Em um cenário de transição para a Igreja Católica, o nome de Pietro Parolin ressoa com força nos corredores do Vaticano. Aos 70 anos, o cardeal italiano, atual Secretário de Estado, emerge como principal favorito para suceder o Papa Francisco, cuja morte em abril de 2025 marcou o início de intensas especulações sobre o próximo pontífice. Sua trajetória, marcada por décadas de diplomacia e proximidade com Francisco, o posiciona como uma figura de equilíbrio em um colégio cardinalício diverso. A escolha do novo papa, a ser definida no conclave iniciado em 7 de maio, carrega o peso de guiar 1,4 bilhão de católicos em um mundo polarizado.
O conclave, ritual milenar realizado na Capela Sistina, reúne 133 cardeais eleitores de 71 países, refletindo a globalização da Igreja. Parolin, com sua experiência em negociações internacionais e postura moderada, é visto como um nome capaz de unir progressistas e conservadores. Sua atuação em acordos históricos, como a reaproximação entre Estados Unidos e Cuba, reforça sua reputação. No entanto, críticas apontam sua limitada experiência pastoral como um possível obstáculo.
- Diplomacia como trunfo: Parolin negociou acordos com China e Vietnã, ampliando a influência da Santa Sé.
- Proximidade com Francisco: Nomeado Secretário de Estado em 2013, foi o “número 2” do Vaticano por mais de uma década.
- Apoio italiano: Clérigos da Itália, que já foi o epicentro do papado, veem Parolin como a chance de retomar o Trono de Pedro.
A missa presidida por Parolin na Praça São Pedro, durante o Jubileu dos Adolescentes, foi um momento emblemático. Diante de 200 mil fiéis, sua mensagem de misericórdia ecoou o legado de Francisco, reforçando sua visibilidade entre os eleitores.
Cardinal Pietro Parolin celebrates Mass on Divine Mercy Sunday in suffrage for Pope Francis, marking the second day of the Novemdiales, or 'nine days' of mourning for the late Pope.
— Vatican News (@VaticanNews) April 27, 2025
Around 200,000 young people attended the Mass, which took place during the scheduled Jubilee for… pic.twitter.com/Hia8yqpptj
Raízes e formação de um diplomata
Nascido em 17 de janeiro de 1955, em Schiavon, uma pequena cidade na região do Vêneto, Pietro Parolin cresceu em uma família católica de classe média. A perda do pai ainda jovem moldou sua sensibilidade espiritual, guiando-o ao seminário aos 14 anos. Ordenado sacerdote em 1980, destacou-se nos estudos teológicos e obteve um doutorado em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Sua fluência em italiano, inglês, francês e espanhol abriu portas para uma carreira internacional.
A entrada no serviço diplomático da Santa Sé, em 1986, marcou o início de sua ascensão. Parolin serviu nas nunciaturas da Nigéria e do México, enfrentando contextos sociopolíticos complexos. Na Nigéria, lidou com tensões religiosas; no México, participou da restauração das relações entre a Igreja e o Estado, rompidas desde o século XIX. Essas experiências forjaram sua habilidade em conciliar firmeza moral com pragmatismo, características que o acompanham até hoje.
Em 2009, foi nomeado núncio apostólico na Venezuela, onde enfrentou o governo de Hugo Chávez. Parolin defendeu a Igreja contra tentativas de restringir sua influência, mantendo um diálogo tenso, mas necessário. Sua passagem pelo país sul-americano, marcada por desafios políticos, consolidou sua reputação como um negociador habilidoso.
Papel central na cúria romana
Desde 2013, como Secretário de Estado, Parolin assumiu o papel de “vice-papa”, coordenando a administração do Vaticano e as relações internacionais da Santa Sé. Sua nomeação por Francisco, no primeiro ano do pontificado, sinalizou confiança mútua, embora fontes apontem um distanciamento nos últimos anos. Ele participou de decisões estratégicas, como a reforma da Cúria Romana, e liderou iniciativas para modernizar a governança da Igreja.
Parolin também presidiu momentos de crise. Em fevereiro de 2025, quando Francisco foi internado no Hospital Gemelli, ele conduziu um rosário público na Praça São Pedro, reunindo milhares de fiéis. O gesto, transmitido globalmente, reforçou sua imagem de liderança serena. No entanto, sua gestão enfrentou críticas, especialmente por escândalos financeiros na Secretaria de Estado, como o investimento controverso em Londres, que gerou perdas significativas.
- Reformas administrativas: Parolin apoiou a descentralização do poder na Cúria, alinhando-se ao projeto de Francisco.
- Gestão de crises: Sua resposta a escândalos financeiros buscou transparência, mas não evitou críticas.
- Visibilidade global: Viagens a mais de 50 países ampliaram sua rede de contatos entre cardeais eleitores.
Diplomacia global em destaque
A habilidade diplomática de Parolin é um de seus maiores trunfos. Em 2014, ele foi peça-chave na mediação que levou à retomada das relações entre Estados Unidos e Cuba, um marco na história recente da Santa Sé. O acordo, selado sob a liderança de Francisco, colocou o Vaticano no centro da geopolítica global. Parolin também negociou o acordo de 2018 com a China, que regularizou a nomeação de bispos e encerrou décadas de tensões.
No Vietnã, seus esforços fortaleceram os laços com o governo comunista, abrindo espaço para maior liberdade religiosa. Em 2024, sua visita ao Brasil incluiu um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, onde discutiram questões humanitárias e mudanças climáticas. Essas iniciativas destacam sua capacidade de dialogar com líderes de diferentes espectros ideológicos.
Apesar do sucesso, o acordo com a China gerou críticas de setores conservadores, que o acusam de ceder demais ao governo de Pequim. Parolin defendeu o pacto como um passo necessário para proteger os católicos chineses, mas o tema permanece polêmico entre os cardeais eleitores.
Perfil moderado em um conclave polarizado
O conclave de 2025 ocorre em um momento de divisões internas na Igreja. Progressistas, alinhados ao legado de Francisco, defendem uma Igreja mais inclusiva, enquanto conservadores buscam reafirmar a tradição. Parolin, com seu perfil moderado, é visto como um candidato de consenso. Ele apoia a comunhão para divorciados recasados, mas mantém cautela sobre questões como a bênção a casais do mesmo sexo, enfatizando a fidelidade à doutrina.
Sua posição sobre o celibato sacerdotal também reflete equilíbrio. Em entrevistas, Parolin descreveu o celibato como um “dom”, mas não um dogma imutável, sugerindo abertura a debates futuros. Essa postura atrai moderados, mas pode alienar cardeais mais tradicionalistas, especialmente da África e da Europa Oriental.
- Apoio aos reformistas: Parolin defende a visão de uma Igreja “em saída”, focada nas periferias.
- Cautela doutrinária: Evita posições radicais, mantendo-se alinhado à tradição em temas sensíveis.
- Críticas conservadoras: Alguns cardeais o veem como excessivamente institucional, distante do pastoreio.
Relação com a América Latina
A experiência de Parolin na América Latina é um diferencial em um conclave onde o Sul Global tem peso crescente. Além da Venezuela, ele atuou no México e na Nicarágua, enfrentando regimes autoritários e crises sociais. Na Venezuela, negociou a libertação de presos políticos e criticou violações de direitos humanos, mantendo a Igreja como mediadora em conflitos.
Em 2014, sua participação na reaproximação entre Estados Unidos e Cuba foi elogiada por líderes como Barack Obama e Raúl Castro. No México, ele ajudou a restaurar laços diplomáticos rompidos após a secularização do Estado no século XIX. Essas ações mostram sua capacidade de navegar em cenários politicamente instáveis, um ativo valioso em um mundo marcado por conflitos.
Visibilidade entre os cardeais
A extensa rede de contatos de Parolin é um fator decisivo. Como Secretário de Estado, ele interagiu com cardeais de todos os continentes, construindo alianças que podem se traduzir em votos. Sua participação em eventos globais, como o Sínodo da Amazônia em 2019, reforçou sua imagem de líder conectado às periferias, um tema caro a Francisco.
No entanto, sua falta de experiência pastoral é uma crítica recorrente. Diferentemente de outros candidatos, como o filipino Luis Antonio Tagle, Parolin nunca administrou uma diocese, o que pode pesar para cardeais que priorizam um papa com vivência direta com fiéis. Sua carreira foi majoritariamente diplomática e administrativa, o que o torna mais um “homem da Cúria” do que um pastor de campo.
- Rede global: Parolin conhece лично a maioria dos 133 cardeais eleitores, um trunfo no conclave.
- Limitação pastoral: A ausência de experiência em dioceses é vista como uma fraqueza por alguns.
- Apoio europeu: Cardeais italianos e moderados do Sul Global formam sua base de apoio.
Polêmicas e desafios
A trajetória de Parolin não está isenta de controvérsias. O escândalo financeiro envolvendo investimentos da Secretaria de Estado em Londres, sob sua supervisão, gerou críticas sobre sua capacidade de gestão. Embora ele tenha promovido auditorias para esclarecer o caso, o episódio manchou sua imagem entre alguns cardeais.
Outra polêmica envolve sua relação com a Maçonaria italiana. Em 2019, o Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália, Giuliano Di Bernardo, afirmou ter colaborado com Parolin em questões diplomáticas com a China. Embora não haja evidências de laços atuais, o tema é sensível em um conclave onde a ortodoxia é valorizada.
Parolin também enfrenta resistências por seu distanciamento de Francisco nos últimos anos. Fontes vaticanas sugerem que o Papa argentino perdeu confiança em seu Secretário de Estado, especialmente após divergências sobre a gestão financeira. Essa percepção pode dividir os eleitores, com alguns vendo Parolin como um continuador do legado de Francisco e outros como um retrocesso à centralização da Cúria.
A força do apoio italiano
A possibilidade de um papa italiano, após 47 anos desde João Paulo I, anima clérigos da Itália. Dos 266 papas da história, 213 foram italianos, e Parolin representa a esperança de retomar essa tradição. Sua origem no Vêneto, uma região de forte influência católica, reforça seu apelo local.
Cardeais italianos, como Angelo Bagnasco e Camillo Ruini, são figuras influentes no conclave e podem mobilizar votos a favor de Parolin. No entanto, a diversidade do colégio cardinalício, com apenas 24 eleitores italianos, limita o impacto desse apoio. A eleição de um italiano dependerá da habilidade de Parolin em conquistar cardeais de outras regiões, como África e Ásia.
Conclave sob pressão global
O conclave de 2025 ocorre em um contexto de crises globais, com guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, tensões entre Estados Unidos e China, e desafios climáticos. Parolin, com sua experiência em mediação, é visto como um candidato preparado para representar a Igreja nesses cenários. Sua recente reunião com o vice-presidente americano JD Vance, em abril de 2025, discutiu questões humanitárias, incluindo apoio a refugiados e prisioneiros.
A escolha do próximo papa também reflete o desejo de continuidade ou ruptura com o pontificado de Francisco. Parolin, por sua proximidade com o Papa argentino, é associado à continuidade, mas sua abordagem mais contida pode atrair cardeais que buscam um líder menos midiático. A fumaça branca, que anunciará o novo pontífice, é aguardada com expectativa por fiéis em todo o mundo.
Outros candidatos em disputa
Embora Parolin lidere as apostas, outros cardeais despontam como concorrentes. O filipino Luis Antonio Tagle, de 67 anos, é conhecido por seu carisma e experiência pastoral, sendo chamado de “Francisco asiático”. O húngaro Péter Erdő, de 72 anos, atrai conservadores com sua expertise teológica. O congolês Fridolin Ambongo, de 65 anos, representa a ascensão da Igreja africana.
- Luis Antonio Tagle: Jovem e carismático, tem forte apoio no Sul Global.
- Péter Erdő: Teólogo conservador, é uma opção para cardeais tradicionalistas.
- Fridolin Ambongo: Simboliza o crescimento do catolicismo na África.
Cada candidato traz uma visão distinta para o futuro da Igreja, mas Parolin segue como o nome mais conhecido, segundo plataformas como Polymarket, onde concentra 29% das apostas.
Legado de Francisco em jogo
A morte de Francisco, aos 88 anos, deixou um vazio na Igreja Católica. Seu pontificado, marcado por gestos de simplicidade e defesa das periferias, transformou o colégio cardinalício, com 108 dos 133 eleitores nomeados por ele. Parolin, como um de seus primeiros cardeais, carrega parte desse legado, mas sua eleição dependerá de sua capacidade de unir um grupo fragmentado.
Durante o funeral de Francisco, Parolin presidiu uma das missas do novendiali, reforçando sua posição de liderança. Sua mensagem, que comparou a morte do Papa à de Jesus, ressoou entre os fiéis, mas também foi interpretada como uma tentativa de consolidar sua candidatura. O conclave, iniciado em 7 de maio, é o próximo capítulo dessa história.