A contagem regressiva para um marco na história espacial começou. Em 14 de abril, a cantora Katy Perry embarcará em uma jornada única a bordo da nave New Shepard, operada pela Blue Origin, empresa fundada por Jeff Bezos. O voo, batizado de NS-31, será o 11º com humanos da companhia e está programado para decolar às 10h30, horário de Brasília, a partir de uma base no oeste do Texas, nos Estados Unidos. O diferencial dessa missão é sua tripulação: pela primeira vez, apenas mulheres ocuparão os assentos da cápsula suborbital, cruzando a Linha de Kármán, a 100 quilômetros da Terra, onde a atmosfera dá lugar ao espaço sideral. Além de Perry, cinco outras personalidades notáveis compõem o grupo, trazendo diversidade e representatividade ao projeto.
A escolha de Katy Perry como parte dessa equipe não é apenas simbólica. Conhecida mundialmente por hits como “Firework” e “Roar”, a artista também carrega um histórico de impacto cultural e filantrópico. A Blue Origin destacou sua presença como um reflexo de sua influência global na música e na cultura pop, além de seu trabalho humanitário, como embaixadora da UNICEF e fundadora da Firework Foundation, que apoia jovens de comunidades carentes. A missão, que ocorre na primavera do hemisfério norte, antes do início de sua turnê “Lifetimes”, prevista para começar em 23 de abril, reforça a ideia de que Perry está pronta para inspirar uma nova geração, agora também a partir do espaço.
Já a liderança da missão fica por conta de Lauren Sánchez, jornalista, piloto e noiva de Jeff Bezos, que organizou a equipe. Acompanhando Perry e Sánchez, estarão Aisha Bowe, ex-cientista da Nasa e CEO da STEMBoard, Amanda Nguyen, pesquisadora em bioastronáutica e ativista pelos direitos civis, Gayle King, renomada jornalista da CBS, e Kerianne Flynn, produtora cinematográfica com atuação em causas sociais. Juntas, elas formam um time que combina talento, ciência e influência, prometendo deixar um legado que vai além dos 11 minutos de voo.
Uma missão histórica para as mulheres no espaço
A NS-31 não é apenas mais um voo da Blue Origin; ela carrega um peso histórico significativo. Será a primeira vez desde 1963, quando a cosmonauta soviética Valentina Tereshkova realizou um voo solo, que uma missão espacial tripulada contará exclusivamente com mulheres. Naquele ano, Tereshkova passou quase três dias em órbita, marcando um feito pioneiro. Agora, mais de seis décadas depois, a equipe liderada por Lauren Sánchez busca ecoar esse marco, mas com um enfoque moderno: um voo suborbital que, embora mais curto, simboliza avanços na inclusão e na participação feminina na exploração espacial.
O trajeto da New Shepard é projetado para oferecer uma experiência única. Após a decolagem, a nave atinge uma velocidade superior a três vezes a do som, levando a cápsula acima da Linha de Kármán. Nesse ponto, as passageiras terão cerca de quatro minutos de gravidade zero, com vistas panorâmicas da curvatura da Terra e da escuridão do espaço através das amplas janelas da cápsula. O retorno é feito com o auxílio de paraquedas, pousando suavemente no deserto texano. Todo o processo é autônomo, sem pilotos a bordo, o que destaca a tecnologia avançada da Blue Origin.
Para Katy Perry, a missão é mais do que uma aventura pessoal. Representada no emblema da NS-31 por um fogo de artifício, ela enxerga a viagem como uma oportunidade de inspirar. Sua filha, Daisy, nascida em 2020, e outras crianças ao redor do mundo estão no centro de sua motivação. A cantora já declarou que, desde pequena, acreditava que nada era impossível, e agora quer transmitir essa mensagem diretamente do espaço.
Quem são as seis pioneiras da NS-31
A tripulação da NS-31 reúne mulheres de trajetórias distintas, cada uma trazendo uma perspectiva única para a missão. Conhecer quem elas são ajuda a entender o impacto desse voo.
- Katy Perry: Cantora pop com mais de 115 bilhões de streams, conhecida por sucessos como “I Kissed a Girl” e “Firework”. Além da música, é uma filantropa ativa, com destaque para sua fundação que promove acesso às artes para jovens carentes.
- Lauren Sánchez: Jornalista premiada com um Emmy, autora do livro infantil “The Fly Who Flew to Space” e piloto de helicóptero. Como vice-presidente do Bezos Earth Fund, ela também atua em causas ambientais.
- Aisha Bowe: Ex-cientista da Nasa e fundadora da STEMBoard, empresa de engenharia reconhecida entre as de maior crescimento nos EUA. Será a primeira mulher negra a voar com a Blue Origin.
- Amanda Nguyen: Pesquisadora em bioastronáutica, trabalhou em missões da Nasa como a STS-135. Indicada ao Nobel da Paz em 2019, será a primeira vietnamita no espaço.
- Gayle King: Jornalista da CBS, coapresentadora do “CBS Mornings” e editora da Oprah Daily. Representada por um microfone no emblema da missão, simboliza sua dedicação a contar histórias.
- Kerianne Flynn: Produtora de cinema com trabalhos em organizações como The High Line. Quer inspirar seu filho e a próxima geração com essa experiência.
Essas mulheres não foram escolhidas apenas por suas conquistas, mas pelo que representam. Juntas, elas desafiam estereótipos e mostram que o espaço é um lugar para todos.
O legado da New Shepard e a visão da Blue Origin
A Blue Origin, fundada em 2000 por Jeff Bezos, tem como missão construir um futuro onde milhões de pessoas possam viver e trabalhar no espaço. A New Shepard, nomeada em homenagem a Alan Shepard, o primeiro americano a ir ao espaço em 1961, é um passo nessa direção. Desde seu primeiro voo tripulado em julho de 2021, que levou o próprio Bezos ao espaço, a nave já transportou 52 pessoas acima da Linha de Kármán em 10 missões com humanos até agora.
Diferente de foguetes orbitais, como os da SpaceX, a New Shepard é suborbital, projetada para voos curtos que oferecem uma experiência de turismo espacial. O veículo é reutilizável, com um propulsor movido a oxigênio líquido e hidrogênio líquido, capaz de pousar verticalmente após cada missão. Esse design reduz custos e aumenta a frequência dos lançamentos, algo essencial para a visão de longo prazo da empresa.
A NS-31 será a 31ª missão geral da New Shepard, incluindo voos não tripulados. O sucesso do programa até agora, com celebridades como William Shatner e Michael Strahan entre os passageiros, mostra que o turismo espacial está se tornando uma realidade acessível — pelo menos para quem pode pagar o preço estimado de mais de um milhão de dólares por assento.
Como funciona o voo suborbital da New Shepard
O voo da NS-31 segue um roteiro bem definido, resultado de anos de testes e aprimoramentos. A decolagem ocorre em Launch Site One, no deserto do Texas, uma instalação projetada para suportar as operações da Blue Origin. O foguete, com cerca de 18 metros de altura, é impulsionado por um motor BE-3PM, que proporciona a força necessária para alcançar o espaço em poucos minutos.
Após a separação do propulsor, a cápsula continua subindo até ultrapassar os 100 quilômetros de altitude. Nesse momento, as passageiras experimentam a ausência de gravidade, podendo flutuar dentro da cabine. As janelas, que ocupam mais de um terço da superfície da cápsula, oferecem uma visão privilegiada do planeta e do vazio espacial. O retorno é controlado por paraquedas, com um pequeno motor de foguete ajudando no pouso suave.
A duração total da viagem é de aproximadamente 11 minutos, mas o impacto promete ser duradouro. Para a Blue Origin, cada voo é uma chance de testar tecnologias e inspirar o público, enquanto para as tripulantes, é uma oportunidade de vivenciar algo que poucas pessoas no mundo já experimentaram.
Marcos femininos na exploração espacial
A presença de uma equipe totalmente feminina na NS-31 não é um fato isolado na história espacial, mas sim parte de uma evolução lenta e contínua. Valentina Tereshkova, em 1963, abriu caminho como a primeira mulher no espaço, orbitando a Terra 48 vezes em sua missão Vostok 6. Desde então, outras pioneiras marcaram presença, como Sally Ride, que em 1983 se tornou a primeira americana a ir ao espaço, e Christina Koch e Jessica Meir, que realizaram a primeira caminhada espacial 100% feminina em 2019, fora da Estação Espacial Internacional.
Atualmente, das mais de 600 pessoas que já estiveram no espaço, cerca de 61 são mulheres, segundo dados da Nasa. A NS-31 eleva esse número e reforça a importância de missões que promovam diversidade. Para Amanda Nguyen, por exemplo, ser a primeira vietnamita no espaço é um símbolo de reconciliação entre os Estados Unidos e o Vietnã, enquanto Aisha Bowe quebra barreiras como a primeira negra a voar com a Blue Origin.
Cronograma da missão NS-31
A preparação para o voo de 14 de abril envolve meses de planejamento e treinamento. Veja os principais momentos esperados:
- Anúncio da tripulação: Realizado em 27 de fevereiro, quando a Blue Origin revelou as seis mulheres da NS-31.
- Divulgação da data: Confirmada em 27 de março, com a decolagem marcada para 14 de abril às 10h30 (horário de Brasília).
- Treinamento: As tripulantes passam por sessões para entender o voo, a gravidade zero e os procedimentos de segurança.
- Lançamento: O foguete decola do Texas, levando a cápsula ao espaço em poucos minutos.
- Retorno: Após 11 minutos, a cápsula pousa no deserto com paraquedas.
Esse cronograma reflete o cuidado da Blue Origin em garantir que tudo ocorra sem imprevistos, mantendo a segurança como prioridade.
O impacto cultural de Katy Perry no espaço
Katy Perry não é a primeira celebridade a voar com a Blue Origin, mas sua participação tem um peso especial. Antes dela, William Shatner, o eterno Capitão Kirk de “Star Trek”, tornou-se, aos 90 anos, a pessoa mais velha a ir ao espaço em 2021. Michael Strahan, ex-jogador da NFL, também fez parte de uma missão em 2021. Perry, no entanto, traz um apelo pop único, conectando o espaço a uma audiência global que talvez nunca tenha se interessado pelo tema.
Sua música “Firework”, lançada em 2010, já falava sobre brilhar como fogos de artifício, e agora ela literalmente cruzará o céu. Esse simbolismo foi destacado no emblema da missão, que a representa com um fogo de artifício estilizado. Fora dos palcos, Perry também é conhecida por sua filantropia, o que adiciona uma camada de propósito à viagem.
A turnê “Lifetimes”, que começa nove dias após o voo, pode ganhar um novo significado com essa experiência. Fãs especulam que a cantora trará referências espaciais aos shows, ampliando ainda mais o alcance da missão.
Curiosidades sobre a New Shepard e o voo NS-31
Alguns detalhes tornam essa missão ainda mais interessante. Confira:
- A New Shepard é totalmente reutilizável, com o propulsor pousando verticalmente após cada voo.
- O nome da nave homenageia Alan Shepard, que fez um voo suborbital de 15 minutos em 1961.
- A cápsula tem as maiores janelas já usadas em um veículo espacial, ocupando mais de um terço de sua superfície.
- O voo é autônomo, controlado por computadores a bordo, sem necessidade de pilotos humanos.
- A missão NS-31 será a 11ª com humanos, mas a 31ª no total, incluindo testes e voos de carga.
Esses fatos mostram como a tecnologia da Blue Origin combina inovação e acessibilidade, mesmo em uma escala suborbital.
O futuro do turismo espacial com a Blue Origin
A NS-31 é mais um passo na consolidação do turismo espacial como uma indústria viável. Desde 2021, a Blue Origin já realizou voos regulares, competindo com empresas como a Virgin Galactic, de Richard Branson, e a SpaceX, de Elon Musk. Enquanto a SpaceX foca em missões orbitais e lunares, a New Shepard oferece uma experiência mais acessível, embora ainda restrita a quem pode arcar com os custos elevados.
A empresa também tem planos maiores. Em janeiro, o foguete New Glenn, projetado para órbitas terrestres, fez seu primeiro voo bem-sucedido, embora o propulsor não tenha sido recuperado. Para 2025, estão previstas mais quatro missões com o New Glenn, incluindo projetos para a Nasa e a constelação de satélites Kuiper, da Amazon. A NS-31, portanto, é parte de um esforço mais amplo para democratizar o acesso ao espaço.
Para a Blue Origin, cada passageiro é uma oportunidade de divulgar sua missão. Com Katy Perry e sua equipe feminina, a empresa espera atrair ainda mais atenção, mostrando que o espaço não é apenas para cientistas ou bilionários, mas para qualquer um com um sonho grande o suficiente.
O que esperar do dia 14 de abril
O lançamento da NS-31 está marcado para um momento em que o clima no Texas deve estar favorável, com a primavera trazendo temperaturas amenas ao deserto. A decolagem às 10h30, horário de Brasília, será transmitida ao vivo, permitindo que milhões de pessoas acompanhem Katy Perry e suas colegas cruzando a Linha de Kármán. A expectativa é que o voo siga o padrão das missões anteriores, com a cápsula atingindo o espaço em cerca de três minutos após o lançamento.
Após os quatro minutos de gravidade zero, o retorno será rápido, com o pouso previsto para 10h41. A Blue Origin já demonstrou precisão em seus pousos, e a equipe no solo estará pronta para receber as tripulantes. Para Perry, Sánchez, Bowe, Nguyen, King e Flynn, esses 11 minutos podem transformar suas perspectivas sobre a Terra e o universo.
A missão também terá um impacto imediato na agenda de Katy Perry. Com sua turnê começando em 23 de abril, ela terá pouco tempo para processar a experiência antes de subir aos palcos. Isso, no entanto, só aumenta a curiosidade sobre como o voo influenciará sua arte e sua mensagem.
Detalhes técnicos que impressionam
A New Shepard é uma obra de engenharia notável. Seu motor BE-3PM, que usa hidrogênio e oxigênio líquidos, gera um empuxo que leva a cápsula a mais de 3.700 km/h. O sistema de escape, testado com sucesso em 2022 após uma falha em um voo não tripulado, garante a segurança das passageiras em caso de emergência. A cápsula, por sua vez, é equipada com três paraquedas principais e um motor de pouso que suaviza o impacto no solo.
A reutilização do propulsor é outro destaque. Após se separar da cápsula, ele retorna ao solo em um pouso vertical controlado, uma tecnologia que a Blue Origin aperfeiçoou ao longo dos anos. Esse processo não só reduz custos, mas também permite um ritmo mais frequente de missões, algo essencial para o turismo espacial.
Para as tripulantes, o treinamento incluiu simulações de gravidade zero e instruções sobre como aproveitar ao máximo as janelas da cápsula. A experiência promete ser tão técnica quanto emocionante, unindo ciência e inspiração em um único voo.

