A eleição de um novo papa nem sempre foi um processo rápido. Entre 1268 e 1271, a Igreja Católica enfrentou o mais longo conclave de sua história, um evento que se estendeu por incríveis 34 meses. Realizado na cidade de Viterbo, a cerca de 85 quilômetros de Roma, o processo para escolher o sucessor de Clemente IV foi marcado por divisões políticas, pressões externas e medidas drásticas da população local. O desfecho, com a eleição de Tebaldo Visconti como papa Gregório X, não apenas encerrou um período de instabilidade, mas também transformou para sempre as regras de escolha dos pontífices.
O conclave de Viterbo começou em 29 de novembro de 1268, após a morte de Clemente IV. Dezoito cardeais se reuniram no Palácio Papal da cidade, mas as rivalidades entre facções italianas e francesas impediram um consenso. O prolongado impasse gerou frustração entre os moradores de Viterbo, que tomaram medidas extremas para forçar uma decisão, como trancar os cardeais e remover o telhado do palácio. Esses eventos, aliados à pressão de governantes como Felipe III da França, culminaram na eleição de um candidato improvável, que nem sequer era cardeal.
Os desdobramentos desse conclave foram tão significativos que levaram à criação de normas que moldam os conclaves modernos. A bula Ubi periculum, promulgada por Gregório X em 1274, instituiu o sistema de isolamento dos cardeais, conhecido como “cum clave” (com chave), e medidas para acelerar as votações. A seguir, alguns fatos marcantes sobre o período:
- Duração recorde: 1.006 dias, ou cerca de 34 meses, de deliberações.
- Condições extremas: Cardeais enfrentaram racionamento de comida e exposição ao clima.
- Intervenção popular: Moradores de Viterbo trancaram os cardeais no palácio.
- Eleição de um outsider: Tebaldo Visconti, um arquidiácono, foi escolhido em Acre, na Palestina.
O conclave de Viterbo não foi apenas um marco pela sua duração, mas também por evidenciar a necessidade de reformas no processo eleitoral da Igreja. As tensões políticas e a lentidão na escolha do novo papa expuseram fragilidades que Gregório X buscou corrigir, deixando um legado que persiste até os dias atuais.
Origens do impasse em Viterbo
As divisões políticas entre os cardeais foram o principal obstáculo para a eleição de um novo papa em 1268. Naquela época, o Colégio de Cardeais era composto por representantes de diferentes regiões da Europa, com interesses muitas vezes alinhados a monarquias locais. Os cardeais franceses, apoiados pelo rei Felipe III, defendiam a escolha de um compatriota, enquanto os italianos, majoritários, bloqueavam qualquer candidato que não fosse de sua preferência. Esse embate prolongou as discussões por meses, sem que nenhum nome alcançasse a maioria necessária de dois terços.
A situação em Viterbo era agravada pelo contexto histórico. A Itália do século XIII era um mosaico de cidades-estado e reinos, com constantes disputas de poder. O Sacro Império Romano-Germânico e o Reino da França exerciam forte influência sobre a Igreja, muitas vezes interferindo nas decisões papais. A ausência de um papa por quase três anos intensificou a instabilidade, já que a Santa Sé era uma autoridade central não apenas religiosa, mas também política na Europa medieval. Durante esse período, questões administrativas e diplomáticas ficaram paralisadas, aumentando a pressão por uma resolução.
Após meses de impasse, os cardeais decidiram delegar a escolha a um comitê de seis membros, na esperança de superar o deadlock. Mesmo assim, as negociações continuaram arrastadas, e a paciência da população local se esgotou. Os moradores de Viterbo, frustrados com a demora, tomaram medidas drásticas: trancaram as portas do Palácio Papal, limitaram o suprimento de alimentos e, segundo registros históricos, chegaram a remover o telhado do edifício, expondo os cardeais às intempéries. Essas ações, embora extremas, refletiam o desespero por uma liderança papal.
A pressão externa acabou surtindo efeito. Em 1º de setembro de 1271, após 1.006 dias de deliberações, o comitê escolheu Tebaldo Visconti, um arquidiácono que estava em missão na Terra Santa, participando da Nona Cruzada. A escolha de um não-cardeal foi incomum, mas Visconti, que assumiu o nome de Gregório X, trouxe estabilidade à Igreja e implementou reformas que mudaram o curso das eleições papais.

Regras que nasceram da crise
A experiência traumática do conclave de Viterbo motivou Gregório X a estabelecer normas mais rígidas para futuras eleições. Em 1274, durante o Segundo Concílio de Lyon, ele promulgou a bula Ubi periculum, que formalizou o conceito de conclave como um processo fechado e isolado. A expressão “cum clave” (com chave) passou a definir o confinamento dos cardeais, garantindo que não houvesse interferências externas. Essas mudanças visavam acelerar as decisões e evitar longos períodos de sede vacante, quando a Igreja ficava sem um líder.
As principais medidas da Ubi periculum incluíam:
- Isolamento total: Cardeais seriam trancados em um único espaço, sem contato com o exterior.
- Restrições alimentares: Após três dias sem decisão, a comida seria limitada a uma refeição por dia; após cinco dias, apenas pão, água e vinho.
- Proibição de rendas: Durante o conclave, os cardeais não poderiam receber receitas eclesiásticas.
- Local fixo: O conclave deveria ocorrer em um ambiente controlado, geralmente no palácio papal.
Essas regras, embora rigorosas, nem sempre foram seguidas à risca nos anos seguintes. Em 1276, o papa Adriano V suspendeu temporariamente a Ubi periculum, mas ela foi restabelecida em 1294 por Celestino V, após outro conclave prolongado. Com o tempo, as normas foram ajustadas, mas o princípio de isolamento permaneceu como base do sistema moderno. A bula de Gregório X também introduziu a ideia de que a eleição papal deveria ser um processo espiritual, guiado pelo Espírito Santo, e não uma disputa política.
Apesar das reformas, conclaves longos continuaram a ocorrer em alguns momentos da história. Entre 1314 e 1316, a eleição de João XXII levou 27 meses, devido a divisões entre cardeais italianos e franceses. Já o conclave de 1415 a 1417, que elegeu Martinho V, durou cerca de dois anos e encerrou o Grande Cisma do Ocidente, período em que a Igreja chegou a ter três papas simultaneamente. Esses episódios reforçaram a importância das regras estabelecidas por Gregório X, que buscavam minimizar conflitos e acelerar as decisões.
Como funcionava a eleição antes de 1274
Antes da Ubi periculum, as eleições papais não seguiam um sistema padronizado. Nos primeiros séculos da Igreja, o bispo de Roma, como outros bispos, era escolhido pelo consenso do clero e dos fiéis da diocese. A partir do século IV, influências externas, como imperadores romanos e carolíngios, começaram a interferir no processo. Em 1059, o papa Nicolau II, com a bula In nomine Domini, determinou que o Colégio de Cardeais seria o único responsável pela eleição, reduzindo o poder de monarcas e leigos.
Mesmo com essa mudança, as eleições continuavam suscetíveis a pressões políticas. Durante a Idade Média, cardeais frequentemente representavam interesses de reinos ou famílias poderosas, o que tornava as decisões lentas e conflituosas. Em alguns casos, a escolha era feita por aclamação, quando um candidato era aceito de forma unânime, ou por compromisso, quando um grupo menor de cardeais decidia em nome de todos. No entanto, sem um local fixo ou regras claras, os processos podiam se arrastar por meses ou anos.
O conclave de Viterbo expôs as falhas desse sistema. A ausência de um papa por quase três anos deixou a Igreja vulnerável a crises internas e externas. A eleição de Gregório X, um outsider sem laços diretos com as facções em disputa, foi vista como uma solução de compromisso, mas também como um sinal de que o processo precisava de maior estrutura. As reformas de 1274 marcaram o início de uma nova era, em que o conclave se tornou um ritual formal e isolado.
Outros conclaves notáveis pela duração
Embora o conclave de Viterbo seja o mais longo da história, outros episódios também se destacaram pelo tempo necessário para eleger um papa. O conclave de 1292 a 1294, que resultou na eleição de Celestino V, durou 27 meses. Após a morte de Nicolau IV, os cardeais enfrentaram dificuldades para chegar a um consenso, e a escolha só foi feita após o sacerdote Pietro del Morrone, um eremita, profetizar que os cardeais seriam punidos por Deus se não decidissem rapidamente. Surpreendentemente, os cardeais elegeram o próprio Pietro, que assumiu como Celestino V.
Outro exemplo marcante ocorreu entre 1314 e 1316, quando a eleição de João XXII levou 27 meses. As divisões entre cardeais italianos e franceses, somadas a interesses políticos externos, prolongaram o processo. Já o conclave de 1415 a 1417, que elegeu Martinho V, foi crucial por encerrar o Grande Cisma do Ocidente. Durante esse período, a Igreja enfrentava uma crise de legitimidade, com três papas reivindicando o trono de São Pedro. A eleição de Martinho V, após dois anos de negociações, restaurou a unidade da Igreja.
Em contraste, o conclave de 1503, que elegeu Júlio II, foi o mais curto da história, com menos de dez horas. O cardeal Giuliano della Rovere, apoiado por alianças diplomáticas e promessas de favorecimento, foi escolhido quase por aclamação. Esses exemplos mostram como a duração dos conclaves variava de acordo com o contexto político, o número de cardeais e o grau de consenso entre eles.
O processo moderno de conclave
As regras estabelecidas por Gregório X evoluíram ao longo dos séculos, culminando no formato atual dos conclaves. Em 1970, o papa Paulo VI limitou a participação a cardeais com menos de 80 anos e fixou o número máximo de eleitores em 120, com a bula Ingravescentem aetatem. Em 1996, João Paulo II introduziu a constituição Universi Dominici Gregis, que eliminou modalidades como aclamação e compromisso, estabelecendo a votação por escrutínio como único método. Em 2007, Bento XVI reforçou a exigência de dois terços dos votos, mesmo em caso de impasse prolongado.
Hoje, os conclaves ocorrem na Capela Sistina, sob rigorosas medidas de sigilo. Os cardeais fazem um juramento de silêncio, e qualquer pessoa com acesso ao processo, como funcionários do Vaticano, também jura manter segredo, sob pena de excomunhão. As votações são realizadas em cédulas, queimadas após cada rodada, com fumaça preta indicando a ausência de um papa eleito e fumaça branca sinalizando a escolha do novo pontífice. Desde 2005, um aparelho auxiliar com fumígenos químicos garante que a fumaça seja claramente distinguível.
Os conclaves modernos são significativamente mais curtos. No século XX, o mais rápido foi o de 1939, que elegeu Pio XII em dois dias e três votações, enquanto o mais longo, em 1922, levou cinco dias e 14 votações para escolher Pio XI. No século XXI, as eleições de Bento XVI, em 2005, e Francisco, em 2013, duraram apenas dois dias, com quatro e cinco votações, respectivamente. Esses tempos reduzidos refletem a maior organização do processo e a pressão por decisões rápidas em um mundo globalizado.
A rotina dentro da Capela Sistina
Durante um conclave, os cardeais seguem uma rotina rigorosa. No primeiro dia, após a missa pro eligendo Pontifice, realizada na Basílica de São Pedro, eles se dirigem à Capela Sistina, onde fazem um juramento de obediência às regras. Uma única votação pode ocorrer no primeiro dia, mas, a partir do segundo dia, são realizadas quatro votações diárias: duas pela manhã e duas à tarde. Cada cardeal escreve o nome de seu candidato em uma cédula, que é depositada em uma urna.
Se não houver um papa eleito após três dias de votações, o processo é suspenso por um dia para orações e reflexões, com um discurso do cardeal diácono sênior. Após mais sete votações sem resultado, uma nova pausa ocorre, com um discurso do cardeal sacerdote sênior. Caso o impasse persista após mais sete votações, o cardeal bispo sênior faz um discurso, e as votações continuam. Se necessário, após 33 ou 34 votações, os dois candidatos com mais votos podem ser submetidos a uma disputa final, embora isso nunca tenha ocorrido nos conclaves modernos.
As cédulas são queimadas em uma estufa após cada rodada, com produtos químicos adicionados para produzir a fumaça preta ou branca. Desde 2005, o sistema de fumígenos inclui perclorato de potássio, antraceno e enxofre para a fumaça preta, e clorato de potássio, lactose e colofónia para a fumaça branca. Esse ritual, observado por milhares de fiéis na Praça de São Pedro, é um dos momentos mais emblemáticos do conclave.
Influência política nos conclaves históricos
A política sempre desempenhou um papel central nas eleições papais, especialmente antes das reformas de Gregório X. No conclave de Viterbo, as tensões entre cardeais franceses e italianos refletiam as rivalidades entre o Reino da França e o Sacro Império. Governantes como Felipe III exerciam pressão direta, enviando representantes para negociar com os cardeais. A escolha de Tebaldo Visconti, que estava na Terra Santa, foi vista como uma solução neutra para evitar a vitória de qualquer facção.
Nos séculos seguintes, potências europeias continuaram a influenciar os conclaves. Até o início do século XX, monarcas católicos, como os da Áustria e da Espanha, tinham o chamado “direito de veto”, que lhes permitia bloquear candidatos indesejados. Esse privilégio foi abolido pelo papa Pio X em 1904, mas as articulações políticas permanecem, agora de forma mais sutil. Nos conclaves modernos, cardeais de diferentes continentes trazem perspectivas variadas, refletindo a diversidade da Igreja, com 1,4 bilhão de fiéis.
A globalização também mudou a dinâmica dos conclaves. Em 2013, a eleição de Francisco, o primeiro papa latino-americano, foi influenciada pela busca por um líder que representasse a crescente importância das igrejas da América Latina, África e Ásia. Hoje, os 133 cardeais eleitores, vindos de 71 países, formam o colégio mais diverso da história, com 108 nomeados por Francisco, segundo dados do Vaticano.
Curiosidades sobre o conclave de Viterbo
O conclave de 1268 a 1271 é repleto de detalhes que ilustram sua singularidade. Além da duração recorde, o processo foi marcado por eventos que entraram para a história da Igreja. Abaixo, algumas curiosidades:
- Morte de cardeais: Três dos 18 cardeais eleitores faleceram durante o conclave, devido às condições difíceis e à longa duração.
- Intervenção do povo: A remoção do telhado do Palácio Papal foi uma tentativa de expor os cardeais ao frio e à chuva, forçando uma decisão.
- Escolha à distância: Tebaldo Visconti estava em Acre, na atual Israel, quando foi eleito, e só chegou a Viterbo meses depois.
- Impacto imediato: Gregório X, ao assumir, priorizou a reforma do processo eleitoral para evitar novos impasses.
- Legado duradouro: A Ubi pericum foi a base para todos os conclaves subsequentes.
Esses acontecimentos reforçam a ideia de que o conclave de Viterbo foi mais do que uma eleição prolongada. Ele revelou as tensões de uma época e catalisou mudanças que fortaleceram a independência da Igreja em relação às potências seculares.
O contraste com os conclaves modernos
Os conclaves do século XXI são um contraste gritante com o de Viterbo. A eleição de Bento XVI, em 2005, levou apenas dois dias, com quatro votações. Em 2013, Francisco foi eleito em cinco votações, também em dois dias, com cerca de 27 horas de deliberações. Esses tempos curtos refletem a maior eficiência do processo, mas também a pressão por unidade em um mundo que acompanha cada etapa pela mídia global.
A diversidade do Colégio de Cardeais também mudou. Em 1268, os 18 eleitores eram majoritariamente europeus, com forte influência de Itália e França. Hoje, cardeais de países como México, Índia, Ucrânia e Brasil participam do processo, trazendo perspectivas globais. Dos 133 eleitores atuais, 108 foram nomeados por Francisco, o que sugere uma continuidade de sua visão pastoral na escolha do próximo papa.
Outro fator que diferencia os conclaves modernos é a tecnologia. Embora os cardeais sejam proibidos de usar dispositivos eletrônicos durante o conclave, a cobertura midiática transformou o evento em um espetáculo global. Em 2013, milhares de pessoas lotaram a Praça de São Pedro para acompanhar a fumaça branca, enquanto milhões assistiam pela televisão ou internet. Essa visibilidade aumenta a pressão por decisões rápidas, algo impensável no século XIII.