A partir de 11 de agosto de 2025, milhões de brasileiros inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) poderão obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) gratuitamente, graças à Lei nº 15.153, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 26 de junho de 2025. A medida, que utiliza recursos de multas de trânsito para custear o processo, visa ampliar o acesso à habilitação, promovendo mobilidade e oportunidades de trabalho para famílias de baixa renda. A iniciativa, aprovada pelo Congresso Nacional, também moderniza a transferência de veículos por meios eletrônicos, mas veta a exigência de exame toxicológico para categorias A e B.
A nova legislação representa um marco para a inclusão social, especialmente para jovens, desempregados e trabalhadores informais que enfrentam barreiras financeiras para tirar a CNH. Com a sanção, o governo espera reduzir desigualdades e facilitar a entrada no mercado de trabalho, onde a habilitação é muitas vezes um requisito essencial.
- Beneficiários: Pessoas inscritas no CadÚnico, com renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa (R$ 759,00 em 2025).
- Custos cobertos: Aulas teóricas, práticas, exames médicos e taxas administrativas.
- Entrada em vigor: 11 de agosto de 2025, com regulamentação pelos Detrans estaduais.
- Financiamento: Recursos provenientes de multas de trânsito, sem impacto no orçamento principal dos órgãos de trânsito.
O programa, batizado de CNH Social, já existia em alguns estados, mas agora ganha alcance nacional, unificando critérios e ampliando o número de beneficiados. A expectativa é que os Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans) divulguem detalhes operacionais nas próximas semanas, incluindo cronogramas e processos de inscrição.
Alcance do CadÚnico e elegibilidade
O Cadastro Único é a principal ferramenta do governo federal para identificar famílias em vulnerabilidade social. Em janeiro de 2025, o sistema registrava 40,6 milhões de famílias, um número que reflete a abrangência potencial da CNH Social. Para ser elegível, a renda familiar per capita não pode ultrapassar meio salário mínimo, equivalente a R$ 759,00, com base no valor atual de R$ 1.518,00. Famílias com renda superior podem se inscrever em casos específicos, desde que vinculadas a programas sociais.
A inscrição no CadÚnico exige a apresentação de documentos como RG, CPF e comprovante de residência no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) mais próximo. O processo é gratuito e pode ser iniciado por qualquer membro da família, desde que maior de 16 anos. Após a validação, o cadastro permite acesso a benefícios como Bolsa Família, tarifa social de energia elétrica e, agora, a CNH gratuita.
O programa prioriza a inclusão de jovens entre 18 e 29 anos, que representam uma parcela significativa dos desempregados no país. Dados do IBGE indicam que, em 2024, a taxa de desemprego entre jovens chegou a 17,8%, quase o dobro da média nacional. A habilitação gratuita pode ser um diferencial para ocupações como motoristas de aplicativos, entregadores e profissionais de logística.

Como funciona o financiamento
A CNH Social será financiada por uma fatia dos recursos arrecadados com multas de trânsito, que, até então, eram destinados exclusivamente a sinalização, engenharia de tráfego, fiscalização e educação no trânsito. A nova lei amplia o uso desses valores, garantindo que os custos do processo de habilitação – incluindo aulas, exames e emissão do documento – sejam integralmente cobertos para os beneficiários.
- Aulas teóricas: 45 horas, abrangendo legislação e primeiros socorros.
- Aulas práticas: Mínimo de 20 horas para categorias A (motos) e B (carros).
- Exames: Testes teóricos, práticos e avaliações médicas.
- Taxas: Isenção de custos administrativos, como emissão da CNH.
A medida não compromete o orçamento dos Detrans, já que os recursos já fazem parte da arrecadação regular. Em 2024, o Brasil arrecadou cerca de R$ 8,5 bilhões em multas de trânsito, segundo estimativas do Ministério dos Transportes. Parte desse montante será realocada para o programa, com diretrizes específicas a serem definidas pelos órgãos estaduais.
Modernização no trânsito
Além da CNH gratuita, a Lei nº 15.153 introduz inovações no Código de Trânsito Brasileiro. Uma das principais mudanças é a possibilidade de realizar a transferência de propriedade de veículos de forma totalmente eletrônica. Contratos de compra e venda agora podem ser assinados digitalmente, com assinaturas eletrônicas qualificadas ou avançadas, válidas em todo o território nacional.
A vistoria para transferência também poderá ser feita em formato digital, conforme regulamentação dos Detrans. Essa modernização visa reduzir a burocracia, diminuir filas em departamentos de trânsito e agilizar processos para os proprietários de veículos. A expectativa é que o sistema eletrônico esteja plenamente operacional a partir de agosto de 2025, alinhado à entrada em vigor da lei.
Veto ao exame toxicológico
Durante a sanção, o presidente Lula vetou a exigência de exame toxicológico para a obtenção da CNH nas categorias A (motocicletas) e B (carros de passeio). A medida, incluída pelo Congresso, foi considerada um obstáculo ao acesso à habilitação, especialmente para a população de baixa renda. O governo argumentou que o teste elevaria os custos e poderia incentivar a direção sem habilitação, comprometendo a segurança viária.
O exame toxicológico segue obrigatório para as categorias C, D e E, destinadas a motoristas profissionais de transporte de cargas e passageiros. O veto será analisado pelo Congresso, que pode mantê-lo ou derrubá-lo. Caso a decisão presidencial seja revertida, o exame passará a ser exigido para todos os novos condutores.
Impacto esperado no mercado de trabalho
A CNH Social é vista como uma ferramenta de inclusão econômica, especialmente em um contexto de alta informalidade. Em 2024, cerca de 38% dos trabalhadores brasileiros atuavam no setor informal, segundo o IBGE. Muitos dependem de veículos para atividades como entregas, transporte de passageiros ou serviços autônomos. A habilitação gratuita pode abrir portas para essas ocupações, reduzindo a dependência de transporte público precário em regiões periféricas.
A iniciativa também beneficia mulheres, que representam 44% dos inscritos no CadÚnico. Profissões como motorista de aplicativo e entregadora têm atraído cada vez mais mulheres, que buscam flexibilidade de horários e independência financeira. Programas semelhantes, implementados em estados como Pernambuco e Goiás, já demonstraram resultados positivos, com aumento de 15% na empregabilidade de beneficiários.
Desafios operacionais
Apesar do entusiasmo, a implementação da CNH Social enfrenta desafios logísticos. Os Detrans estaduais terão apenas 45 dias para regulamentar o programa, definir critérios de seleção e organizar a demanda. Em estados com alta densidade populacional, como São Paulo e Rio de Janeiro, a procura pode sobrecarregar os sistemas de atendimento.
Outro ponto é a capacitação de autoescolas para atender a nova demanda. Em algumas regiões, a oferta de instrutores e veículos é limitada, o que pode gerar filas de espera. O governo federal planeja parcerias com o setor privado para ampliar a infraestrutura, mas os detalhes ainda não foram divulgados.
Regulamentação pelos Detrans
Os Departamentos Estaduais de Trânsito serão responsáveis por definir como o programa será executado localmente. Cada estado poderá estabelecer cotas anuais, priorizar grupos específicos (como jovens ou desempregados) e determinar os procedimentos de inscrição. A expectativa é que os Detrans publiquem editais com cronogramas detalhados até o início de agosto.
Os interessados devem manter o cadastro no CadÚnico atualizado, já que a elegibilidade será verificada diretamente no sistema. Alterações na composição familiar ou renda devem ser comunicadas ao CRAS para evitar a exclusão do programa.
Benefícios além da habilitação
A CNH Social não se limita à primeira habilitação. O programa também cobre a adição de categorias (A ou B) para motoristas já habilitados e a mudança para categorias profissionais (C, D ou E), desde que o beneficiário atenda aos requisitos do CadÚnico. Essa flexibilidade amplia as oportunidades para quem busca qualificação em áreas como transporte de cargas ou passageiros.
- Primeira habilitação: Categorias A ou B, para motos e carros de passeio.
- Adição de categoria: Inclusão de A ou B no documento existente.
- Mudança de categoria: Acesso a C, D ou E, com treinamento específico.
- Renovação: Possibilidade de custeio em casos excepcionais, a critério dos Detrans.
Avanço na inclusão social
A sanção da Lei nº 15.153 reforça o compromisso do governo com políticas de redução de desigualdades. O deputado José Guimarães (PT-CE), autor do projeto, destacou que a CNH Social é um passo para democratizar o acesso à mobilidade e ao trabalho. A iniciativa complementa outros programas sociais, como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, que também utilizam o CadÚnico como base.
A medida tem potencial para beneficiar comunidades rurais e periferias urbanas, onde o acesso a serviços de transporte é limitado. Em cidades pequenas, a CNH pode significar a diferença entre o isolamento e a integração econômica, permitindo que trabalhadores cheguem a oportunidades em centros urbanos.
Próximos passos para os interessados
Quem deseja participar da CNH Social deve verificar a situação do cadastro no CadÚnico o quanto antes. O processo pode ser feito presencialmente no CRAS ou online, pelo aplicativo CadÚnico, disponível para Android e iOS. Documentos como RG, CPF, comprovante de residência e certidão de nascimento ou casamento são obrigatórios para a inscrição.
Os Detrans devem divulgar orientações específicas, incluindo prazos para solicitação e eventuais seleções por sorteio, caso a demanda supere a oferta. A transparência na gestão do programa será essencial para garantir que os benefícios cheguem aos mais necessitados, evitando fraudes ou favorecimentos.