Em 2025, a novela “A Viagem”, um marco da teledramaturgia brasileira, completa 30 anos desde sua estreia na Globo, em 11 de abril de 1994. Escrita por Ivani Ribeiro, a trama espírita conquistou o público com sua abordagem inovadora sobre vida após a morte, inspirada na doutrina de Allan Kardec. A história gira em torno de Alexandre, um jovem inconsequente interpretado por Guilherme Fontes, que, após cometer um crime e tirar a própria vida, passa a atormentar do plano espiritual aqueles que julga responsáveis por seu destino. Diná, vivida por Christiane Torloni, é sua irmã protetora, cuja trajetória emocional e romântica com Otávio (Antonio Fagundes) marcou gerações. Atualmente em reprise no Vale a Pena Ver de Novo, a novela segue cativando novos e antigos fãs. Este especial revela curiosidades, bastidores e detalhes que tornaram a obra inesquecível.
A produção, exibida originalmente no horário das 19h, destacou-se por sua audiência recorde e impacto cultural, sendo a novela das sete mais assistida da década de 1990. A trama, que mistura drama, suspense e espiritualidade, foi um remake da versão homônima de 1975, exibida pela TV Tupi. Com 167 capítulos, a versão de 1994 trouxe inovações visuais e narrativas, consolidando-se como um clássico.
Principais destaques da novela:
- Tema espírita inovador, baseado em livros psicografados por Chico Xavier.
- Elenco estelar, com nomes como Christiane Torloni, Antonio Fagundes e Guilherme Fontes.
- Trilha sonora marcante, com “Fim de Noite”, do Roupa Nova, na abertura.
Origem e remake: a primeira “A Viagem”
A novela de 1994 não foi a primeira a contar a história de Alexandre e Diná. Ivani Ribeiro já havia escrito uma versão em 1975 para a TV Tupi, com 141 capítulos, exibida no horário nobre. Na trama original, Eva Wilma interpretava Diná, Ewerton de Castro dava vida a Alexandre, e Altair Lima era César Jordão, equivalente ao Otávio de 1994. A produção da Tupi, embora menos conhecida, também teve boa audiência e recebeu elogios do líder espírita Chico Xavier, segundo o site Gshow.
A adaptação para a Globo trouxe mudanças significativas. Alguns nomes de personagens foram alterados: César passou a ser Otávio, para evitar confusão com um personagem da novela anterior, “Olho no Olho”; o sobrenome da família de Diná mudou de Veloso para Toledo; e o misterioso Sombra, da versão de 1975, tornou-se o icônico Mascarado, interpretado por Breno Moroni. Cláudio Corrêa e Castro foi o único ator a participar de ambas as versões, vivendo Daniel, um mentor espiritual, em 1975, e o advogado de Alexandre em 1994.
O remake foi a última obra de Ivani Ribeiro, que faleceu em 1995. A autora, conhecida por outras adaptações bem-sucedidas como “Mulheres de Areia”, trabalhou com Solange Castro Neves para modernizar a narrativa, incorporando elementos da década de 1990, como videolocadoras e os primeiros celulares.
Diná: o ciúme que virou adjetivo
Christiane Torloni entregou uma atuação memorável como Diná, uma mulher forte, mas marcada pelo ciúme excessivo em seu casamento com Téo, interpretado por Maurício Mattar. A personagem era tão intensa que seu nome se tornou sinônimo de mulher ciumenta no imaginário popular. Em entrevistas, Torloni revelou que o papel exigiu grande entrega emocional, especialmente nas cenas ligadas à morte de Alexandre, que ecoavam sua própria perda pessoal – a atriz perdeu o filho Guilherme, de 12 anos, em 1991.
A química entre Diná e Otávio, vivido por Antonio Fagundes, foi um dos pontos altos da novela. Fagundes, em uma entrevista ao canal Viva, brincou que “A Viagem” foi a única trama em que o público torceu para a mocinha morrer, desejando que Diná se reunisse com Otávio no plano espiritual após um ataque cardíaco na reta final. Essa torcida peculiar reflete o impacto emocional da história, que desafiava convenções das telenovelas tradicionais.
Bastidores emocionantes: a borboleta misteriosa
As gravações de “A Viagem” foram marcadas por momentos que muitos no elenco consideraram espirituais. Um dos episódios mais comentados ocorreu durante a cena da cremação de Alexandre. Lucinha Lins, que interpretava Estela, irmã de Diná, relatou em uma live do canal Viva, em 2021, que uma borboleta amarela pousou no caixão cenográfico, próximo a Christiane Torloni. A borboleta voltou ao mesmo local várias vezes, mesmo após ser afastada pela equipe, criando um momento de comoção no set.
Outros detalhes dos bastidores revelam o cuidado com a produção:
- As cenas do “Céu” foram gravadas em um campo de golfe em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
- O “Vale dos Suicidas”, onde Alexandre sofre após a morte, foi filmado em uma pedreira desativada em Niterói.
- A fazenda Maktub, de Dona Guiomar (Laura Cardoso), usou como locação a Fazenda Vista Alegre, em Valença.
- A cena final, com Diná e Otávio no “Nosso Lar”, foi gravada na Gruta de Maquiné, em Minas Gerais.
Engano de Wolf Maya e a escolha de Christiane Torloni
A escalação de Christiane Torloni para o papel de Diná envolveu uma história curiosa. Na época, a atriz vivia em Portugal, reclusa após a perda de seu filho. O diretor Wolf Maya, determinado a tê-la no elenco, enviou uma sinopse alterada, sugerindo que a novela seria uma comédia. Torloni aceitou o convite, mas descobriu, ao iniciar as gravações, que se tratava de um drama intenso. Apesar do “engano”, a atriz se apaixonou pelo projeto e entregou uma das atuações mais marcantes de sua carreira.
Inicialmente, Regina Duarte foi convidada para interpretar Diná, mas não pôde aceitar devido a outros compromissos. Torloni, que já havia herdado outro papel de Eva Wilma em “A Gata Comeu”, assumiu o desafio e transformou Diná em uma figura inesquecível. A escolha do elenco, aliás, foi um dos trunfos da novela, com nomes como Miguel Falabella (Raul), Andréa Beltrão (Lisa) e Lucinha Lins (Estela) brilhando em seus papéis.
Trilha sonora: a emoção de “Fim de Noite”
A abertura de “A Viagem”, com a música “Fim de Noite”, do Roupa Nova, tornou-se um dos elementos mais icônicos da novela. Os versos “O teu amor chamou e eu regressei” capturavam a essência da trama, que explorava conexões entre os mundos físico e espiritual. A trilha sonora, cuidadosamente selecionada, incluía canções de Zizi Possi e Caetano Veloso, que ambientavam os momentos de romance e drama.
O álbum da novela vendeu milhares de cópias em 1994, e “Fim de Noite” permanece como um clássico associado à trama. A escolha da música reforçou a carga emocional das cenas, especialmente nos encontros entre Diná e Otávio e nos confrontos espirituais de Alexandre.
Impacto cultural e audiência recorde
“A Viagem” não foi apenas um sucesso de audiência, mas também um fenômeno cultural. A novela abriu caminho para outras produções com temas espirituais, como “Alma Gêmea” e “Escrito nas Estrelas”. Segundo o site Memória Globo, a trama impulsionou um aumento de 50% nas vendas de livros sobre espiritismo na época, refletindo seu impacto na sociedade brasileira.
A produção enfrentou desafios logísticos, como a necessidade de ser finalizada em apenas 20 dias para substituir uma novela cancelada no horário das 19h. Apesar disso, Wolf Maya e sua equipe entregaram uma obra de alta qualidade, com cenários inovadores e efeitos visuais avançados para a época. A novela foi reprisada duas vezes no Vale a Pena Ver de Novo (1997 e 2006) e voltou ao ar em 2024 no canal Viva, antes da atual reprise na Globo.

O misterioso Mascarado e outros destaques
O personagem Mascarado, interpretado por Breno Moroni, foi um dos grandes mistérios da trama. Com sua identidade oculta por uma máscara branca, ele gerou especulações entre os telespectadores até o desfecho. Na versão de 1975, o equivalente ao Mascarado era o Sombra, mas com menos destaque. A reinvenção do personagem no remake adicionou suspense à narrativa.
Outros pontos marcantes incluíram:
- A atuação de Guilherme Fontes como Alexandre, considerado o maior papel de sua carreira.
- A sintonia entre Christiane Torloni e Lucinha Lins como as irmãs Diná e Estela.
- A popularidade de Lisa, vivida por Andréa Beltrão, que conquistou o público com sua doçura.
- O impacto emocional das cenas de cremação e do “Vale dos Suicidas”.
Cenários e locações: a construção do universo espiritual
A equipe de cenografia criou cerca de 50 cenários e mais de 200 ambientações, incluindo uma cidade cenográfica em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. O apartamento de Diná, por exemplo, tinha como fachada o condomínio Barramares, na Barra da Tijuca. As locações externas, como a pedreira em Niterói e a gruta em Minas Gerais, reforçaram a atmosfera mística da novela.
A produção também refletiu a estética dos anos 1990, com elementos como computadores pessoais, celulares “tijolões” e a videolocadora de Diná, um negócio comum na época. Esses detalhes ajudaram a contextualizar a trama e a conectar o público à narrativa.
Legado e relevância atual
Três décadas após sua estreia, “A Viagem” continua sendo lembrada como uma das novelas mais inovadoras da Globo. A trama abordou temas profundos, como redenção, vingança e espiritualidade, de forma acessível, conquistando públicos de diferentes gerações. A atual reprise no Vale a Pena Ver de Novo, iniciada em 12 de maio de 2025, tem movimentado as redes sociais, com fãs nostálgicos e novos espectadores elogiando a qualidade da produção.
O elenco, hoje, reflete a longevidade da novela. Christiane Torloni e Antonio Fagundes seguem ativos, inclusive atuando juntos na peça “Dois de Nós”. Guilherme Fontes, cujo Alexandre virou meme nas redes sociais, participou recentemente do remake de “Renascer”. A obra também marcou a carreira de atores como Fernanda Rodrigues, que interpretou a jovem Bia, e Laura Cardoso, a carismática Dona Guiomar.