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Morre papa Francisco: líder jesuíta transformou Igreja com foco em minorias e simplicidade

Papa Francisco
Papa Francisco - Foto: Fabrizio Maffei / Shutterstock.com Papa Francisco - Foto: Fabrizio Maffei / Shutterstock.com

Jorge Mario Bergoglio, conhecido mundialmente como papa Francisco, faleceu aos 88 anos na madrugada desta segunda-feira, 21 de abril, às 2h35 no horário de Brasília, 7h35 no horário local do Vaticano. A notícia foi confirmada oficialmente pela Santa Sé, que destacou a trajetória do pontífice marcada por um compromisso inabalável com os valores do Evangelho, a defesa dos mais pobres e a busca por uma Igreja mais inclusiva. Francisco, o primeiro papa latino-americano e jesuíta da história, liderou a Igreja Católica por quase 12 anos, deixando um legado de reformas, diálogo inter-religioso e atenção às questões sociais. Ele enfrentava complicações de uma pneumonia bilateral, que o manteve internado por cerca de 40 dias no hospital Agostino Gemelli, em Roma. Sua morte encerra um dos papados mais transformadores da era moderna, com impactos que ecoarão por gerações.

Nascido em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, Argentina, Francisco era filho de imigrantes italianos que chegaram ao país em 1929. Antes de abraçar a vida religiosa, formou-se como técnico químico e lecionou literatura e psicologia. Sua escolha pelo sacerdócio veio na juventude, quando ingressou na Companhia de Jesus, em 1958. Ordenado padre em 1969, ele rapidamente assumiu papéis de liderança, incluindo a direção da congregação jesuíta argentina entre 1973 e 1979. Em 1992, tornou-se bispo auxiliar de Buenos Aires, ascendendo a arcebispo em 1997 e cardeal em 2001, nomeado por João Paulo II. Sua eleição como papa, em 13 de março de 2013, marcou um momento histórico, não apenas por sua origem latino-americana, mas também por suceder Bento XVI, que renunciou, algo raro na história da Igreja.

O papado de Francisco foi definido por sua simplicidade e proximidade com os fiéis. Ele rejeitou luxos tradicionais, como morar no Palácio Apostólico, optando por uma residência mais modesta na Casa Santa Marta. Sua escolha do nome Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, refletiu sua missão de priorizar os pobres e marginalizados. Durante seus quase 12 anos como pontífice, ele enfrentou desafios complexos, desde escândalos de pedofilia até a necessidade de modernizar uma instituição milenar. Suas reformas na Cúria Romana, o governo do Vaticano, buscaram maior transparência financeira, enquanto suas mensagens enfatizavam misericórdia, tolerância e justiça social.

Um líder contra a maré conservadora

Francisco assumiu o papado em um momento de crise para a Igreja Católica. Escândalos de abusos sexuais por membros do clero abalaram a credibilidade da instituição, enquanto a secularização reduzia o número de fiéis em regiões como Europa e América do Norte. Diante desse cenário, o argentino adotou um estilo pastoral que contrastava com a rigidez doutrinária de seus predecessores. Ele priorizou o diálogo com outras religiões, recebendo líderes muçulmanos, judeus e budistas no Vaticano. Sua encíclica Laudato Si’, publicada em 2015, trouxe uma abordagem inovadora ao abordar a crise climática, conectando fé e responsabilidade ambiental.

Além disso, Francisco buscou aproximar a Igreja de grupos historicamente marginalizados. Em 2023, ele autorizou bênçãos para casais do mesmo sexo, uma decisão que gerou tanto aplausos quanto críticas. Embora mantivesse a doutrina tradicional que restringe o sacerdócio a homens, ele ampliou a participação feminina no Vaticano, nomeando mulheres para cargos de destaque, como a irmã Nathalie Becquart, subsecretária do Sínodo dos Bispos. Essas medidas, embora tímidas para alguns, representaram avanços significativos em uma instituição conhecida por sua lentidão em mudanças.

Marcos do pontificado

O papado de Francisco foi marcado por gestos e decisões que romperam com tradições seculares. Abaixo, alguns dos principais momentos de sua liderança:

  • Autorização de bênçãos a casais do mesmo sexo, em 2023, um passo histórico para a inclusão de pessoas LGBTQIA+.
  • Publicação da encíclica Laudato Si’, em 2015, que colocou a Igreja na vanguarda do debate ambiental.
  • Reforma da Cúria Romana, com foco na transparência financeira e no combate à corrupção no banco do Vaticano.
  • Viagens apostólicas a regiões em conflito, como Iraque (2021) e Sudão do Sul (2023), promovendo paz e diálogo inter-religioso.
  • Encontro com um transexual no Vaticano, em 2015, sinalizando abertura a minorias.

Esses marcos refletem a visão de Francisco de uma Igreja como “hospital de campanha”, pronta para acolher os feridos da sociedade, em vez de julgar ou excluir. Sua abordagem pastoral, no entanto, enfrentou resistência de setores conservadores, que o acusavam de diluir a doutrina católica.

Desafios de saúde e resiliência

A saúde de Francisco foi um tema recorrente durante seu pontificado. Desde jovem, ele convivia com limitações respiratórias, após a remoção de parte de um pulmão devido a uma infecção. Nos últimos anos, problemas no quadril e no joelho o obrigaram a usar cadeira de rodas em eventos públicos. Em 2023, ele enfrentou uma série de internações por bronquite e infecções respiratórias, culminando na pneumonia bilateral que levou à sua morte. Mesmo debilitado, Francisco manteve uma agenda intensa, participando de celebrações como a Páscoa de 2025, dias antes de sua internação final.

Em fevereiro de 2025, o papa foi internado no hospital Agostino Gemelli após apresentar dificuldades respiratórias durante audiências. Inicialmente diagnosticado com bronquite, seu quadro evoluiu para uma infecção polimicrobiana, exigindo tratamento prolongado. No dia 18 de fevereiro, o Vaticano confirmou a pneumonia bilateral, um quadro grave que compromete a oxigenação do corpo. Apesar da alta hospitalar em março, Francisco permaneceu sob cuidados médicos intensos até seu falecimento. Sua determinação em continuar liderando, mesmo com a saúde fragilizada, foi vista como um reflexo de sua dedicação à missão.

Reformas e críticas

A reforma da Cúria Romana foi uma das prioridades de Francisco. Ele criou o Conselho de Cardeais, conhecido como C9, para assessorá-lo na reestruturação do governo vaticano. Entre as medidas, destacou-se o fechamento de contas suspeitas no Instituto para as Obras de Religião, o banco do Vaticano, que por décadas enfrentou acusações de lavagem de dinheiro. Além disso, Francisco implementou auditorias externas para aumentar a transparência financeira, um passo inédito na história da Santa Sé.

No entanto, suas reformas enfrentaram oposição interna. Cardeais conservadores, especialmente da Europa e dos Estados Unidos, criticavam o que viam como uma abordagem excessivamente progressista. A decisão de permitir bênçãos a casais do mesmo sexo, por exemplo, gerou reações negativas em dioceses de países como Polônia e Nigéria. Francisco também foi alvo de críticas por não avançar na ordenação de mulheres como sacerdotes, uma demanda crescente entre católicas progressistas. Ele defendia que a tradição apostólica, baseada na escolha de homens por Jesus, deveria ser mantida, frustrando ativistas que esperavam mudanças mais ousadas.

Diálogo global e crise dos refugiados

Francisco se destacou por seus discursos políticos, muitas vezes desafiando líderes mundiais. Ele criticou abertamente a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, chamando o presidente Vladimir Putin de responsável por um “massacre”. Da mesma forma, condenou as ações de Israel na Faixa de Gaza, pedindo um cessar-fogo em 2023. Sua postura em relação à crise dos refugiados, iniciada em 2015, foi igualmente contundente. Ele visitou campos de refugiados em Lesbos, na Grécia, e em Bangladesh, levando mensagens de solidariedade e cobrando ações da União Europeia para acolher migrantes.

Durante a pandemia de Covid-19, Francisco protagonizou um dos momentos mais emblemáticos de seu papado. Em 27 de março de 2020, ele rezou sozinho na Praça São Pedro, vazia devido às restrições de quarentena. A imagem, transmitida para milhões de pessoas, simbolizou esperança em meio à crise global. Sua mensagem de unidade e cuidado com os vulneráveis ressoou além dos limites da Igreja, alcançando até mesmo não católicos.

Legado de São Francisco de Assis

A escolha do nome Francisco não foi apenas simbólica. Inspirado por São Francisco de Assis, o pontífice colocou a pobreza no centro de sua missão. Ele visitou comunidades carentes em diversos países, como as favelas do Rio de Janeiro, durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013, e os povos indígenas da Amazônia, em 2019. Suas mensagens frequentemente destacavam a necessidade de combater a desigualdade e proteger os mais vulneráveis, como os sem-teto e os migrantes.

Além disso, Francisco promoveu a descentralização da Igreja, incentivando conferências episcopais regionais a tomarem decisões adaptadas às realidades locais. Essa abordagem, conhecida como sinodalidade, foi consolidada no Sínodo dos Bispos, que ele reformulou para incluir maior participação de leigos e mulheres. O processo sinodal, iniciado em 2021, buscava ouvir as bases da Igreja, um passo que muitos consideram revolucionário para uma instituição hierárquica.

Momentos marcantes do papado

Abaixo, alguns eventos que definiram a trajetória de Francisco como líder da Igreja Católica:

  • Viagem ao Iraque, em 2021, onde se encontrou com o aiatolá Ali al-Sistani, um marco no diálogo entre católicos e muçulmanos.
  • Canonização de Madre Teresa de Calcutá, em 2016, reforçando sua mensagem de serviço aos pobres.
  • Encontro com jovens na Jornada Mundial da Juventude no Panamá, em 2019, inspirando novas gerações de católicos.
  • Publicação da exortação apostólica Amoris Laetitia, em 2016, que flexibilizou a abordagem da Igreja em relação a divorciados recasados.

Esses momentos ilustram a capacidade de Francisco de conectar a Igreja com o mundo contemporâneo, mesmo enfrentando resistências internas e externas.

O futuro da Igreja Católica

Com a morte de Francisco, a Igreja Católica entra no período conhecido como sede vacante, quando o governo da Santa Sé é assumido temporariamente pelo camerlengo, atualmente o cardeal Kevin Farrell. O Colégio dos Cardeais se reunirá nas próximas semanas para organizar o conclave, que elegerá o novo papa. O processo, previsto para começar em maio de 2025, será decisivo para determinar se o próximo pontífice seguirá a linha reformista de Francisco ou adotará uma postura mais conservadora.

A escolha do sucessor será influenciada pelo legado de Francisco. Durante seu papado, ele nomeou mais de 60% dos cardeais eleitores, muitos deles alinhados com sua visão de uma Igreja mais inclusiva e pastoral. No entanto, divisões internas, especialmente entre progressistas e conservadores, podem complicar o consenso no conclave. Regiões como África e Ásia, que ganharam maior representatividade no Colégio dos Cardeais, também terão peso significativo na decisão.

Cronologia do papado de Francisco

A trajetória de Francisco como papa foi marcada por eventos que moldaram a Igreja e o mundo. Abaixo, uma linha do tempo com os principais momentos:

  • 2013: Eleito papa em 13 de março, tornando-se o primeiro latino-americano e jesuíta no cargo.
  • 2015: Publica a encíclica Laudato Si’, abordando a crise climática e a responsabilidade ambiental.
  • 2016: Publica Amoris Laetitia, flexibilizando a abordagem da Igreja com divorciados recasados.
  • 2020: Reza sozinho na Praça São Pedro durante a pandemia de Covid-19, em um gesto histórico.
  • 2021: Visita o Iraque, promovendo diálogo inter-religioso com líderes muçulmanos.
  • 2023: Autoriza bênçãos a casais do mesmo sexo, marcando um avanço na inclusão de pessoas LGBTQIA+.

Essa cronologia destaca a intensidade de um papado que buscou responder aos desafios de um mundo em transformação, mantendo a essência da mensagem cristã.

Um papa do povo

Francisco conquistou admiradores dentro e fora da Igreja por sua autenticidade. Torcedor do San Lorenzo, ele nunca escondeu sua paixão pelo futebol, frequentemente mencionando o esporte em seus discursos. Sua origem humilde e seu estilo de vida simples o aproximaram de fiéis em todo o mundo. Em visitas ao Brasil, como na Jornada Mundial da Juventude de 2013, ele encantou multidões com sua descontração, dispensando carros blindados e caminhando entre os peregrinos.

Sua capacidade de dialogar com diferentes públicos também foi notável. Ele se encontrou com líderes de movimentos sociais, como o brasileiro João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, e recebeu ativistas climáticos, como Greta Thunberg. Essas interações reforçaram sua imagem como um líder global, preocupado com questões que transcendem a esfera religiosa.

Impacto na América Latina

Como primeiro papa latino-americano, Francisco trouxe visibilidade à região, que abriga cerca de 40% dos católicos do mundo. Ele visitou países como Brasil, Bolívia, Equador e Paraguai, destacando a importância da Igreja na luta contra a desigualdade. Sua defesa dos povos indígenas, especialmente durante o Sínodo da Amazônia, em 2019, foi um marco para as comunidades locais. Ele pediu proteção às florestas e aos direitos dos povos originários, conectando fé e justiça social.

No entanto, Francisco também enfrentou desafios na região. A ascensão de igrejas evangélicas, especialmente no Brasil e na América Central, reduziu a influência católica. Ele respondeu incentivando uma Igreja mais missionária, que saísse às ruas para dialogar com as pessoas. Sua mensagem de proximidade ressoou em comunidades carentes, mas não foi suficiente para reverter completamente a perda de fiéis.

Um legado em aberto

A morte de Francisco deixa a Igreja Católica em um momento de transição. Seu papado foi um divisor de águas, ao promover uma visão mais humana e inclusiva da fé. Ele enfrentou resistências, mas também inspirou milhões com sua mensagem de misericórdia. A imagem de um papa que rejeitava o luxo, visitava prisões e abraçava refugiados ficará gravada na memória de católicos e não católicos.

O próximo conclave será um teste para o impacto de suas reformas. A escolha de um papa de perfil semelhante, possivelmente da África ou da Ásia, poderia consolidar sua visão. Por outro lado, uma virada conservadora poderia desacelerar as mudanças iniciadas. Independentemente do futuro, Francisco já entrou para a história como o papa que tentou fazer da Igreja um reflexo do Evangelho: simples, acolhedor e comprometido com os mais fracos.

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