A construção do complexo industrial da BYD em Camaçari, na Bahia, avança em ritmo acelerado, mas o projeto enfrenta incertezas que colocam em xeque os prazos anunciados pela montadora chinesa. A vice-presidente global da empresa, Stella Li, afirmou que a produção de veículos começará em junho de 2025, com o Dolphin Mini e o Song Pro como os primeiros modelos a sair da linha de montagem. No entanto, a falta de comunicação com os trabalhadores e o receio do sindicato local levantam dúvidas sobre a viabilidade dessa meta. A planta, instalada no antigo terreno da Ford, é vista como um marco para a indústria automotiva brasileira, mas os desafios logísticos e operacionais ainda geram tensões.
O Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari expressa preocupações com a possibilidade de o complexo se tornar apenas um centro de montagem de kits importados, em vez de uma fábrica completa. Representantes sindicais afirmam que não receberam comunicados oficiais sobre o início das operações, e a ausência de contratações em grande escala reforça a desconfiança. A BYD, por sua vez, mantém um discurso otimista, destacando a importância estratégica do Brasil como hub de exportação para a América Latina.
- Investimento de R$ 5,5 bilhões até 2027 para transformar o complexo.
- Capacidade inicial de 150 mil veículos por ano, com expansão planejada para 300 mil até 2027.
- Criação de 10 mil empregos diretos até dezembro de 2025.
- Exportação de 30% da produção para países do Mercosur a partir de 2026.
A montadora chinesa, líder global em veículos elétricos, planeja iniciar a produção no regime SKD, com kits pré-montados importados da China, antes de evoluir para o modo CKD, que envolve maior nacionalização de componentes. Essa transição, prevista para o segundo semestre de 2025, inclui processos como estamparia e pintura no Brasil, mas o sindicato teme que a robusta logística de importação da BYD reduza a necessidade de uma produção local completa.
Europe, are you prepared to be electrified?
— BYD Europe (@BYD_Europe) May 9, 2025
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Montagem inicial e promessas de expansão
A fábrica de Camaçari, que ocupa uma área de 1,2 milhão de metros quadrados, está em fase final de construção. A primeira etapa, chamada de fase 1.1, inclui galpões de montagem, uma linha de inspeção final e uma pista de testes, com conclusão prevista para julho de 2025. A BYD anunciou que o Dolphin Mini, o carro elétrico mais vendido no Brasil em 2024, e o Song Pro, um SUV híbrido plug-in, serão os primeiros modelos produzidos. A montadora aposta na popularidade desses veículos para consolidar sua presença no mercado brasileiro.
O Dolphin Mini, um hatch compacto com preço a partir de R$ 95.000 na versão nacional, tornou-se um fenômeno de vendas, com quase 22 mil unidades emplacadas em 2024. Já o Song Pro, com motor 1.5 flex híbrido plug-in, é projetado para atender à demanda por SUVs médios, com vendas mensais próximas de mil unidades. A produção inicial em regime SKD, com kits importados, permitirá à BYD escapar de tarifas de importação mais altas, que devem chegar a 35% em julho de 2026.
A empresa também planeja aumentar a nacionalização de componentes para cumprir as exigências do Mercosur, que determinam um percentual mínimo de peças locais para isenção de tarifas. Até 2026, cerca de 40% dos componentes do Dolphin Mini e do Song Pro serão fabricados no Brasil, com meta de alcançar 60% até 2028. A BYD já negocia com fornecedores locais para itens como vidros, pneus e bancos, que serão produzidos em unidades instaladas no próprio complexo de Camaçari.
Tensões com o sindicato
O Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari mantém uma postura vigilante diante dos planos da BYD. Representantes sindicais, liderados por Júlio Bonfim, expressam frustração com a falta de diálogo da montadora. Em uma reunião marcada para maio de 2025, o sindicato cobrará esclarecimentos sobre o cronograma e a escala de produção. A ausência de contratações em grande volume, com apenas 350 trabalhadores na planta atualmente, alimenta o receio de que a fábrica não operará em plena capacidade no curto prazo.
Bonfim criticou a estratégia da BYD de importar grandes quantidades de veículos. Em abril de 2025, um navio da montadora, o Shenzhen, transportou 7 mil carros da China para o Brasil, superando o recorde anterior de 5,5 mil unidades. A frota de navios próprios da BYD, atualmente composta por quatro embarcações, deve dobrar até 2026, aumentando a capacidade de transporte para 58 mil veículos por viagem. Essa logística robusta levanta preocupações de que a fábrica de Camaçari possa se limitar a um centro de distribuição para a América Latina.
- Frota atual: quatro navios Ro-Ro com capacidade de 28 mil veículos por viagem.
- Expansão planejada: oito navios até 2026, transportando até 58 mil veículos por viagem.
- Recorde de importação: 7 mil carros em uma única viagem em abril de 2025.
- Fábrica em Zhengzhou, na China, produzirá 1 milhão de unidades por ano em 2025.
A BYD, por sua vez, reafirma seu compromisso com a reindustrialização de Camaçari, destacando que a planta será a primeira linha de montagem de automóveis da empresa fora da Ásia. A montadora promete criar 10 mil empregos diretos até o fim de 2025 e 20 mil empregos indiretos até 2026, beneficiando setores como logística e fornecedores locais.
Estratégia de nacionalização
A transição do regime SKD para o CKD é um dos pilares da estratégia da BYD no Brasil. A produção em CKD, que envolve a montagem completa dos veículos com componentes separados, está prevista para começar no final de 2025. Esse processo incluirá etapas como soldagem da carroceria, pintura e instalação de motores e sistemas eletrônicos, aumentando o índice de nacionalização.
A BYD também estuda parcerias com universidades baianas para desenvolver tecnologias específicas, como motores flex otimizados para etanol. A nacionalização de componentes é essencial para a competitividade no Mercosur, que inclui Argentina, Uruguai e Paraguai. A montadora planeja exportar 30% de sua produção para esses países a partir de 2026, com o Dolphin Mini como principal modelo.
A fábrica de Camaçari terá capacidade para produzir até 12 modelos diferentes, mas o início em baixa escala preocupa os trabalhadores. A BYD anunciou que contratará 2 mil funcionários em janeiro, 3 mil em maio e 5 mil em agosto, totalizando 10 mil vagas diretas até o fim de 2025. Apesar dessas promessas, o ritmo atual de contratações permanece lento, alimentando as tensões com o sindicato.
Logística global e importações
A estratégia de importação da BYD é reforçada pela ampliação de sua fábrica em Zhengzhou, na China, que atingirá a produção de 1 milhão de unidades por ano em 2025. Essa capacidade permite à montadora suprir o mercado brasileiro sem depender exclusivamente da produção local. A frota de navios próprios, como o Shenzhen, que realizou a maior entrega de veículos ao Brasil em abril de 2025, destaca a eficiência logística da empresa.
A BYD opera atualmente com quatro navios Ro-Ro, cada um capaz de transportar 28 mil veículos por viagem. Até 2026, a frota será expandida para oito navios, com capacidade de 58 mil veículos por viagem. Essa infraestrutura logística robusta permite à montadora manter um fluxo constante de importações, o que preocupa o sindicato, que teme uma redução na relevância da produção local.
A montadora também enfrenta pressões do mercado brasileiro. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defende a retomada do imposto de importação de 35% a partir de julho de 2026, o que pode impactar as operações da BYD. Para mitigar esses custos, a empresa aposta na produção local em regime SKD, que paga 18% de imposto, e no CKD, com 16%.
Modelos em destaque
O Dolphin Mini, carro elétrico mais vendido no Brasil em 2024, é a principal aposta da BYD para a produção em Camaçari. O hatch compacto, com autonomia de 280 km segundo o Inmetro, é oferecido em duas versões: uma para quatro ocupantes, a partir de R$ 95.000, e outra para cinco, por R$ 122.800. O modelo destaca-se pelo custo-benefício e pela tecnologia Blade Battery, que oferece maior eficiência energética.
O Song Pro, por sua vez, é um SUV híbrido plug-in equipado com um motor 1.5 flex, capaz de operar com gasolina ou etanol. O veículo, que compete no segmento de SUVs médios, conta com um sistema de pré-aquecimento do combustível para reduzir emissões na partida a frio, eliminando a necessidade de um tanquinho auxiliar. A BYD planeja iniciar a produção do Song Pro em regime SKD, com transição para CKD no final de 2025.
- Dolphin Mini: hatch elétrico com 75 cv, 13,8 kgfm de torque e autonomia de 280 km.
- Song Pro: SUV híbrido plug-in com motor 1.5 flex e vendas de cerca de mil unidades por mês.
- Nacionalização: 40% dos componentes serão locais até 2026, com meta de 60% até 2028.
- Exportação: 30% da produção será destinada a países do Mercosur a partir de 2026.
A BYD também planeja lançar uma versão renovada do Dolphin Mini em 2026, com mudanças sutis no design, como novos para-choques dianteiro e traseiro, e melhorias em segurança, incluindo faróis e lanternas em LED. A produção local permitirá à montadora oferecer preços mais competitivos, eliminando custos de importação.
Investimento e infraestrutura
A BYD destinou R$ 5,5 bilhões para transformar o antigo complexo da Ford, fechado em 2021, em um polo de mobilidade sustentável. A primeira fase do projeto inclui a construção de 26 novos prédios, ocupando 1 milhão de metros quadrados. A planta contará com galpões de montagem, uma pista de testes e uma linha de inspeção final, projetada para garantir a qualidade dos veículos produzidos.
A montadora também investe na infraestrutura de recarga para veículos elétricos no Brasil. A empresa planeja expandir sua rede de eletropostos em áreas urbanas e rodovias, em parceria com companhias de energia e centros comerciais. Essa iniciativa visa atender à crescente demanda por carros elétricos, especialmente o Dolphin Mini, que lidera as vendas no segmento.
A fábrica de Camaçari é estratégica para a consolidação da BYD nas Américas. A planta servirá como um hub de exportação para a América Latina, aproveitando as rotas logísticas pelos portos do Golfo do México e do Pacífico. A montadora avalia que a produção local reduzirá a dependência de instalações em outros países, como o México, fortalecendo sua presença no mercado regional.
Perspectivas sindicais
O Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari permanece cético quanto aos planos da BYD. Representantes afirmam que a montadora precisa apresentar um cronograma claro e investir em contratações imediatas para cumprir as metas anunciadas. A falta de diálogo com os trabalhadores é vista como um obstáculo para o sucesso do projeto.
Júlio Bonfim, presidente do sindicato, destacou que a produção em regime SKD é insuficiente para transformar Camaçari em um polo industrial. Ele defende a implementação de processos como estamparia, soldagem e pintura, que gerariam mais empregos e consolidariam a fábrica como uma unidade completa. O sindicato planeja intensificar as negociações com a BYD nos próximos meses para garantir que as promessas de reindustrialização sejam cumpridas.
A BYD, por sua vez, mantém sua posição de que a fábrica de Camaçari será um marco para a indústria automotiva brasileira. A montadora destaca que a planta terá capacidade para produzir até 300 mil veículos por ano até 2027, com potencial para se tornar um centro de pesquisa e desenvolvimento para a América Latina.
Expansão regional
A produção em Camaçari não se limitará ao mercado brasileiro. A BYD planeja exportar 30% de seus veículos para países do Mercosur, como Argentina, Uruguai e Paraguai, a partir de 2026. O Dolphin Mini, com seu preço acessível e design compacto, é o principal candidato para liderar essas exportações. A montadora também avalia a introdução de novos modelos, como a picape compacta Baby Shark, projetada para competir com a Fiat Strada no mercado latino-americano.
A fábrica de Camaçari será a primeira linha de montagem de automóveis da BYD fora da Ásia, marcando um passo significativo na expansão global da empresa. A montadora já opera unidades de produção de chassis de ônibus elétricos em Campinas, São Paulo, e uma planta de baterias em Manaus, Amazonas. A experiência acumulada nessas operações será aplicada em Camaçari para garantir a eficiência da nova fábrica.
A BYD também planeja fortalecer sua rede de concessionárias no Brasil, ampliando a presença em cidades de médio e grande porte. A empresa aposta na combinação de produção local, infraestrutura de recarga e adaptações para o mercado brasileiro para consolidar sua liderança no segmento de veículos elétricos.
Tecnologia e inovação
A BYD destaca a tecnologia Blade Battery, utilizada no Dolphin Mini, como um diferencial competitivo. A bateria de fosfato de ferro-lítio (LFP) oferece maior segurança e eficiência energética, com capacidade de 38 kWh e autonomia de até 340 km em condições reais. A recarga rápida, de 30% a 80% em 30 minutos, é outro atrativo do modelo.
O Song Pro, por sua vez, incorpora a tecnologia DM-i Super Hybrid, que combina um motor a combustão com um sistema elétrico para oferecer baixo consumo e emissões reduzidas. O motor 1.5 flex, desenvolvido especificamente para o mercado brasileiro, reflete o compromisso da BYD em atender às preferências locais, com foco no uso de etanol como combustível sustentável.
A montadora também investe em sistemas de condução semiautônoma, como o God’s Eye, que estará presente nas versões 2026 do Dolphin Mini. O sistema inclui recursos como controle de cruzeiro adaptativo e assistência de permanência em faixa, aumentando a segurança e o conforto dos motoristas.
- Blade Battery: maior segurança e eficiência com 38 kWh de capacidade.
- DM-i Super Hybrid: tecnologia híbrida com baixo consumo e emissões.
- God’s Eye: sistema de condução semiautônoma para modelos 2026.
- Motor 1.5 flex: otimizado para etanol, com pré-aquecimento de combustível.
A BYD planeja adaptar seus veículos às necessidades do mercado brasileiro, com modificações no design e na tecnologia. A produção local permitirá à montadora responder rapidamente às demandas dos consumidores, oferecendo versões personalizadas do Dolphin Mini e do Song Pro.
Mercado competitivo
O mercado brasileiro de veículos elétricos está em plena expansão, com o Dolphin Mini liderando as vendas em 2024, com 9.611 unidades emplacadas, seguido pelo Dolphin, com 9.050 unidades. A BYD enfrenta concorrência de marcas como Toyota, que planeja lançar o Corolla Cross híbrido, e a Renault, que reduziu o preço do Kwid elétrico para R$ 99.000 em resposta à chegada do Dolphin Mini.
A produção local em Camaçari dará à BYD uma vantagem competitiva, permitindo preços mais acessíveis e maior disponibilidade de peças. A montadora também planeja expandir sua rede de assistência técnica, oferecendo manutenção especializada para veículos elétricos e híbridos. A infraestrutura de recarga, ainda limitada em algumas regiões do Brasil, é outro foco de investimento da empresa.
A BYD aposta na combinação de inovação, acessibilidade e produção local para manter sua liderança no mercado brasileiro. A fábrica de Camaçari, apesar das incertezas, representa um passo estratégico para consolidar a presença da montadora na América Latina e atender à crescente demanda por mobilidade sustentável.