Ronaldo Nazário, ex-jogador e ídolo do Corinthians, reacendeu o debate sobre a transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) ao afirmar, em 24 de junho de 2025, durante entrevista ao podcast Denílson Show, sua intenção de adquirir o Timão caso o modelo seja adotado. A declaração, feita em São Paulo, destaca o potencial financeiro e a força da torcida corinthiana como diferenciais para reestruturar o clube, que enfrenta uma dívida de R$ 700 milhões, incluindo os custos da Neo Química Arena. O Fenômeno, como é conhecido, busca apoio da Fiel Torcida para viabilizar o projeto, garantindo que a identidade alvinegra será preservada. A proposta surge em meio a uma crise administrativa, com o presidente Augusto Melo afastado, e ganha força com iniciativas como o movimento Safiel, que propõe cotas de investimento acessíveis aos torcedores.
A crise financeira do Corinthians não é recente, mas a possibilidade de adotar a SAF trouxe um novo fôlego às discussões sobre o futuro do clube. Fundado em 1910, o Timão acumula conquistas históricas, como dois Mundiais (2000 e 2012) e uma Libertadores (2012), mas enfrenta desafios com gestões ineficientes e dívidas crescentes. Ronaldo, que já foi dono de 90% das ações da SAF do Cruzeiro, acredita que o modelo pode modernizar o Corinthians, mantendo sua essência.
- Dívida atual: R$ 700 milhões, incluindo débitos da Neo Química Arena.
- Torcida: Estimada em 30 milhões, é um ativo para atrair investidores.
- Modelo SAF: Permite separar o futebol do clube social, atraindo capital externo.
- Exemplo de sucesso: Botafogo, que se reergueu com aporte de John Textor.
A proposta de Ronaldo, no entanto, enfrenta resistências internas e exige mudanças no estatuto do clube, o que depende de aprovação do conselho deliberativo e dos associados.
Movimento Safiel ganha força
O movimento Safiel, criado por torcedores, propõe um modelo inovador para a SAF do Corinthians, com cotas de investimento que variam de R$ 2,5 mil a R$ 10 milhões, divididas em seis categorias. Uma cota especial, chamada “Organizada”, custa R$ 50 e é destinada às torcidas organizadas, como a Gaviões da Fiel. Carlos Teixeira, CEO da Safiel, planeja apresentar o projeto ao clube, buscando apoio para viabilizar a reestruturação financeira. A iniciativa prevê a quitação da Neo Química Arena, a consolidação do Timão como potência esportiva e a recuperação da credibilidade administrativa.
A ideia de cotas acessíveis visa democratizar o investimento, permitindo que a torcida participe ativamente do processo. Em enquetes realizadas por portais como Meu Timão, 32,8% dos torcedores veem a SAF como a única solução para os problemas do clube, enquanto 35% defendem uma gestão mais profissional, independentemente do modelo. A proposta, no entanto, precisa superar barreiras políticas, já que o conselho deliberativo, liderado por Romeu Tuma Jr., já se posicionou contra a SAF, afirmando que o modelo pode levar à falência se mal gerido.
Resistências internas e cultura associativa
A adoção da SAF no Corinthians enfrenta obstáculos ligados à forte cultura associativa do clube. Membros do conselho deliberativo e associados temem perder influência com a transformação do futebol em uma empresa. Em agosto de 2025, Romeu Tuma Jr., presidente do conselho, declarou que a SAF nunca será adotada, citando riscos financeiros. A Gaviões da Fiel, maior torcida organizada, também já expressou ressalvas, embora esteja aberta a discutir mudanças no estatuto social.
No início de junho, Vinicius Cascone, ex-diretor jurídico do clube, reuniu-se com a Gaviões para apresentar uma proposta de alteração estatutária. Embora o projeto não esteja diretamente ligado à SAF, ele reflete o desejo de modernizar a gestão. A torcida organizada divulgou uma nota destacando a importância de envolver os torcedores nas decisões, mas sem endossar explicitamente a SAF. A resistência de associados e conselheiros, que valorizam o modelo tradicional, pode atrasar o processo, exigindo negociações delicadas.
Neo Química Arena como prioridade
A dívida da Neo Química Arena, inaugurada em 2014, é um dos maiores entraves financeiros do Corinthians. O estádio, um símbolo de orgulho para a torcida, custou cerca de R$ 1,2 bilhão, e os débitos com a Caixa Econômica Federal continuam a pressionar as finanças do clube. Ronaldo Nazário destacou que quitar essa dívida é a prioridade de seu plano, pois liberaria recursos para investimentos em reforços e infraestrutura.
Outros clubes que adotaram a SAF, como o Botafogo, conseguiram aliviar dívidas de estádios e melhorar sua competitividade. No caso do Corinthians, a arena também é vista como um ativo estratégico, com potencial para sediar eventos como jogos da NFL e shows, gerando receitas adicionais. A gestão eficiente do estádio, segundo Ronaldo, seria um dos pilares da reestruturação financeira.
- Custo da arena: Aproximadamente R$ 1,2 bilhão, com débitos pendentes.
- Receitas potenciais: Eventos esportivos e culturais podem aumentar a arrecadação.
- Exemplo comparativo: Maracanã, gerido por Flamengo e Fluminense, diversificou fontes de renda.
- Plano de Ronaldo: Priorizar a quitação para liberar o orçamento do clube.
Experiência de Ronaldo com o Cruzeiro
Ronaldo traz ao debate sua experiência como investidor no Cruzeiro, onde adquiriu 90% das ações da SAF em 2021 por cerca de R$ 400 milhões. Sob sua gestão, o clube mineiro conseguiu reestruturar parte de suas dívidas e voltar à Série A do Brasileirão. O ex-jogador usa esse exemplo para argumentar que a SAF pode preservar a identidade do Corinthians, enquanto atrai capital externo e profissionaliza a administração.
No Cruzeiro, Ronaldo implementou um modelo híbrido, com o investidor assumindo o controle inicial, mas mantendo a associação como parte do processo. Ele sugere algo semelhante para o Corinthians, com a torcida desempenhando um papel ativo por meio de cotas de investimento. A experiência em Belo Horizonte, no entanto, também enfrentou críticas, com torcedores questionando a transparência em algumas decisões.
Comparação com outros clubes
A Lei nº 14.193/2021, que instituiu a SAF, já foi adotada por mais de 60 clubes brasileiros, incluindo Bahia, Botafogo, Cruzeiro, Fortaleza e Vasco. Cada clube enfrentou desafios únicos, mas os resultados variam. O Botafogo, por exemplo, se destacou com a gestão de John Textor, que trouxe contratações de impacto e levou o clube ao Mundial de Clubes de 2025. Já o Vasco enfrenta dificuldades, com torcedores criticando a administração da 777 Partners.
No caso do Fortaleza, a SAF foi criada sem venda majoritária, mantendo o controle com o clube. Marcelo Paz, CEO do Fortaleza, afirmou que a credibilidade conquistada no mercado atraiu investidores, mas a autonomia foi preservada. Esses exemplos mostram que a SAF exige planejamento e transparência para ser bem-sucedida, algo que Ronaldo promete implementar no Corinthians.
Reação da torcida e redes sociais
Nas redes sociais, a proposta de Ronaldo divide opiniões. Parte da torcida apoia a modernização, vendo a SAF como uma forma de superar a crise financeira e competir no Brasileirão 2025. Outros temem que a transformação reduza o poder dos associados e altere a essência do clube. Manifestações no Parque São Jorge, em 14 de junho de 2025, cobraram mudanças no estatuto e mais transparência, sinalizando o desejo de participação da Fiel nas decisões.
A hashtag #Safiel ganhou destaque, com torcedores debatendo as cotas de investimento e a possibilidade de um Corinthians mais competitivo. A enquete do Meu Timão reflete essa polarização, com uma divisão quase igual entre os que defendem a SAF e os que priorizam a profissionalização sem mudanças estruturais.
Planejamento para o Brasileirão 2025
Enquanto a discussão sobre a SAF avança, o Corinthians planeja a temporada 2025, com foco em manter jogadores como Yuri Alberto, Memphis Depay e Garro. A crise financeira, agravada pela eliminação na Sul-Americana 2025, que gerou um rombo de R$ 20 milhões, limita contratações. Ronaldo destacou a necessidade de equilibrar investimentos de curto prazo com a reestruturação financeira, um desafio para a gestão atual, liderada interinamente por Osmar Stabile.
A pressão por resultados em campo é intensa, e a torcida espera um elenco competitivo no Brasileirão. A possível adoção da SAF, segundo Ronaldo, poderia liberar recursos para reforços, mas o processo depende de aprovações internas e negociações com credores.
Papel da torcida na transformação
Ronaldo enfatizou que a Fiel Torcida é o maior ativo do Corinthians, com 30 milhões de torcedores que podem atrair investidores. Ele pediu que os corinthianos compreendam o papel da SAF, garantindo que o modelo não comprometerá a história do clube. A proposta de cotas acessíveis, como a “Organizada” de R$ 50, busca engajar a torcida, tornando-a parte do projeto.
A Gaviões da Fiel, embora cautelosa, demonstrou abertura para discutir mudanças. A reunião com Vinicius Cascone, em junho, foi um passo para aproximar a torcida das decisões estratégicas, mas o apoio total à SAF ainda não foi consolidado.
Próximos passos para a SAF
A transformação do Corinthians em SAF exige a aprovação de alterações no estatuto, o que envolve o conselho deliberativo e uma assembleia de associados. Carlos Teixeira, da Safiel, planeja apresentar o projeto formalmente, buscando apoio da torcida e de conselheiros. A votação no conselho será um marco decisivo, mas a resistência de membros tradicionais pode prolongar o processo.
Ronaldo, por sua vez, já se posicionou como um potencial investidor, prometendo levantar recursos no mercado financeiro. Sua experiência no Cruzeiro e sua identificação com o Corinthians fortalecem sua candidatura, mas o sucesso dependerá de um plano transparente e da adesão da Fiel.