A seleção brasileira viveu mais um capítulo de instabilidade nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026. Na noite de 25 de março, no estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, o time comandado por Dorival Júnior sofreu uma derrota acachapante por 4 a 1 para a Argentina, atual campeã mundial. O resultado expôs fragilidades táticas, falta de entrosamento e a dificuldade em encontrar soluções sem nomes como Neymar, lesionado. Em meio ao desempenho coletivo abaixo do esperado, Matheus Cunha, meia-atacante do Wolverhampton, emergiu como um raro ponto positivo, marcando o gol de honra e mostrando personalidade em um momento de pressão. A vitória suada contra a Colômbia, dias antes, por 2 a 1, no Mané Garrincha, em Brasília, já havia dado sinais de alerta, mas a goleada em solo argentino escancarou a necessidade de ajustes urgentes.
Após 14 rodadas, o Brasil ocupa a terceira posição na tabela das Eliminatórias Sul-Americanas, com cerca de 21 pontos, atrás da líder Argentina, que soma 28, e do Equador, vice-líder com 23. Apesar de ainda estar na zona de classificação direta – que garante vaga aos seis primeiros colocados –, o desempenho irregular preocupa. A equipe soma cinco vitórias, três empates e seis derrotas, um aproveitamento bem abaixo do histórico da pentacampeã mundial. A diferença de sete pontos para a líder e a proximidade de seleções como Uruguai e Colômbia, ambas com 20 pontos, acendem o sinal de alerta para os próximos compromissos.
O jogo contra a Argentina foi um reflexo dos problemas recorrentes. Sem um camisa 10 fixo, o meio-campo brasileiro se mostrou desorganizado, com Raphinha e Rodrygo alternando na criação sem sucesso. A defesa, que já foi ponto forte em outras eras, sofreu com falhas individuais e coletivas, enquanto o ataque, mesmo com nomes de peso como Vinicius Júnior, não conseguiu reagir à eficiência argentina. Matheus Cunha, que entrou bem contra a Colômbia e foi titular no Monumental, foi a exceção em uma noite para esquecer.
Destaques e decepções em campo
Matheus Cunha se tornou o nome da vez na seleção. Contra a Colômbia, entrou no segundo tempo e ajudou a garantir a vitória com movimentação e presença ofensiva. Já diante da Argentina, marcou o único gol brasileiro, aproveitando uma sobra na área para finalizar com precisão. Aos 25 anos, o jogador formado no Coritiba e com passagem pelo Atlético de Madrid ganha força como uma opção confiável para Dorival Júnior, especialmente em um setor ofensivo que carece de consistência.
Por outro lado, nomes como Vinicius Júnior e Raphinha não conseguiram repetir o brilho que exibem em seus clubes. Vini, autor do gol decisivo contra a Colômbia, passou em branco na Argentina, enquanto Raphinha, escalado em uma função mais central, não encontrou espaços. Rodrygo, outro destaque do Real Madrid, também teve atuação apagada, evidenciando a dificuldade da seleção em traduzir o talento individual em resultados coletivos.
A posição de goleiro também gerou debate. Alisson, titular habitual, ficou fora por protocolo de concussão após choque na partida contra a Colômbia. Bento, do Athletico Paranaense, assumiu a meta em Buenos Aires e não conseguiu evitar a goleada, sofrendo críticas por falhas em dois dos quatro gols argentinos. A ausência de Éderson, lesionado, deixou a posição ainda mais vulnerável.
Crise exposta no Monumental
A derrota por 4 a 1 para a Argentina não foi apenas um tropeço numérico, mas um retrato das dificuldades que a seleção enfrenta sob o comando de Dorival Júnior. O treinador, que assumiu em janeiro de 2024, ainda não conseguiu implantar um padrão de jogo claro. A escolha por um esquema sem um armador clássico, apostando na mobilidade de Raphinha e Rodrygo, deixou o meio-campo exposto, facilitando a transição ofensiva dos argentinos. Lionel Messi, mesmo sem estar em sua melhor forma física, comandou a vitória com um gol e uma assistência, enquanto Lautaro Martínez, Julián Álvarez e Giovani Lo Celso completaram o placar.
O Brasil até começou o jogo com certa organização, mas desmoronou após o primeiro gol argentino, aos 18 minutos do primeiro tempo. A falta de reação e a apatia em campo contrastaram com a intensidade dos adversários, que aproveitaram os espaços deixados pela defesa brasileira. Marquinhos, zagueiro e capitão, teve uma noite infeliz, sendo superado em jogadas aéreas e de posicionamento. André e Joelinton, escalados como volantes na ausência de Bruno Guimarães e Gerson, não ofereceram a proteção necessária à linha defensiva.
A torcida argentina, que lotou o Monumental com mais de 70 mil pessoas, ainda entoou “olé” nos minutos finais, um golpe simbólico na rivalidade histórica. Para os brasileiros, restou o gol solitário de Cunha, aos 38 do segundo tempo, insuficiente para amenizar o vexame. O resultado colocou Dorival na berlinda, com críticas crescentes sobre suas escolhas táticas e a falta de evolução do time.
Números que preocupam
Os números das Eliminatórias reforçam a gravidade do momento. O Brasil tem o pior aproveitamento em 14 rodadas desde que o torneio passou a ser disputado no formato de pontos corridos, em 1998. São 50% de aproveitamento, com 21 pontos em 42 possíveis. Em comparação, na campanha para a Copa de 2022, a seleção somava 35 pontos no mesmo estágio, com 11 vitórias, dois empates e uma derrota.
A defesa, que já foi um dos pilares da seleção, sofreu 19 gols em 14 jogos, média de 1,35 por partida. Na frente, o ataque marcou 22 vezes, mas a dependência de lances isolados e a falta de criatividade coletiva são evidentes. A goleada para a Argentina foi a pior derrota do Brasil em Eliminatórias desde 2009, quando perdeu por 3 a 0 para a Bolívia, em La Paz.
- Gols sofridos: 19 em 14 jogos
- Gols marcados: 22 em 14 jogos
- Derrotas: 6, incluindo três consecutivas em 2023
- Aproveitamento: 50%, o menor em décadas
Quem sobe na seleção
Apesar do cenário adverso, alguns jogadores conseguiram se destacar. Matheus Cunha lidera a lista, com atuações que mostram potencial para assumir um papel maior no futuro. Sua versatilidade, aliada à capacidade de decisão, o coloca como uma aposta promissora em um ataque que precisa de renovação.
Outro nome que ganhou pontos foi João Gomes, do Wolverhampton. Convocado após lesões e suspensões, o volante entrou no segundo tempo contra a Argentina e trouxe energia ao meio-campo, ainda que não tenha evitado o resultado negativo. Sua combatividade e qualidade no passe são atributos que podem render mais chances com Dorival.
Weverton, goleiro do Palmeiras, também foi chamado de última hora e, embora não tenha jogado, reforça sua posição como alternativa confiável para a meta. A experiência do jogador de 37 anos pode ser útil em momentos de crise, especialmente com as incertezas envolvendo Alisson e Bento.

Quem desce no radar de Dorival
Vinicius Júnior, um dos principais nomes do futebol mundial, vive um paradoxo na seleção. Apesar do gol contra a Colômbia, sua irregularidade em jogos decisivos, como o duelo com a Argentina, levanta questionamentos. A pressão por ser o protagonista na ausência de Neymar parece pesar, e o jogador do Real Madrid precisa encontrar consistência.
Raphinha, outro destaque no cenário europeu, também saiu em baixa. Escalado em uma função diferente da que exerce no Barcelona, o atacante não conseguiu criar jogadas nem finalizar com perigo. A falta de adaptação ao esquema de Dorival comprometeu seu desempenho, colocando-o sob escrutínio.
No meio-campo, André e Joelinton decepcionaram. O jogador do Fluminense, que vinha sendo elogiado no clube, não repetiu o nível na seleção, enquanto Joelinton, do Newcastle, mostrou pouca efetividade na marcação e na saída de bola. Ambos perderam espaço na disputa por uma vaga entre os titulares.
Calendário das próximas batalhas
O Brasil terá pouco tempo para digerir a derrota. As Eliminatórias retornam em junho, com dois jogos cruciais pela frente. Confira o cronograma:
- 5 de junho: Equador x Brasil, em Quito
- 10 de junho: Brasil x Paraguai, local a definir
Os confrontos serão decisivos para as pretensões da seleção. O Equador, vice-líder com 23 pontos, vive grande fase e joga na altitude de Quito, um desafio extra. Já o Paraguai, sexto colocado com 17 pontos, é um adversário direto na briga pela classificação direta. Dorival terá de ajustar o time e buscar soluções para evitar novos tropeços.
Pressão sobre Dorival Júnior
Dorival Júnior enfrenta seu momento mais delicado no comando da seleção. Contratado para substituir Fernando Diniz, que deixou o cargo após uma sequência de três derrotas em 2023, o técnico acumula sete vitórias, três empates e quatro derrotas em 14 jogos oficiais. O desempenho, porém, não convence, e a falta de um padrão tático claro alimenta as críticas.
A escolha por um ataque estrelado, com Vini, Raphinha e Rodrygo, não trouxe o equilíbrio necessário. A ausência de Neymar, que se recupera de uma lesão no joelho, também pesa, mas a dependência do craque expõe a falta de alternativas no elenco. Dorival terá de lidar com a pressão da torcida e da CBF, que esperam uma reação rápida para evitar surpresas nas Eliminatórias.
A preparação para os próximos jogos será intensa. Após a derrota para a Argentina, o elenco ganhou folga e só volta a se reunir em maio, para treinos antes da Data Fifa de junho. A CBF planeja amistosos em outubro e novembro, aproveitando o fim das Eliminatórias, para testar novas formações e dar rodagem ao grupo.
Fragilidades por posição
Cada setor da seleção apresentou problemas na última Data Fifa. Na defesa, a ausência de Gabriel Magalhães, suspenso, e as falhas de Marquinhos e Beraldo, convocado às pressas, deixaram a zaga vulnerável. Os laterais seguem como um ponto fraco histórico, com poucas opções de qualidade além de Danilo, que não esteve disponível.
No meio-campo, a saída de Bruno Guimarães, suspenso, e Gerson, lesionado, desestabilizou o setor. André, Joelinton e Éderson, da Atalanta, não conseguiram suprir a ausência dos titulares, enquanto João Gomes foi uma luz no fim do túnel. A falta de um armador nato, com a insistência em escalar atacantes na criação, comprometeu a transição ofensiva.
O ataque, teoricamente o ponto forte, não entregou o esperado. Além de Cunha, nomes como Savinho e Endrick, que entraram no decorrer dos jogos, pouco produziram. A falta de um centroavante fixo, com Igor Jesus sendo testado apenas em 2024, também limita as opções táticas de Dorival.
Impacto na tabela
A goleada para a Argentina não alterou drasticamente a posição do Brasil, que segue em terceiro com 21 pontos. No entanto, a distância para o sétimo colocado, Bolívia, com 13 pontos, é de apenas oito pontos, o que mantém a seleção sob risco. O Paraguai, com 17, e a Venezuela, com 11, também podem encostar em caso de novos tropeços.
A Argentina, com 28 pontos, abriu sete de vantagem e caminha tranquila rumo à classificação. O Equador, com 23, consolidou-se como surpresa positiva, enquanto Uruguai e Colômbia, ambos com 20, seguem na briga pelo G-6. O Brasil precisará de pelo menos quatro vitórias nos quatro jogos restantes para garantir a vaga direta sem depender de outros resultados.
Nomes em ascensão e queda
Alguns jogadores aproveitaram a Data Fifa para se firmar, enquanto outros perderam terreno. Veja quem subiu e quem desceu:
- Sobe: Matheus Cunha (personalidade e gol), João Gomes (energia no meio), Weverton (alternativa na meta)
- Desce: Vinicius Júnior (irregularidade), Raphinha (sem criação), André (abaixo do esperado)
A convocação para os próximos jogos pode trazer mudanças. Dorival deve avaliar o retorno de lesionados como Neymar e Éderson, além de dar mais chances a jovens como Endrick, que ainda não deslanchou na seleção.
Histórico contra a Argentina
Enfrentar a Argentina sempre foi um teste de fogo para o Brasil, e o retrospecto recente não favorece. Nos últimos cinco confrontos pelas Eliminatórias, são três derrotas, um empate e uma vitória brasileira. A goleada de 4 a 1 foi a pior desde 2005, quando os argentinos venceram por 4 a 1 em um amistoso na Alemanha.
No Monumental de Núñez, o Brasil não vence desde 1998, quando fez 1 a 0 com gol de Ronaldo. A rivalidade, intensificada pelo título mundial da Argentina em 2022, ganhou mais um capítulo amargo para os brasileiros, que agora buscam redenção nos próximos encontros.
Caminho até 2026
Faltam quatro rodadas para o fim das Eliminatórias, e o Brasil tem confrontos diretos pela frente. Além de Equador e Paraguai em junho, a seleção enfrenta Chile, em casa, e Bolívia, na altitude de La Paz, em setembro. Os jogos definirão se o time de Dorival conseguirá a vaga direta ou se terá de disputar a repescagem, algo inédito em sua história.
A Copa do Mundo de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, terá 48 seleções, com seis vagas diretas para a América do Sul e uma para a repescagem. Com 21 pontos, o Brasil está no caminho, mas a irregularidade exige atenção. A CBF confia em Dorival para ajustar o time, mas o técnico sabe que o tempo para testes está acabando.