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Entregadores param por 48 horas e cobram R$ 10 por corrida em protesto nacional

Motoboy Delivery
Motoboy Delivery - Foto: F Armstrong Photography/Shutterstock.com Motoboy Delivery - Foto: F Armstrong Photography/Shutterstock.com

A segunda-feira, 31 de março, marcou o início de uma paralisação nacional de entregadores de aplicativos que se estende até esta terça-feira, 1º de abril. O movimento, conhecido como “Breque Nacional dos Apps”, reúne trabalhadores de diversas cidades em um grito por melhores condições de trabalho e remuneração mais justa. Organizado por lideranças como a Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativos, o protesto reflete a insatisfação de uma categoria que enfrenta jornadas exaustivas, custos elevados e falta de suporte das plataformas de delivery. Entre as principais reivindicações estão a definição de uma taxa mínima de R$ 10 por entrega, o aumento do pagamento por quilômetro rodado de R$ 1,50 para R$ 2,50, a limitação de entregas de bicicleta a 3 quilômetros e o pagamento integral para corridas agrupadas. A mobilização, que já atinge dezenas de cidades, expõe o desgaste de um setor essencial, mas frequentemente negligenciado.

Nicolas Santos, uma das vozes do Comando Nacional do Breque, detalhou o impacto das condições atuais. Ele explica que, para alcançar a mesma renda de dez anos atrás, os entregadores precisam trabalhar até 13 horas diárias, sacrificando manutenção de veículos e itens de segurança para pagar contas básicas. A categoria, segundo ele, sente-se abandonada tanto pelas empresas quanto pelo poder público.

Em Santa Catarina, pelo menos 15 cidades aderiram à paralisação, enquanto em São Paulo manifestantes percorreram pontos estratégicos como a Avenida Paulista e a sede do iFood em Osasco. A mobilização também ganhou força nas redes sociais, com a página “Breque Nacional dos Apps” servindo como canal de divulgação e organização.

Principais demandas dos entregadores

A pauta dos entregadores é clara e reflete anos de insatisfação acumulada. Veja os pontos centrais:

  • Taxa mínima de R$ 10 por entrega, contra os atuais R$ 6,50 pagos pelo iFood.
  • Aumento do valor por quilômetro rodado de R$ 1,50 para R$ 2,50, considerando os custos com combustível e manutenção.
  • Limitação de 3 quilômetros para entregas de bicicleta, visando reduzir o esforço físico.
  • Pagamento cheio para cada pedido em rotas agrupadas, sem redução de valores.

O peso das longas jornadas

Nicolas Santos não hesita em expor a realidade por trás do trabalho com aplicativos. Ele destaca que as condições atuais forçam jornadas de até 15 horas para uma renda mínima, o que compromete a saúde e a segurança dos entregadores. “A gente roda mais, gasta mais gasolina e desgasta os veículos, mas os custos recaem sobre nós”, afirma. Esse cenário é agravado pela falta de reajustes significativos nas tarifas, que não acompanham a inflação ou o aumento dos preços de combustíveis e peças. Em muitos casos, trabalhadores deixam de comprar capacetes ou regularizar documentos por priorizar despesas essenciais, como alimentação e moradia.

O SindimotoSP, sindicato que representa motoboys e entregadores em São Paulo, reforça essa crítica. A entidade aponta que há uma geração de trabalhadores enfrentando acidentes graves, sequelas permanentes e até mortes nas ruas, sem apoio adequado das plataformas. “São explorados como escravos em pleno século 21”, declarou o sindicato, cobrando ações concretas do governo federal para reverter a precarização.

Para os entregadores, a greve é uma tentativa de chamar a atenção para problemas que se arrastam há anos. A expectativa, segundo Santos, é que a paralisação pressione tanto as empresas quanto as autoridades a dialogarem, com a possibilidade de novos protestos caso as demandas não sejam atendidas.

Reação das empresas de delivery

As plataformas reagiram ao movimento com comunicados que destacam seus esforços, mas sem compromissos imediatos. O iFood informou que estuda um reajuste nas tarifas para este ano e elencou aumentos realizados nos últimos anos: em 2022, a taxa mínima subiu de R$ 5,31 para R$ 6,00 e o valor por quilômetro rodado passou de R$ 1,00 para R$ 1,50; em 2023, a taxa mínima foi ajustada para R$ 6,50, acima da inflação; e, em 2024, foi introduzido um adicional de R$ 3 por entrega extra em rotas agrupadas. A empresa afirma que o ganho bruto por hora trabalhada é quatro vezes maior que o salário mínimo-hora nacional, enquanto os ganhos líquidos médios superam em 2,2 vezes esse valor, conforme pesquisa do Cebrap.

A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa Uber, 99 e outras empresas, declarou respeitar o direito de manifestação e manter diálogo contínuo com os entregadores. Segundo a entidade, a renda média da categoria cresceu 5% acima da inflação entre 2023 e 2024, atingindo R$ 31,33 por hora trabalhada. A Amobitec também defende a regulamentação do trabalho por plataformas, mas dentro de um modelo que equilibre as demandas dos trabalhadores e os interesses dos usuários.

Já o Movimento Inovação Digital (MID), que reúne mais de 180 empresas, incluindo Rappi, afirmou estar aberto a discutir soluções que promovam dignidade aos trabalhadores sem comprometer a inovação do setor. Uber e 99 optaram por se posicionar via Amobitec, enquanto o iFood reforçou seu compromisso com melhorias graduais.

Impactos da paralisação nas cidades

A greve de dois dias já afeta o funcionamento do delivery em várias regiões. Em São Paulo, centenas de entregadores se reuniram na praça Charles Miller, no Pacaembu, e seguiram até o MASP, na Avenida Paulista, com escolta policial. O grupo também foi à sede do iFood em Osasco, exigindo uma reunião com representantes da empresa. Em Brasília, um ato está marcado para esta terça-feira, às 9h, na Esplanada dos Ministérios, com previsão de 500 participantes, entre entregadores e motoristas de aplicativos.

Na Grande São Paulo, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel SP) relatou quedas significativas nas entregas. Estabelecimentos que dependem exclusivamente do iFood enfrentaram redução de 100% no movimento durante a paralisação, enquanto aqueles com múltiplas plataformas registraram perdas entre 70% e 80%. Já os negócios com frota própria viram aumento de até 50% na demanda, aproveitando a pausa dos apps.

Em Santa Catarina, a adesão em 15 cidades enfraqueceu a operação de plataformas como iFood, Uber Eats e Rappi. Anderson “Gaúcho”, presidente do Sindimoto/SC, lamentou a falta de união entre os trabalhadores, o que reduziu o impacto do primeiro dia de greve. Ainda assim, a paralisação segue até o fim desta terça-feira.

Histórico de mobilizações da categoria

Os entregadores de aplicativos não estão em sua primeira luta. Desde 2020, o “Breque dos Apps” tem sido um marco na resistência da categoria. A primeira paralisação, em julho daquele ano, ocorreu durante a pandemia, quando a demanda por delivery explodiu, mas as condições de trabalho pioraram. Na época, os trabalhadores pediam equipamentos de proteção contra a covid-19, aumento das taxas mínimas e fim de bloqueios injustificados nas plataformas.

Em 2021, greves regionais em cidades como Paulínia, Jundiaí e São José dos Campos, no interior de São Paulo, duraram dias, com bloqueios em shoppings e restaurantes. A mobilização atual, however, é vista como uma das maiores, com adesão em pelo menos 59 cidades, segundo organizadores. A pauta evoluiu, mas o cerne permanece: remuneração justa e segurança no trabalho.

A tentativa de regulamentação pelo governo federal, iniciada em 2023 com um grupo de trabalho no Ministério do Trabalho, fracassou após as empresas rejeitarem propostas que incluíam direitos básicos, como descanso remunerado e cobertura para acidentes. O Projeto de Lei Complementar 12/2024, apresentado em março deste ano, também não avançou, sendo criticado por lideranças como Abel Rodrigues dos Santos, da Atam-DF/GO, por favorecer as plataformas em detrimento dos trabalhadores.

Cronograma da greve e próximos passos

Os dois dias de paralisação seguem um planejamento claro:

  • 31 de março: Início da greve com atos em cidades como São Paulo, Belém e Florianópolis.
  • 1º de abril: Continuação dos protestos, com destaque para o ato em Brasília e mobilizações em mais de 40 cidades de 18 estados.
  • Pós-greve: Avaliação dos resultados e planejamento de uma nova paralisação em 30 dias, caso as demandas não sejam atendidas, conforme promessa de Nicolas Santos.

A voz das ruas

Bruno Gustavo, entregador há dez anos em São Paulo, participou do protesto no Pacaembu e descreveu a rotina da categoria. “Começamos às 8h e passamos o dia andando pela cidade, sem fazer entregas, só reivindicando”, conta. Para ele, o valor atual de R$ 6,50 por corrida não compensa os riscos e custos, e a meta de R$ 10 é o mínimo para uma vida digna. Mais de 200 motociclistas se juntaram a ele em pontos como Butantã, Lapa e Paulista.

Abel Rodrigues, de Brasília, reforça a exaustão física e mental dos trabalhadores. “Temos casos de invalidez, depressão e sobrecarga. Isso é desumano”, diz. Ele critica o modelo de pedidos agrupados, que reduz os ganhos, e a falta de avanços desde 2019, quando as negociações com as empresas começaram.

Daniele, uma ciclista de Florianópolis, destacou a dificuldade das entregas de bicicleta. “Pedalar mais de 3 quilômetros com carga, no trânsito, é exaustivo e mal pago”, afirma. A limitação de distância é uma das bandeiras mais defendidas por quem usa esse meio de transporte.

O que dizem os números

Dados recentes mostram a dimensão do problema. A renda média de R$ 31,33 por hora, citada pela Amobitec, é contestada por entregadores, que dizem trabalhar até 15 horas para alcançar R$ 60 diários em algumas regiões. Um levantamento do Cebrap, de 2023, apontou que os ganhos líquidos médios no iFood são 2,2 vezes o salário mínimo-hora, mas os custos com combustível, manutenção e alimentação corroem essa margem. Entre 2023 e 2024, o preço da gasolina subiu cerca de 10%, enquanto as tarifas das plataformas tiveram ajustes inferiores a 5%.

Pressão por mudanças

A greve expõe um impasse que vai além das empresas. O SindimotoSP cobra do governo federal, em especial do presidente Lula e do ministro Luís Marinho, ações prometidas há dois anos para regulamentar o setor. “As empresas ditam as regras, e o poder público se omite”, diz a entidade. A categoria sente que, sem intervenção estatal, as plataformas continuarão priorizando lucros em vez de direitos.

Organizações como a Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB) e a Associação dos Motoboys, Motogirls e Entregadores de Juiz de Fora (Ammejuf) apoiam o movimento, que também denuncia práticas antissindicais, como bônus oferecidos para desmobilizar os trabalhadores. A resposta das empresas, até agora, limita-se a promessas de diálogo e ajustes futuros, mas sem atender às demandas imediatas.

Para os entregadores, o “Breque Nacional” é mais que uma paralisação: é um alerta. Com atos nas ruas e apoio crescente nas redes, eles buscam visibilidade para uma luta que impacta milhões de trabalhadores e usuários do delivery no país.

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