O desembargador Gabriel de Oliveira Zéfiro, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, anunciou uma decisão que abalou o cenário do futebol brasileiro. Ednaldo Rodrigues, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), foi afastado do cargo na quinta-feira, 15 de maio de 2025. A medida, que nomeou Fernando Sarney como interventor, veio acompanhada da determinação para convocar novas eleições na entidade. O motivo central da destituição envolve a anulação de um acordo homologado anteriormente, questionado por suposta falsificação de assinatura.
A crise na CBF se intensificou nos últimos dias, especialmente após a contratação de Carlo Ancelotti como técnico da seleção brasileira. Ednaldo, que anunciou o italiano na segunda-feira, enfrentava pressões judiciais e políticas. A decisão do TJ-RJ marca a segunda vez que o dirigente é afastado do comando da entidade, repetindo um episódio ocorrido em dezembro de 2023.
- Fatores que levaram ao afastamento: Suspeita de falsificação da assinatura de Antônio Carlos Nunes, conhecido como Coronel Nunes, em um acordo de 2025.
- Nomeação do interventor: Fernando Sarney, vice-presidente da CBF, assume temporariamente e promete novas eleições.
- Impacto no futebol: Contratação de Ancelotti não será alterada, segundo Sarney.
- Próximos passos: Ednaldo recorre ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter a decisão.
Reações imediatas à decisão judicial
A notícia do afastamento de Ednaldo Rodrigues pegou o mundo do futebol de surpresa. Em Assunção, onde participava do congresso da Fifa, o dirigente recebeu a informação e rapidamente acionou sua equipe jurídica. Horas após a decisão, ele entrou com um pedido no STF para anular o veredicto do TJ-RJ, repetindo a estratégia adotada em 2023, quando conseguiu retornar ao cargo. A rapidez na resposta reflete a confiança de Ednaldo em reverter o quadro, embora o cenário político dentro da CBF esteja cada vez mais fragmentado.
Fernando Sarney, agora interventor, já sinalizou que sua gestão será transitória. Ele afirmou que o foco será organizar as eleições no menor prazo possível, respeitando o estatuto da entidade. Sarney, que rompeu politicamente com Ednaldo antes da reeleição do ex-presidente em março, também garantiu que a contratação de Carlo Ancelotti será mantida. A declaração busca tranquilizar torcedores e patrocinadores, mas não apaga as incertezas sobre o futuro da administração da CBF.
A decisão judicial também gerou reações entre as federações estaduais. Na terça-feira, antes do afastamento, Ednaldo reuniu presidentes de federações na sede da CBF, no Rio de Janeiro, para reforçar seu apoio. O grupo, que havia respaldado sua reeleição por aclamação, agora enfrenta um cenário de instabilidade. Alguns dirigentes expressaram preocupação com a possibilidade de novas disputas políticas atrapalharem o planejamento da seleção brasileira para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026.
Histórico de tensões na CBF
O afastamento de Ednaldo Rodrigues não é um evento isolado. Em dezembro de 2023, o TJ-RJ já havia destituído o dirigente, também por questionamentos sobre a legalidade de sua eleição. Naquela ocasião, a intervenção de José Perdiz, presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, foi mal recebida por Fifa e Conmebol, que ameaçaram sanções por interferência externa. A decisão foi revertida pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, que garantiu o retorno de Ednaldo em janeiro de 2024.
O cerne da crise atual remonta a um acordo firmado em fevereiro de 2025, que validou a eleição de Ednaldo em 2022. O documento, assinado por cinco dirigentes, incluindo Coronel Nunes, foi questionado por Daniela do Waguinho, deputada federal, e por Fernando Sarney. Ambos alegam que a assinatura de Nunes, ex-presidente da CBF diagnosticado com câncer no cérebro em 2018, foi falsificada. Um laudo pericial apresentado no processo reforça a tese, apontando inconsistências no documento.
- Cronologia da crise:
- 2022: Ednaldo Rodrigues é eleito presidente da CBF.
- Dezembro de 2023: Primeiro afastamento pelo TJ-RJ.
- Janeiro de 2024: Retorno ao cargo por decisão do STF.
- Fevereiro de 2025: Acordo homologado valida eleição de 2022.
- Março de 2025: Reeleição de Ednaldo por aclamação.
- Maio de 2025: Novo afastamento e nomeação de Sarney.
A saúde de Coronel Nunes, que tem 86 anos, também foi um fator determinante. Na segunda-feira, 12 de maio, ele deveria depor no TJ-RJ, mas sua ausência, justificada por problemas médicos, levou ao cancelamento da audiência. O desembargador Zéfiro, sem novas evidências, optou por declarar a nulidade do acordo, desencadeando a destituição de Ednaldo.
Contratação de Ancelotti sob holofotes
A chegada de Carlo Ancelotti à seleção brasileira, anunciada por Ednaldo na segunda-feira, foi um movimento estratégico. Pressionado pela iminente audiência judicial, o presidente da CBF acelerou a divulgação do acerto, mesmo sem uma confirmação oficial do Real Madrid, clube onde o italiano segue contratado até 2026. A manobra buscava fortalecer a imagem de Ednaldo, associando seu nome a um técnico de renome mundial.
Ancelotti, que comandará o Brasil nas Eliminatórias a partir de junho, já começou a planejar sua comissão técnica. Seu filho, Davide Ancelotti, e seu genro, Mino Fulco, integrarão a equipe, enquanto Cláudio Taffarel, ex-goleiro da seleção, permanecerá como preparador de goleiros. O italiano também fez contatos informais com jogadores como Neymar e Casemiro, sinalizando que ambos podem retornar à equipe nacional.
Apesar da crise na CBF, Fernando Sarney garantiu que o projeto com Ancelotti não será alterado. A declaração é crucial, já que a seleção brasileira enfrenta um momento delicado nas Eliminatórias, após resultados irregulares sob o comando de Dorival Júnior. A estreia de Ancelotti está marcada para 5 de junho, contra o Equador, em Guayaquil, seguida de um jogo contra o Paraguai, na Neo Química Arena, em São Paulo.

Papel de Fernando Sarney na transição
Fernando Sarney, nomeado interventor, assume um papel central na condução da CBF durante a crise. Vice-presidente da entidade desde 2015, ele possui experiência administrativa e conexões políticas no futebol brasileiro. Sua indicação, no entanto, não é isenta de controvérsias. Sarney liderou a oposição a Ednaldo nos últimos meses, articulando ações judiciais contra o ex-presidente.
Como interventor, Sarney terá a tarefa de organizar novas eleições, previstas para ocorrer em até 90 dias, conforme o estatuto da CBF. Ele já declarou que sua gestão será técnica e temporária, evitando interferências em decisões estratégicas, como a contratação de Ancelotti. A postura busca evitar atritos com a Fifa, que monitora de perto a situação para garantir que não haja intervenção estatal na entidade.
- Responsabilidades de Sarney:
- Convocar assembleia geral para novas eleições.
- Garantir a continuidade das atividades da seleção brasileira.
- Manter diálogo com Fifa e Conmebol para evitar sanções.
- Supervisionar a transição administrativa da CBF.
A nomeação de Sarney, porém, já enfrenta resistência. Algumas federações estaduais, que apoiaram Ednaldo na reeleição, questionam sua legitimidade como interventor, alegando conflitos de interesse. A disputa pelo comando da CBF promete novos capítulos, especialmente com o recurso de Ednaldo tramitando no STF.
Judicialização da CBF
A CBF vive um ciclo de judicialização desde 2017, quando mudanças no estatuto eleitoral da entidade desencadearam ações civis públicas. O Ministério Público do Rio de Janeiro questionou a validade das assembleias que elegeram Rogério Caboclo, em 2018, e Ednaldo, em 2022. O acordo de 2025, agora anulado, foi uma tentativa de pacificar o cenário, mas a suspeita de falsificação reacendeu o conflito.
O STF tem desempenhado um papel decisivo na crise. Em 2023, Gilmar Mendes reverteu o primeiro afastamento de Ednaldo, mas, em maio de 2025, optou por enviar o caso ao TJ-RJ, exigindo apuração rigorosa. A decisão de Mendes reflete a complexidade do caso, que envolve não apenas questões jurídicas, mas também disputas de poder entre facções dentro da CBF.
A deputada Daniela do Waguinho, autora de um dos pedidos de afastamento, argumenta que a gestão de Ednaldo foi marcada por irregularidades. Sua petição, apoiada por um laudo pericial, ganhou força com a adesão de Fernando Sarney, que também questionou a validade do acordo. A combinação de pressões políticas e judiciais culminou na decisão do desembargador Zéfiro, que declarou a nulidade do documento.
Anúncio de Ancelotti e estratégias políticas
O anúncio da contratação de Carlo Ancelotti, feito às pressas, foi uma cartada de Ednaldo para conquistar apoio público. Na segunda-feira, enquanto se preparava para a audiência judicial, o presidente da CBF divulgou um vídeo celebrando o acerto com o italiano. A estratégia, porém, não conseguiu evitar sua destituição, embora tenha reforçado sua imagem como gestor ousado.
A pressa no anúncio gerou desconforto no Real Madrid, que ainda não oficializou a saída de Ancelotti. O clube espanhol, que enfrenta uma temporada sem títulos, planeja comunicar a rescisão após o clássico contra o Barcelona, marcado para domingo. A CBF, por sua vez, trabalha para formalizar o contrato com Ancelotti, que prevê salário de R$ 5 milhões mensais e bônus de R$ 31,5 milhões em caso de título na Copa de 2026.
- Detalhes do contrato de Ancelotti:
- Salário mensal: R$ 5 milhões.
- Duração: Até a Copa do Mundo de 2026, com opção de renovação até 2030.
- Bônus por título: R$ 31,5 milhões.
- Benefícios: Moradia no Rio de Janeiro custeada pela CBF.
A escolha de Ancelotti reflete a ambição da CBF de recuperar o protagonismo no futebol mundial. O italiano, com cinco títulos da Champions League, é visto como o nome ideal para reestruturar a seleção brasileira, que enfrenta críticas por atuações inconsistentes desde a Copa de 2022.
Saúde de Coronel Nunes
A saúde de Antônio Carlos Nunes, conhecido como Coronel Nunes, é um ponto central na crise. Diagnosticado com câncer no cérebro em 2018, o ex-presidente da CBF apresenta, segundo laudos médicos, déficits cognitivos que levantam dúvidas sobre sua capacidade de assinar documentos. Um relatório de 2023, assinado pelo médico Jorge Pagura, apontou que Nunes não tinha condições de manifestar consentimento de forma plena.
A ausência de Nunes na audiência de segunda-feira, justificada por sua internação no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, foi decisiva para a decisão do TJ-RJ. O desembargador Zéfiro, sem a possibilidade de ouvir o ex-dirigente, baseou-se no laudo pericial que questiona a autenticidade da assinatura. A família de Nunes, por meio de sua filha, Giane Waldea, confirmou que ele enfrenta problemas de saúde graves, o que reforça as alegações de Daniela do Waguinho e Sarney.
A situação de Nunes expõe a fragilidade dos processos internos da CBF. A dependência de sua assinatura para validar o acordo de 2025, sem uma verificação rigorosa, abriu espaço para questionamentos judiciais. A crise evidencia a necessidade de maior transparência na gestão da entidade, que administra o futebol brasileiro em meio a constantes disputas de poder.
Eleições na CBF
A nomeação de Fernando Sarney como interventor marca o início de um processo eleitoral na CBF. Pelo estatuto da entidade, a assembleia geral deve ser convocada em até 90 dias, com a participação das 27 federações estaduais e dos 40 clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro. A eleição, que será a primeira desde a reeleição de Ednaldo em março, promete ser marcada por intensas negociações políticas.
Sarney, como interventor, terá a responsabilidade de garantir a lisura do pleito. Sua experiência como vice-presidente e sua influência no futebol sul-americano, por meio de cargos na Conmebol, podem facilitar o diálogo com entidades internacionais. No entanto, sua oposição a Ednaldo levanta dúvidas sobre a imparcialidade de sua gestão interina.
- Possíveis candidatos:
- Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol.
- Flávio Zveiter, ex-dirigente com apoio de clubes.
- Representantes de federações regionais alinhadas à oposição.
A Fifa e a Conmebol acompanham o processo de perto. Em 2023, ambas as entidades criticaram a intervenção judicial na CBF, alegando violação da autonomia do futebol. A presença de Sarney, um dirigente reconhecido internacionalmente, pode reduzir o risco de sanções, mas a instabilidade política na entidade permanece como um desafio.
Preparativos de Ancelotti
Enquanto a CBF enfrenta turbulências administrativas, Carlo Ancelotti segue com os preparativos para assumir a seleção brasileira. O técnico, que chegará ao Brasil em 26 de maio, já trabalha na convocação para os jogos de junho. A lista, com 23 nomes, será anunciada na Neo Química Arena, onde a seleção treinará antes de enfrentar o Paraguai.
Ancelotti também definiu sua base no Rio de Janeiro, onde terá uma residência custeada pela CBF. A escolha reflete a intenção do técnico de acompanhar de perto o futebol brasileiro, assistindo a jogos do Campeonato Brasileiro e mantendo contato com jogadores. Sua experiência em cinco ligas europeias e sua reputação como gestor de elencos estrelados são vistos como trunfos para reerguer a seleção.
A transição no Real Madrid, no entanto, ainda gera incertezas. O clube espanhol, que negocia com Xabi Alonso como possível substituto, planeja uma despedida oficial para Ancelotti após o fim do Campeonato Espanhol. A CBF, por sua vez, mantém conversas com o staff do técnico para alinhar detalhes logísticos, como a apresentação oficial e a integração com a comissão técnica brasileira.
Monitoramento da Fifa e Conmebol
A crise na CBF não passou despercebida pelas entidades que regulam o futebol mundial. A Fifa, que organiza o congresso em Assunção onde Ednaldo estava presente, já manifestou preocupação com a judicialização da entidade. Em 2023, a organização ameaçou suspender o Brasil de competições internacionais caso a intervenção judicial fosse mantida.
A Conmebol, por sua vez, acompanha o caso com atenção, especialmente por causa das Eliminatórias da Copa do Mundo. A entidade sul-americana espera que a transição na CBF ocorra sem prejuízos ao calendário esportivo. A nomeação de Fernando Sarney, que já ocupou cargos na Conmebol, pode facilitar as negociações, mas a pressão por uma solução rápida permanece.
- Preocupações das entidades:
- Garantir a autonomia da CBF frente a intervenções judiciais.
- Manter o cronograma das Eliminatórias sem interrupções.
- Evitar conflitos que comprometam a imagem do futebol brasileiro.
A instabilidade na CBF também levanta questões sobre a governança do futebol no Brasil. A repetição de crises administrativas, aliada à falta de consenso entre federações e clubes, expõe a necessidade de reformas estruturais na entidade.