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Milei ataca AFA e defende privatização após vexame de Boca e River no Mundial

Javier Milei
Javier Milei - Foto: A.PAES / Shutterstock.com Javier Milei - Foto: A.PAES / Shutterstock.com

As eliminações precoces de Boca Juniors e River Plate na fase de grupos da Copa do Mundo de Clubes, disputada em junho de 2025 nos Estados Unidos, desencadearam uma onda de críticas do presidente argentino, Javier Milei, contra a Associação do Futebol Argentino (AFA) e seu presidente, Claudio Tapia. Em postagens nas redes sociais, Milei classificou o desempenho como um “fracasso” do modelo de gestão atual, defendendo a transformação dos clubes em Sociedades Anônimas Desportivas (SADs), semelhantes às Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) brasileiras. O sucesso dos quatro clubes brasileiros na competição foi usado como argumento para reforçar sua proposta de abertura ao capital privado. A controvérsia reacende um debate de longa data no país, marcado por resistência de clubes tradicionais e tensões políticas.

O embate entre Milei e a AFA não é novo. Desde sua campanha presidencial em 2023, o presidente tem defendido a privatização do futebol argentino, apontando a necessidade de modernização para recuperar a competitividade dos clubes. A eliminação de Boca e River, dois gigantes do futebol sul-americano, intensificou suas críticas, especialmente contra Tapia, que lidera a resistência ao modelo de SADs.

  • Principais pontos levantados por Milei:
    • Fracasso do modelo associativo da AFA.
    • Necessidade de capital privado para aumentar a competitividade.
    • Contraste com o sucesso dos clubes brasileiros, todos classificados.
    • Crítica à estrutura do campeonato argentino, com 30 times.

A crise no futebol argentino, evidenciada pelo Mundial, reflete desafios estruturais que vão além do campo, envolvendo política, economia e tradição.

Reações à eliminação dos gigantes argentinos

A campanha de Boca Juniors e River Plate no Mundial de Clubes foi marcada por resultados decepcionantes. O Boca, no Grupo C, não venceu nenhum jogo, empatando com Benfica (2 a 2), perdendo para o Bayern de Munique (2 a 1) e, de forma surpreendente, empatando com o Auckland City, da Nova Zelândia (1 a 1). Já o River, no Grupo E, começou com vitória sobre o Urawa Reds (3 a 1), mas empatou com o Monterrey (0 a 0) e perdeu para a Inter de Milão (2 a 0), ficando fora das oitavas de final.

A imprensa argentina classificou as eliminações como um “vexame”. Jornais destacaram a fragilidade técnica e a falta de competitividade dos clubes, que não conseguiram acompanhar o ritmo de adversários internacionais. A torcida, conhecida por lotar estádios mundo afora, expressou frustração nas redes sociais, cobrando mudanças na gestão dos clubes e da AFA.

Milei, por sua vez, usou o momento para reforçar sua narrativa. Em uma postagem, ele escreveu: “Nem River, nem Boca. Sem argentinos no Mundial de Clubes. O Brasil foi com quatro times, os quatro passaram. Até quando teremos que apontar o fracasso do modelo Chiqui Tapia?” A referência a Tapia, presidente da AFA, foi um ataque direto à resistência da entidade em adotar o modelo de SADs.

O modelo brasileiro como inspiração

O desempenho dos clubes brasileiros – Flamengo, Palmeiras, Botafogo e Fluminense – no Mundial de Clubes serviu como exemplo para Milei. Todos os quatro avançaram para as oitavas de final, consolidando a hegemonia brasileira no futebol sul-americano. Desde 2019, clubes do Brasil dominam a Copa Libertadores, conquistando seis títulos consecutivos, com destaque para Botafogo e Atlético-MG, que disputaram a final de 2024, ambos sob o modelo SAF.

As SAFs, regulamentadas no Brasil em 2021, permitem a entrada de investidores privados, transformando clubes em empresas. Esse modelo trouxe maior aporte financeiro, profissionalização na gestão e resultados em campo, como no caso do Botafogo, que, após anos de dificuldades, tornou-se uma potência continental. Milei destacou que a Argentina precisa seguir esse caminho para reverter a crise no futebol local.

  • Benefícios das SAFs no Brasil, segundo especialistas:
    • Aumento de receitas com patrocínios e vendas de jogadores.
    • Gestão profissional, com redução de dívidas.
    • Investimentos em infraestrutura e categorias de base.
    • Competitividade em torneios internacionais.

Resistência da AFA e dos clubes tradicionais

A proposta de Milei enfrenta forte oposição. A AFA, liderada por Claudio Tapia desde 2017, proíbe clubes de se transformarem em SADs, mantendo o modelo associativo, onde os torcedores têm papel central na gestão. Em novembro de 2023, 45 clubes votaram unanimemente contra a adoção das SADs, com apenas o Talleres ausente. Clubes como Boca Juniors, River Plate, Racing e Independiente lideram o movimento de resistência, defendendo a identidade cultural e social do futebol argentino.

Juan Román Riquelme, presidente do Boca Juniors, é uma das vozes mais contundentes contra as SADs. Após sua eleição em 2023, derrotando um candidato apoiado por Milei e Mauricio Macri, ex-presidente da Argentina e do Boca, o clube emitiu uma nota oficial: “O Boca Juniors é uma associação civil sem fins lucrativos, pertencente aos seus sócios e torcedores.” O River Plate também reforçou sua posição, destacando que seus 122 anos de história são baseados na gestão associativa.

Tapia, reeleito em outubro de 2024 por unanimidade para um mandato até 2029, tem articulado ações judiciais para barrar iniciativas de Milei. Em setembro de 2024, a Justiça argentina suspendeu um decreto presidencial que autorizava a conversão de clubes em SADs, atendendo a um pedido da AFA.

Medidas do governo Milei

Desde que assumiu a presidência, Milei tenta implementar mudanças no futebol argentino. Em dezembro de 2023, ele publicou um Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) que, entre outras reformas, alterava a Lei Geral de Sociedades de 1984, permitindo que clubes se tornassem SADs com aprovação de dois terços dos sócios. A medida, porém, foi bloqueada pela AFA e por decisões judiciais.

Em julho de 2024, o governo argentino autorizou a entrada de capital privado no futebol a partir de novembro de 2025. Durante a feira agroindustrial Expoagro, em março de 2025, Milei revelou que o Grupo City, controlador do Bahia no Brasil, manifestou interesse em investir em clubes argentinos. “É um investimento monumental. Ou preferem continuar nessa miséria?”, questionou o presidente.

Outra ação de Milei foi a revogação de benefícios fiscais aos clubes, em outubro de 2024. A medida, que aumentou impostos sobre bilheteria, transferências de jogadores e direitos televisivos, foi vista como uma tentativa de pressionar a AFA e os clubes a aceitarem as SADs. Clubes menores, como o Barracas Central, ligado a Tapia, foram os mais afetados.

O debate cultural e econômico

O futebol argentino é mais do que um esporte; é um pilar cultural. Os clubes, organizados como associações civis, desempenham papéis sociais, como oferecer atividades comunitárias e educativas. A resistência às SADs reflete o temor de que a privatização entregue o controle a investidores estrangeiros, reduzindo a influência dos torcedores.

A crise econômica da Argentina, com hiperinflação e desvalorização do peso, agrava a situação dos clubes. Sem recursos para competir com os brasileiros, que se beneficiam de torneios mais lucrativos como o Brasileirão e a Copa do Brasil, os argentinos enfrentam dificuldades para reter talentos e investir em infraestrutura.

  • Fatores que contribuem para a disparidade com o Brasil:
    • Torneios argentinos com baixa monetização.
    • Falta de incentivos fiscais para clubes.
    • Êxodo de jogadores para mercados europeus.
    • Estrutura de campeonato com 30 times, considerada inchada.

Alternativas ao modelo de SADs

Alguns clubes buscam soluções para captar recursos sem abandonar o modelo associativo. O River Plate, por exemplo, criou o “Club River Plate Financial Trust” em outubro de 2024, entrando na Bolsa de Valores argentina. A iniciativa permite que pessoas físicas e empresas invistam no clube, com aportes a partir de 12 mil pesos (cerca de R$ 67). O objetivo é arrecadar 20 milhões de dólares para reformar o estádio Monumental e investir nas categorias de base.

O Estudiantes também explora caminhos alternativos. Em 2024, o clube negociou um aporte de 120 milhões de dólares com o empresário americano Foster Gillett, sem ceder o controle acionário. A proposta, que ainda depende de aprovação dos sócios, prevê investimentos em infraestrutura e retorno por meio de premiações e vendas de jogadores.

A visão de especialistas

Especialistas em direito desportivo, como Eduardo Carlezzo, criticam a resistência da AFA. Para ele, o modelo associativo é insustentável em um contexto de crise econômica, onde os clubes dependem de capital externo para crescer. “A Argentina vive hiperinflação e empobrecimento. Sem investidores, é impossível competir”, afirmou Carlezzo.

Por outro lado, antropólogos como Verónica Moreira, da Universidade de Buenos Aires, defendem o modelo associativo. “Os clubes são mais do que empresas; são instituições que impactam comunidades. A lógica empresarial prioriza lucros, não o bem-estar dos sócios”, argumenta.

Pressão política e riscos

A disputa entre Milei e a AFA ganhou contornos políticos. A FIFA proíbe intervenções governamentais em federações de futebol, e medidas como a revogação de benefícios fiscais ou decretos impositivos podem levar a sanções, como a exclusão da seleção argentina de competições internacionais. Em 2024, a FIFA ameaçou punir o Brasil por interferências judiciais na CBF, o que serve de alerta para a Argentina.

A reeleição de Tapia, apoiada por clubes tradicionais, fortaleceu a posição da AFA. No entanto, a pressão de Milei continua, com novas tentativas de implementar as SADs previstas para novembro de 2025.

O futuro do futebol argentino

O fiasco no Mundial de Clubes expôs as fragilidades do futebol argentino, mas também reacendeu um debate essencial sobre seu futuro. Enquanto Milei insiste na privatização como solução, a resistência dos clubes e da AFA reflete a complexidade de equilibrar tradição e modernização. O sucesso dos brasileiros, impulsionado pelas SAFs, serve como referência, mas a aplicação desse modelo na Argentina enfrenta barreiras culturais, jurídicas e políticas.

A próxima temporada será decisiva. Com a possível entrada de capital privado em 2025, os clubes terão que decidir entre manter suas raízes associativas ou buscar novos caminhos para competir em um cenário global cada vez mais exigente.

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