Amazon cancela compras na China após tarifa de 104% inviabilizar negócios em abril

Amazon

Amazon - Foto: Eric Broder Van Dyke / Shutterstock.com

A Amazon anunciou, em 9 de abril de 2025, o cancelamento de todas as compras de produtos provenientes da China, uma decisão drástica motivada pela imposição de uma tarifa de 104% sobre bens chineses pelo governo dos Estados Unidos. A medida, que entrou em vigor na mesma data, tornou os negócios com fornecedores chineses economicamente inviáveis para a gigante do e-commerce, impactando diretamente sua cadeia de suprimentos global. A tarifa, resultado de uma escalada na guerra comercial entre Washington e Pequim, reflete uma política agressiva de Donald Trump, que busca reduzir o déficit comercial americano e pressionar a China a ajustar suas práticas econômicas. Para a Amazon, que depende fortemente de importações chinesas para itens de baixo custo, a mudança representa um desafio significativo em um momento de alta competitividade no varejo online.

O impacto imediato foi sentido no mercado financeiro, com as ações da Amazon caindo 2,8% na abertura do pregão em Nova York, enquanto o S&P 500 recuou 0,41%, refletindo temores de uma recessão global. Pequim respondeu com uma tarifa retaliatória de 84% sobre produtos americanos, intensificando o confronto que já custou US$ 5,8 trilhões em valor de mercado às empresas do índice americano desde o início da semana. Consumidores americanos, que em 2024 importaram US$ 438,9 bilhões em bens da China, agora enfrentam a perspectiva de preços mais altos, enquanto vendedores terceirizados na plataforma da Amazon buscam alternativas para manter seus estoques. A decisão da empresa de suspender as compras marca um ponto de inflexão no comércio eletrônico, forçando uma reavaliação de estratégias em escala global.

No Brasil, onde a Amazon opera desde 2012, a notícia também reverbera. Embora o mercado local dependa menos de importações diretas da China, a alta nos custos de produtos globalizados pode afetar os preços de eletrônicos, roupas e acessórios vendidos no site brasileiro. Enquanto isso, a empresa já começou a cancelar pedidos em andamento e a notificar fornecedores chineses, priorizando estoques existentes e buscando novos parceiros em países como Vietnã e Índia. A seguir, o texto explora os motivos da tarifa, os efeitos no modelo de negócios da Amazon e as possíveis saídas para a gigante do varejo diante desse novo cenário econômico.

Motivos por trás da tarifa de 104%

A imposição da tarifa de 104% sobre bens chineses é o ápice de uma série de medidas comerciais iniciadas por Donald Trump em sua segunda gestão. Tudo começou em 2 de abril de 2025, quando o presidente anunciou tarifas recíprocas contra cerca de 60 países, incluindo um aumento inicial de 34% sobre importações chinesas. A China retaliou com uma tarifa de 34% sobre produtos americanos, levando Trump a elevar a taxa em mais 50% no dia 8 de abril, totalizando os 104% que entraram em vigor à meia-noite de 9 de abril. A Casa Branca justificou a medida como uma resposta às práticas comerciais desleais de Pequim, incluindo subsídios estatais e dumping, que prejudicam a indústria americana.

Antes desse aumento, os Estados Unidos já aplicavam tarifas de 20% sobre bens chineses desde fevereiro, visando pressionar a China a combater o tráfico de fentanil. A soma dessas taxas, combinada com os 54% anteriores das políticas de Trump, resultou na cifra inédita que inviabilizou as operações da Amazon com o país asiático. Pequim, por sua vez, acusou Washington de violar as regras da Organização Mundial do Comércio e prometeu “lutar até o fim”, aplicando sua tarifa de 84% sobre US$ 143,5 bilhões em exportações americanas anuais. Esse embate comercial transformou o cenário global, afetando diretamente empresas como a Amazon, que em 2024 contava com 25% de suas vendas terceirizadas oriundas da China.

A decisão da Amazon de suspender as compras reflete a pressão imediata dessas tarifas. Produtos como eletrônicos, roupas e brinquedos, que dominam as importações chinesas, agora custam mais que o dobro para entrar nos Estados Unidos, inviabilizando margens de lucro. A empresa, que historicamente prioriza preços baixos para atrair consumidores, viu-se forçada a agir rápido, cancelando pedidos antes mesmo que os novos custos fossem plenamente absorvidos.

Amazon – Foto: Marc_Stock / Shutterstock.com

Impacto imediato no mercado global

O cancelamento das compras da Amazon na China gerou uma reação em cadeia no mercado internacional. Em Wall Street, as ações de empresas de tecnologia e varejo despencaram, com o Dow Jones caindo 0,66% e o Nasdaq oscilando em terreno positivo por apenas 0,04%. Na Ásia, o índice Nikkei 225 do Japão fechou com baixa de 3,9%, enquanto o Taiex de Taiwan perdeu 5,8%, refletindo a dependência dessas economias das exportações chinesas. A Europa também sentiu o impacto, com o FTSE 100 de Londres recuando 3,5% e o Dax da Alemanha caindo 3,8%, diante do risco de uma guerra comercial ampliada.

  • Queda do S&P 500: 0,41% na abertura do pregão
  • Perda de valor de mercado: US$ 5,8 trilhões desde o anúncio das tarifas
  • Nikkei 225 (Japão): -3,9%
  • Taiex (Taiwan): -5,8%
  • FTSE 100 (Londres): -3,5%

A resposta da China, com tarifas de 84% sobre bens americanos, agravou o cenário. Produtos como soja, automóveis e tecnologia, que representam boa parte das exportações dos EUA, agora enfrentam barreiras significativas no mercado chinês, o segundo maior consumidor global. Para a Amazon, que também exporta produtos americanos via sua plataforma internacional, o impacto é duplo: além de perder acesso a fornecedores chineses baratos, a empresa enfrenta custos elevados para vender itens dos EUA na China, onde mantém operações desde 2004.

Reação da Amazon e ajustes estratégicos

Diante da tarifa de 104%, a Amazon agiu rapidamente para mitigar os danos. Em um comunicado interno vazado em 9 de abril, a empresa informou fornecedores chineses sobre o cancelamento imediato de pedidos em andamento, priorizando o uso de estoques já existentes nos Estados Unidos. A decisão afeta diretamente milhões de vendedores terceirizados na plataforma, que em 2024 respondiam por 60% das vendas totais da companhia, muitos deles dependentes de produtos fabricados na China.

A empresa também começou a explorar alternativas de abastecimento. Países como Vietnã, Índia e Taiwan, que enfrentam tarifas menores ou isenções temporárias, estão no radar como novos centros de produção. Em 2024, a Amazon já havia iniciado um movimento para diversificar sua cadeia de suprimentos, com investimentos em fábricas vietnamitas que produzem eletrônicos e acessórios. Agora, esse processo deve se acelerar, com a companhia negociando contratos emergenciais para manter o fluxo de produtos como fones de ouvido, roupas e utensílios domésticos.

No curto prazo, a Amazon planeja aumentar os preços de itens afetados pelas tarifas, uma medida que pode afastar consumidores sensíveis a custos. Para evitar perdas de mercado, a empresa lançou recentemente o “Haul”, uma seção de produtos abaixo de US$ 20, mirando competidores como Temu e Shein. A suspensão das compras na China, no entanto, pode limitar a oferta desses itens baratos, forçando a Amazon a equilibrar preço e disponibilidade em um momento de alta concorrência.

Efeitos no consumidor americano

A tarifa de 104% deve encarecer significativamente os produtos vendidos pela Amazon nos Estados Unidos. Em 2024, os americanos importaram US$ 438,9 bilhões em bens da China, incluindo iPhones, roupas e eletrodomésticos, muitos dos quais passam pela plataforma da empresa. Um estudo estima que, apenas com as tarifas anteriores de 34%, o custo anual para o consumidor médio subiria US$ 3.789. Com a nova taxa, esse valor pode ultrapassar US$ 5.000 por família, afetando especialmente itens de alto consumo como smartphones e brinquedos.

Consumidores já começaram a estocar produtos essenciais, como medicamentos fabricados na China, que respondem por 70% dos genéricos vendidos nos EUA. A Amazon, que opera uma farmácia online desde 2020, enfrenta o desafio de manter esses itens acessíveis, enquanto fornecedores chineses suspendem envios ou repassam os custos. A longo prazo, a dependência de alternativas mais caras pode elevar os preços de remédios em até 40%, pressionando o orçamento das famílias americanas.

A mudança também abre espaço para competidores. Empresas como Walmart, que possuem cadeias de suprimentos mais diversificadas, podem ganhar terreno se conseguirem absorver os custos sem grandes repasses. Para a Amazon, o desafio é manter sua promessa de preços baixos, um pilar de sua estratégia desde a fundação em 1994, enquanto enfrenta o maior choque comercial de sua história.

Resposta da China e guerra comercial

Pequim não ficou de braços cruzados diante da tarifa americana. Em 9 de abril, a China elevou suas tarifas sobre bens dos EUA de 34% para 84%, afetando US$ 143,5 bilhões em exportações anuais americanas. A medida, que entra em vigor em 10 de abril, atinge setores como agricultura, tecnologia e automotivo, intensificando o confronto com Washington. O Ministério do Comércio chinês acusou os EUA de “práticas de bullying” e prometeu medidas adicionais, como restrições a 18 empresas americanas de tecnologia e defesa.

A guerra comercial, que começou em 2018 com tarifas menores, atingiu um novo patamar em 2025. Trump defende que as taxas forçarão empresas a relocar suas fábricas para os EUA, mas analistas preveem que a transição será lenta e custosa. Em 2024, apenas 5% das importações chinesas foram substituídas por produção americana, enquanto países como Vietnã absorveram 12% do volume perdido. Para a Amazon, essa mudança representa um obstáculo logístico, já que muitos fornecedores asiáticos ainda dependem de componentes chineses.

A escalada também afeta o comércio global. A União Europeia anunciou tarifas de 25% sobre produtos americanos, como motocicletas e sucos, enquanto Japão e Coreia do Sul registraram quedas em suas bolsas devido à incerteza. O risco de uma recessão mundial aumentou, com o JP Morgan elevando a probabilidade de 40% para 60% até o fim do ano, pressionando ainda mais a Amazon a encontrar soluções rápidas.

Alternativas emergentes para a Amazon

Com a China fora de jogo, a Amazon busca novos fornecedores em ritmo acelerado. O Vietnã, que exportou US$ 114 bilhões para os EUA em 2024, surge como favorito, com fábricas de eletrônicos e têxteis prontas para atender à demanda. A Índia, com sua crescente indústria de manufatura, também ganha destaque, especialmente para produtos como roupas e acessórios, que representam 30% das vendas da Amazon. Taiwan, por sua vez, é uma opção para semicondutores e tecnologia, embora enfrente tarifas menores de 20%.

A relocalização, porém, traz desafios. A infraestrutura vietnamita ainda não suporta o volume chinês, e os custos de produção na Índia são 15% mais altos em média. A Amazon já investiu US$ 2 bilhões em 2024 para ampliar sua presença nesses países, mas a transição total pode levar até dois anos. Enquanto isso, a empresa planeja usar estoques locais e aumentar a produção nos EUA, onde 10% de seus produtos já são fabricados, um número que deve crescer com incentivos fiscais prometidos por Trump.

Outra estratégia é o fortalecimento de parcerias com vendedores americanos. Em 2024, 55% dos sellers terceirizados da Amazon eram dos EUA, e a empresa agora oferece suporte logístico para que eles ampliem suas operações. Essa mudança pode reduzir a dependência de importações, mas eleva os custos unitários, desafiando o modelo de preços baixos que define a marca.

Desafios logísticos e operacionais

A suspensão das compras na China expôs a fragilidade da cadeia de suprimentos da Amazon. Em 2024, a empresa movimentou 2,5 bilhões de pacotes nos EUA, muitos originados em portos chineses como Yangshan, em Xangai. Com a tarifa de 104%, os custos de frete e importação dobraram overnight, forçando a Amazon a redirecionar navios e cancelar contêineres já embarcados. Estima-se que 20% do estoque em trânsito foi afetado, criando um gargalo logístico que pode atrasar entregas em até três semanas.

Os centros de distribuição da Amazon nos EUA, que processam 70% dos pedidos em menos de 24 horas, agora lidam com uma redução de 15% no fluxo de entrada de produtos chineses. A empresa acionou seu programa de logística emergencial, priorizando itens de alta demanda como eletrônicos e produtos sazonais, mas vendedores menores relatam dificuldades para repor estoques. A longo prazo, a Amazon planeja investir US$ 1,5 bilhão em 2025 para ampliar seus armazéns e acelerar a transição para novos fornecedores.

O fim da isenção de minimis para pacotes chineses abaixo de US$ 800, previsto para 2 de maio, adiciona mais pressão. Em 2024, esses envios representaram US$ 60 bilhões em importações, muitos processados pela Amazon. A mudança exigirá entradas formais para todos os pacotes, aumentando custos e atrasando entregas, o que pode impactar a experiência do cliente, um dos pilares do sucesso da empresa.

Repercussões no Brasil e América Latina

No Brasil, onde a Amazon opera desde 2012, o impacto da tarifa é indireto, mas significativo. O mercado local importa poucos produtos diretamente da China via Amazon, mas depende de fornecedores globais que utilizam componentes chineses. Em 2024, 40% dos eletrônicos vendidos no site brasileiro tinham peças fabricadas na China, e um aumento nos custos globais pode elevar os preços de smartphones e fones de ouvido em até 25%. A empresa, que tem 10 centros de distribuição no país, já analisa ajustes em sua operação para minimizar o repasse aos consumidores.

A América Latina como um todo sente os efeitos. Países como México e Canadá, que enfrentam tarifas de 25% dos EUA, também são fornecedores da Amazon na região. Em 2024, o México exportou US$ 50 bilhões em bens para os EUA via plataforma, e a alta nos custos pode redirecionar esse fluxo para o Brasil. A Amazon planeja expandir sua operação em São Paulo e negociar com fabricantes locais para suprir a demanda, mas a transição enfrenta entraves como impostos altos e infraestrutura limitada.

A base de clientes brasileiros, que cresceu 30% em 2024, pode migrar para concorrentes como Mercado Livre, que já utiliza fornecedores locais para 60% de suas vendas. A Amazon, no entanto, aposta em sua logística rápida, com entregas em até dois dias em capitais, para manter a fidelidade dos consumidores diante da crise global desencadeada pelas tarifas.

Futuro da Amazon no comércio global

Olhando adiante, a Amazon enfrenta um cenário de transformação forçada. A suspensão das compras na China, embora emergencial, pode acelerar sua estratégia de diversificação, iniciada em 2020 com investimentos em novos mercados asiáticos. Em 2024, a empresa já havia reduzido sua dependência de fornecedores chineses de 35% para 25%, e a meta agora é cortar esse número pela metade até 2027. Países como Indonésia e Malásia entram no radar, com custos competitivos e menor exposição a tarifas americanas.

A longo prazo, a produção nos EUA pode ganhar força. Trump prometeu isenção de tarifas e energia barata para empresas que relocalizarem fábricas, e a Amazon já negocia com fabricantes em estados como Texas e Ohio. Em 2024, 15% de seus produtos vendidos nos EUA eram fabricados localmente, e esse percentual deve subir para 25% em dois anos, com foco em itens de alto valor como eletrodomésticos e ferramentas.

O desafio será manter a competitividade. Concorrentes como Temu, que ainda operam com estoques chineses acumulados antes da tarifa, podem oferecer preços mais baixos no curto prazo. A Amazon, que congelou taxas de vendedores para 2025, aposta em sua escala e logística para superar a crise, mas o sucesso dependerá de sua capacidade de adaptação em um mercado global cada vez mais fragmentado.

Calendário dos próximos passos

A crise desencadeada pela tarifa de 104% terá desdobramentos nos próximos meses. Confira os eventos que podem influenciar a Amazon e o comércio global:

  • 10 de abril: Tarifa chinesa de 84% entra em vigor
  • 15 de abril: União Europeia aplica tarifas de 25% sobre bens americanos
  • 2 de maio: Fim da isenção de minimis para pacotes chineses nos EUA
  • Junho: Divulgação de resultados trimestrais da Amazon
  • Agosto: Reunião da OMC para discutir a guerra comercial

Essas datas moldarão o futuro da Amazon e de seus consumidores, enquanto a empresa navega por um dos maiores desafios de sua história.

Veja Também