O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca na noite desta quinta-feira, 24 de abril, às 22h, horário de Brasília, rumo a Roma, para participar do funeral do papa Francisco, marcado para sábado, 26, na Basílica de São Pedro. A comitiva brasileira, composta por figuras de peso dos três poderes, reflete a relevância do evento tanto no cenário político nacional quanto na esfera global. Acompanhado da primeira-dama Janja da Silva, Lula lidera um grupo que inclui os presidentes da Câmara, Hugo Mota, do Senado, Davi Alcolumbre, e do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, em uma demonstração de unidade institucional e respeito à figura do pontífice argentino, falecido na última segunda-feira, 21, aos 88 anos. A viagem ocorre em meio a um momento de luto oficial de sete dias decretado no Brasil, destacando a importância do legado de Francisco para o país e o mundo.
A escolha da comitiva revela uma estratégia política cuidadosa. Diferentemente do funeral de João Paulo II, em 2005, quando Lula convidou ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Itamar Franco, desta vez a prioridade foi fortalecer laços com os atuais chefes dos poderes Legislativo e Judiciário. A presença de Hugo Mota, Davi Alcolumbre e Roberto Barroso sinaliza a intenção de consolidar articulações políticas em um momento de desafios internos, como a necessidade de aprovar reformas no Congresso e manter diálogo com o Judiciário. Além disso, a participação de Janja reforça o caráter pessoal e afetivo da relação de Lula com Francisco, com quem se encontrou diversas vezes, incluindo na cúpula do G7 em 2024.
O funeral do papa Francisco, que será realizado ao ar livre na Praça de São Pedro, é um evento de alcance global, atraindo líderes de diversos países. A cerimônia, presidida pelo cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio Cardinalício, marca o encerramento de um papado de 12 anos que deixou marcas profundas na Igreja Católica e na sociedade. A mobilização brasileira para o evento reflete não apenas o peso da religião na cultura nacional, mas também a projeção internacional do Brasil em um momento de luto e transição no Vaticano.
Composição da comitiva brasileira
A comitiva presidencial reúne nomes de destaque, confirmando a relevância do funeral no contexto político e diplomático. O Palácio do Planalto informou que todos os convidados aceitaram o convite, embora a lista completa ainda não tenha sido divulgada. Além dos chefes dos poderes, especula-se a presença de outros parlamentares e ministros, como a ex-presidente Dilma Rousseff, atual presidente do Banco dos Brics, e o ex-chanceler Celso Amorim, secretário especial da Presidência.
- Hugo Mota (Câmara dos Deputados): Presidente da Câmara, representa o Legislativo e reforça a articulação do governo com o Congresso.
- Davi Alcolumbre (Senado): Líder do Senado, sua presença destaca a importância do equilíbrio entre os poderes.
- Luís Roberto Barroso (STF): Presidente do Supremo, simboliza a harmonia institucional em um momento de luto nacional.
- Janja da Silva: Primeira-dama, acompanha Lula em um gesto de proximidade pessoal com o legado de Francisco.
- Possíveis participantes: Dilma Rousseff e Celso Amorim podem integrar o grupo, ampliando a representatividade da comitiva.
A ausência do vice-presidente Geraldo Alckmin, que assumirá a Presidência interinamente, é explicada pela necessidade de manter a linha sucessória no Brasil durante a viagem. A composição da comitiva reflete uma combinação de simbolismo político e respeito à memória de Francisco, cuja influência transcendeu os limites da Igreja Católica.
Legado de Francisco e sua relevância global
O papa Francisco, primeiro pontífice latino-americano, faleceu às 7h35 de segunda-feira, 21 de abril, no horário de Roma (2h35 em Brasília), vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) seguido de insuficiência cardíaca. Sua morte, após uma internação recente para tratar uma pneumonia dupla, gerou comoção mundial. Durante seus 12 anos de papado, iniciado em 2013, Francisco se destacou por sua simplicidade, defesa dos pobres e críticas aos modelos econômicos que geram desigualdade. Suas posições progressistas, como a ênfase na justiça social, proteção ambiental e acolhimento de refugiados, conquistaram admiradores mesmo fora dos círculos católicos.
No Brasil, onde o catolicismo ainda é majoritário, com cerca de 50% da população se declarando católica segundo o IBGE, Francisco exerceu uma influência significativa. Sua mensagem de solidariedade e combate à fome dialogava diretamente com as prioridades do governo Lula, que se encontrou com o pontífice em pelo menos três ocasiões: em 2020, 2023 e 2024. Durante esses encontros, discutiram temas como a guerra na Ucrânia, mudanças climáticas e desigualdade social, reforçando a sintonia entre ambos. A presença de Lula no funeral é, portanto, tanto um gesto de luto quanto uma afirmação de alinhamento com os valores defendidos por Francisco.
A relevância global do papa também é evidenciada pela presença confirmada de outros líderes mundiais na cerimônia. Entre eles, estão o presidente argentino Javier Milei, que superou divergências públicas com Francisco, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e o presidente da Polônia, Andrzej Duda. A ausência do presidente russo Vladimir Putin, anunciada pelo Kremlin, reflete as críticas de Francisco à guerra na Ucrânia e as restrições impostas ao líder russo pelo Tribunal Penal Internacional. O funeral, além de um momento de homenagem, cria oportunidades para reuniões diplomáticas de alto nível, reforçando sua importância geopolítica.
Impacto de Francisco no Brasil e na Igreja
No Brasil, a morte de Francisco gerou uma onda de manifestações de pesar entre políticos, religiosos e cidadãos. Lula, em nota oficial, descreveu o pontífice como uma “voz de respeito e acolhimento” que propagou amor, tolerância e solidariedade. O presidente destacou a simplicidade de Francisco, sua coragem em abordar as mudanças climáticas e sua crítica aos sistemas econômicos que geram injustiças. A decretação de luto oficial por sete dias reforça o reconhecimento do impacto do papa no país, onde a religião desempenha um papel central na cultura e na política.
Embora Francisco tenha inspirado paróquias e movimentos sociais, sua influência dentro da Igreja Católica brasileira foi limitada. A ascensão das igrejas evangélicas, que hoje reúnem cerca de 30% da população, segundo o IBGE, continuou durante seu papado. Mesmo assim, sua postura progressista encontrou eco em setores da sociedade, como os evangélicos progressistas e os 20 milhões de brasileiros que se declaram sem religião, mas valorizam princípios éticos e humanitários. A mobilização para o funeral reflete a tentativa do governo de se conectar com esses grupos, especialmente em um contexto de polarização política.
Dentro da Igreja, Francisco enfrentou resistências. Suas reformas na Cúria Romana, a criação da Secretaria para a Economia e a promoção de uma “conversão pastoral” geraram tensões com setores conservadores. Apesar disso, sua liderança foi crucial em momentos de crise, como a pandemia de Covid-19, quando defendeu o acesso universal à vacina e criticou o negacionismo. No Brasil, sua visita à Jornada Mundial da Juventude em 2013, no Rio de Janeiro, e sua passagem pela Basílica de Aparecida marcaram a memória de milhões de fiéis.
Cronograma do funeral e rituais no Vaticano
O funeral do papa Francisco segue um protocolo simplificado, conforme determinado pelo próprio pontífice em seu testamento. A cerimônia, marcada para sábado, 26, às 10h no horário de Roma (5h em Brasília), será realizada ao ar livre, na Praça de São Pedro, para facilitar a participação de fiéis. O corpo do papa, que está sendo velado na capela da Casa Santa Marta desde segunda-feira, foi trasladado para a Basílica de São Pedro na quarta-feira, 23, onde permanece exposto para visitação pública.
- Segunda-feira, 21: Anúncio da morte de Francisco; início do velório na Casa Santa Marta.
- Quarta-feira, 23: Traslado do corpo para a Basílica de São Pedro; início da visitação pública.
- Sábado, 26: Funeral na Praça de São Pedro, presidido pelo cardeal Giovanni Battista Re.
- Pós-funeral: Sepultamento na Basílica de Santa Maria Maior, conforme desejo de Francisco.
Mais de 50 mil fiéis já passaram pela Basílica de São Pedro para prestar homenagens, segundo informações do Vaticano. A cerimônia de sábado deve atrair uma multidão, com a presença de líderes mundiais e representantes de diversas religiões. Após o funeral, o corpo de Francisco será levado à Basílica de Santa Maria Maior, onde será sepultado, rompendo com a tradição de enterros na Basílica de São Pedro.
Expectativas para o conclave
A morte de Francisco marca o início de um período de transição na Igreja Católica, com a preparação para o conclave que escolherá o próximo papa. Os rituais do conclave, com suas reuniões secretas e a fumaça branca anunciando a eleição, fascinam o mundo. No entanto, especialistas apontam que a escolha do próximo pontífice será desafiadora, dado o perfil singular de Francisco.
A composição do Colégio Cardinalício, com 140 cardeais eleitores, é predominantemente europeia, com forte influência italiana. Apesar do crescimento do catolicismo na África e nas Américas, a probabilidade de um novo papa latino-americano é considerada baixa. A mobilização de cardeais italianos e a possível influência do governo norte-americano, especialmente sob a administração de Donald Trump, podem pesar na decisão. No Brasil, cinco cardeais estão aptos a votar, mas nenhum é visto como favorito.
A eleição do próximo papa dependerá de negociações complexas, com debates entre alas progressistas e conservadoras. Francisco nomeou mais de 70% dos cardeais eleitores, o que poderia favorecer um candidato alinhado ao seu legado. No entanto, resistências internas e a desconexão de parte do clero com as bases católicas, especialmente na América Latina, sugerem a escolha de um perfil mais moderado.
Mobilização política e religiosa no Brasil
A viagem de Lula ao Vaticano ocorre em um momento de desafios políticos no Brasil. Com a necessidade de aprovar reformas econômicas e manter a estabilidade institucional, o presidente busca fortalecer sua base no Congresso. A inclusão de Hugo Mota e Davi Alcolumbre na comitiva reforça essa estratégia, enquanto a presença de Barroso sinaliza diálogo com o Judiciário. A ausência de figuras como Alckmin, que permanece no Brasil, garante a continuidade do governo durante a viagem.
A religião, um fator central na política brasileira, também explica a mobilização. O catolicismo, embora em declínio, ainda influencia a cultura e o comportamento eleitoral. A presença de Lula no funeral é uma oportunidade de dialogar com os 100 milhões de católicos brasileiros, além de setores progressistas que admiravam Francisco. A decretação de luto oficial e as mensagens de pesar de ministros, como Alexandre Padilha e Simone Tebet, reforçam a conexão do governo com o legado do pontífice.
O impacto de Francisco no Brasil transcende a esfera religiosa. Sua defesa da justiça social e do meio ambiente dialogava com pautas do governo, como o combate à fome e a preservação da Amazônia. Em 2023, durante uma visita de Lula ao Vaticano, Francisco elogiou as políticas brasileiras de inclusão social, reforçando a parceria simbólica entre ambos. A presença de Janja no funeral destaca o caráter pessoal dessa relação, já que a primeira-dama participou de encontros com o papa e compartilhou de sua visão humanitária.
Repercussão global do funeral
O funeral de Francisco é um evento de proporções históricas, reunindo líderes de diferentes ideologias e religiões. A presença de figuras como Javier Milei, que já criticou o papa, mas agora presta homenagem, reflete o alcance do pontífice. A participação de Zelensky, em meio à guerra na Ucrânia, e de Giorgia Meloni, que cancelou compromissos internacionais para permanecer em Roma, destaca a relevância diplomática do evento.
A cerimônia também é uma oportunidade para reuniões bilaterais. Lula, que já se encontrou com líderes como Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen em cúpulas recentes, pode aproveitar o funeral para discutir temas como comércio, clima e paz global. A ausência de Putin, por outro lado, reforça as tensões geopolíticas, especialmente após as críticas de Francisco à invasão russa.
No Vaticano, a logística do funeral mobiliza milhares de pessoas. A Basílica de São Pedro permaneceu aberta durante a madrugada para atender a multidão de fiéis, e a segurança foi reforçada em Roma. O evento, televisionado para o mundo, deve atrair milhões de espectadores, consolidando a memória de Francisco como um líder que uniu fé e ação social.
Desafios para a Igreja Católica
A morte de Francisco abre um período de incertezas para a Igreja Católica. Seu papado, marcado por reformas e críticas ao capitalismo desenfreado, gerou divisões internas. Enquanto setores progressistas celebram sua abertura, conservadores criticam sua abordagem em temas como o celibato e a inclusão de minorias. O próximo papa enfrentará o desafio de unir essas alas enquanto lida com a concorrência das igrejas evangélicas e o secularismo crescente.
No Brasil, a Igreja Católica busca recuperar influência em um cenário de pluralismo religioso. A ascensão evangélica, especialmente entre os mais pobres, desafia a hegemonia católica. Francisco, com sua mensagem de proximidade com os excluídos, tentou frear essa tendência, mas os resultados foram limitados. O próximo conclave será decisivo para definir se a Igreja manterá o tom progressista ou adotará uma postura mais tradicional.
A participação de Lula no funeral reforça o papel do Brasil como um ator relevante no catolicismo global. Com a maior população católica do mundo, o país tem peso nas discussões da Igreja, embora sua influência no conclave seja reduzida. A presença de cardeais brasileiros, como Dom Odilo Scherer e Dom Leonardo Steiner, garante uma voz latino-americana, mas a escolha do papa dependerá de alianças internacionais.
Homenagens e memória de Francisco
A memória de Francisco já está sendo celebrada em todo o mundo. No Brasil, paróquias organizam missas em sua homenagem, enquanto fiéis relembram sua visita ao país em 2013. Sua passagem pelo Rio de Janeiro, durante a Jornada Mundial da Juventude, e sua mensagem de simplicidade marcaram uma geração. Em Aparecida, onde celebrou uma missa, Francisco deixou um legado de devoção popular.
- Jornada Mundial da Juventude (2013): Francisco atraiu milhões ao Rio, reforçando o catolicismo jovem.
- Visita a Aparecida: Sua passagem pela basílica fortaleceu a devoção mariana no Brasil.
- Defesa do SUS: Durante a pandemia, Francisco elogiou o sistema de saúde brasileiro.
- Mensagem ambiental: A encíclica Laudato Si’ inspirou políticas de preservação no Brasil.
O funeral de sábado será o ponto culminante dessas homenagens. Com a presença de líderes mundiais e fiéis, a cerimônia celebrará a vida de um papa que desafiou convenções e colocou os pobres no centro de sua missão. Para o Brasil, é uma oportunidade de reafirmar sua identidade católica e sua relevância no cenário global.