A chegada do Mounjaro ao Brasil, marcada para a primeira quinzena de maio de 2025, representa um marco no tratamento de diabetes tipo 2 e reacende o debate sobre medicamentos que também promovem perda de peso. Desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly, o medicamento, cujo princípio ativo é a tirzepatida, foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2023 para controle glicêmico. Embora sua indicação oficial seja para diabetes, o Mounjaro já é prescrito off-label por médicos para emagrecimento, prática que ganhou popularidade com o Ozempic, da Novo Nordisk, baseado na semaglutida. A competição entre esses dois fármacos injetáveis, administrados semanalmente por meio de canetas, levanta questões sobre preço, eficácia e acessibilidade no mercado brasileiro. Enquanto o Ozempic já é consolidado no país, com preços entre R$ 1 mil e R$ 1,3 mil, o Mounjaro estreia com valores mais elevados, variando de R$ 1,4 mil a R$ 2,4 mil por caixa, dependendo da dosagem e do programa de fidelidade da fabricante.
O impacto do Mounjaro no mercado farmacêutico brasileiro é aguardado com expectativa. Estudos apontam que a tirzepatida oferece maior eficácia no controle da glicemia e na redução de peso em comparação com a semaglutida, o que pode justificar seu custo mais alto para alguns pacientes. Além disso, a chegada do medicamento ocorre em um momento de crescente demanda por tratamentos que combinem benefícios metabólicos e estéticos, impulsionada por relatos de celebridades e influenciadores que utilizam essas canetas para emagrecer. No entanto, a prescrição off-label levanta preocupações entre especialistas, que alertam para a necessidade de acompanhamento médico rigoroso devido a possíveis efeitos colaterais, como náuseas, diarreia e riscos gastrointestinais mais graves.
Outro fator que diferencia o Mounjaro é sua ação dupla sobre dois hormônios intestinais, o GLP-1 e o GIP, enquanto o Ozempic atua apenas sobre o GLP-1. Essa característica potencializa a sensação de saciedade e o controle do açúcar no sangue, tornando o Mounjaro uma opção promissora não apenas para diabetes, mas também para condições como obesidade, apneia do sono e doenças cardiovasculares, que estão sob investigação. Com a Anvisa analisando a aprovação do Mounjaro para controle crônico de peso, o medicamento pode se tornar um concorrente ainda mais direto do Wegovy, outra caneta da Novo Nordisk focada em obesidade.
- Benefícios do Mounjaro: Controle superior da glicemia e maior perda de peso em estudos comparativos.
- Preço inicial: A partir de R$ 1.406,75 para a dosagem de 2,5 mg no programa da Eli Lilly.
- Comparação com Ozempic: Mais caro, mas com ação dupla em hormônios intestinais.
- Prescrição off-label: Uso para emagrecimento já é comum, apesar de indicação oficial para diabetes.
Preços e acessibilidade no mercado brasileiro
O custo do Mounjaro é um dos principais pontos de discussão para pacientes e médicos. Cada caixa do medicamento contém quatro canetas injetáveis, suficientes para um mês de tratamento, e os preços variam conforme a dosagem e a adesão ao programa de fidelidade da Eli Lilly. Para a dosagem inicial de 2,5 mg, o valor no e-commerce da fabricante é de R$ 1.406,75, enquanto em lojas físicas chega a R$ 1.506,76. Sem o programa, o preço sobe para R$ 1.907,29. Já a dosagem de 5 mg custa R$ 1.759,64 no e-commerce, R$ 1.859,65 em lojas físicas e R$ 2.384,34 fora do programa. Esses valores contrastam com o Ozempic, cujo preço máximo, segundo a tabela da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) de abril de 2025, varia entre R$ 1.034,35 e R$ 1.367,19, dependendo do estado e da alíquota do ICMS.
A diferença de preço reflete, em parte, a inovação do Mounjaro, que combina a ação de dois hormônios para maior eficácia. No entanto, o custo elevado pode limitar o acesso para muitos brasileiros, especialmente em um contexto onde o Sistema Único de Saúde (SUS) não cobre medicamentos injetáveis para diabetes tipo 2 ou obesidade. Especialistas apontam que o alto preço do Mounjaro o posiciona como uma opção voltada para classes mais altas, o que já rendeu ao medicamento o apelido de “Ozempic dos ricos” em reportagens internacionais. Programas de fidelidade, como o oferecido pela Eli Lilly, podem aliviar o impacto financeiro, mas ainda assim o tratamento mensal representa um investimento significativo.
Para pacientes que dependem de medicamentos contínuos, a escolha entre Mounjaro e Ozempic envolve avaliar não apenas o preço, mas também a resposta individual ao tratamento. Enquanto o Ozempic já tem uma base consolidada de usuários no Brasil, o Mounjaro chega com a promessa de resultados mais robustos, especialmente para aqueles que não alcançaram o controle glicêmico desejado com outras terapias. A decisão, no entanto, exige orientação médica, já que ambos os medicamentos podem causar efeitos adversos, como problemas gastrointestinais, e requerem monitoramento constante.
Como funcionam Mounjaro e Ozempic
A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, é considerada uma evolução em relação à semaglutida, usada no Ozempic, por sua ação dual nos receptores dos hormônios GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1) e GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose). Esses hormônios, liberados pelo intestino após as refeições, estimulam a produção de insulina, reduzem a liberação de glucagon e retardam o esvaziamento gástrico, promovendo saciedade. A ação combinada do Mounjaro resulta em maior controle do açúcar no sangue e perda de peso mais significativa, com estudos indicando redução média de 20% do peso corporal em 72 semanas, contra 14% do Ozempic no mesmo período.
Já o Ozempic, introduzido no Brasil em 2018, atua exclusivamente sobre o receptor GLP-1, o que também garante benefícios no controle glicêmico e na redução do apetite. Disponível em três dosagens (0,25 mg, 0,5 mg e 1 mg), o medicamento é amplamente utilizado para diabetes tipo 2 e, de forma off-label, para emagrecimento. A semaglutida também é o princípio ativo do Wegovy, aprovado pela Anvisa para obesidade, mas com dosagens mais altas (até 2,4 mg). Apesar de eficaz, o Ozempic apresenta resultados menos expressivos em perda de peso em comparação com o Mounjaro, o que tem levado médicos a considerar a tirzepatida para pacientes com necessidades específicas.
Ambos os medicamentos são administrados por injeções subcutâneas semanais, aplicadas no abdômen, coxa ou braço, e requerem prescrição médica. A Anvisa reforça que o uso deve ser acompanhado por dieta e exercícios, especialmente no tratamento de diabetes, para maximizar os benefícios. No caso do Mounjaro, as dosagens iniciais de 2,5 mg e 5 mg são recomendadas para novos pacientes, com aumento progressivo até 15 mg, dependendo da resposta ao tratamento.
- Mounjaro: Ação dual nos hormônios GLP-1 e GIP, com maior perda de peso (até 25% em estudos).
- Ozempic: Ação no hormônio GLP-1, com redução média de 15% do peso corporal.
- Aplicação: Injeções semanais para ambos, com canetas de uso simples.
- Indicação oficial: Diabetes tipo 2, mas uso off-label para emagrecimento é crescente.
Eficácia comprovada por estudos
Estudos clínicos têm destacado a superioridade do Mounjaro em relação ao Ozempic em diversos aspectos. O estudo SURPASS-2, por exemplo, mostrou que pacientes tratados com tirzepatida perderam, em média, 12,4 kg, o dobro do observado com a semaglutida. Além disso, a tirzepatida reduziu significativamente a hemoglobina glicada, um marcador importante do controle do diabetes. Em ensaios como SURMOUNT-3 e SURMOUNT-4, voltados para obesidade e sobrepeso, o Mounjaro alcançou perdas de até 26% do peso corporal, aproximando-se dos resultados de cirurgias bariátricas.
Por outro lado, o Ozempic também tem um histórico robusto. Ensaios clínicos da Novo Nordisk indicam que a semaglutida promove perda de peso de 4,2 kg a 6,3 kg em média, com redução de cerca de 15% do peso corporal após 68 semanas. Para pacientes com diabetes tipo 2, o medicamento é eficaz na estabilização dos níveis de glicose, especialmente quando combinado com mudanças no estilo de vida. A chegada do Wegovy, com doses mais altas de semaglutida, intensificou a competição no mercado de tratamentos para obesidade, mas o Mounjaro ainda se destaca por sua ação dual.
A comparação direta entre os dois medicamentos, publicada na revista JAMA Internal Medicine, reforça a vantagem da tirzepatida. Após um ano de uso, pacientes com Mounjaro perderam 15,3% do peso corporal, contra 8,3% com Ozempic. Além disso, 42,3% dos usuários de tirzepatida atingiram perdas de 15% ou mais, enquanto apenas 18,1% dos usuários de semaglutida alcançaram esse patamar. Esses números têm atraído atenção de médicos e pacientes, mas também geram debates sobre o custo-benefício, dado o preço mais alto do Mounjaro.
Impactos no tratamento de diabetes e obesidade
O tratamento de diabetes tipo 2 no Brasil enfrenta desafios significativos, com cerca de 16 milhões de pessoas afetadas pela doença, segundo estimativas do Ministério da Saúde. Medicamentos como Mounjaro e Ozempic oferecem esperança para melhorar o controle glicêmico, mas a acessibilidade permanece um obstáculo. A ausência de cobertura pelo SUS para esses fármacos injetáveis força pacientes a arcarem com custos elevados, o que limita o alcance dessas terapias. Iniciativas como o programa de fidelidade da Eli Lilly podem reduzir os preços do Mounjaro, mas ainda assim o medicamento é menos acessível que o Ozempic para a maioria da população.
No contexto da obesidade, a chegada do Mounjaro é vista como um avanço. A condição afeta um em cada cinco brasileiros, e o uso off-label de medicamentos como Ozempic e Mounjaro tem crescido, impulsionado por resultados rápidos e visíveis. No entanto, especialistas alertam que a perda de peso rápida pode levar a efeitos colaterais, como flacidez muscular e deficiências nutricionais, se não for acompanhada por uma dieta balanceada e exercícios. A Anvisa, ciente do uso off-label, determinou em abril de 2025 que a venda de Mounjaro, Ozempic, Wegovy e Saxenda seja feita apenas com retenção de receita médica, visando coibir o uso indiscriminado.
A popularidade desses medicamentos também gerou um mercado paralelo de versões manipuladas, o que levou entidades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) a emitirem alertas sobre os riscos de infecções e instabilidade das fórmulas. Para pacientes, a orientação é clara: buscar apenas medicamentos aprovados pela Anvisa, adquiridos em farmácias certificadas, e evitar promessas de resultados milagrosos.
- Riscos do uso off-label: Efeitos colaterais gastrointestinais e necessidade de acompanhamento médico.
- Mercado paralelo: Alertas contra versões manipuladas de tirzepatida e semaglutida.
- Acessibilidade: Altos custos limitam o acesso, sem cobertura pelo SUS.
- Regulação: Anvisa exige retenção de receita para coibir uso indiscriminado.
Cronograma de lançamento e perspectivas futuras
O Mounjaro estará disponível nas farmácias brasileiras a partir de 7 de junho de 2025, inicialmente nas dosagens de 2,5 mg e 5 mg. A Eli Lilly planeja expandir o portfólio com dosagens de 7,5 mg, 10 mg, 12,5 mg e 15 mg, além de doses de transição, para atender diferentes perfis de pacientes. A expectativa é que o medicamento se torne o maior lançamento da história da empresa no Brasil, com estoques preparados para evitar desabastecimento, um problema enfrentado pelo Ozempic em períodos de alta demanda.
- 2023: Aprovação do Mounjaro pela Anvisa para diabetes tipo 2.
- Abril 2025: Anvisa determina retenção de receita para Mounjaro e Ozempic.
- 7 de junho de 2025: Início da comercialização do Mounjaro no Brasil.
- Futuro: Análise da Anvisa para aprovação do Mounjaro para obesidade.
A longo prazo, o Mounjaro pode redefinir o mercado de medicamentos para diabetes e obesidade no Brasil, mas sua adoção dependerá de fatores como preço, cobertura por planos de saúde e aceitação entre médicos. A competição com o Ozempic e o Wegovy deve intensificar a inovação na área, com novas moléculas, como a retatrutida, já em fase de testes. Para pacientes, a chegada do Mounjaro é uma oportunidade de acessar um tratamento mais eficaz, mas também um lembrete da importância de escolhas informadas e acompanhamento profissional.

Efeitos colaterais e cuidados necessários
Embora promissores, Mounjaro e Ozempic não estão isentos de riscos. Os efeitos colaterais mais comuns incluem náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal, sendo mais frequentes no início do tratamento. O Mounjaro, por sua ação dual, pode causar sintomas gastrointestinais mais intensos, e estudos apontam que um número maior de pacientes interrompe o uso devido a esses efeitos em comparação com o Ozempic. Além disso, ambos os medicamentos têm contraindicações, como histórico de carcinoma medular da tireoide ou alergia aos princípios ativos.
Gestantes, lactantes e menores de 18 anos não devem usar esses fármacos, e pacientes com histórico familiar de certas condições endócrinas precisam de avaliação cuidadosa. Recentemente, um estudo publicado na revista JAMA Ophthalmology levantou preocupações sobre a possível associação entre Mounjaro e Ozempic e perda parcial da visão, embora a relação causal ainda não esteja confirmada. Esses alertas reforçam a necessidade de prescrição médica e monitoramento regular.
Para minimizar riscos, médicos recomendam iniciar o tratamento com doses baixas e aumentar gradualmente, além de manter uma rotina de alimentação saudável e atividade física. Pacientes que utilizam Mounjaro ou Ozempic para emagrecimento devem estar atentos a sinais de desnutrição ou perda muscular, especialmente em regimes de baixa caloria. A orientação profissional é essencial para equilibrar os benefícios e os riscos, garantindo um tratamento seguro e eficaz.
Impacto cultural e social do uso off-label
A popularidade de Mounjaro e Ozempic vai além dos consultórios médicos, alcançando as redes sociais e o mundo das celebridades. No Brasil, relatos de figuras públicas que perderam peso significativo com esses medicamentos têm impulsionado a demanda, muitas vezes sem menção aos riscos ou à necessidade de prescrição. Esse fenômeno, amplificado por plataformas como o Instagram e o TikTok, criou uma percepção de que as canetas injetáveis são uma solução rápida para o emagrecimento, o que preocupa especialistas.
A pressão por padrões estéticos inalcançáveis contribui para o uso indiscriminado, especialmente entre jovens e mulheres. No entanto, endocrinologistas enfatizam que o emagrecimento com Mounjaro ou Ozempic deve ser visto como um benefício secundário, não como o objetivo principal, já que a interrupção do tratamento pode levar à recuperação do peso. Além disso, a falta de acesso equitativo a esses medicamentos reforça desigualdades, com tratamentos de alto custo disponíveis apenas para uma minoria.
O debate sobre o uso off-label também toca em questões éticas. Enquanto alguns defendem a liberdade de médicos em prescrever medicamentos com base em evidências científicas, outros alertam para os riscos de banalizar tratamentos complexos. A Anvisa tem intensificado a fiscalização para coibir a venda irregular, mas o mercado negro e as farmácias de manipulação continuam a oferecer versões não regulamentadas, aumentando os riscos para a saúde pública.
- Cuidados no uso: Iniciar com doses baixas e monitorar efeitos colaterais.
- Contraindicações: Não indicado para gestantes, lactantes ou menores de 18 anos.
- Riscos sociais: Pressão estética e uso indiscriminado impulsionados por redes sociais.
- Fiscalização: Anvisa intensifica controle sobre vendas irregulares.
O futuro dos tratamentos para diabetes e obesidade
A chegada do Mounjaro ao Brasil é apenas o começo de uma nova era no tratamento de condições metabólicas. A pesquisa farmacêutica avança rapidamente, com moléculas como a retatrutida, também da Eli Lilly, mostrando resultados promissores em ensaios clínicos. Esse composto, que atua em três receptores hormonais (GLP-1, GIP e glucagon), pode superar o Mounjaro em eficácia, com perdas de peso de até 24% em testes preliminares. Outras empresas, como a Novo Nordisk, também investem em inovações, o que deve intensificar a competição e, potencialmente, reduzir preços no futuro.
No Brasil, a incorporação de medicamentos como Mounjaro e Ozempic ao SUS é um desafio distante, dado o alto custo e a prioridade para tratamentos de maior alcance populacional. Planos de saúde privados, por sua vez, começam a avaliar a cobertura de canetas injetáveis, mas as negociações são complexas devido aos valores envolvidos. Para pacientes, a esperança reside em programas de desconto, genéricos futuros e maior concorrência no mercado.
Enquanto isso, a educação sobre o uso responsável desses medicamentos é essencial. Campanhas de conscientização, lideradas por entidades médicas, buscam informar a população sobre os riscos do uso sem supervisão e a importância de um estilo de vida saudável como complemento ao tratamento. O Mounjaro, com sua promessa de maior eficácia, pode transformar a abordagem ao diabetes e à obesidade, mas apenas se for usado de forma ética e acessível.