O crescimento acelerado da educação a distância no Brasil, que superou as matrículas presenciais em 2022, levou o governo federal a tomar medidas para regulamentar o setor. Após quase um ano de adiamentos, o Ministério da Educação publicou, em 19 de maio de 2025, a Nova Política de Educação à Distância, um decreto que reformula a oferta de cursos superiores online. A decisão, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, responde a preocupações com a qualidade do ensino, especialmente em áreas que exigem prática intensiva. As mudanças incluem a proibição de cursos 100% remotos e a exigência de atividades presenciais em todas as graduações.
A nova regulamentação estabelece que cinco cursos – Medicina, Direito, Odontologia, Enfermagem e Psicologia – só poderão ser oferecidos no formato presencial. Outras áreas, como licenciaturas e demais cursos de saúde, terão a opção de adotar o modelo semipresencial, com até 50% da carga horária a distância. O decreto também introduz critérios rigorosos para polos de EAD e reforça a importância de avaliações presenciais.
- Principais mudanças: Proibição de EAD em cinco graduações específicas.
- Carga horária: Mínimo de 20% presencial ou síncrono em todos os cursos.
- Polos de EAD: Exigência de infraestrutura mínima, como laboratórios e salas de estudo.
- Transição: Instituições têm até maio de 2027 para se adaptar.
A reformulação ocorre em um momento em que o ensino a distância enfrenta críticas por desempenho acadêmico inferior, conforme apontado pelo Censo da Educação Superior. O MEC busca equilibrar acessibilidade e qualidade, enquanto o setor privado teme impactos econômicos.
Motivações para a regulamentação
A expansão desenfreada do EAD no Brasil, com um aumento de 700% na oferta de cursos entre 2017 e 2022, acendeu alertas no Ministério da Educação. Dados do Censo da Educação Superior de 2022 mostram que 4,9 milhões de estudantes estavam matriculados em cursos a distância, contra 5,06 milhões em graduações presenciais. Apesar do crescimento, o desempenho dos alunos em avaliações como o Enade foi consistentemente inferior ao dos estudantes presenciais. O surgimento de cursos online com notas baixas nas avaliações do MEC reforçou a necessidade de um marco regulatório.
O ministro da Educação, Camilo Santana, expressou preocupação com a qualidade da formação, especialmente em áreas como saúde e licenciaturas. Em março de 2025, ele destacou que 40% das matrículas em Enfermagem eram a distância, uma prática que o governo decidiu suspender. A nova política visa garantir que os diplomas reflitam uma formação robusta, com ênfase em atividades práticas e interação direta entre alunos e professores.
A regulamentação também responde a pressões de entidades como a União Nacional dos Estudantes, que defende maior rigor na oferta de EAD. A presidente da UNE, Manuella Mirella, participou da cerimônia de assinatura do decreto e classificou a medida como um passo inicial para melhorar a qualidade do ensino superior.
Cursos vetados para EAD
Cinco graduações foram diretamente impactadas pela proibição do ensino a distância. A decisão do MEC reflete a percepção de que essas áreas exigem vivências práticas que não podem ser substituídas por aulas online.
- Medicina: Necessita de práticas em hospitais e laboratórios.
- Direito: Exige interação em tribunais e escritórios para formação prática.
- Odontologia: Depende de clínicas e equipamentos específicos.
- Enfermagem: Requer treinamento em ambientes hospitalares.
- Psicologia: Demanda atendimento clínico supervisionado.
Esses cursos agora só poderão ser oferecidos presencialmente, uma mudança que afeta cerca de 193 mil alunos atualmente matriculados em Enfermagem EAD, além de milhares em Psicologia e Direito. Estudantes já inscritos poderão concluir suas graduações no formato original, mas novas turmas seguirão as regras presenciais.
O MEC também deixou aberta a possibilidade de incluir outras graduações na lista de proibições por meio de atos futuros do ministro. Áreas como Engenharia, que inicialmente pareciam vetadas, permanecem elegíveis para o formato semipresencial, com pelo menos 10% de atividades presenciais.
Nova modalidade semipresencial
O decreto introduz a modalidade semipresencial, uma categoria que combina aulas online com atividades presenciais obrigatórias. Cursos de licenciaturas, como Pedagogia, e outras áreas da saúde, como Farmácia e Fisioterapia, poderão adotar esse formato, desde que respeitem o limite de 50% da carga horária a distância.
A modalidade exige que ao menos 30% da carga horária total seja presencial, com atividades como estágios, práticas laboratoriais ou projetos de extensão. Os 20% restantes podem ser cumpridos por aulas síncronas mediadas, como videoconferências ao vivo. Essa estrutura busca atender à demanda por flexibilidade, especialmente em regiões rurais, enquanto mantém a qualidade da formação.
Licenciaturas, por exemplo, agora exigirão estágios presenciais em escolas, reforçando a preparação de professores para a educação básica. Na área da saúde, cursos como Biomedicina dependerão de laboratórios e clínicas para práticas obrigatórias. A modalidade semipresencial também incentiva a criação de polos de EAD em áreas com alta demanda por profissionais, como o interior do Brasil.
Regras para atividades síncronas
Atividades síncronas mediadas, como aulas ao vivo, passam a ser uma alternativa para cumprir parte da carga horária dos cursos EAD. Essas atividades, no entanto, devem seguir critérios específicos para garantir a qualidade do ensino.
- Formato: Online, em tempo real, com interação direta entre alunos e professores.
- Limite de alunos: Máximo de 70 estudantes por mediador pedagógico.
- Controle de frequência: Sistemas obrigatórios para registrar a participação.
- Objetivo: Promover engajamento e aprendizado ativo.
Essas atividades não substituem a carga presencial obrigatória, mas complementam a formação à distância. O MEC exige que as instituições invistam em plataformas tecnológicas estáveis para suportar aulas síncronas, com sistemas que monitorem a frequência e garantam a interação.
Os mediadores pedagógicos, responsáveis por conduzir essas atividades, devem ter formação compatível com o curso e estar registrados no Censo da Educação Superior. Diferentemente dos tutores, que desempenham funções administrativas, os mediadores têm um papel ativo no processo de aprendizagem, orientando os alunos e acompanhando seu desenvolvimento.
Infraestrutura dos polos de EAD
Os polos de ensino a distância, espaços fora do campus principal onde os alunos realizam atividades presenciais, enfrentarão exigências mais rígidas. Muitos polos atuais operam em condições precárias, como salas acima de estabelecimentos comerciais, sem laboratórios ou suporte adequado. O MEC estima que metade dos 50 mil polos existentes poderá fechar devido às novas regras.
A infraestrutura mínima agora inclui:
- Salas de coordenação e estudo.
- Laboratórios equipados, quando necessário.
- Conexão à internet estável.
- Espaços exclusivos, sem compartilhamento entre instituições.
Essas exigências visam melhorar o suporte acadêmico oferecido aos estudantes, especialmente em regiões distantes dos grandes centros. As instituições privadas, que dominam o mercado de EAD, precisarão investir em novos campi físicos ou reestruturar os polos existentes, o que pode elevar os custos operacionais.
Avaliações presenciais obrigatórias
Uma das mudanças mais significativas da nova política é a obrigatoriedade de provas presenciais em todas as disciplinas dos cursos EAD. Cada unidade curricular deve incluir ao menos uma avaliação presencial, com peso maior na nota final.
Essas provas devem focar em habilidades como análise, síntese ou prática, indo além de questões de múltipla escolha. O objetivo é garantir que os alunos demonstrem domínio do conteúdo de forma robusta, reduzindo o risco de fraudes em avaliações online. As instituições terão que organizar locais adequados para a aplicação dessas provas, seja em polos de EAD ou em campi principais.
A exigência de avaliações presenciais também responde a críticas sobre a credibilidade dos cursos a distância. Dados do MEC mostram que apenas 26% dos cursos EAD têm avaliações satisfatórias, contra 38% dos presenciais. A nova regra busca alinhar os padrões de qualidade entre as modalidades.
Período de transição
A implementação das novas regras será gradual, com um prazo de dois anos, até maio de 2027, para que as instituições se adaptem. Durante esse período, as universidades precisarão:
- Reorganizar cronogramas para incluir aulas presenciais e síncronas.
- Ampliar a infraestrutura dos polos de EAD.
- Contratar mais professores e mediadores pedagógicos.
- Ajustar os preços dos cursos para cobrir os novos custos.
Estudantes já matriculados em cursos que deixarão de ser oferecidos na modalidade EAD, como Enfermagem, poderão concluir suas graduações no formato original. Essa garantia protege os direitos dos alunos e evita interrupções em suas formações.
O MEC também planeja monitorar a adaptação das instituições por meio de fiscalizações e atualizações no Censo da Educação Superior. Universidades que não cumprirem as exigências poderão enfrentar sanções, como a suspensão de novos cursos ou a perda de credenciamento.

Reações do setor privado
A nova política gerou debates intensos no setor educacional, especialmente entre as instituições privadas, que respondem por quase metade das matrículas no ensino superior. Representantes de universidades criticaram a proibição do EAD em cursos como Direito e Psicologia, argumentando que a modalidade democratiza o acesso à educação, especialmente para estudantes de baixa renda e do interior.
As instituições privadas investiram pesadamente em plataformas digitais nos últimos anos, atraindo alunos com mensalidades mais acessíveis. A exigência de 20% de carga horária presencial e a reestruturação dos polos de EAD aumentarão os custos operacionais, o que pode levar a reajustes nas mensalidades. Algumas universidades já anunciaram planos para expandir campi físicos, enquanto outras avaliam a viabilidade de manter cursos semipresenciais.
A Associação Nacional de Universidades Particulares, por meio de sua vice-presidente Beth Guedes, destacou que a proibição de novos cursos EAD até março de 2025 já causou impactos econômicos significativos. No Congresso Internacional de Educação a Distância, realizado em maio de 2025, o setor expressou preocupação com a instabilidade gerada pelos sucessivos adiamentos do decreto.
Foco na formação de professores
A regulamentação dá atenção especial às licenciaturas, cursos voltados para a formação de professores. O número de professores formados por EAD na rede privada dobrou em uma década, alcançando 81% dos ingressantes em 2022. O MEC considera essencial reforçar a qualidade dessa formação, dado o impacto direto na educação básica.
As licenciaturas agora exigirão pelo menos 50% da carga horária presencial, com estágios supervisionados em escolas. A modalidade semipresencial permitirá aulas síncronas, mas o foco será em práticas presenciais que preparem os futuros professores para os desafios da sala de aula. O MEC também incentiva a criação de polos de EAD em regiões com carência de docentes, como áreas rurais do Norte e Nordeste.
Papel dos mediadores pedagógicos
Os mediadores pedagógicos ganham destaque na nova política, com funções claras para apoiar o aprendizado dos alunos. Esses profissionais, que devem ter formação compatível com o curso, atuarão em atividades síncronas e presenciais, orientando os estudantes e acompanhando seu progresso acadêmico.
Diferentemente dos tutores, que se limitam a tarefas administrativas como registro de frequência, os mediadores terão um papel pedagógico ativo. O MEC exige que eles sejam formalmente vinculados às instituições e registrados no Censo da Educação Superior, garantindo maior controle sobre sua atuação.
A medida responde a críticas sobre a falta de acompanhamento adequado nos cursos EAD. Com um limite de 70 alunos por mediador, o governo busca assegurar que os estudantes recebam suporte personalizado, mesmo em aulas online.
Investimentos em tecnologia
A nova política enfatiza a importância de plataformas tecnológicas estáveis para os cursos EAD. As instituições precisarão investir em sistemas que suportem aulas síncronas, com controle de frequência e interação em tempo real.
Os polos de EAD também devem oferecer equipamentos modernos, como computadores e acesso à internet de alta velocidade. Essas exigências visam reduzir as desigualdades no acesso à educação a distância, especialmente em regiões onde a conectividade é limitada. O MEC espera que os investimentos em tecnologia melhorem a experiência dos alunos e a credibilidade dos cursos online.
Cronologia das mudanças
As discussões sobre a regulamentação do EAD ganharam força nos últimos anos, com marcos importantes que culminaram no decreto de 2025.
- 2017: Flexibilização das regras para EAD, permitindo a criação de polos sem avaliação prévia do MEC.
- 2022: Matrículas em EAD superam as presenciais, atingindo 4,9 milhões de alunos.
- 2023: Suspensão de novos cursos EAD em 17 áreas, incluindo Enfermagem e Direito.
- 2024: Adiamentos sucessivos do novo marco regulatório, com prazo final prorrogado para maio de 2025.
- 2025: Publicação da Nova Política de Educação à Distância, com proibição de EAD em cinco graduações.
Essa trajetória reflete a tentativa do governo de equilibrar a expansão do ensino a distância com a necessidade de qualidade. As mudanças de 2025 marcam um ponto de inflexão, com impactos que serão sentidos por alunos, professores e instituições nos próximos anos.
Debate sobre acessibilidade
A proibição do EAD em cinco graduações e a exigência de atividades presenciais levantaram questionamentos sobre o acesso ao ensino superior. O ensino a distância tem sido uma alternativa crucial para estudantes de baixa renda e de regiões remotas, que muitas vezes não têm condições de frequentar cursos presenciais.
Entidades do setor privado argumentam que as novas regras podem limitar oportunidades para esses alunos, especialmente em áreas como Direito e Psicologia, que atraem grande número de matrículas EAD. O governo, por sua vez, defende que a qualidade do ensino é prioritária e que o modelo semipresencial manterá a flexibilidade sem comprometer a formação.
A criação de polos de EAD em regiões carentes, combinada com a modalidade semipresencial, é vista como uma estratégia para preservar a acessibilidade. No entanto, o aumento dos custos operacionais pode dificultar a oferta de mensalidades acessíveis, um desafio que as instituições terão que enfrentar durante o período de transição.
Planejamento para o futuro
O MEC planeja acompanhar de perto a implementação das novas regras, com fiscalizações regulares e relatórios baseados no Censo da Educação Superior. Portarias complementares devem ser publicadas ainda em 2025 para detalhar aspectos técnicos, como os critérios para polos de EAD e a regulamentação de cursos semipresenciais.
As instituições de ensino superior já começaram a planejar suas estratégias de adaptação. Algumas universidades privadas anunciaram investimentos em novos campi físicos, enquanto outras exploram parcerias com escolas e clínicas para atender às exigências de estágios e práticas presenciais.
O Conselho Nacional de Educação também terá um papel ativo na elaboração de diretrizes complementares, especialmente para licenciaturas e cursos de saúde. O presidente do CNE, César Callegari, destacou a importância de evitar a precarização do ensino, reforçando que o EAD deve ser uma ferramenta complementar, não um substituto do aprendizado presencial em áreas críticas.