A discussão sobre a classificação de veículos como Volkswagen Tera, Renault Kardian, Fiat Pulse e Nissan Kicks Play ganhou força em 18 de junho de 2025, com especialistas destacando que esses modelos não são SUVs, mas crossovers urbanos (CUVs). Produzidos em fábricas como Taubaté (SP) e Resende (RJ), esses carros, popularizados como SUVs compactos, não atendem ao conceito original de Veículo Utilitário Esportivo, que exige robustez, altura elevada e tração 4×4. A nomenclatura, impulsionada por estratégias de marketing, reflete a preferência do público brasileiro, mas ignora a definição técnica. A distinção, debatida por jornalistas e montadoras, visa esclarecer consumidores sobre as reais características desses modelos.
O termo “crossover” nasceu com veículos como o Nissan Qashqai, que combinam elementos de hatches ou peruas com estética de SUV. A Fiat, ao lançar o Pulse, e a Volkswagen, com o Nivus, evitaram o rótulo de SUV, preferindo “CUV”.
A classificação errada, segundo especialistas, é amplificada pela “ditadura do algoritmo”, com “SUV” sendo mais buscado no Google.
Origem do termo SUV e sua evolução
O conceito de SUV, ou Veículo Utilitário Esportivo, surgiu nos anos 1980 com modelos como Jeep Cherokee e Toyota SW4, projetados para off-road, com chassi de caminhonete, tração 4×4 e altura elevada. Esses veículos, como o Mitsubishi Pajero, eram robustos, com capacidades de carga e resistência para terrenos acidentados. No Brasil, a popularização do termo veio com o Ford EcoSport, lançado em 2003, que introduziu o segmento de SUVs compactos.
Com o tempo, montadoras adaptaram o termo para modelos urbanos, como o Hyundai Creta e o Honda HR-V, que utilizam plataformas de hatches e não oferecem tração integral. A ausência de características off-road em carros como Tera e Pulse levou especialistas a questionarem sua classificação como SUVs, sugerindo que são crossovers, uma fusão de categorias automotivas.
Características dos crossovers urbanos
O Volkswagen Tera, Renault Kardian, Fiat Pulse e Nissan Kicks Play compartilham plataformas com hatches, como Polo, Captur e Argo, respectivamente. Esses modelos, com altura livre do solo entre 15,7 cm e 20 cm, são projetados para uso urbano, com suspensão ajustada para conforto e consumo eficiente. Nenhum oferece tração 4×4, um diferencial dos SUVs tradicionais, e seus motores, como o 1.0 turbo de 116 a 130 cv, priorizam economia.
Principais características dos CUVs:
- Plataforma compartilhada com hatches (MQB, CMF-B, MP1).
- Altura livre do solo moderada (15,7 cm a 20 cm).
- Tração dianteira, sem opção 4×4.
- Motores compactos (1.0 a 1.3 turbo, 116 a 130 cv).
- Design com estética elevada, mas foco urbano.
O Fiat Pulse, por exemplo, mede 4,09 metros de comprimento e tem 19,7 cm de altura livre, enquanto o Tera, com 4,15 metros, oferece 18,5 cm. Ambos são menores que SUVs médios, como o Jeep Compass (4,40 metros).
Estratégias de marketing e busca por popularidade
A escolha do termo “SUV” pelas montadoras reflete uma estratégia de marketing para atrair consumidores. No Brasil, a palavra “SUV” gerou 1,2 milhão de buscas mensais no Google em 2025, contra 320 mil para “crossover”, segundo dados do Google Trends. Montadoras como Nissan, ao lançar o Kicks em 2016, e Fiat, com o Pulse em 2021, usaram “SUV urbano” para capitalizar o apelo do termo, mesmo com definições técnicas de CUV.
A Volkswagen, ao apresentar o Nivus em 2020, optou por “cupê urbano”, evitando o rótulo de SUV cupê. A Renault, com o Kardian, destacou-o como “crossover compacto” em eventos globais, mas no Brasil o mercado o enquadra como SUV. A manipulação do termo, segundo especialistas, explora a percepção de robustez e status associada aos SUVs.
Diferenças técnicas segundo o Inmetro
O Inmetro classifica veículos como SUVs com base em critérios como peso bruto total, altura livre do solo e ângulos de ataque e saída. Modelos como Tera, Kardian, Pulse e Kicks Play atendem a esses parâmetros, com altura mínima de 15 cm e ângulos superiores a 20°. O Tera, com 18,5 cm de altura livre e 23° de ângulo de ataque, e o Pulse, com 19,7 cm e 20,4°, se enquadram tecnicamente.
Apesar disso, jornalistas automotivos argumentam que a classificação técnica não reflete a essência do SUV, que inclui capacidade off-road. O Renault Kwid, por exemplo, atende aos critérios do Inmetro, mas nunca foi aceito como SUV, sendo classificado como hatch pela Fenabrave, com 35 mil unidades vendidas em 2024 contra 62 mil do Pulse.

Comparação com SUVs tradicionais
Modelos como Jeep Cherokee, Toyota SW4 e Mitsubishi Pajero, com tração 4×4 e chassi de longarinas, definem o padrão clássico de SUV. O Cherokee, com 4,80 metros e 22 cm de altura livre, é projetado para trilhas, enquanto o Tera, com 4,15 metros, foca na mobilidade urbana. O Nissan Pathfinder, relançado em 2022, oferece 544 cv e tração integral, contrastando com os 116 cv do Tera.
O Fiat Pulse e o Renault Kardian, com motores 1.0 turbo, alcançam 0 a 100 km/h em 10,5 e 10,2 segundos, respectivamente, enquanto o Pajero Sport, com motor 2.4 diesel, faz o mesmo em 11 segundos, mas com capacidade off-road superior. A ausência de tração 4×4 nos CUVs limita seu uso em terrenos acidentados, reforçando a distinção.
Vendas e preferência do consumidor
O segmento de SUVs compactos, incluindo crossovers, domina o mercado brasileiro, com 650 mil unidades vendidas em 2024, segundo a Fenabrave. O Fiat Pulse liderou com 62 mil emplacamentos, seguido pelo Volkswagen T-Cross (58 mil) e Nissan Kicks (49 mil). O Renault Kardian, lançado em 2024, vendeu 35 mil unidades, enquanto o Tera, novidade de 2025, atingiu 23 mil em 50 minutos de pré-venda.
A percepção de “SUV” impulsiona as vendas, com consumidores associando o termo a segurança e status. O T-Cross, com 4,19 metros e 18,5 cm de altura livre, é chamado de SUV pela Volkswagen, mas utiliza a plataforma MQB-A0, igual à do Polo. A preferência por crossovers reflete a busca por veículos versáteis e econômicos, com consumo médio de 12 km/l (gasolina) contra 9 km/l de SUVs médios.
Definição de crossover no mercado global
Globalmente, a indústria automotiva diferencia crossovers de SUVs. A Nissan, que claims ter criado o conceito com o Qashqai em 2007, define crossover como um híbrido de categorias, como hatch com estética de SUV. Nos EUA, Cadillac e Ford classificam modelos como XT4 e Bronco Sport como crossovers, reservando “SUV” para veículos como o Escalade, com chassi de caminhonete.
No Brasil, a resistência ao termo “crossover” vem da menor familiaridade do público. O Nissan Qashqai, lançado na Europa como crossover, foi apresentado no Brasil em 2016 como “SUV urbano”. A Fiat, ao lançar o Pulse, evitou “SUV” inicialmente, mas cedeu à pressão do mercado, com 80% das campanhas destacando o termo.
Críticas à classificação errada
Especialistas criticam a “preguiça mental” de jornalistas e consumidores ao adotarem o termo SUV indiscriminadamente. A revista Motor Show, em 2018, tentou classificar modelos como T-Cross e Creta como crossovers, mas enfrentou resistência do público e anunciantes. O Renault Kwid, lançado como “SUV dos compactos”, foi rejeitado como SUV, sendo enquadrado como hatch, com 1,2 milhão de unidades vendidas globalmente até 2025.
A Fenabrave separa SUVs compactos (Pulse, Tera) de SUVs médios (Compass, Corolla Cross) nas estatísticas, mas não usa “crossover” oficialmente. A proposta de criar a categoria “SUV subcompacto” foi rejeitada por especialistas, que veem o termo como uma perpetuação da confusão.
Exemplos de crossovers no Brasil
Além de Tera, Kardian, Pulse e Kicks Play, outros modelos são crossovers:
- Volkswagen Nivus: Plataforma MQB-A0, 4,26 metros, 128 cv.
- Hyundai Creta: Plataforma de HB20, 4,29 metros, 167 cv.
- Chevrolet Tracker: Plataforma GEM, 4,27 metros, 133 cv.
- Honda HR-V: Plataforma de Fit, 4,33 metros, 126 cv.
- Peugeot 2008: Plataforma CMP, 4,30 metros, 130 cv.
Esses veículos, com tração dianteira e foco urbano, contrastam com SUVs como o Toyota SW4, que tem 4,79 metros e tração 4×4. O mercado brasileiro vendeu 1,2 milhão de SUVs e crossovers em 2024, com 70% na categoria compacta.
Futuro da nomenclatura automotiva
A discussão sobre SUVs e crossovers ganha relevância com o crescimento do mercado. A Anfavea prevê que SUVs e crossovers representarão 60% das vendas de veículos leves no Brasil até 2027, contra 52% em 2024. A padronização do termo “crossover” exigiria campanhas educativas, mas montadoras resistem devido ao apelo comercial de “SUV”.
A Nissan planeja lançar um novo crossover em 2026, enquanto a Fiat trabalha no Fastback híbrido, mantendo a estratégia de marketing com “SUV”. A Volkswagen, com o Tera, reforça a segurança (cinco estrelas no Latin NCAP), mas evita debates sobre nomenclatura. A transparência na classificação poderia orientar melhor os consumidores, mas enfrenta barreiras comerciais.