A partir de 24 de julho, cerca de 3,6 milhões de aposentados e pensionistas do INSS podem começar a receber reembolsos de descontos indevidos, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) homologue o acordo proposto pela Advocacia-Geral da União (AGU). A iniciativa, anunciada em 2 de julho de 2025, visa reparar fraudes bilionárias descobertas pela Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal em abril. O esquema, que desviou aproximadamente R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, envolveu mensalidades associativas e empréstimos consignados não autorizados. A devolução será depositada diretamente nas contas dos beneficiários, corrigida pelo IPCA, e as contestações seguem abertas por canais como Meu INSS, Central 135 e agências dos Correios. O caso expôs fragilidades na gestão do INSS e resultou no afastamento de servidores.
O escândalo abalou a confiança de milhões de segurados, que descobriram cobranças indevidas em seus benefícios. A AGU estima que o número de vítimas pode ser ainda maior, já que 4,1 milhões de pessoas podem ter sido afetadas. A proposta de ressarcimento busca agilizar a devolução sem depender exclusivamente dos bens bloqueados das entidades envolvidas.
- Canais de atendimento: Meu INSS (site e aplicativo), Central 135 e agências próprias dos Correios.
- Prazo para contestação: Não há data limite definida, permitindo que novos casos sejam registrados.
- Correção dos valores: Reembolsos serão ajustados pelo IPCA para compensar a inflação.
A operação revelou um esquema sofisticado, com falsificação de assinaturas e cadastros irregulares, que lesou principalmente aposentados rurais, grupo mais vulnerável por limitações de acesso à internet.
Origem do esquema fraudulento
A Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU), trouxe à tona irregularidades que se intensificaram a partir de 2019. Entidades associativas, como sindicatos e associações de aposentados, formalizavam Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS, permitindo descontos diretos na folha de pagamento dos beneficiários. No entanto, a maioria dos segurados não autorizou essas deduções.
A CGU entrevistou 1.273 aposentados e constatou que 97% não reconheciam as mensalidades cobradas. Em 70% dos casos, as entidades não apresentaram documentação válida para justificar os descontos. A investigação revelou que muitas associações careciam de estrutura para oferecer os serviços prometidos, como assistência jurídica ou descontos em planos de saúde.
O esquema ganhou força após uma instrução normativa de 2022, que facilitou os descontos associativos. A falta de controles rigorosos no INSS permitiu que as fraudes se multiplicassem, gerando um prejuízo estimado em R$ 6,3 bilhões até 2024.
Como funcionava a fraude
As entidades investigadas operavam de forma coordenada, utilizando táticas como falsificação de assinaturas e cadastros automáticos de beneficiários. Muitas vítimas só percebiam os descontos ao consultar seus extratos, já que os valores, embora pequenos, eram debitados mensalmente.
- Mensalidades associativas: Cobradas como se os beneficiários fossem filiados a associações, sem consentimento.
- Empréstimos consignados: Contratos fraudulentos, muitas vezes sem solicitação dos segurados.
- Falta de fiscalização: O INSS autorizava descontos com base em listas fornecidas pelas entidades, sem verificação documental.
- Vulnerabilidade rural: Aposentados do setor rural, com menos acesso à tecnologia, foram os mais afetados, representando 67% das vítimas.
A operação resultou na apreensão de bens de luxo, como carros, joias e dinheiro vivo, além do bloqueio de R$ 2,56 bilhões em ativos de 12 entidades e seus dirigentes.

Canais para contestar descontos
A contestação dos descontos indevidos é um processo simples, mas exige atenção dos beneficiários. O governo disponibilizou três canais oficiais para verificar e denunciar irregularidades, garantindo acessibilidade até para quem enfrenta dificuldades com tecnologia.
O aplicativo e o site Meu INSS são as principais ferramentas. Após login com CPF e senha Gov.br, o usuário acessa a seção “Consultar Descontos de Entidades Associativas” e informa se autorizou ou não o débito. A Central 135, que opera de segunda a sábado, das 7h às 22h, é outra opção, com atendimento mais ágil após as 16h ou aos sábados.
Para quem prefere o atendimento presencial, 4.730 agências próprias dos Correios oferecem suporte. Pessoas com dificuldade de locomoção podem enviar representantes com procuração autenticada, mas apenas para consulta e registro de protocolo.
Processo de reembolso
A proposta de reembolso, submetida ao STF, prevê que os valores sejam devolvidos em parcela única, corrigidos pelo IPCA, diretamente nas contas dos beneficiários. As entidades têm 15 dias úteis para comprovar a legalidade dos descontos após a contestação. Caso não apresentem provas, o INSS notifica a devolução, que deve ocorrer em até cinco dias úteis.
Se as entidades não ressarcirem os valores, o governo federal assumirá a responsabilidade, utilizando recursos de um crédito extraordinário solicitado por medida provisória. Até o momento, 3,2 milhões de contestações foram registradas, e a AGU estima que o total bloqueado em bens pode não cobrir todos os prejuízos.
Ações judiciais e punições
A Operação Sem Desconto resultou em 211 mandados de busca e apreensão, seis prisões temporárias e o afastamento de seis servidores do INSS, incluindo o ex-presidente Alessandro Stefanutto. A Advocacia-Geral da União ajuizou uma ação cautelar para bloquear R$ 2,56 bilhões em bens de 12 entidades, como a AAPPS Universo e a Conafer, além de seus dirigentes.
A investigação também apontou a participação de um lobista conhecido como “Careca do INSS”, Antônio Carlos Camilo Antunes, acusado de intermediar os descontos fraudulentos. Ele teria movimentado R$ 53,88 milhões, parte repassada a servidores do INSS.
Atendimento presencial nos Correios
A parceria entre o INSS e os Correios, iniciada em 30 de maio de 2025, ampliou o acesso ao atendimento presencial. As 4.730 agências próprias da empresa foram escolhidas por sua capilaridade, cobrindo áreas remotas onde o acesso à internet é limitado.
Os funcionários dos Correios foram treinados para orientar os segurados, garantindo um atendimento gratuito e prioritário. A plataforma utilizada é independente da base de dados do INSS, assegurando a segurança das informações.
Medidas para evitar novas fraudes
Para prevenir novos casos, o INSS suspendeu todos os Acordos de Cooperação Técnica com entidades associativas e implementou medidas como biometria e assinatura eletrônica avançada para autorizações de descontos. A CGU recomendou o aprimoramento dos controles internos e a reavaliação de todos os convênios existentes.
A auditoria da CGU revelou que, de 1,16 milhão de pedidos de exclusão de descontos analisados, 90,78% indicavam falta de autorização. O órgão também identificou falhas na formalização dos ACTs, com muitas entidades operando sem cumprir requisitos legais.
Perfil das vítimas
A maioria das vítimas é composta por aposentados rurais, que enfrentam barreiras de acesso à tecnologia e informação. Muitos não perceberam os descontos devido à falta de familiaridade com o Meu INSS ou por confundirem as cobranças com taxas obrigatórias.
Relatos de beneficiários apontam prejuízos acumulados ao longo de anos. Em alguns casos, os descontos começaram antes de 2019, mas só ganharam escala após a flexibilização das regras em 2022. A operação trouxe alívio, mas muitos ainda aguardam a devolução para recuperar o poder de compra.
Próximos passos do ressarcimento
O governo aguarda a homologação do STF para iniciar os pagamentos do primeiro lote, previsto para 24 de julho. A AGU destacou que a palavra do segurado tem peso decisivo: se o beneficiário contestar a autorização, o desconto é considerado indevido.
Para casos de beneficiários falecidos, herdeiros podem solicitar o reembolso, mas o processo exige habilitação presencial no INSS. Descontos anteriores a março de 2020, no entanto, estão prescritos e não serão ressarcidos.