A celebração do Dia Mundial da Saúde, marcada para 7 de abril, abriu as portas para uma campanha global de um ano que promete transformar a realidade de milhões de mulheres e bebês ao redor do mundo. Batizada de “Inícios saudáveis, futuros esperançosos”, a iniciativa liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tem como objetivo principal enfrentar um desafio alarmante: cerca de 300 mil mulheres morrem anualmente devido a complicações relacionadas à gravidez ou ao parto, enquanto mais de 2 milhões de recém-nascidos não sobrevivem ao primeiro mês de vida ou já nascem mortos. Esses números revelam uma média de uma morte evitável a cada sete segundos, um cenário que a campanha busca reverter com urgência.
A ação chega em um momento crítico. Dados recentes mostram que quatro em cada cinco países estão longe de alcançar as metas globais de redução da mortalidade materna estabelecidas para 2030. Esse atraso reflete desigualdades no acesso a cuidados de saúde, falta de investimentos em políticas públicas e a ausência de suporte adequado no período pós-parto, uma fase em que milhões de mulheres ainda não recebem atenção essencial. No Brasil, o Ministério da Saúde reforça que toda gestante tem direito a atendimento completo durante a gravidez, o parto e o puerpério, destacando a importância do pré-natal para prevenir complicações.
Por trás dos números, há histórias de luta e resiliência. A campanha não apenas chama a atenção para as estatísticas, mas também busca mobilizar governos, profissionais de saúde e a sociedade civil. O foco está em aumentar a conscientização sobre as lacunas existentes, incentivar investimentos em soluções eficazes e promover uma ação coletiva que fortaleça o suporte a mães e bebês. A OMS enfatiza que o apoio de profissionais capacitados, que escutem as preocupações das mulheres e atendam às suas necessidades, é um passo fundamental para mudar essa realidade.
Saúde materna em foco no Brasil e no mundo
O cuidado com a saúde materna ganhou destaque na agenda global com o lançamento dessa campanha. No Brasil, a rede de atenção à saúde da gestante e da criança é uma política pública consolidada que visa garantir direitos básicos às mulheres em todas as etapas da maternidade. O acompanhamento pré-natal, por exemplo, é apontado como uma ferramenta essencial na redução de riscos. Ele deve começar, idealmente, até a 12ª semana de gestação, com consultas mensais até a 28ª semana, quinzenais até a 36ª semana e semanais até o parto.
Durante essas consultas, são realizados procedimentos como medição da pressão arterial, avaliação do peso, verificação da altura uterina, monitoramento dos batimentos cardíacos fetais e análise de exames laboratoriais. Esses passos ajudam a identificar e tratar precocemente problemas que podem comprometer a saúde da mãe ou do bebê. A adesão a esse acompanhamento é vista como um fator determinante para evitar complicações graves, como pré-eclâmpsia, diabetes gestacional ou partos prematuros.
???????? Hoje (7), celebramos o Dia Mundial da Saúde, com a campanha deste ano dedicada à saúde materna e neonatal, sob o tema “Inícios Saudáveis, Futuros Esperançosos”. Segue o fio para saber mais! pic.twitter.com/z7kqxNSoOy
— Ministério da Saúde ???? (@minsaude) April 7, 2025
No cenário internacional, a situação é mais complexa. Regiões como a África Subsaariana e o Sul da Ásia concentram a maior parte das mortes maternas e neonatais, muitas vezes devido à falta de infraestrutura hospitalar, escassez de profissionais treinados e barreiras culturais que dificultam o acesso das mulheres a serviços de saúde. Apesar dos avanços nas últimas décadas, como a redução de 38% na mortalidade materna global entre 2000 e 2017, o ritmo atual não é suficiente para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até o prazo estipulado.
Números que exigem ação imediata
Os dados apresentados pela OMS são um alerta para a urgência do problema. A cada ano, aproximadamente 287 mil mulheres morrem por causas evitáveis ligadas à gestação ou ao parto, enquanto 2,1 milhões de bebês não sobrevivem aos primeiros 28 dias de vida ou nascem mortos. Essas mortes, em grande parte, poderiam ser evitadas com acesso a cuidados básicos, como partos assistidos por profissionais qualificados, medicamentos essenciais e acompanhamento pós-natal adequado.
Entre as principais causas de mortalidade materna estão hemorragias graves, infecções pós-parto, hipertensão gestacional e complicações de abortos inseguros. Já entre os recém-nascidos, asfixia no nascimento, infecções e prematuridade lideram as estatísticas. A campanha “Inícios saudáveis, futuros esperançosos” propõe uma abordagem integrada, que inclui desde a capacitação de equipes de saúde até a ampliação de programas de educação para gestantes.
- Hemorragia pós-parto: Responsável por cerca de 27% das mortes maternas no mundo.
- Prematuridade: Afeta 15 milhões de bebês anualmente e é a principal causa de óbito neonatal.
- Infecções: Representam 10% das mortes maternas e 20% das neonatais.
- Hipertensão: Complicações como eclâmpsia atingem 14% das gestantes em risco.
Esses indicadores mostram que os desafios são multifacetados, exigindo soluções que vão além do setor de saúde e envolvam políticas sociais e econômicas.
Pré-natal como chave para a prevenção
Garantir um pré-natal de qualidade é uma das estratégias mais eficazes para reduzir os índices de mortalidade. No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que as gestantes compareçam a pelo menos seis consultas durante a gravidez, mas o ideal é que esse número seja maior em casos de risco. O acompanhamento precoce permite detectar condições como anemia, infecções urinárias ou deficiências nutricionais, que podem evoluir para problemas mais graves se não tratadas.
A importância desse cuidado é ainda mais evidente quando se observa o impacto da falta dele. Em países de baixa renda, menos de 50% das mulheres têm acesso a pelo menos quatro consultas pré-natais, um número considerado mínimo pela OMS. No Brasil, embora a cobertura tenha melhorado, ainda há desigualdades regionais. Estados do Norte e Nordeste, por exemplo, registram taxas mais altas de complicações maternas, muitas vezes associadas a dificuldades de acesso a unidades de saúde.
Além disso, o período pós-parto, conhecido como puerpério, é igualmente crítico. Milhões de mulheres ao redor do mundo não recebem acompanhamento após o nascimento do bebê, o que aumenta o risco de infecções, depressão pós-parto e complicações tardias. A campanha global destaca a necessidade de estender os cuidados além do parto, garantindo que mães e bebês sejam monitorados por pelo menos seis semanas após o nascimento.
Desafios globais e regionais na saúde neonatal
A saúde neonatal é outro pilar central da campanha lançada no Dia Mundial da Saúde. Mais de 7 mil bebês morrem diariamente antes de completar um mês de vida, um número que reflete tanto falhas nos sistemas de saúde quanto condições socioeconômicas adversas. A prematuridade, que atinge cerca de 10% dos nascimentos globais, continua sendo a maior causa de morte entre recém-nascidos, seguida por complicações durante o parto e infecções evitáveis.
Em regiões desenvolvidas, como Europa e América do Norte, as taxas de sobrevivência neonatal são altas, graças a tecnologias avançadas e acesso universal a cuidados intensivos. Já em países em desenvolvimento, a realidade é bem diferente. Na África Subsaariana, por exemplo, a taxa de mortalidade neonatal chega a 27 mortes por mil nascidos vivos, quase dez vezes maior que a registrada em nações de alta renda.
No Brasil, os avanços são notáveis, mas insuficientes. A taxa de mortalidade neonatal caiu de 22,2 por mil nascidos vivos em 2000 para 12,4 em 2020, segundo dados oficiais. Apesar disso, o país ainda enfrenta desafios como a alta incidência de partos prematuros e a falta de leitos em unidades de terapia intensiva neonatal, especialmente em áreas rurais e periferias urbanas.
Investimentos que salvam vidas
Ampliar os investimentos em saúde materna e neonatal é uma das prioridades da campanha “Inícios saudáveis, futuros esperançosos”. A OMS estima que, com US$ 10 por pessoa ao ano em países de baixa e média renda, seria possível salvar milhões de vidas até 2030. Esses recursos poderiam ser usados para treinar mais obstetrizes, melhorar a infraestrutura de hospitais e fornecer medicamentos essenciais, como oxitocina para prevenir hemorragias e antibióticos para tratar infecções.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) já oferece cobertura gratuita para gestantes, mas a qualidade do atendimento varia. Hospitais superlotados, filas para exames e a falta de profissionais especializados em algumas regiões comprometem os resultados. A campanha global incentiva que países como o Brasil ampliem os esforços, priorizando áreas vulneráveis e investindo em educação comunitária para que as mulheres saibam quando e onde buscar ajuda.
Ações simples, como a distribuição de kits de parto seguro e a capacitação de agentes comunitários de saúde, têm mostrado resultados positivos em diversas partes do mundo. Em Bangladesh, por exemplo, a mortalidade materna caiu 40% em duas décadas com a implementação de programas de atendimento domiciliar e treinamento de parteiras.
Papel dos profissionais de saúde na mudança
Os profissionais de saúde são peças-chave na redução das mortes maternas e neonatais. Enfermeiras, médicos, obstetras e doulas desempenham um papel essencial ao oferecer cuidados humanizados e tecnicamente qualificados. A campanha destaca a importância de ouvir as gestantes, respeitar suas necessidades e garantir que elas se sintam seguras durante todo o processo.
A capacitação contínua desses profissionais é outro ponto crucial. Em muitos países, a falta de treinamento adequado resulta em diagnósticos tardios ou procedimentos mal executados. No Brasil, o Ministério da Saúde mantém programas de formação para equipes do SUS, mas a rotatividade de pessoal e a sobrecarga de trabalho ainda são obstáculos a serem superados.
A valorização desses trabalhadores também passa por melhores condições salariais e de infraestrutura. Hospitais bem equipados, com acesso a ultrassons, monitores fetais e medicamentos, fazem toda a diferença no atendimento a emergências obstétricas e neonatais.
Cronograma de cuidados essenciais na gestação
O acompanhamento da saúde materna e neonatal segue etapas bem definidas, que ajudam a garantir a segurança de mães e bebês. Veja os principais momentos recomendados:
- Até a 12ª semana: Início do pré-natal com exames iniciais e avaliação de riscos.
- 28ª semana: Aumento da frequência das consultas para monitoramento mensal.
- 36ª semana: Consultas quinzenais e preparação para o parto.
- Após o nascimento: Acompanhamento no puerpério por até 42 dias.
Esse calendário é uma base para evitar complicações, mas precisa ser adaptado às condições de cada gestante, especialmente em casos de gravidez de alto risco.
Barreiras culturais e sociais em destaque
Além dos desafios médicos, fatores culturais e sociais também influenciam os índices de mortalidade materna e neonatal. Em muitas comunidades, a falta de informação impede que as mulheres busquem atendimento médico a tempo. Estigmas relacionados à saúde reprodutiva, violência obstétrica e a ausência de autonomia feminina em decisões sobre o próprio corpo agravam o problema.
No Brasil, indígenas e mulheres negras enfrentam riscos ainda maiores. Dados mostram que a mortalidade materna entre mulheres negras é até 50% mais alta do que entre brancas, reflexo de desigualdades no acesso à saúde e de discriminação no atendimento. A campanha global busca enfrentar essas barreiras, promovendo políticas inclusivas e educação para empoderar as mulheres.
Em âmbito global, a situação é semelhante. Em países onde o casamento infantil é comum, adolescentes grávidas têm até duas vezes mais chances de morrer durante o parto do que mulheres adultas. A pobreza extrema e a falta de saneamento básico também aumentam os riscos de infecções e complicações.
Soluções práticas para um futuro promissor
Diante de um cenário tão desafiador, a campanha “Inícios saudáveis, futuros esperançosos” propõe medidas concretas para transformar a realidade da saúde materna e neonatal. Algumas delas incluem:
- Ampliação do acesso a serviços de pré-natal em áreas remotas.
- Distribuição de medicamentos essenciais em unidades básicas de saúde.
- Campanhas de conscientização sobre os sinais de complicações na gravidez.
- Parcerias entre governos e organizações para financiar projetos locais.
Essas ações, combinadas com o engajamento da sociedade, têm o potencial de reduzir significativamente as mortes evitáveis e melhorar o bem-estar de gerações futuras.
A iniciativa lançada no Dia Mundial da Saúde reforça um compromisso global com a vida. Enquanto os números ainda preocupam, os esforços para mudar essa realidade estão apenas começando. Países como o Brasil, que já contam com sistemas públicos de saúde estruturados, têm a oportunidade de liderar pelo exemplo, ampliando o alcance e a qualidade dos cuidados oferecidos às mulheres e seus bebês.