Roma amanheceu sob olhares atentos do mundo. A correspondente da TV Globo, Ilze Scamparini, voltou a ser destaque ao cobrir eventos cruciais do Vaticano, um papel que desempenha com maestria há mais de 25 anos. Sua figura, frequentemente vista nos terraços da capital italiana, tornou-se sinônimo de jornalismo preciso e sensível, especialmente em momentos de transição papal. Nascida no interior de São Paulo, ela construiu uma carreira que a levou de Campinas aos epicentros da notícia global.
A trajetória de Ilze é marcada por coberturas memoráveis. Desde a morte de João Paulo II até o recente falecimento do Papa Francisco, ela acompanhou três papados e dois conclaves, consolidando-se como referência em assuntos da Igreja Católica. Seu terraço, com vista para a Basílica de São Pedro, virou ícone nas transmissões ao vivo, especialmente durante a pandemia, quando as ruas de Roma estavam desertas. A jornalista, que também é escritora, combina rigor técnico com uma narrativa envolvente, capturando a atenção de milhões.
A seguir, alguns marcos que definem sua carreira:
- Cobertura de três papados: João Paulo II, Bento XVI e Francisco.
- Entrevista histórica com Papa Francisco em 2013, gerando a frase “Quem sou eu para julgar?”.
- Credenciamento como vaticanista, com acesso privilegiado à Santa Sé.
- Mais de 25 anos como correspondente em Roma, desde 1999.
Esses elementos mostram por que Ilze Scamparini é uma das jornalistas mais respeitadas do Brasil. Sua história, no entanto, vai além das câmeras, envolvendo raízes italianas, formação católica e uma vida pessoal discreta, mas rica em detalhes culturais.
Origens e formação
Ilze Lia Scamparini nasceu em 26 de dezembro de 1958, em Araras, interior de São Paulo. Neta de imigrantes italianos, cresceu em uma família que preservava tradições e o dialeto do país de origem. Sua formação no Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, de cunho católico, plantou as sementes de um interesse pela Igreja que, anos depois, a levaria ao Vaticano. A escolha pelo jornalismo veio na adolescência, impulsionada por uma paixão por escrita e artes, embora ela também considerasse a pintura como carreira.
Na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), formou-se em Comunicação Social em 1982. Durante a graduação, estagiou no jornal Diário do Povo, em Campinas, onde desenvolveu habilidades na imprensa escrita. Também colaborou com o projeto Oboré, transcrevendo entrevistas de trabalhadores do ABC Paulista, uma experiência que a conectou com o movimento sindical e a ascensão de figuras como Luiz Inácio Lula da Silva. Esses primeiros passos revelaram uma jornalista curiosa, disposta a ouvir histórias e traduzi-las para o público.
A transição para a televisão aconteceu quase por acaso. Em 1981, Ilze foi aprovada em um teste para o programa TV Mulher, da TV Globo, apresentado por Marília Gabriela. Sua estreia na telinha marcou o início de uma trajetória que a levaria de Campinas ao Rio de Janeiro, onde cobriu pautas variadas, como enchentes e incêndios, antes de se consolidar como repórter do Globo Repórter.
Primeiros anos na Globo
Entre 1986 e 1996, Ilze integrou a equipe do Globo Repórter, um período que definiu sua versatilidade. Viajou pelo Brasil e pelo mundo, produzindo reportagens que iam de questões ambientais, como a vida dos seringueiros no Acre com Chico Mendes, a eventos internacionais, como a Copa do Mundo de 1986 no México. Sua habilidade em contar histórias humanas, aliada a um olhar atento para detalhes, destacou-a entre os colegas.
Em 1997, assumiu o posto de correspondente em Los Angeles, cobrindo eventos como a entrega do Oscar e o suicídio coletivo da seita Heaven’s Gate. Essa experiência internacional foi um trampolim para Roma, onde chegou em 1999 com a proposta de cobrir o Jubileu do Ano 2000 e parte do papado de João Paulo II. O plano inicial era ficar dois anos, mas a jornalista encontrou na capital italiana um lar e uma missão profissional que a mantém lá até hoje.
Ascensão como vaticanista
A mudança para Roma marcou um turning point na carreira de Ilze. Credenciada como vaticanista, ela ganhou acesso privilegiado aos bastidores da Santa Sé, um título raro que exige conhecimento profundo da Igreja Católica. Desde então, cobriu momentos históricos, como a morte de João Paulo II em 2005, a renúncia de Bento XVI em 2013 e a eleição de Francisco no mesmo ano. Sua cobertura do conclave de 2005, que elegeu Bento XVI, já indicava sua capacidade de antecipar tendências, apontando Jorge Mario Bergoglio, o futuro Papa Francisco, como um dos favoritos.
Um dos momentos mais emblemáticos de sua carreira ocorreu em julho de 2013, durante um voo entre o Rio de Janeiro e Roma. Ilze perguntou ao Papa Francisco sobre o “lobby gay” no Vaticano, obtendo a resposta que reverberou globalmente: “Se uma pessoa é gay e procura o Senhor, e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”. A declaração, considerada um marco na abordagem da Igreja a questões de diversidade, colocou Ilze no centro de uma discussão internacional, reforçando sua reputação como jornalista ousada e perspicaz.
- Principais coberturas no Vaticano:
- Morte de João Paulo II (2005).
- Conclave de 2005, com eleição de Bento XVI.
- Renúncia de Bento XVI (2013).
- Eleição de Francisco (2013).
- Morte de Francisco (2025).
Esses eventos consolidaram sua expertise, mas também exigiram dedicação intensa, com plantões longos e retornos às pressas de férias no Brasil para cobrir emergências, como a internação de Francisco em 2025.
O terraço icônico
O terraço de Ilze, localizado em seu apartamento próximo à Piazza Navona, tornou-se uma marca registrada. Com vista para a cúpula da Igreja Sant’Agnese in Agone, o espaço ganhou fama durante a pandemia, quando a jornalista passou a fazer entradas ao vivo exclusivamente de lá. Em 2023, o programa Fantástico, no quadro “Essa Eu Quero Ver”, revelou os bastidores do local, com Sabrina Sato explorando o cenário que já foi palco de três festas de carnaval organizadas por Ilze.
A escolha do terraço não foi apenas estética. A logística de coberturas em Roma, com ruas estreitas e multidões em eventos papais, torna o local uma solução prática. Equipada com uma equipe fixa, incluindo o repórter-cinematográfico Maurizio della Costanza, Ilze transformou o espaço em um estúdio ao ar livre, garantindo imagens impactantes e agilidade na transmissão. A cúpula ao fundo, muitas vezes confundida com a da Basílica de São Pedro, adiciona um charme visual que cativa telespectadores.
Vida pessoal e raízes italianas
Ilze vive em Roma com o roteirista italiano Domenico Saverni Mezzatesta, com quem mantém um relacionamento há quase 20 anos. O casal, que planeja oficializar a união, optou por não ter filhos, uma decisão que Ilze explica com serenidade: “Resolvi parte do instinto materno com minhas sobrinhas”. Sua casa, além do famoso terraço, reflete uma vida integrada à cultura italiana, com jantares para amigos e uma rotina que equilibra o trabalho intenso com momentos de lazer.
A jornalista, fluente em italiano, inglês e espanhol, além do português, mantém laços fortes com o Brasil. Em entrevistas, ela revelou o desejo de dividir o tempo entre Roma e o Brasil no futuro, dependendo de projetos literários e do trabalho do marido, que pode ser realizado remotamente. Sua cachorrinha Pina, frequentemente mencionada em redes sociais, é uma companheira constante, acompanhando-a até em férias no Rio de Janeiro e Búzios.
Contribuições literárias
Além do jornalismo, Ilze se aventurou na literatura. Em 2021, lançou o romance “Atirem Direto no Meu Coração”, inspirado em uma soldada que conheceu durante a cobertura da Guerra do Kosovo (1998-1999). A obra, publicada pela editora Record, combina ficção com elementos reais, refletindo sua habilidade em transformar experiências jornalísticas em narrativas envolventes. O livro foi bem recebido, e Ilze já planeja novos projetos literários, que podem guiar sua decisão de viver entre Brasil e Itália.
A escrita, para Ilze, é uma extensão de sua curiosidade. Desde jovem, ela se dividia entre o desejo de ser jornalista e artista plástica, e o romance representa uma ponte entre essas paixões. Sua passagem por Porto Alegre, em 2023, para divulgar o livro, atraiu fãs e leitores, que elogiaram sua capacidade de contar histórias com profundidade e emoção.
Coberturas além do Vaticano
Embora seja mais conhecida pelos assuntos papais, Ilze cobriu eventos variados ao longo da carreira. Em 2004, esteve no Cairo para o velório de Yasser Arafat, líder palestino, e em Beslan, na Rússia, após o massacre em uma escola. Também acompanhou as cerimônias pelos 20 anos da queda do Muro de Berlim, em 2009, e Copas do Mundo, como a de 2006 na Alemanha. Essas experiências mostram sua versatilidade, capaz de transitar entre pautas políticas, culturais e humanitárias com a mesma competência.
No Brasil, suas reportagens para o Globo Repórter incluíram temas como a preservação ambiental e a cultura regional. Uma matéria marcante, feita de helicóptero, cobriu um incêndio no Pico das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro, demonstrando sua disposição para enfrentar desafios logísticos. Essas histórias reforçam por que Ilze é vista como uma jornalista completa, capaz de adaptar-se a diferentes contextos.
Presença nas redes e memes
A popularidade de Ilze transcende a televisão. Nas redes sociais, ela é alvo de memes que celebram sua presença constante nos terraços de Roma. Frases como “Ilze nunca desce do telhado” ou “Ela só aparece quando morre um papa” refletem o carinho do público, que a compara a figuras como Batman ou personagens de videogames como Assassin’s Creed. Durante o Carnaval de 2025, foliãs se fantasiaram de Ilze, com microfones e capas de chuva, homenageando suas coberturas sob o clima imprevisível de Roma.
- Reações nas redes sociais:
- Usuários brincam que Ilze “mora no telhado” durante conclaves.
- Fãs elogiam sua elegância e precisão nas transmissões.
- Postagens destacam sua entrevista com Francisco como marco jornalístico.
- Memes comparam sua agilidade a super-heróis.
Essas interações mostram como Ilze se tornou um ícone cultural, com uma base de admiradores que valoriza tanto seu profissionalismo quanto sua autenticidade.
Desafios da cobertura papal
Cobrir o Vaticano exige mais do que conhecimento teológico. A logística de eventos como conclaves, com multidões e restrições de acesso, é um obstáculo constante. Ilze enfrentou dificuldades técnicas nos primeiros anos em Roma, quando a transmissão de matérias dependia de equipamentos analógicos. A introdução do “kit correspondente” pela Globo, em 2004, facilitou seu trabalho, permitindo a geração de imagens via internet, como na primeira matéria transmitida para o Jornal Nacional sobre um relatório da FAO.
Outro desafio é a imprevisibilidade. Em 2013, a renúncia de Bento XVI a pegou de surpresa durante férias no Brasil, exigindo um retorno imediato. O mesmo ocorreu em 2025, quando a internação de Francisco interrompeu seu descanso no Rio. Apesar disso, Ilze mantém a compostura, entregando análises detalhadas, como as que fez sobre os cardeais favoritos no conclave de 2025, destacando figuras como Pietro Parolin.
Legado no jornalismo
Com mais de 40 anos de carreira, Ilze Scamparini é um exemplo de dedicação. Sua capacidade de antecipar tendências, como ao apontar Bergoglio como papável em 2005, reflete um jornalismo baseado em pesquisa e intuição. Sua parceria com Maurizio della Costanza, que a acompanha desde 1999, garante a qualidade visual de suas reportagens, enquanto sua fluência em múltiplos idiomas facilita entrevistas com fontes internacionais.
A jornalista também inspira novas gerações. Sua trajetória, de uma estagiária em Campinas a uma vaticanista respeitada, mostra que persistência e curiosidade podem abrir portas globais. Em 2025, ao cobrir o funeral de Francisco e o terceiro conclave de sua carreira, Ilze reforçou sua posição como a “voz do Brasil no Vaticano”, um título que reflete sua relevância e impacto.
Integração com a cultura italiana
Viver em Roma por mais de 25 anos transformou Ilze em uma ponte entre Brasil e Itália. Sua casa, próxima à Piazza Navona, é um ponto de encontro para amigos e colegas, onde a jornalista organiza jantares que misturam sabores brasileiros e italianos. Sua adaptação à cultura local, sem perder as raízes, é evidente em detalhes como a escolha de vinhos para eventos ou a decoração do terraço, com sofás e flores que refletem o gosto pela estética.
Ilze também mantém contato com a comunidade brasileira em Roma, participando de eventos culturais e apoiando iniciativas que promovem o intercâmbio entre os dois países. Sua história pessoal, marcada pela herança italiana de seus avós, adiciona uma camada de autenticidade a seu trabalho, que ressoa tanto com brasileiros quanto com italianos.
Marcos tecnológicos
A evolução tecnológica acompanhou a carreira de Ilze. Nos anos 2000, enviar matérias de Roma para o Brasil era um processo lento, dependente de fitas e conexões instáveis. A adoção de tecnologias como o kit correspondente e, mais recentemente, transmissões via internet de alta velocidade, permitiu maior agilidade. Em 2025, suas entradas ao vivo do terraço usaram equipamentos compactos, como câmeras com transmissão remota, garantindo qualidade mesmo em coberturas de última hora.
- Avanços que marcaram sua carreira:
- Uso do kit correspondente em 2004, pioneiro na Globo.
- Primeira matéria via internet para o Jornal Nacional.
- Transmissões com celular durante a pandemia.
- Colaboração com equipes locais para coberturas emergenciais.
Esses recursos reforçam como Ilze se adaptou às mudanças do jornalismo, mantendo a relevância em um cenário cada vez mais digital.
Reconhecimento e popularidade
A presença de Ilze em telejornais como Jornal Nacional e GloboNews a tornou uma figura familiar para milhões de brasileiros. Em 2025, sua participação ao lado de William Bonner na cobertura do conclave gerou comentários nas redes, com alguns notando sua descontração e outros destacando sua expertise. Apesar de momentos de desconforto, como uma interação com Bonner que viralizou, Ilze mantém o foco no trabalho, priorizando a entrega de informações precisas.
Sua popularidade também se reflete em prêmios e reconhecimentos. Embora não haja registros de troféus específicos, sua credencial como vaticanista e a confiança da Globo em escalá-la para coberturas históricas são provas de seu prestígio. Fãs nas redes sociais elogiam sua elegância, com comentários como “Ela é tão chique” ou “Sempre impecável”, reforçando sua imagem de profissional carismática.
Planos futuros
Aos 66 anos, Ilze não mostra sinais de desacelerar. Em entrevistas, ela mencionou o desejo de continuar contando histórias, seja na TV ou na literatura. A possibilidade de viver entre Brasil e Itália, alternando seis meses em cada país, depende de seus projetos literários e das oportunidades de Domenico, que também tem flexibilidade profissional. Viagens para cobrir histórias humanas, como as que marcaram seu tempo no Globo Repórter, estão entre seus sonhos.
Enquanto o conclave de 2025 define o próximo papa, Ilze permanece em Roma, pronta para narrar mais um capítulo da história da Igreja. Sua cobertura, que combina análise detalhada com imagens marcantes do terraço, continua a informar e inspirar, mantendo o Brasil conectado aos eventos do Vaticano.

