A fumaça que sairá da chaminé da Capela Sistina na tarde de quarta-feira, 7 de maio, marcará o início de um dos eventos mais aguardados pelos católicos em todo o mundo. O conclave para eleger o novo papa, sucessor de Francisco, falecido em 21 de abril, reúne 133 cardeais eleitores em um processo marcado por sigilo e tradição. A votação, que ocorre em um ambiente isolado, só termina quando um candidato obtém dois terços dos votos, ou seja, pelo menos 89 apoios.
Na Praça de São Pedro, milhares de fiéis e jornalistas aguardam o sinal que indicará o resultado de cada rodada: fumaça preta para indefinição ou branca para a escolha do novo pontífice. O processo, que começa com uma missa solene na Basílica de São Pedro, reflete séculos de rituais católicos.
O conclave de 2025 é visto como um momento crucial para a Igreja Católica, com 1,4 bilhão de fiéis. A eleição ocorre em meio ao Jubileu em andamento, o que aumenta a pressão por uma definição rápida. Entre os desafios estão a busca por unidade e a escolha de um líder capaz de enfrentar questões globais, como conflitos, secularismo e inclusão.
- Data de início: 7 de maio, com missa às 10h (horário local).
- Local: Capela Sistina, fechada ao público desde 28 de abril.
- Cardeais eleitores: 133, com menos de 80 anos.
- Votação: Até quatro rodadas diárias a partir do segundo dia.
Rituais que precedem a votação
A preparação para o conclave começou semanas antes, com o período de luto de nove dias, conhecido como Novendiales, iniciado após o sepultamento de Francisco em 26 de abril. Durante esse tempo, os cardeais participaram de reuniões chamadas Congregações Gerais, onde discutiram os desafios da Igreja e trocaram impressões sobre possíveis candidatos. Na manhã de 7 de maio, uma missa solene, chamada Pro Eligendo Romano Pontifice, será celebrada na Basílica de São Pedro, presidida pelo decano do Colégio Cardinalício, Giovanni Battista Re.
À tarde, os cardeais seguirão em procissão até a Capela Sistina, entoando o hino Veni Creator Spiritus. Lá, farão um juramento de sigilo, comprometendo-se a não revelar detalhes do processo. O mestre das Celebrações Litúrgicas, Diego Ravelli, pronunciará o “Extra Omnes”, ordenando que todos os não eleitores deixem o local. A Capela Sistina, inspecionada para evitar microfones ou câmeras, torna-se então o epicentro de um ritual que remonta ao século XIII.
- Juramento: Cardeais prometem segredo absoluto e fidelidade às regras.
- Isolamento: Nenhum contato com o exterior é permitido.
- Segurança: Capela é varrida contra dispositivos de espionagem.
Como funciona o sistema de votação
Cada cardeal eleitor recebe uma cédula de papel com a frase “Eligo in Summum Pontificem” (Eu elejo como Sumo Pontífice). Em segredo, escreve o nome de seu candidato e deposita a cédula em uma urna. Três cardeais escrutinadores contam os votos, enquanto outros três revisores verificam a contagem. As cédulas são perfuradas na palavra “Eligo” e unidas por um fio para arquivo.
Após cada rodada, as cédulas são queimadas em uma estufa especial. Um composto químico determina a cor da fumaça: perclorato de potássio, antraceno e enxofre para a fumaça preta; clorato de potássio, lactose e colofónia para a branca. Desde 2005, um aparelho auxiliar garante que as cores sejam nítidas, evitando confusões como as do passado, quando fiéis tentavam interpretar tons acinzentados.
No primeiro dia, apenas uma votação ocorre, com a fumaça esperada por volta das 14h (horário de Brasília). A partir do segundo dia, até quatro rodadas diárias são realizadas, duas pela manhã e duas à tarde. Se após três dias não houver um papa eleito, uma pausa de 24 horas é feita para orações e reflexões.
Significado da fumaça na história
A tradição da fumaça remonta ao século XIX, quando a queima das cédulas passou a ser usada para comunicar o resultado ao mundo. Antes disso, as eleições papais podiam durar meses ou até anos, como no conclave de 1268, que levou quase três anos para eleger Gregório X. Hoje, a fumaça é um dos símbolos mais reconhecíveis do conclave, atraindo multidões à Praça de São Pedro.
Em 2013, a fumaça branca anunciou a eleição de Francisco após apenas dois dias. Em 2005, Bento XVI também foi escolhido rapidamente. A duração média dos últimos dez conclaves é de 3,2 dias, e os cardeais esperam manter esse ritmo em 2025 para demonstrar unidade. A fumaça preta, por outro lado, é comum nas primeiras rodadas, refletindo a necessidade de articulações entre os eleitores.
Cardeais papáveis em destaque
Entre os 133 cardeais eleitores, alguns nomes são frequentemente mencionados como possíveis sucessores de Francisco. Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, é visto como um candidato forte devido à sua experiência diplomática. Aos 70 anos, ele já atuou em negociações com países como China, Cuba e Venezuela. Outro nome é Luis Antonio Tagle, filipino de 67 anos, conhecido por sua conexão com as periferias e carisma entre os jovens.
Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, também aparece entre os favoritos. Aos 60 anos, ele ganhou destaque por sua postura em prol do diálogo inter-religioso na Terra Santa. Péter Erdő, húngaro de 72 anos, é considerado uma opção mais conservadora, com forte influência na Europa Central. A diversidade dos candidatos reflete a globalização da Igreja, com 80% dos cardeais eleitores nomeados por Francisco, muitos vindos de regiões periféricas.
- Pietro Parolin: Diplomata com 40 anos de experiência na Santa Sé.
- Luis Antonio Tagle: Representa a Igreja asiática e a pastoral de Francisco.
- Pierbattista Pizzaballa: Jovem e engajado em questões de paz.
- Péter Erdő: Perfil teológico e conservador.
Papel do Colégio Cardinalício
O Colégio Cardinalício, composto por 252 membros, inclui 133 eleitores com menos de 80 anos. Sete brasileiros estão entre eles: Sérgio da Rocha, Jaime Spengler, Odilo Scherer, Orani Tempesta, Paulo Cezar Costa, João Braz de Aviz e Leonardo Ulrich Steiner. A presença de cardeais de 67 países destaca a diversidade do conclave, com menos da metade dos eleitores sendo europeus, uma novidade histórica.
Durante o conclave, os cardeais ficam alojados na Casa de Santa Marta, um edifício dentro do Vaticano. As refeições são servidas por religiosas, e o transporte até a Capela Sistina é feito por veículos internos. O isolamento é rigoroso: telefones, internet e qualquer comunicação externa são proibidos, com pena de excomunhão para quem violar o sigilo.
Preparativos na Capela Sistina
A Capela Sistina, famosa pelos afrescos de Michelangelo, foi fechada ao público em 28 de abril para os preparativos do conclave. Um piso elevado foi instalado para facilitar o acesso ao altar, e medidas de segurança incluem bloqueadores de sinal de celular e filmes nas janelas para evitar drones. Dois fogareiros foram montados: um para queimar as cédulas e outro para produzir a fumaça colorida.
Técnicos do Vaticano inspecionaram o local minuciosamente, garantindo que o processo permaneça secreto. A chaminé, instalada pelo corpo de bombeiros do Vaticano, é o ponto focal para os fiéis que acompanham de fora. A preparação reflete a importância do conclave não apenas para a Igreja, mas também para a Cidade do Vaticano, que atrai turistas e peregrinos durante o evento.
Tradições e curiosidades do conclave
O conclave é um dos rituais mais antigos ainda em prática, com origens no século XIII. A palavra “conclave” vem do latim “cum clave” (com chave), referindo-se ao isolamento dos cardeais. Em 1274, o Papa Gregório X estabeleceu regras para agilizar as eleições, após longos atrasos em processos anteriores. Desde então, a Capela Sistina tornou-se o local oficial para a maioria dos conclaves.
Algumas tradições permanecem inalteradas:
- Sala das Lágrimas: Após a eleição, o novo papa veste os paramentos papais em uma pequena sacristia, onde muitos choram ao assumir a responsabilidade.
- Habemus Papam: O cardeal protodiácono, atualmente Dominique Mamberti, anuncia o novo papa da varanda da Basílica de São Pedro.
- Paramentos papais: Três conjuntos de vestes, em tamanhos diferentes, são preparados para o eleito.
Desafios enfrentados pelos cardeais
A eleição ocorre em um momento delicado para a Igreja Católica. Questões como a inclusão de minorias, o diálogo inter-religioso e a resposta ao secularismo estão no centro das discussões. A escolha do novo papa também será influenciada pela necessidade de consolidar as reformas de Francisco, que nomeou a maioria dos eleitores.
Os cardeais enfrentam a pressão de um mundo polarizado, com conflitos no Oriente Médio, tensões na Ásia e desafios sociais na América Latina. A diversidade do Colégio Cardinalício, com representantes de todos os continentes, reflete a complexidade dessas questões. A expectativa é que o novo pontífice seja capaz de unir a Igreja enquanto enfrenta esses temas.
Expectativas para a duração do conclave
Embora os últimos conclaves tenham sido rápidos, com duração média de 3,2 dias, não há garantia de que o de 2025 seguirá o mesmo padrão. A necessidade de dois terços dos votos exige negociações intensas, especialmente em um colégio tão diverso. A pausa de 24 horas após três dias sem definição é uma medida para permitir reflexões e ajustes nas articulações.
A fumaça branca, quando surgir, será seguida pelo anúncio do “Habemus Papam” na varanda da Basílica de São Pedro, geralmente 30 a 60 minutos após a eleição. O novo papa fará sua primeira bênção, conhecida como “Urbi et Orbi”, marcando o início de seu pontificado. Até lá, os olhos do mundo permanecerão voltados para a chaminé da Capela Sistina.