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Virna revive carreira no vôlei: derrotas, maternidade e bastidores da Vila Olímpica

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Virna - Foto: Instagram Virna - Foto: Instagram

A ex-jogadora Virna Cristine Dias Piovezan, conhecida como Virnoca, abriu o coração em uma entrevista de mais de uma hora ao quadro Abre Aspas, do portal ge. Aos 53 anos, a potiguar, nascida em Natal, revisitou momentos marcantes de sua trajetória no vôlei, desde a dolorosa derrota para a Rússia nas Olimpíadas de Atenas 2004 até os desafios de ser mãe aos 18 anos. Com a espontaneidade que marcou sua carreira, ela não fugiu de temas difíceis, como a pressão sobre a jovem Mari e os atritos com as cubanas.

Sua história no esporte, repleta de conquistas e superações, reflete a resiliência de uma atleta que enfrentou preconceitos, dificuldades financeiras e a cobrança por resultados. Virna também revelou histórias curiosas, como a convivência na Vila Olímpica e o sonho de treinar o Flamengo, clube pelo qual torce.

Essa entrevista trouxe à tona não apenas os feitos de uma das maiores jogadoras do vôlei brasileiro, mas também os bastidores de uma época em que o esporte nacional começava a ganhar destaque global.

  • Principais temas abordados: derrota em Atenas, defesa de Mari, maternidade precoce.
  • Conquistas destacadas: bronze em Atlanta 1996 e Sydney 2000, tetracampeã do Grand Prix.
  • Revelações pessoais: rivalidades, desafios como mãe e histórias da Vila Olímpica.

Relembrando Atenas 2004

A semifinal das Olimpíadas de Atenas, em 2004, ainda é uma ferida aberta para Virna. O Brasil, favorito ao ouro, enfrentava a Rússia em um jogo equilibrado. A seleção chegou a estar a um ponto da final, com o placar em 24 a 19 no quarto set, mas sofreu uma virada histórica. A Rússia venceu por 28 a 26, empatou o jogo e fechou o tie-break em 16 a 14.

Mari, então uma jovem revelação, foi a maior pontuadora da partida, mas dois erros cruciais em ataques nas cinco chances de fechar o set a tornaram alvo de críticas. Virna, que disputava sua terceira Olimpíada, recorda o peso que caiu sobre a colega. A torcida e parte da mídia apontaram Mari como responsável pela derrota, ignorando o contexto coletivo do jogo.

A ex-jogadora não esconde a indignação ao falar do episódio. Ela destaca que a pressão sobre Mari foi desproporcional, especialmente por se tratar de uma atleta iniciante em um momento de alta tensão. A seleção, abalada psicologicamente, perdeu também a disputa pelo bronze para Cuba, encerrando a campanha sem medalha.

  • Impacto da derrota: abalo emocional da equipe e críticas à Mari.
  • Contexto do jogo: Brasil liderava por 24 a 19 no quarto set.
  • Virna sobre Mari: “Foi um crime o que fizeram com ela.”

Maternidade aos 18 anos

Virna engravidou aos 18 anos, quando ainda era vista como uma promessa do vôlei brasileiro. A notícia mudou sua vida. Pressionada pelo pai, que seguia valores tradicionais, ela se casou e voltou para Natal, onde deu à luz seu filho, Vitor, em 1991. A cesárea recente a impediu de atender a uma convocação para a seleção juvenil, comandada por Zé Roberto Guimarães, o que gerou dúvidas sobre seu futuro no esporte.

Apesar das dificuldades, Virna aceitou um convite para jogar na Itália, na região da Calábria. A experiência, porém, foi marcada por adversidades. Sem receber salário por quatro meses, ela enfrentou problemas financeiros e precisou contar com a ajuda de colegas, como Fernanda Venturini, para retornar ao Brasil. Em Ribeirão Preto, começou a reconstruir sua carreira, mas a distância do filho, criado praticamente nas quadras, trouxe novos desafios emocionais.

A jogadora lembra que não presenciou momentos importantes do crescimento de Vitor, como os primeiros passos ou as primeiras palavras. A falta de comunicação fácil, com contatos limitados a fax ou ligações caras, intensificava a saudade durante as longas viagens com a seleção.

Superação no esporte

A volta de Virna à seleção brasileira, sob o comando de Bernardinho, marcou uma nova fase em sua carreira. O treinador, conhecido pela exigência, ajudou a desenvolver habilidades que ela inicialmente temia, como a recepção. Em apenas quatro meses de treinos intensos, Virna superou suas inseguranças e conquistou o prêmio de melhor recepção do mundo em uma competição na Alemanha.

Bernardinho também foi um apoio fora das quadras. Quando Virna enfrentou a separação de seu primeiro marido, ele ofereceu suporte emocional, garantindo que Vitor pudesse acompanhar a mãe em concentrações. Essa proximidade trouxe segurança para a jogadora, que equilibrou a maternidade com a rotina exaustiva do vôlei.

  • Papel de Bernardinho: treinamento técnico e apoio pessoal.
  • Conquista notável: melhor recepção do mundo em Bremen.
  • Desafios superados: insegurança técnica e separação.

Rivalidades com Cuba

Os confrontos com a seleção cubana marcaram a carreira de Virna. As partidas eram intensas, muitas vezes com provocações e até agressões físicas. A ex-jogadora recorda episódios de “pancadaria” em quadra, mas também momentos de solidariedade. Em uma ocasião, diante da situação financeira precária das cubanas, Virna e suas companheiras ofereceram itens de higiene, como sabonetes e shampoos, às adversárias.

Fora das quadras, a relação com as cubanas variava entre tensão e respeito. Virna lembra que, apesar das rivalidades, havia uma admiração mútua pelo talento de jogadoras como Regla Torres e Mireya Luis, ícones do vôlei mundial. Esses embates, segundo ela, ajudaram a moldar a mentalidade competitiva da seleção brasileira.

Histórias da Vila Olímpica

A Vila Olímpica, descrita por Virna como um “sonho”, era um ambiente vibrante, com milhares de atletas de diferentes países. As brasileiras, segundo ela, chamavam atenção pela simpatia e pelos uniformes, que contrastavam com os modelos mais conservadores de outras delegações. O clima de paquera era constante, especialmente após as competições, quando festas reuniam atletas em um ambiente descontraído.

Virna, que participou de três Olimpíadas (Atlanta 1996, Sydney 2000 e Atenas 2004), lamenta, com bom humor, ter ido casada a todas elas. Ela recorda histórias como a paquera de um remador espanhol por Leila e as escapadas noturnas de algumas colegas, que incluíam “pulos de janela” para encontrar atletas de outras modalidades.

  • Curiosidades da Vila: paqueras, festas e uniformes brasileiros.
  • Momentos marcantes: Guga Kuerten tocando viola e o “Jesus” espanhol.
  • Regras do trio: Virna, Leila e Fofão monitoravam as colegas.

Bernardinho e Zé Roberto: os técnicos

Virna destaca o impacto de dois treinadores em sua carreira: Bernardinho e Zé Roberto Guimarães. Bernardinho, com seu estilo exigente, era temido em treinos, mas fora das quadras mostrava sensibilidade. Ele ajustava a rotina para atender às necessidades de Virna e Ida, únicas mães do elenco, e incentivava a presença de Vitor nas concentrações.

Zé Roberto, por sua vez, tinha uma abordagem mais acolhedora. Em Osasco, ele ofereceu apoio emocional durante a separação de Virna, levando-a para passeios a cavalo e integrando-a à sua família nos fins de semana. Sua atenção aos detalhes, como o ciclo menstrual das jogadoras, ajudava a criar um ambiente de confiança.

Sonho de treinar o Flamengo

Após encerrar a carreira, Virna considerou se tornar técnica, mas desistiu para priorizar a família. No entanto, ela revela que um convite do Flamengo, seu clube do coração, poderia mudar sua decisão. A paixão pelo rubro-negro é antiga, e a ex-jogadora lembra com carinho das rivalidades contra o Vasco nas quadras, que agitavam o vôlei carioca nos anos 1990.

A possibilidade de comandar o Flamengo, mesmo que hipotética, reflete o vínculo emocional de Virna com o esporte. Ela acredita que sua experiência como atleta e sua mentalidade competitiva a qualificariam para o cargo, caso a oportunidade surgisse.

  • Clube do coração: Flamengo como motivação para voltar ao vôlei.
  • Rivalidade histórica: duelos contra o Vasco nos anos 1990.
  • Decisão familiar: prioridade à família após a aposentadoria.

Viagens e adversidades

As viagens com a seleção trouxeram momentos inesquecíveis, mas também dificuldades. Em uma passagem por Macau, um terremoto interrompeu um campeonato, deixando a equipe confinada em um hotel. A comida local, que incluía pratos como macaco e cobra, não agradava, e Virna precisou improvisar. Invadindo a cozinha, ela preparou arroz com ovos para alimentar as companheiras, em um episódio que mistura humor e necessidade.

A distância do filho era outro obstáculo. Em uma viagem de 45 dias, Vitor, então com oito meses, não a reconheceu ao reencontrá-la. O episódio abalou Virna, que chegou a cogitar abandonar o vôlei, mas foi incentivada pela família a persistir.

Resiliência nordestina

Nascida em Natal, Virna enfrentou preconceitos desde cedo. Aos 14 anos, ao chegar à seleção infanto-juvenil, ela era alvo de apelidos como “girafona” e “Olívia Palito” por sua altura e origem. A quadra de cimento onde treinava, com joelheiras rasgadas e tênis simples, contrastava com a estrutura das jogadoras de grandes centros.

Essas experiências, segundo ela, forjaram sua determinação. A ex-jogadora atribui sua resiliência ao esporte e à sua raiz nordestina, que a ensinaram a enfrentar desafios sem vitimismo. Hoje, ela passa esses valores aos filhos, incentivando a prática esportiva como forma de aprender a lidar com vitórias e derrotas.

  • Origem humilde: treinos em quadra de cimento em Natal.
  • Preconceito superado: apelidos e bullying na adolescência.
  • Lições para os filhos: esporte como ferramenta de resiliência.

Conquistas e reconhecimento

A carreira de Virna é repleta de feitos. Ela conquistou o bronze nas Olimpíadas de Atlanta 1996 e Sydney 2000, além de ser tetracampeã do Grand Prix e prata no Campeonato Mundial de 1994. Em 1999, foi eleita a melhor jogadora do mundo, um marco para o vôlei brasileiro. Sua versatilidade em quadra, aliada à garra, a tornou uma referência para gerações seguintes.

Entre suas colegas, Virna destaca Fernanda Venturini e Márcia Fu como as maiores da história do vôlei brasileiro. A amizade com Venturini, que a ajudou em momentos de dificuldade, reforça a importância das conexões pessoais no esporte.

Legado no vôlei brasileiro

A trajetória de Virna reflete o crescimento do vôlei feminino no Brasil. Quando começou, o esporte ainda lutava por espaço e investimento. Suas conquistas, ao lado de nomes como Ana Moser e Fofão, ajudaram a consolidar a seleção como potência mundial. A ex-jogadora vê com orgulho o impacto de sua geração, que abriu portas para as atletas de hoje.

Atualmente, Virna acompanha o vôlei à distância, mas mantém laços com ex-companheiras e treinadores. Sua história, marcada por superação e paixão, continua inspirando fãs e jovens atletas que sonham em seguir seus passos.

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