A sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro, foi palco de um momento histórico neste domingo, 25 de maio de 2025. Samir Xaud, médico infectologista de 41 anos e vice-presidente da Federação Roraimense de Futebol, foi eleito o novo presidente da entidade, com mandato previsto até 2030. A votação, encerrada na manhã de hoje, marcou o desfecho de um processo eleitoral inesperado, desencadeado pela destituição do ex-presidente Ednaldo Rodrigues, afastado por decisão judicial. A eleição, realizada com urna eletrônica pela primeira vez na história da CBF, teve apenas uma chapa, liderada por Xaud, o que gerou debates intensos no meio futebolístico.
Embora a apuração tenha sido rápida, com o anúncio da vitória confirmado minutos após o término da votação, o processo não escapou de controvérsias. A ausência de concorrentes, somada ao boicote de 21 clubes das Séries A e B, levantou questionamentos sobre a representatividade do pleito. Xaud, que substitui seu pai no comando da federação de Roraima, chegou à eleição com o apoio de 25 das 27 federações estaduais e 10 clubes, mas enfrentou resistência de parte do futebol brasileiro.
- Chapa única: Samir Xaud foi o único candidato, após Reinaldo Carneiro Bastos não conseguir o apoio de oito federações, conforme exigido pelo regulamento da CBF.
- Boicote de clubes: Um grupo de 21 equipes anunciou intenção de não participar da votação, embora alguns clubes tenham comparecido.
- Urna eletrônica: Pela primeira vez, o pleito utilizou tecnologia para garantir agilidade e transparência na contagem dos votos.
O novo presidente, que assume em um momento delicado para o futebol brasileiro, promete uma gestão focada em modernização, diálogo com clubes e federações, e fortalecimento das competições nacionais. A CBF, responsável pela organização do Campeonato Brasileiro e pela seleção nacional, enfrenta desafios como a profissionalização da arbitragem e a segurança nos estádios.

Origem de Samir Xaud
Samir Xaud, nascido em Roraima, é um nome pouco conhecido no cenário nacional do futebol até este momento. Formado em medicina, com especialização em infectologia, ele conciliava a carreira médica com a vice-presidência da Federação Roraimense de Futebol, entidade comandada por seu pai por quase cinco décadas. A ascensão de Xaud ao comando da CBF surpreendeu muitos, especialmente por sua origem em um estado com pouca tradição no futebol de elite.
Sua trajetória na federação local começou como uma extensão do legado familiar, mas ele garante que sua gestão será marcada por uma ruptura com práticas antigas. Em comunicado oficial, Xaud destacou a intenção de melhorar a alocação de recursos da CBF, promovendo transparência e eficiência. A escolha de um nome de fora dos grandes centros do futebol, como São Paulo e Rio de Janeiro, foi vista por alguns como uma tentativa de descentralizar o poder dentro da entidade.
- Formação acadêmica: Médico infectologista, com atuação em saúde e bem-estar esportivo.
- Legado familiar: Substituiu o pai na liderança da federação de Roraima, que comandava a entidade desde os anos 1970.
- Proposta inicial: Foco em gestão responsável, diálogo aberto e modernização estrutural.
- Apoio político: Contou com 25 federações estaduais e clubes como Botafogo e Vasco da Gama.
Apesar do discurso reformista, a eleição de Xaud não foi unânime. A ausência de concorrentes, garantida pela falta de apoio a Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol, gerou críticas de clubes que buscavam uma alternativa à chapa dominante.
Contexto da destituição de Ednaldo Rodrigues
A eleição de Samir Xaud foi precipitada pela saída de Ednaldo Rodrigues, que ocupava a presidência da CBF desde 2022. Rodrigues, o primeiro presidente negro da entidade, foi afastado em 15 de maio de 2025, por decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. A Justiça considerou nulo um acordo que assegurava sua reeleição até 2030, devido a suspeitas de falsificação na assinatura do ex-presidente Antonio Carlos Nunes.
O caso gerou grande repercussão, especialmente porque Rodrigues havia sido reeleito por aclamação em março de 2025, com apoio unânime das 27 federações estaduais e dos clubes das Séries A e B. A destituição, a segunda em menos de dois anos, trouxe instabilidade à CBF, que já enfrentava críticas por problemas na gestão do futebol brasileiro.
Antes de deixar o cargo, Rodrigues anunciou a contratação do técnico italiano Carlo Ancelotti para comandar a seleção brasileira, uma decisão que marcou sua gestão. A transição para Xaud levanta dúvidas sobre a continuidade de projetos iniciados por seu antecessor, incluindo a preparação da seleção para as eliminatórias da Copa do Mundo de 2026.
Reações dos clubes à eleição
A eleição de Samir Xaud não passou sem resistência. Um grupo de 21 clubes das Séries A e B, incluindo gigantes como Flamengo, Fluminense, Internacional, Fortaleza e São Paulo, anunciou intenção de boicotar o pleito. A insatisfação partiu da percepção de que a chapa de Xaud representava uma continuidade das práticas políticas que dominam a CBF há décadas.
Apesar do boicote, alguns clubes compareceram à votação, o que gerou atritos no bloco opositor. Segundo relatos, a pressão de federações estaduais e patrocinadores influenciou a decisão de certas equipes, que temiam represálias em competições futuras. A CBF confirmou que a apuração dos votos seria divulgada em detalhes após o discurso de posse de Xaud, esclarecendo quais clubes participaram.
- Clubes opositores: Flamengo, Fluminense, São Paulo, Internacional e Fortaleza lideraram o movimento de boicote.
- Participação parcial: Botafogo, Vasco da Gama e Palmeiras, inicialmente alinhados à oposição, apoiaram a chapa de Xaud.
- Pressões externas: Clubes relataram ameaças de federações e patrocinadores para garantir presença na votação.
A divisão entre os clubes reflete a polarização no futebol brasileiro, com grandes equipes buscando maior influência nas decisões da CBF. A falta de uma chapa concorrente frustrou expectativas de renovação na entidade.
Papel de Fernando Sarney na transição
Durante o período de transição, Fernando Sarney, vice-presidente da CBF, assumiu interinamente a presidência após a destituição de Ednaldo Rodrigues. Filho do ex-presidente José Sarney, ele foi nomeado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro para organizar a eleição. Sarney, que também integra a chapa de Xaud como vice-presidente, desempenhou um papel central na articulação política do pleito.
A presença de Sarney na cúpula da CBF reacendeu debates sobre a influência de famílias tradicionais na entidade. Críticos apontam que sua participação reforça a percepção de que o futebol brasileiro permanece sob o controle de grupos de poder estabelecidos. Mesmo assim, Sarney defendeu a legitimidade do processo eleitoral, destacando a adoção da urna eletrônica como um avanço na transparência.
Propostas de gestão de Samir Xaud
Samir Xaud assume a presidência com uma agenda que promete abordar problemas crônicos do futebol brasileiro. Em sua campanha, ele apresentou um plano centrado na modernização da gestão da CBF, com foco em questões como a profissionalização da arbitragem, a melhoria das condições dos estádios e a revisão do calendário de competições.
Outro ponto destacado por Xaud é o fortalecimento das ligas regionais e nacionais, com maior suporte financeiro e logístico para clubes de menor porte. A CBF, segundo o novo presidente, deve atuar como uma entidade mais próxima das bases do futebol, promovendo o desenvolvimento em estados menos representados, como Roraima.
- Profissionalização da arbitragem: Investir em treinamento e tecnologia, como o VAR, para reduzir erros.
- Segurança nos estádios: Ampliar medidas para combater a violência e melhorar a infraestrutura.
- Apoio a clubes menores: Criar programas de incentivo financeiro para equipes das Séries C e D.
- Revisão do calendário: Buscar equilíbrio entre competições nacionais e estaduais.
A implementação dessas propostas dependerá da capacidade de Xaud em unir federações e clubes, especialmente após a eleição marcada por divisões. A expectativa é que o novo presidente anuncie suas primeiras medidas nos próximos dias, incluindo a confirmação do cronograma de Ancelotti à frente da seleção.
Eleição com urna eletrônica
Pela primeira vez na história da CBF, a eleição presidencial utilizou urnas eletrônicas, um marco na modernização do processo eleitoral da entidade. A votação, iniciada às 10h30 na sede da CBF, foi concluída em poucas horas, com a apuração realizada de forma automatizada. A medida foi elogiada por sua agilidade, mas não silenciou críticas sobre a falta de concorrência no pleito.
A adoção da urna eletrônica foi uma decisão tomada pelo comitê eleitoral, liderado por Fernando Sarney, como resposta a demandas por maior transparência. A CBF informou que o sistema garantiu a segurança dos votos, com auditoria independente para validar o resultado.
Resistência de Reinaldo Carneiro Bastos
Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol, tentou articular uma chapa de oposição para concorrer à presidência. Com o apoio de 32 clubes, incluindo grandes nomes do futebol brasileiro, Bastos buscava representar uma alternativa à chapa de Xaud. No entanto, o regulamento da CBF exigia o endosso de pelo menos oito federações estaduais, uma barreira que ele não conseguiu superar.
A desistência de Bastos consolidou a vitória de Xaud, mas expôs as dificuldades de formar oposição dentro da CBF. A concentração de poder nas federações estaduais, que detêm peso significativo no processo eleitoral, foi alvo de críticas de clubes que defendem uma reforma no sistema de votação.
- Apoio inicial: Bastos contava com 32 clubes, mas apenas duas federações (São Paulo e Mato Grosso).
- Barreira regulamentar: A exigência de oito federações inviabilizou sua candidatura.
- Críticas ao sistema: Clubes pedem maior peso nas decisões eleitorais da CBF.
A derrota de Bastos reforçou a percepção de que mudanças estruturais na CBF exigirão negociações complexas entre clubes, federações e a nova gestão.
Influência de federações estaduais
As federações estaduais desempenharam um papel decisivo na eleição de Samir Xaud. Com 25 das 27 entidades apoiando sua chapa, Xaud consolidou uma base política sólida antes mesmo da votação. As federações, que representam os interesses regionais do futebol, têm peso igual no processo eleitoral, independentemente do tamanho ou da relevância esportiva de seus estados.
Essa estrutura, que dá a estados como Roraima o mesmo poder de voto que São Paulo ou Rio de Janeiro, é um dos pontos mais debatidos no futebol brasileiro. Clubes das Séries A e B, que geram a maior parte da receita do futebol nacional, reivindicam maior influência nas decisões da CBF, mas enfrentam resistência das federações menos expressivas.
Preparação para a chegada de Carlo Ancelotti
A eleição de Samir Xaud ocorre às vésperas da chegada do técnico Carlo Ancelotti, contratado por Ednaldo Rodrigues para comandar a seleção brasileira. O italiano, que assumirá o cargo em 26 de maio, será o primeiro treinador estrangeiro da equipe em décadas. Sua primeira convocação, para as eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, está prevista para os próximos dias.
Xaud já declarou apoio à continuidade do projeto de Ancelotti, que inclui a reformulação do elenco e a implementação de um estilo de jogo mais moderno. A CBF espera que a chegada do treinador, um dos mais vitoriosos da história do futebol, traga estabilidade à seleção, que enfrenta críticas após resultados decepcionantes, como a derrota por 4 a 1 para a Argentina em março de 2025.
- Primeira convocação: Ancelotti anunciará a lista para os jogos contra Equador e Paraguai.
- Estilo de jogo: Foco em posse de bola e transições rápidas, inspirado em seus trabalhos no Real Madrid.
- Desafios imediatos: Recuperar a confiança da torcida após resultados recentes.
A gestão de Xaud será crucial para garantir que a transição na seleção ocorra sem turbulências, especialmente em um momento de instabilidade institucional na CBF.