Um terremoto de magnitude 7,7 abalou Mianmar na última sexta-feira, 28 de março, deixando um rastro de destruição sem precedentes no país do Sudeste Asiático. Edifícios desmoronaram, pontes colapsaram e comunidades inteiras foram dizimadas, especialmente na região central, com a cidade de Mandalay sendo uma das mais atingidas. A estimativa inicial aponta para mais de 10 mil mortos, número que pode crescer à medida que os escombros são removidos e as equipes de resgate acessam áreas isoladas. Sob o comando de uma junta militar desde 2021, o país já enfrentava uma guerra civil e agora lida com uma catástrofe natural que expõe suas fragilidades estruturais e sociais. A agricultura, base da economia local, também foi duramente afetada, ameaçando a segurança alimentar de milhões de habitantes.
A tragédia ocorre em um momento crítico para Mianmar, que tem 54 milhões de habitantes e uma história marcada por instabilidade política. O golpe militar liderado pelo general Min Aung Hlaing, há quatro anos, mergulhou o país em um conflito interno que já deslocou milhares de pessoas. O terremoto agravou essa crise, dificultando o acesso a suprimentos básicos como água, comida e abrigo. Relatos indicam que duas grandes pontes na região central desabaram, isolando vilarejos e cidades menores. Em Mandalay, a segunda maior cidade do país, imagens mostram moradores caminhando entre destroços, enquanto equipes de emergência tentam organizar os trabalhos de busca por sobreviventes.
Embora Naypyidaw seja a capital oficial desde 2005, substituindo Yangon como centro administrativo, é em cidades como Mandalay e nas áreas rurais que o impacto do desastre se faz mais sentir. Cerca de 40% da população vive abaixo da linha da pobreza, e a infraestrutura precária dificulta a resposta ao terremoto. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) alertou que tremores secundários ainda podem atingir a região nos próximos dias, aumentando o risco para uma população já vulnerável.
Localização e contexto de Mianmar
Situado no Sudeste Asiático, Mianmar faz fronteira com países como China, Índia, Bangladesh, Laos e Tailândia. Com uma área de 676.578 km², é o maior país continental da região, mas sua geografia montanhosa e propensa a falhas tectônicas o torna suscetível a desastres naturais. O epicentro do terremoto foi registrado a cerca de 80 quilômetros de Mandalay, em uma profundidade de 20 quilômetros, o que amplificou os danos na superfície. A localização estratégica do país, entre grandes potências asiáticas, já atraiu atenção internacional no passado, mas hoje o isolamento imposto pelo regime militar dificulta a chegada de ajuda externa.
Historicamente, Mianmar foi colônia britânica por mais de um século, até conquistar a independência em 1948. Durante esse período, era conhecido como Birmânia, nome alterado oficialmente em 1989 para refletir a identidade local e apagar vestígios do colonialismo. A população é majoritariamente birmanesa, representando 70% dos habitantes, mas etnias como shan e karen também compõem o mosaico cultural do país. Essa diversidade, porém, tem sido fonte de tensões, especialmente desde o golpe de 2021, que intensificou os conflitos entre o regime e grupos minoritários.
Impactos imediatos do terremoto
A destruição causada pelo terremoto de magnitude 7,7 atingiu ao menos cinco cidades, com relatos de colapsos estruturais em hospitais, escolas e residências. Em Mandalay, prédios históricos e modernos sofreram danos irreparáveis, enquanto vilarejos rurais, muitas vezes construídos com materiais frágeis, foram completamente arrasados. Duas pontes essenciais para o transporte local desmoronaram, cortando o acesso a suprimentos e equipes de resgate. Autoridades locais estimam que milhares de pessoas estejam desalojadas, enfrentando a falta de abrigo em meio a chuvas sazonais que agravam as condições no terreno.
O regime militar, que governa Mianmar desde o golpe de 2021, enfrenta críticas por sua resposta lenta ao desastre. Enquanto equipes de busca e salvamento tentam alcançar as áreas afetadas, relatos indicam que ataques contra civis continuaram em outras regiões do país, mesmo após o terremoto. A guerra civil, que opõe a junta militar a grupos rebeldes e à população descontente, já havia deixado marcas profundas, com campos de deslocados internos lotados antes mesmo do desastre natural. A combinação de repressão política e catástrofe ambiental cria um cenário de caos que especialistas classificam como uma das piores crises humanitárias da história recente de Mianmar.
Cerca de 70% da economia do país depende da agricultura, com o arroz sendo o principal cultivo. As áreas atingidas pelo terremoto incluem regiões agrícolas importantes, onde plantações foram destruídas por deslizamentos de terra e inundações secundárias. Com a infraestrutura danificada, o transporte de alimentos para outras partes do país também foi comprometido, o que pode levar a uma crise de abastecimento nas próximas semanas.
- Principais danos registrados até o momento:
- Colapso de duas pontes na região central.
- Destruição de edifícios em Mandalay e outras quatro cidades.
- Deslizamentos de terra em áreas rurais, afetando plantações de arroz.
- Interrupção de energia elétrica e comunicação em diversas localidades.

Governança e instabilidade política
Governado por uma junta militar desde fevereiro de 2021, Mianmar vive um período de turbulência que começou com a deposição da líder civil Aung San Suu Kyi. Ela comandava a Liga Nacional pela Democracia (NLD), que venceu as eleições de 2020 com 83% dos cargos disputados. Os militares, porém, rejeitaram o resultado, alegando fraudes, e tomaram o poder, desencadeando protestos em massa e uma guerra civil que persiste até hoje. O general Min Aung Hlaing, líder do regime, mantém o controle com mão de ferro, mas o terremoto expôs as limitações do governo em lidar com crises de grande escala.
Antes do golpe, Mianmar experimentou um breve período democrático, entre 2015 e 2021, após décadas de regimes autoritários iniciados em 1962. A independência do Reino Unido, em 1948, marcou o início de uma era de instabilidade, com governos civis frágeis e sucessivas ditaduras militares. A transição para a democracia, liderada por Aung San Suu Kyi, trouxe esperança, mas foi interrompida abruptamente. Hoje, o país enfrenta sanções internacionais e isolamento, o que complica ainda mais a resposta ao desastre atual.
A capital, Naypyidaw, planejada e construída para ser o centro administrativo, permanece distante da realidade da maioria dos 54 milhões de habitantes. Yangon, por outro lado, continua sendo o coração econômico, mas mesmo lá os efeitos indiretos do terremoto são sentidos, com a interrupção de cadeias de suprimentos. A pobreza, que atinge 40% da população, agrava a vulnerabilidade do país a eventos como esse.
Desafios para o resgate e reconstrução
Coordenar esforços de resgate em um país fragmentado por conflitos é uma tarefa hercúlea. Estradas bloqueadas por escombros e pontes destruídas dificultam o acesso às áreas mais afetadas. Em Mandalay, voluntários locais se uniram às equipes oficiais, mas a falta de equipamentos pesados limita o progresso. Hospitais da região estão sobrecarregados, com muitos danificados pelo terremoto, forçando médicos a atender pacientes em tendas improvisadas ao ar livre.
A guerra civil adiciona outra camada de complexidade. Grupos rebeldes, que controlam partes do território, também foram impactados pelo desastre, mas a desconfiança mútua impede uma colaboração efetiva com o regime militar. Em algumas áreas, moradores relatam que a ajuda está sendo distribuída de forma desigual, priorizando regiões leais ao governo. Enquanto isso, a comunidade internacional observa, mas sanções impostas à junta militar dificultam o envio de assistência humanitária em larga escala.
A economia agrícola, já fragilizada, enfrenta um futuro incerto. Pequenos agricultores, que representam a maioria dos trabalhadores rurais, perderam colheitas e ferramentas, e a reconstrução das áreas afetadas pode levar anos. Com 70% da população dependendo diretamente ou indiretamente da agricultura, o impacto econômico do terremoto reverberará por muito tempo.
Cronologia dos eventos recentes em Mianmar
Entender o contexto do terremoto exige olhar para os acontecimentos que moldaram o país nos últimos anos. Confira os principais marcos:
- 1948: Independência do Reino Unido, início de um governo civil instável.
- 1962: Golpe militar instaura décadas de ditadura.
- 1989: Mudança oficial do nome de Birmânia para Mianmar.
- 2015: Primeiras eleições democráticas vencidas pela NLD.
- 2020: NLD vence novamente, mas resultado é contestado pelos militares.
- 2021: Golpe militar depõe Aung San Suu Kyi e inicia guerra civil.
- 28 de março de 2025: Terremoto de 7,7 atinge o centro do país.
Situação humanitária em números
Dados preliminares mostram a gravidade da crise em Mianmar após o terremoto. A combinação de desastres naturais e conflitos armados coloca milhões de pessoas em risco iminente. Abaixo, alguns números que ilustram o cenário:
- Mais de 10 mil mortos estimados pelo USGS.
- 54 milhões de habitantes, dos quais 40% vivem na pobreza.
- 70% da economia baseada na agricultura, agora ameaçada.
- 5 cidades gravemente atingidas, com infraestrutura colapsada.
A resposta ao terremoto segue em andamento, mas o ritmo é lento. Em áreas rurais, famílias inteiras permanecem desaparecidas, enquanto nas cidades os sobreviventes lutam para encontrar comida e abrigo. O regime militar, pressionado internamente pela guerra civil e externamente por sanções, enfrenta um teste de sua capacidade de governança em um momento em que o povo de Mianmar mais precisa de liderança.