A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vive um momento de tensão às vésperas da eleição que definirá seu novo presidente. No próximo domingo, 25 de maio, Samir Xaud, presidente da Federação Roraimense de Futebol, será aclamado como sucessor de Ednaldo Rodrigues. A escolha, no entanto, não conta com a participação de 20 clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, que anunciaram um boicote ao pleito. Em um movimento coordenado, essas agremiações expressaram descontentamento com o atual modelo eleitoral da entidade, apontando falta de democracia, transparência e representatividade no processo.
A ausência dos clubes reflete uma crise institucional que se arrasta há meses na CBF. América-MG, Athletico-PR, Atlético-GO, Botafogo-SP, Chapecoense, Corinthians, Coritiba, Cruzeiro, Cuiabá, Flamengo, Fluminense, Fortaleza, Goiás, Internacional, Juventude, Mirassol, Novorizontino, Santos, São Paulo e Sport divulgaram uma nota conjunta na última semana, reforçando a decisão de não comparecer à votação. A ação coletiva, segundo os clubes, é um protesto contra um sistema que privilegia as federações estaduais em detrimento das agremiações, responsáveis diretas pela competitividade do futebol nacional.
Os clubes, em sua maioria filiados às ligas Libra e Liga Forte União (LFU), buscam pressionar a nova gestão da CBF a iniciar um diálogo imediato após a posse de Xaud. Eles defendem a reformulação do processo eleitoral, com maior peso para os votos dos clubes, e a criação de uma liga profissional que garanta autonomia às agremiações. A crise expõe a fragilidade da governança do futebol brasileiro e reacende debates sobre a necessidade de modernização na entidade que rege o esporte mais popular do país.
- Demanda por democracia: Os clubes exigem um modelo eleitoral que equilibre o peso dos votos entre federações e agremiações.
- Transparência nas decisões: A CBF é cobrada por maior clareza em suas assembleias e processos administrativos.
- Criação de uma liga: A formação de uma liga independente para gerir as Séries A e B está entre as prioridades dos clubes.
- Representatividade: As agremiações querem participar ativamente das decisões estratégicas da entidade.
Crise institucional marca transição na CBF
A eleição de Samir Xaud ocorre em um contexto de instabilidade na CBF, agravado pela saída de Ednaldo Rodrigues, removido do cargo por decisão judicial em 15 de maio de 2025. A destituição de Rodrigues foi motivada por alegações de irregularidades em sua reeleição, incluindo a suspeita de falsificação na assinatura de um documento assinado pelo ex-vice-presidente da entidade, Coronel Nunes. A decisão, proferida pelo juiz Gabriel de Oliveira Zéfiro, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, determinou a convocação de novas eleições e nomeou Fernando Sarney, vice-presidente da CBF, como interventor para conduzir o processo.
Clubes anuncia que não vai votar domingo na eleição da CBF.
— LIBERTA DEPRE (@liberta___depre) May 22, 2025
Equipes estão insatisfeitas com andamento do pleito e protestarão com ausência.
No comunicado, os clubes pedem "democracia, transparência e representatividade" e afirmam discordar do processo.
Os clubes são:… pic.twitter.com/zdRQFKllxV
O afastamento de Rodrigues intensificou as críticas à gestão da CBF. Durante seu mandato, iniciado em 2022, o dirigente enfrentou sucessivas crises, incluindo disputas judiciais e acusações de favorecimento às federações estaduais. Apesar de ter conquistado apoio unânime em sua reeleição em março de 2025, com 141 votos do colégio eleitoral, Rodrigues não conseguiu consolidar sua liderança entre os clubes. A falta de diálogo com as agremiações, aliada ao peso desproporcional dos votos das federações, alimentou o descontentamento que culminou no boicote anunciado pelos 20 clubes.
A escolha de Xaud como candidato único também gerou controvérsias. Embora ele tenha garantido o apoio de 25 das 27 federações estaduais, apenas dez clubes das Séries A e B endossaram sua candidatura: Amazonas, Botafogo, CRB, Criciúma, Grêmio, Palmeiras, Paysandu, Remo, Vasco e Volta Redonda. A maioria das agremiações preferia Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), que contava com o apoio de 30 clubes, mas não conseguiu registrar sua candidatura por não reunir o mínimo de oito federações exigido pelo estatuto da CBF.
Peso desigual dos votos alimenta tensões
O sistema eleitoral da CBF é o principal ponto de atrito entre clubes e federações. Atualmente, o colégio eleitoral é composto por 27 federações estaduais, cada uma com três votos, totalizando 81 votos. Já os 20 clubes da Série A têm dois votos cada (40 votos no total), enquanto os 20 clubes da Série B possuem um voto cada (20 votos). Essa estrutura confere às federações um peso de 57% no processo, contra 43% dos clubes, o que desagrada as agremiações, que argumentam contribuir mais diretamente para o futebol brasileiro.
No sábado, 17 de maio, 39 clubes das Séries A e B se reuniram para discutir o processo eleitoral e alinhar estratégias. O encontro, promovido pelas ligas Libra e LFU, resultou em um documento assinado por 32 clubes, que expressava apoio a Reinaldo Carneiro Bastos e cobrava mudanças no modelo de votação. A ausência de 20 clubes na eleição de domingo é vista como uma tentativa de pressionar a CBF a rever o sistema, garantindo maior equilíbrio na distribuição de poder.
- Votos das federações: Cada uma das 27 federações tem três votos, totalizando 81 no colégio eleitoral.
- Votos da Série A: Os 20 clubes da elite têm dois votos cada, somando 40 votos.
- Votos da Série B: Os 20 clubes da segunda divisão possuem um voto cada, totalizando 20 votos.
- Desequilíbrio criticado: Os clubes argumentam que o sistema privilegia as federações, que têm menos impacto direto no futebol profissional.
- Proposta de reforma: As agremiações defendem um modelo em que os clubes tenham peso equivalente ou superior às federações.
Demandas dos clubes vão além da eleição
A insatisfação dos clubes não se limita ao processo eleitoral. A nota divulgada pela Liga Forte União (LFU) na segunda-feira, 19 de maio, lista uma série de exigências que vão desde a profissionalização da arbitragem até o fomento às divisões inferiores e ao futebol feminino. Os clubes também cobram a participação obrigatória em todas as assembleias gerais da CBF, a criação de uma liga independente para gerir as Séries A e B e a aprovação conjunta do calendário do ciclo 2026-2030.
A criação de uma liga profissional é uma das demandas mais antigas das agremiações. Desde a formação da Libra e da LFU, os clubes buscam maior autonomia para gerir os direitos comerciais das competições nacionais, hoje controlados majoritariamente pela CBF. A proposta ganhou força com a crise atual, e os clubes esperam que a nova gestão de Xaud abra espaço para negociações concretas sobre o tema.
Além disso, a profissionalização da arbitragem é outro ponto sensível. Os clubes reivindicam árbitros com dedicação exclusiva nas Séries A e B, além de investimentos em treinamentos contínuos para melhorar a qualidade das decisões em campo. A CBF, por sua vez, tem enfrentado críticas recorrentes por falhas na arbitragem, o que aumenta a pressão por mudanças estruturais.
Histórico de crises na CBF
A CBF acumula um histórico de instabilidade administrativa que contribui para o atual cenário de desconfiança. Nos últimos anos, a entidade enfrentou sucessivas crises, incluindo a suspensão de Rogério Caboclo em 2021 por denúncias de assédio sexual e a destituição temporária de Ednaldo Rodrigues em 2023, revertida após intervenção da FIFA. Esses episódios reforçam a percepção de que a CBF precisa de reformas profundas para recuperar sua credibilidade.
O mandato de Rodrigues, embora marcado por conquistas como a manutenção da estabilidade financeira da entidade, foi criticado pela falta de diálogo com os clubes e pela centralização de poder nas federações. A decisão judicial que o afastou, baseada em alegações de falsificação de documentos, reacendeu debates sobre a transparência na gestão da CBF e a influência de ex-dirigentes, como Coronel Nunes, que manteve papel ativo nos bastidores mesmo após deixar a presidência.
- Suspensão de Caboclo: Em 2021, o então presidente foi afastado por denúncias de assédio, abrindo espaço para Rodrigues.
- Destituição de Rodrigues: Em 2023, ele foi temporariamente afastado, mas retornou com apoio da FIFA.
- Alegações de falsificação: A remoção de Rodrigues em 2025 foi motivada por suspeitas de irregularidades em sua reeleição.
- Intervenção judicial: Fernando Sarney foi nomeado interventor para conduzir a transição até a eleição.
Reinaldo Carneiro Bastos como alternativa rejeitada
Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da FPF, surgiu como o candidato preferido dos clubes, mas sua candidatura foi inviabilizada pelas regras do estatuto da CBF. Apesar do apoio de 30 agremiações, ele não conseguiu o respaldo de pelo menos oito federações, um requisito obrigatório para registrar a chapa. A rejeição de Bastos expôs ainda mais as limitações do sistema eleitoral, que favorece as federações e dificulta a ascensão de candidatos alinhados aos interesses dos clubes.
Bastos é conhecido por sua gestão na FPF, que modernizou o Campeonato Paulista e ampliou os investimentos no futebol de base e feminino. Sua popularidade entre os clubes se deve à postura de diálogo e à defesa de maior autonomia para as agremiações. A impossibilidade de sua candidatura frustrou as expectativas de mudanças imediatas na CBF, mas os clubes prometem manter a pressão por reformas sob a gestão de Xaud.
Samir Xaud e o desafio de unificar o futebol brasileiro
Samir Xaud assume a presidência da CBF em um momento delicado, com a missão de pacificar as tensões entre clubes e federações. Presidente da Federação Roraimense de Futebol desde 2017, Xaud tem perfil discreto e pouca experiência em cargos de destaque no cenário nacional. Sua escolha como candidato único foi vista como uma solução de consenso entre as federações, mas a ausência de apoio maciço dos clubes representa um obstáculo para sua gestão.
A nova administração terá de lidar com demandas urgentes, como a reformulação do processo eleitoral, a criação de uma liga profissional e a melhoria da arbitragem. Além disso, Xaud enfrentará o desafio de manter a competitividade da seleção brasileira, que vive um momento de reconstrução após a saída do técnico Dorival Júnior e a contratação de Carlo Ancelotti, confirmada para maio de 2025. A chegada do treinador italiano, aliás, não foi afetada pela crise institucional, segundo fontes próximas à CBF.
- Perfil de Xaud: Presidente da Federação Roraimense, ele é pouco conhecido no cenário nacional.
- Apoio das federações: 25 das 27 federações estaduais endossaram sua candidatura.
- Desafio com clubes: Apenas dez clubes das Séries A e B apoiam Xaud, o que limita sua legitimidade.
- Gestão imediata: Ele terá de abrir diálogo com os clubes para evitar novos conflitos.
- Seleção brasileira: A chegada de Ancelotti é um trunfo, mas exige estabilidade administrativa.
Pressão por uma liga profissional ganha força
A criação de uma liga profissional é uma das bandeiras mais defendidas pelos clubes, que veem na iniciativa uma forma de aumentar a receita e a competitividade das Séries A e B. A Libra e a LFU, apesar de diferenças históricas, têm se unido em torno dessa proposta, que prevê maior controle das agremiações sobre os direitos comerciais das competições. A CBF, no entanto, mantém resistência, temendo perder influência sobre o futebol nacional.
Países como Inglaterra, Espanha e Alemanha já adotam modelos de ligas independentes, que garantem maior autonomia aos clubes e atraem investimentos significativos. No Brasil, a ideia enfrenta entraves burocráticos e políticos, mas o boicote dos 20 clubes sinaliza que a pressão por mudanças atingiu um novo patamar. A nova gestão de Xaud será crucial para definir o futuro dessa proposta.
Arbitragem no centro das críticas
A qualidade da arbitragem no futebol brasileiro é outro tema que ganhou destaque nas demandas dos clubes. Nos últimos anos, decisões polêmicas em jogos das Séries A e B geraram protestos de torcedores, jogadores e dirigentes. Os clubes defendem a profissionalização dos árbitros, com dedicação exclusiva e treinamentos regulares, além da ampliação do uso do VAR (árbitro de vídeo) para minimizar erros.
A CBF já anunciou investimentos na formação de árbitros, mas as medidas ainda não atenderam às expectativas das agremiações. A nova gestão terá de priorizar o tema para evitar que as críticas à arbitragem prejudiquem a credibilidade das competições nacionais.
- Dedicação exclusiva: Os clubes querem árbitros que atuem apenas nas Séries A e B.
- Treinamento contínuo: Investimentos em capacitação são vistos como essenciais.
- Ampliação do VAR: O uso do vídeo é defendido para reduzir erros em lances decisivos.
- Transparência nas escalas: As agremiações cobram critérios claros na escolha dos árbitros.
Diálogo com clubes é prioridade para nova gestão
Os 20 clubes que boicotaram a eleição já sinalizaram disposição para dialogar com Samir Xaud a partir da próxima semana. A nota divulgada pelas agremiações destaca a intenção de construir um “futebol melhor” por meio de negociações com a nova gestão. A abertura ao diálogo, no entanto, não reduz a pressão por mudanças concretas, especialmente no que diz respeito ao processo eleitoral e à criação de uma liga profissional.
A crise atual expõe a necessidade de a CBF repensar sua relação com os clubes, que representam a base do futebol brasileiro. A ausência de 20 agremiações na eleição de domingo é um marco na história da entidade, sinalizando que o modelo atual de governança está esgotado. A nova administração terá de agir rapidamente para evitar que o racha entre clubes e federações se aprofunde ainda mais.