Dependência de programas importados cresce e põe em risco o futuro da TV aberta

TV Televisão

TV Televisão - Foto: Yuganov Konstantin / Shutterstock.com

A televisão brasileira, outrora marcada por soluções criativas diante de recursos escassos, vive hoje uma transformação silenciosa que preocupa especialistas e profissionais do meio. Nos primórdios, a falta de orçamento transformava a produção em um desafio diário, mas foi justamente esse cenário de improviso que forjou uma identidade única, levando programas nacionais a conquistar espaço no imaginário popular e até no mercado internacional. Dos radialistas pioneiros às grandes produções que marcaram época, o Brasil desenvolveu um jeito próprio de fazer TV, com destaque para telenovelas e programas de auditório que atravessaram fronteiras. No entanto, nas últimas décadas, a crescente adoção de formatos estrangeiros, como reality shows e competições culinárias, mudou esse panorama, trazendo comodidade às emissoras, mas levantando questionamentos sobre a perda de originalidade e autonomia criativa no setor.

Esse movimento começou a ganhar força no final dos anos 1990, com a chegada do “Big Brother Brasil” (BBB) na Globo, em 2002, inspirado no formato holandês criado pela Endemol. Desde então, emissoras abertas, a cabo e plataformas de streaming passaram a importar cada vez mais modelos prontos, de programas como “A Fazenda” na Record a competições musicais e de culinária que inundam a grade. A tendência, embora global, tomou proporções especialmente intensas no Brasil, onde a busca por audiência fácil e custos previsíveis parece ter substituído o investimento em ideias originais. O resultado é um cenário em que a execução de “cartilhas” importadas prevalece sobre a criação, com emissoras se limitando a adaptar roteiros já testados em outros países.

Profissionais do setor observam que essa dependência não é apenas uma questão de preferência, mas um reflexo da falta de vontade ou capacidade de inovar dentro das próprias emissoras. A televisão aberta, que já foi celeiro de talentos e formatos exportados para dezenas de países, hoje corre o risco de se tornar refém de um ciclo vicioso: menos investimento em criação leva a menos produções de qualidade, o que, por sua vez, reforça a busca por soluções prontas de fora. O impacto financeiro é difícil de mensurar, mas o prejuízo cultural já se faz sentir, com o Brasil desaprendendo, aos poucos, o que o tornou referência no passado.

Formatos que moldaram a TV brasileira

Alguns programas importados se tornaram ícones na programação nacional, consolidando essa tendência:

  • “Big Brother Brasil” (Globo): Estreou em 2002 e abriu caminho para os realities no país.
  • “A Fazenda” (Record): Lançado em 2009, segue o modelo de confinamento com famosos.
  • “MasterChef” (Band): Desde 2014, adapta o formato britânico de competição culinária.
  • “The Voice Brasil” (Globo): Estreou em 2012, baseado no original holandês.

Das origens ao domínio externo

Nos anos 1950, quando a TV Tupi transmitiu as primeiras imagens no Brasil, a criatividade era a principal moeda de troca. Sem infraestrutura robusta ou tecnologia avançada, os produtores recorriam a improvisos e ao talento de artistas do rádio para preencher a grade. Foi nesse contexto que surgiram programas como “O Céu é o Limite”, de J. Silvestre, e as primeiras telenovelas, como “Sua Vida Me Pertence”, em 1951. Essas produções, simples mas inovadoras, pavimentaram o caminho para uma indústria que, nas décadas seguintes, se tornaria uma das mais prolíficas do mundo, especialmente com o sucesso global das novelas da Globo a partir dos anos 1970.

A virada veio com a globalização e a pressão por resultados rápidos. Emissoras passaram a enxergar nos formatos estrangeiros uma fórmula segura: audiência garantida, custos controlados e menos risco criativo. O “BBB”, por exemplo, trouxe um modelo que já havia sido testado na Europa e nos Estados Unidos, adaptado ao gosto brasileiro com participantes carismáticos e uma edição ágil. A estratégia deu certo, e o programa se tornou um dos pilares da Globo, mas abriu as portas para uma enxurrada de adaptações que hoje dominam a TV aberta e paga. De “Power Couple” a “Bake Off Brasil”, a grade reflete uma preferência por importar em vez de criar, uma escolha que economiza tempo, mas compromete a identidade local.

O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Países como Argentina e México também importam formatos, mas mantêm uma produção autoral robusta, com novelas e séries que continuam a competir no mercado internacional. Aqui, porém, a balança pende cada vez mais para o lado externo, com emissoras priorizando parcerias com produtoras globais em vez de desenvolver talentos internos. A consequência é um esvaziamento gradual da capacidade criativa, com equipes reduzidas a seguir manuais prontos, sem espaço para experimentação ou ousadia.

BBB 1 – Foto: Divulgação

O custo da falta de inovação

A televisão brasileira enfrenta hoje um paradoxo: enquanto a audiência de programas importados segue alta, a qualidade geral das produções locais despenca. Emissoras como Globo, Record, SBT e Band, que já foram sinônimos de inovação, agora lidam com grades repletas de reprises, chamadas excessivas e intervalos comerciais sem anunciantes. Esse cenário reflete uma crise que vai além do financeiro: a preguiça criativa e a troca de profissionais experientes por equipes menos qualificadas, muitas vezes motivadas por corte de custos, deixam marcas visíveis no ar. O público percebe a queda na qualidade, mas a solução mais comum tem sido dobrar a aposta em formatos de fora.

Nos bastidores, o clima é de estagnação. A falta de investimento em roteiristas, diretores e produtores locais faz com que ideias originais fiquem na gaveta, enquanto os formatos importados, com suas regras rígidas, exigem apenas execução mecânica. Um exemplo recente é o “Power Couple”, que retorna à Record em 28 de abril com Rafaella Brites e Felipe Andreoli, seguindo o mesmo molde de confinamento e provas que já saturou o gênero. A emissora aposta em divulgação pesada, mas o formato, criado na Europa, pouco traz de novo ao público brasileiro, evidenciando a dificuldade de romper com o ciclo.

A TV aberta, em especial, sente o peso dessa escolha. Dados mostram que, entre 1982 e 2008, o número médio de televisores ligados caiu de 65% para 42%, uma tendência que se agravou com a ascensão do streaming e a perda de relevância das emissoras tradicionais. Programas como “Galvão e Amigos”, que estreou na Band em março, tentam resgatar o apelo do esporte ao vivo, mas a falta de campanhas amplas fora da própria emissora limita seu alcance. A sensação é de que a TV brasileira corre atrás do próprio rabo, incapaz de se reinventar em um mercado dominado por gigantes digitais como Netflix e Globoplay.

Talentos trocados por conveniência

Substituir experiência por conveniência tornou-se prática comum nas emissoras. Profissionais com décadas de carreira, que entendem os nuances da produção televisiva, são frequentemente dispensados em favor de equipes mais baratas e menos preparadas. Esse movimento é visível na qualidade dos programas: direções apáticas, roteiros previsíveis e uma enxurrada de “calhaus” — jargão para conteúdos de baixa audiência que servem apenas para preencher a grade. A Globo, que já foi referência em dramaturgia, agora reduz seu elenco fixo, enquanto o SBT, sob Daniela Beyruti, tenta se reorganizar abrindo espaço para nomes como Boninho, mas ainda depende de formatos testados.

A Record, por sua vez, investe em realities como “A Fazenda” e “Power Couple”, mas não consegue replicar o impacto cultural de suas novelas bíblicas, que, embora criticadas, eram produções originais. Na Band, a aposta em esportes e culinária, como o “MasterChef”, segue o mesmo padrão: formatos prontos que dispensam o esforço de criar algo novo. A TV Cultura, com a nova versão de “Mundo da Lua”, tenta resgatar um clássico nacional, mas a produção, em parceria com a Mixer Filmes, ainda é uma exceção em um mar de adaptações estrangeiras.

O jornalismo esportivo também reflete essa mudança. Antes, comentaristas mantinham discrição sobre preferências clubísticas para preservar a credibilidade. Hoje, emissoras contratam figuras que exibem abertamente suas torcidas, transformando a análise em militância. Essa perda de imparcialidade, combinada com a falta de produções robustas, mina a confiança do público e reforça a percepção de que a TV brasileira está mais preocupada em entreter do que em informar ou inovar.

Marcos da influência estrangeira na TV

A adoção de formatos internacionais segue uma linha do tempo clara:

  • 2002: Estreia do “Big Brother Brasil” na Globo, marco dos realities no país.
  • 2009: “A Fazenda” chega à Record, consolidando o gênero de confinamento.
  • 2012: “The Voice Brasil” estreia, trazendo competições musicais ao mainstream.
  • 2014: “MasterChef” na Band populariza os programas culinários.
  • 2025: “Power Couple” retorna à Record, mantendo a tendência.

O futuro incerto da TV aberta

A TV aberta brasileira, que já exportou novelas para mais de 100 países, agora luta para manter relevância em um cenário dominado pelo streaming. Plataformas como Netflix e Amazon Prime investem em conteúdo original, enquanto as emissoras tradicionais se limitam a adaptar o que já foi feito fora. O Globoplay, por exemplo, tenta competir com séries nacionais, mas a matriz da Globo ainda depende de formatos como o “BBB” para segurar a audiência. A Record, com suas campanhas para o “Power Couple”, e a Band, com “Galvão e Amigos”, mostram esforço, mas a falta de alcance além da própria base de telespectadores evidencia a dificuldade de romper o ciclo.

A gestão atual das emissoras também é alvo de críticas. Executivos que parecem desconectados do que vai ao ar priorizam cortes de custo em vez de qualidade, trocando talentos por soluções baratas. O SBT, sob Daniela Beyruti, busca um novo rumo com iniciativas como o “Bate-Papo” com colaboradores, mas o caminho é longo. A TV Cultura, com “Mundo da Lua” estrelado por Sabrina Souza e Alexandra Martins, oferece um sopro de criatividade, mas não é suficiente para reverter a tendência geral. A sensação é de que a televisão brasileira, antes um motor de cultura, agora sobrevive de migalhas importadas, incapaz de reacender o brilho de outrora.

A audiência, por sua vez, sente os efeitos. Programas como “Mania de Você”, novela recente da Globo, encerram seus ciclos sem o impacto de clássicos do passado, enquanto o BandNews TV avalia nomes como Thalita Almeida para suprir saídas como a de Regina Dourado. A Paramount+ traz reforços como Marcelo Hazan, ex-Cazé TV, para cobrir eventos esportivos, mas a TV aberta segue refém de uma fórmula que privilegia o previsível. O resultado é uma grade que, embora funcional, carece de alma, distante do tempo em que o Brasil ditava tendências ao mundo.

Um alerta para o setor

O domínio dos formatos estrangeiros não é apenas uma questão de mercado, mas um sintoma de uma crise mais profunda. A televisão brasileira, que já foi escola de criatividade, hoje se vê diante de um dilema: continuar apostando em modelos prontos ou redescobrir sua capacidade de inventar. A troca de profissionais qualificados por equipes inexperientes, aliada à falta de investimento em ideias novas, cria um vazio que os realities não conseguem preencher. O público, cada vez mais conectado ao streaming, busca histórias que reflitam sua realidade, algo que as “cartilhas” importadas raramente entregam.

A presença de formatos como “BBB” e “MasterChef” não é o problema em si, mas sua onipresença sim. Países como o Reino Unido, berço de muitos desses programas, equilibram adaptações com produções originais, algo que o Brasil parece ter esquecido. A TV Cultura tenta resgatar essa essência com “Mundo da Lua”, mas o esforço isolado não basta. Enquanto as emissoras não investirem em talentos locais e em narrativas próprias, o risco de se tornarem meras franquias de conteúdos estrangeiros só aumenta, ameaçando o legado de uma indústria que já foi sinônimo de inovação.

A voz dos profissionais ecoa esse alerta. A televisão precisa de gente que entenda o ofício, de diretores a roteiristas, e não de executores de manuais. O SBT, com sua reestruturação, e a Globo, com sinais de retomada no elenco fixo, mostram que há espaço para mudança, mas a inércia é grande. O futuro da TV brasileira depende de uma escolha: abraçar o passado criativo ou sucumbir à facilidade do presente importado. Por enquanto, o equilíbrio pende para o segundo caminho.

Números que mostram a tendência

A influência dos formatos estrangeiros na TV brasileira pode ser vista em alguns dados:

  • 65% dos lares tinham TVs ligadas diariamente entre 1982 e 1991; em 2008, esse índice caiu para 42%.
  • 90% do conteúdo da Globo era nacional nos anos 1970; hoje, realities importados dominam a grade.
  • Mais de 20 formatos estrangeiros estão em exibição nas principais emissoras em 2025.