudou para Los Angeles em 2018, após 12 anos de uma carreira bem-sucedida na Globo, onde participou de produções como “Tidelands” e “Alto Mar” na Netflix. Foi nesse período de transição que conheceu Marco Calvani, um encontro que mudou os rumos tanto de sua vida pessoal quanto do roteiro do filme. Originalmente, Lourenço não era brasileiro – o personagem passou por versões como mexicano e venezuelano antes de ganhar a nacionalidade que reflete as experiências de Pigossi. A decisão de tornar o protagonista um imigrante brasileiro trouxe autenticidade à narrativa, especialmente ao retratar a tensão de viver ilegalmente em outro país e o peso de uma família conservadora que rejeita a homossexualidade.
Durante a pré-estreia no Rio de Janeiro, em 11 de março, Pigossi revelou que interpretar Lourenço foi um processo de cura. Ele compartilhou que o personagem o ajudou a confrontar sua homofobia internalizada, um reflexo das barreiras que enfrentou antes de se assumir publicamente. A nudez e as cenas de sexo presentes no filme, segundo o ator, não foram apenas artísticas, mas também terapêuticas, permitindo-lhe explorar vulnerabilidades que antes mantinha escondidas. Essa entrega emocional é palpável na tela, onde Lourenço transita entre a solidão de um coração partido e a esperança de novos laços afetivos.
O diretor Marco Calvani, por sua vez, trouxe sua experiência como dramaturgo e cineasta teatral para o projeto. Com formação na Itália e passagens por Nova York, ele já trabalhava no roteiro de “Maré Alta” quando conheceu Pigossi. O relacionamento que floresceu entre os dois deu ao filme uma nova perspectiva, transformando-o em uma colaboração única entre vida e arte. A escolha de Provincetown como cenário não foi aleatória: a cidade, famosa por sua população majoritariamente LGBTQIA+, simboliza um refúgio para aqueles que, como Lourenço, buscam liberdade e aceitação.
Temas universais em foco
“Maré Alta” vai além de uma história de amor ou desilusão – é um retrato cru das complexidades enfrentadas por imigrantes e pela comunidade LGBTQIA+. A narrativa aborda questões como o racismo, a violência sexual e o impacto do HIV, temas que ressoam em um momento em que políticas anti-imigratórias ganham força nos Estados Unidos. Lourenço, abandonado pelo namorado americano, vê seu sonho de uma vida idealizada desmoronar, sendo forçado a trabalhar ilegalmente enquanto lida com a incerteza de seu futuro. A fotografia de Oscar Ignacio Jiménez captura essa dualidade, contrastando a beleza melancólica de Provincetown no fim da temporada com a angústia do protagonista.
Um dos pontos altos do filme é a relação de Lourenço com Maurice, interpretado por James Bland. O enfermeiro, também deslocado em sua própria existência, torna-se um ponto de conexão inesperado para o brasileiro. Juntos, eles constroem uma amizade que desafia as adversidades, mostrando como laços improváveis podem surgir em meio ao caos. A presença de Marisa Tomei, no papel de uma amiga que oferece apoio ao protagonista, reforça essa ideia de família escolhida, um tema recorrente na obra.
A relevância de “Maré Alta” também se reflete em sua recepção. Após estrear no South by Southwest, o longa passou pelo Festival do Rio e conquistou o público no MixBrasil, consolidando seu apelo tanto no Brasil quanto no exterior. A indicação ao GLAAD Awards, uma das maiores premiações voltadas à representação LGBTQIA+ no mundo, destaca sua importância em um cenário cinematográfico que ainda busca diversidade e profundidade nas histórias que conta.
Cronograma de exibições e prêmios
Com a estreia nacional em 20 de março, “Maré Alta” inicia uma trajetória promissora no circuito de festivais internacionais. O calendário de exibições reflete o alcance global do filme e seu potencial para impactar diferentes públicos.
- 22 de março: Primeira exibição na Europa, no Festival de Cinema LGBTQIA+ de Londres, realizado no British Film Institute.
- 27 de março: Participação no GLAAD Awards 2025, em Los Angeles, concorrendo na categoria de Melhor Filme.
- Ao longo do ano: Circuito de exibições em festivais independentes, com foco em temáticas queer e de imigração.
A agenda reforça a ambição de Pigossi e Calvani de levar a história de Lourenço a audiências diversas, ampliando o diálogo sobre os desafios enfrentados por imigrantes e minorias sexuais. A vitória no MixBrasil como Melhor Filme pelo público já sinaliza o impacto emocional que a obra pode gerar.
Da TV ao cinema: a evolução de Pigossi
Antes de “Maré Alta”, Marco Pigossi construiu uma trajetória sólida na televisão brasileira. Sua estreia profissional aconteceu aos 13 anos, em uma novela do SBT que nunca foi ao ar, mas foi na Globo que ele se destacou. Entre 2009 e 2018, o ator deu vida a personagens memoráveis, como o gay Cássio de “Caras & Bocas”, cujo bordão “tô rosa-chiclete” marcou época. A decisão de deixar a emissora e buscar oportunidades internacionais foi um divisor de águas, levando-o a projetos como “Cidade Invisível”, da Netflix, onde interpretou Eric, um detetive envolto em mistérios folclóricos.
A transição para o cinema com “Maré Alta” representa não apenas uma mudança de meio, mas uma afirmação de identidade. Pigossi, que já foi visto como um galã tradicional, rompeu com esse rótulo ao assumir sua homossexualidade e escolher papéis que refletem suas experiências pessoais. A parceria com Calvani, consolidada tanto no casamento quanto na produção do filme, simboliza essa nova fase, marcada por autenticidade e coragem.
O processo de filmagem, que enfrentou os desafios da pandemia, também foi um momento de conexão para o casal. Pigossi relembrou, durante a pré-estreia, que o último dia de gravação culminou em um pedido de casamento, selando a união entre os dois. Esse vínculo pessoal transborda na tela, dando ao filme uma sinceridade que poucos projetos alcançam.
Destaques da produção
A força de “Maré Alta” está em sua capacidade de equilibrar narrativa íntima e questões sociais amplas. Alguns elementos se destacam na construção do longa:
- Atuação de Pigossi: A entrega emocional do ator é o coração do filme, trazendo nuances que vão da vulnerabilidade à resiliência.
- Direção de Calvani: Com sua bagagem teatral, o diretor cria um ambiente onde os atores brilham, especialmente nas cenas de diálogo.
- Fotografia: As imagens de Provincetown capturam a solidão e a esperança do protagonista, reforçando o tom melancólico da história.
- Elenco de apoio: Nomes como Marisa Tomei e James Bland enriquecem a narrativa com interpretações marcantes.
A trilha sonora, sutil mas impactante, acompanha os altos e baixos de Lourenço, enquanto o roteiro, escrito por Calvani, insere temas como o poema de Oswald de Andrade como um toque de brasilidade que conecta o personagem à sua origem.
Impacto cultural e social
Filmes como “Maré Alta” têm o poder de abrir portas para discussões que transcendem o entretenimento. A história de Lourenço reflete a realidade de muitos jovens LGBTQIA+ que enfrentam rejeição familiar e buscam refúgio em outros países. Nos Estados Unidos, onde a imigração é um tema quente, o longa chega em um momento de crescente debate sobre políticas migratórias, especialmente após o endurecimento das leis durante o governo Trump.
A escolha de ambientar a trama em Provincetown não é apenas estética, mas simbólica. A cidade, com sua população de cerca de 3 mil habitantes que triplica no verão devido ao turismo LGBTQIA+, é um microcosmo de aceitação em um país marcado por divisões. O filme usa esse cenário para explorar como a comunidade pode ser um porto seguro, mas também um lugar de desafios para quem está à margem, como imigrantes sem documentação.
A participação de Pigossi como coprodutor reforça seu compromisso com narrativas que amplificam vozes marginalizadas. Sua experiência em “Corpolítica”, documentário de 2022 sobre a falta de representatividade LGBTQIA+ na política brasileira, já indicava esse interesse, agora concretizado em um projeto de alcance internacional.