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Tratado internacional contra manipulação de jogos ganha força com entrada do Brasil

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Futebol - Foto: XiXinXing/depositphotos.com Futebol - Foto: XiXinXing/depositphotos.com

A manipulação de resultados esportivos tornou-se uma ameaça global, desafiando a integridade de competições e movimentando redes criminosas transnacionais. Neste contexto, o Brasil caminha para aderir à Convenção de Macolin, único tratado internacional dedicado ao combate desse tipo de fraude. Aprovado pelos ministérios do Esporte, da Fazenda e da Justiça, o documento agora depende de trâmites finais conduzidos pelo Ministério das Relações Exteriores junto ao Conselho da Europa. A expectativa é que a assinatura ocorra ainda no primeiro semestre de 2025, marcando um passo estratégico para o país no enfrentamento de um problema que transcende fronteiras. Desde sua entrada em vigor, em 2019, quase 50 nações já adotaram as medidas propostas, e o Brasil está prestes a integrar essa rede de cooperação.

Formalizada em 2014 na cidade suíça de Magglingen/Macolin, a convenção é fruto de um esforço do Conselho da Europa para criar um arcabouço jurídico que una autoridades públicas, organizações esportivas e operadores de apostas no combate à manipulação. No Brasil, o interesse em aderir ao tratado ganhou força com o crescimento exponencial do mercado de apostas esportivas, que, embora gere receita significativa, também abriu portas para práticas ilícitas. A participação do país na convenção permitirá o acesso a um sistema global de troca de informações, essencial para identificar e punir quadrilhas que operam em múltiplos continentes, muitas vezes a milhares de quilômetros das competições que visam fraudar.

A adesão reflete uma resposta a casos recentes de manipulação no futebol brasileiro, como os investigados na operação Penalidade Máxima, deflagrada em 2023 pelo Ministério Público de Goiás. Esses episódios expuseram vulnerabilidades no esporte nacional e aumentaram a pressão por medidas mais robustas. Com o tratado, o Brasil poderá emitir alertas internacionais sobre suspeitas de fraude, além de receber dados de outros signatários, fortalecendo a fiscalização e a investigação de crimes que afetam desde o futebol até outras modalidades populares.

O que é a Convenção de Macolin

Criada para proteger a integridade do esporte, a Convenção de Macolin é o primeiro instrumento jurídico internacional vinculativo focado na manipulação de competições esportivas. Ela estabelece diretrizes para prevenir, detectar e sancionar ações que alterem intencionalmente resultados ou o andamento de eventos esportivos. Desde sua ratificação por países como Portugal, Noruega e Ucrânia, o tratado já conta com a adesão de 10 nações e a assinatura de outras 38, incluindo estados fora da Europa, como Austrália e Marrocos.

O texto exige cooperação entre governos, federações esportivas e empresas de apostas, propondo uma estrutura legal comum para ações coordenadas. No caso brasileiro, a convenção é vista como um reforço à regulamentação das apostas de quota fixa, aprovada pela Lei 14.790, de 2023, que tenta controlar um mercado em franca expansão. Autoridades destacam que a manipulação frequentemente envolve apostas coordenadas em países distantes, o que torna a troca de informações internacionais um diferencial no combate ao crime.

  • Pilares da Convenção de Macolin:
    • Prevenção por meio de campanhas educativas e treinamentos para atletas e dirigentes.
    • Detecção com monitoramento de padrões suspeitos em apostas esportivas.
    • Sanção com punições alinhadas entre países signatários para coibir a impunidade.

Por que o Brasil busca a adesão

A decisão de aderir ao tratado surge em um momento crítico para o esporte brasileiro. O crescimento das apostas esportivas, estimado em bilhões de reais anuais, trouxe benefícios econômicos, mas também riscos significativos. Investigações recentes revelaram esquemas envolvendo jogadores, árbitros e intermediários que lucravam com a manipulação de partidas, especialmente na Série B do Campeonato Brasileiro. Esses casos levaram à suspensão de 14 atletas pela Justiça Desportiva e ao banimento de três deles pela Fifa.

Integrar a Convenção de Macolin é visto como uma ação estratégica para inserir o Brasil em uma rede global de combate ao crime organizado no esporte. O tratado oferece ferramentas como o intercâmbio de dados em tempo real e a cooperação com autoridades internacionais, essenciais para enfrentar quadrilhas que operam além das fronteiras nacionais. Além disso, a adesão reforça a credibilidade do país perante organizações como o Comitê Olímpico Internacional e a Fifa, que já recomendam o alinhamento às práticas do Conselho da Europa.

Outro fator determinante é a pressão de entidades esportivas nacionais. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) enviou, em maio de 2023, uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sugerindo a adesão ao tratado como medida para proteger a integridade do futebol. A entidade destacou que o avanço das apostas online, muitas vezes operadas por empresas sem regulamentação, exige uma resposta coordenada que o Brasil, sozinho, não consegue oferecer.

Histórico da manipulação no esporte brasileiro

Casos de manipulação não são novidade no Brasil, mas ganharam escala com a popularização das apostas online. A operação Penalidade Máxima, iniciada em 2023, foi um marco ao expor um esquema que movimentou milhões de reais em partidas da Série B. Jogadores recebiam pagamentos para provocar eventos específicos, como cartões amarelos ou pênaltis, que eram apostados em plataformas internacionais. Até o momento, 14 pessoas foram indiciadas, e a Polícia Federal segue investigando ramificações do caso.

Antes disso, episódios isolados já haviam levantado suspeitas. Em 2005, o Campeonato Brasileiro enfrentou o escândalo conhecido como Máfia do Apito, em que o árbitro Edilson Pereira de Carvalho manipulou resultados para favorecer apostadores. Onze jogos da Série A foram anulados, e o caso marcou a primeira grande crise do tipo no futebol nacional. Mais recentemente, a CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas, instalada no Senado em 2024, ouviu representantes da CBF e reforçou a necessidade de medidas como a adesão à Convenção de Macolin.

A vulnerabilidade do esporte brasileiro também é alimentada pela falta de regulamentação histórica. Até a aprovação da Lei 14.790, em 2023, o mercado de apostas operava em um limbo jurídico, facilitando a ação de operadores ilegais. Com a convenção, o Brasil espera fortalecer sua legislação e alinhá-la a padrões internacionais, reduzindo brechas exploradas por criminosos.

Como o tratado funciona na prática

A Convenção de Macolin opera como uma ponte entre países, promovendo a colaboração em três frentes principais: prevenção, monitoramento e punição. Na prevenção, o tratado incentiva campanhas educativas voltadas para atletas, treinadores e dirigentes, alertando sobre os riscos da manipulação. No Brasil, isso poderia ser implementado em parceria com federações esportivas, ampliando a conscientização desde as categorias de base.

O monitoramento é outro pilar essencial. O tratado prevê a criação de plataformas nacionais para rastrear padrões suspeitos em apostas, como variações bruscas nas odds ou volumes anormais de dinheiro em eventos específicos. Essas plataformas se conectam a um sistema internacional, permitindo que alertas sejam emitidos e investigados em conjunto. Para o Brasil, isso significa maior capacidade de identificar fraudes antes que elas comprometam competições.

Na esfera da punição, a convenção estabelece diretrizes para harmonizar sanções entre os signatários, evitando que manipuladores escapem da justiça ao cruzar fronteiras. Um exemplo prático é o caso de apostas coordenadas na Ásia para influenciar jogos na América do Sul: com o tratado, o Brasil poderia compartilhar provas com países asiáticos e buscar a extradição de suspeitos, algo hoje dificultado pela falta de acordos específicos.

Impactos esperados no Brasil

A adesão à Convenção de Macolin deve trazer mudanças significativas ao esporte brasileiro. Uma delas é o fortalecimento da fiscalização sobre o mercado de apostas, que movimentou cerca de 10 bilhões de reais em 2023, segundo estimativas do setor. Com a troca de informações internacionais, o Brasil poderá identificar mais rapidamente operadores ilegais e coibir práticas como a lavagem de dinheiro, frequentemente associada à manipulação.

No âmbito esportivo, o tratado pode elevar o padrão de integridade das competições nacionais. O futebol, principal alvo de esquemas no país, deve ser o maior beneficiado, mas outras modalidades, como vôlei e basquete, também ganharão proteção. A CBF, por exemplo, já implementa medidas internas, como um protocolo de colaboração com a Polícia Federal, mas a convenção amplia esse esforço ao conectar o Brasil a uma rede global.

  • Benefícios diretos da adesão:
    • Acesso a dados de apostas suspeitas em tempo real.
    • Cooperação jurídica com mais de 40 países signatários.
    • Fortalecimento da imagem do Brasil como mercado esportivo confiável.

O papel do Ministério das Relações Exteriores

Após a aprovação pelos ministérios do Esporte, da Fazenda e da Justiça, o processo de adesão entrou em sua fase final, liderada pelo Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty é responsável por negociar os termos com o Conselho da Europa, garantindo que o Brasil cumpra os requisitos para integrar o tratado. Esse trâmite envolve a tradução oficial do documento, a análise de compatibilidade com a legislação nacional e a assinatura formal, prevista para ocorrer até junho de 2025.

O envolvimento do Itamaraty reflete a dimensão internacional do problema. A manipulação de jogos frequentemente cruza continentes, com apostas realizadas em plataformas sediadas em paraísos fiscais ou países com pouca regulação. A pasta já participou de discussões preliminares, como o encontro de ministros do Esporte em Moscou, em 2018, durante a Copa do Mundo, o que demonstra um interesse de longa data na questão.

A agilidade nesse processo é crucial. Quanto mais cedo o Brasil aderir, mais rápido poderá se beneficiar da infraestrutura do tratado, como o Programa Global de Salvaguarda do Esporte contra a Corrupção e o Crime, criado em 2017 pela ONU e apoiado pela convenção. O programa oferece suporte técnico e treinamento, algo que pode acelerar a implementação de políticas internas.

Jogos de apostas esportivos
Jogos de apostas esportivos – Foto: janews/Shutterstock.com

A experiência de outros países

Países que já ratificaram a Convenção de Macolin oferecem lições valiosas. Portugal, um dos primeiros signatários, implementou uma plataforma nacional de monitoramento em 2020, que identificou mais de 50 casos suspeitos em dois anos, resultando em investigações conjuntas com a Interpol. Na Noruega, campanhas educativas reduziram em 15% os relatos de abordagens a atletas por apostadores entre 2021 e 2023, segundo dados oficiais.

A Suécia, que aderiu ao tratado em janeiro de 2025, é outro exemplo recente. O país fortaleceu sua legislação contra operadores ilegais e viu um aumento de 30% na cooperação com outras nações europeias para rastrear fraudes. Esses casos mostram que a convenção não apenas pune, mas também previne, criando um ambiente mais seguro para o esporte.

No Brasil, a expectativa é replicar esses sucessos. A combinação de uma legislação nacional robusta, como a Lei 14.790, com os mecanismos internacionais do tratado pode posicionar o país como líder no combate à manipulação na América Latina, região ainda pouco representada entre os signatários.

Desafios para a implementação

Apesar dos benefícios, a adesão enfrenta obstáculos. Um deles é a necessidade de alinhar a legislação brasileira às exigências do tratado, especialmente no que diz respeito à proteção de dados e à cooperação jurídica internacional. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), de 2020, exclui a esfera criminal de seu escopo, o que pode gerar lacunas na troca de informações sensíveis com outros países.

Outro desafio é a capacitação de autoridades. O monitoramento de apostas exige tecnologia avançada e profissionais treinados, algo que demandará investimentos do governo e do setor privado. A Lottopar, autarquia do Paraná responsável por regular apostas no estado, já se posicionou a favor da convenção, destacando a importância de padrões elevados de fiscalização.

Por fim, a resistência de operadores ilegais pode ser um entrave. Empresas sem licença, muitas vezes baseadas em paraísos fiscais, lucram com a falta de regulação e podem tentar burlar os novos controles. A cooperação internacional será essencial para neutralizar essas ameaças, mas dependerá da eficácia da implementação local.

O cronograma da adesão

O processo de entrada do Brasil na Convenção de Macolin segue um calendário apertado. Após a avaliação inicial pelos ministérios, o Itamaraty assumiu a liderança em março de 2025, com a meta de concluir os trâmites até junho. Esse prazo alinha-se com a pressão de entidades esportivas e do Congresso, onde a CPI da Manipulação de Jogos reforçou a urgência da medida.

  • Etapas principais do processo:
    • Março de 2025: Início das negociações com o Conselho da Europa.
    • Abril de 2025: Tradução e análise do texto pelo Itamaraty.
    • Junho de 2025: Assinatura oficial e envio ao Congresso para ratificação.

Apoio de entidades esportivas

A CBF tem sido uma das principais defensoras da adesão. Em depoimento à CPI no Senado, em abril de 2024, representantes da entidade detalharam mais de 100 iniciativas internas para profissionalizar o futebol e combater a manipulação. A convenção é vista como um complemento a essas ações, oferecendo um alcance que a CBF, sozinha, não possui.

A Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf) também apoia o tratado. Durante o XX Seminário de Gestão Esportiva, em setembro de 2024, o presidente da entidade, Jorge Borçato, anunciou um pedido formal ao governo para acelerar o processo. O evento, organizado pela FGV, destacou a importância da cooperação nacional e internacional para proteger os atletas, frequentemente alvos de aliciadores.

Outras organizações, como o Comitê Olímpico do Brasil (COB), acompanham o movimento com interesse. Embora o foco inicial seja o futebol, a convenção abrange todas as modalidades, o que pode beneficiar esportes olímpicos em um país que sediará eventos internacionais nos próximos anos.

O mercado de apostas e a manipulação

O boom das apostas esportivas no Brasil é um dos motores da adesão. Em 2023, o setor gerou uma receita bruta estimada em 10 bilhões de reais, com projeções de dobrar esse valor até 2027. A popularidade de plataformas online atraiu milhões de usuários, mas também expôs fragilidades. Casos como o da Série B mostram como apostas em eventos específicos, como cartões ou escanteios, são alvos fáceis para manipuladores.

A Lei 14.790 trouxe avanços, como a exigência de licenças para operadores e a tributação de 12% sobre a receita bruta. No entanto, a fiscalização ainda é limitada, e empresas ilegais continuam atuando. A Convenção de Macolin pode preencher essa lacuna, oferecendo ao Brasil acesso a sistemas de rastreamento usados por países como a Itália, onde 80% das apostas suspeitas são identificadas antes do início das partidas.

A integração ao tratado também pode atrair investimentos. Empresas regulamentadas, como Bet365 e Sportingbet, que operam legalmente em mercados europeus, têm interesse em um ambiente mais seguro no Brasil, o que poderia impulsionar a economia do setor.

O que muda para atletas e torcedores

Para os atletas, a adesão significa mais proteção contra aliciamento. Muitos jogadores, especialmente em divisões menores, são abordados por intermediários oferecendo pagamentos em troca de ações no jogo. O tratado incentiva a criação de canais de denúncia e programas de apoio, reduzindo a vulnerabilidade desses profissionais.

Os torcedores, por sua vez, ganham com a preservação da essência do esporte. A manipulação compromete a emoção e a imprevisibilidade das competições, afastando fãs e patrocinadores. Com competições mais limpas, o Brasil pode fortalecer sua posição como um dos maiores mercados esportivos do mundo, atraindo eventos e investimentos internacionais.

A longo prazo, a convenção pode elevar o padrão ético do esporte nacional. Atletas serão menos pressionados por esquemas externos, e os torcedores terão mais confiança nos resultados que veem em campo, algo essencial para um país onde o esporte é parte da identidade cultural.

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