São Paulo

Manifestação na Avenida Paulista protesta contra tarifas de Trump e jornada 6×1

Manifestação na Avenida Paulista
Manifestação na Avenida Paulista - Foto: Reprodução/ TV Globo Manifestação na Avenida Paulista - Foto: Reprodução/ TV Globo

Na noite de 10 de julho de 2025, milhares de manifestantes tomaram a Avenida Paulista, em São Paulo, bloqueando os dois sentidos da via em frente ao MASP, em um ato que uniu críticas às tarifas de 50% impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às exportações brasileiras, à jornada de trabalho 6×1 e à resistência do Congresso a pautas como a taxação dos super-ricos. Convocado por movimentos sociais, centrais sindicais e partidos de esquerda, o protesto ocupou três quarteirões e ganhou força com a participação de figuras como o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP). A manifestação, que se estendeu por outras 11 capitais, reflete a indignação com a política econômica internacional e a estagnação legislativa no Brasil. A pauta, ampliada de última hora pela decisão de Trump, reforçou a defesa da soberania nacional.

O ato começou às 17h, com concentração em frente ao Museu de Arte de São Paulo, e se encerrou por volta das 21h, reunindo cerca de 15,1 mil pessoas no pico, segundo o Monitor do Debate Político do Cebrap. Faixas, tambores e uma bandeira gigante do Brasil marcaram a mobilização, que também coletou assinaturas para o Plebiscito Popular 2025, uma consulta pública sobre a redução da jornada de trabalho e a taxação de grandes fortunas.

  • Principais reivindicações: fim da escala 6×1, isenção de Imposto de Renda para salários até R$ 5 mil e taxação dos super-ricos.
  • Presença política: deputados como Guilherme Boulos, Erika Hilton e Eduardo Suplicy discursaram no evento.
  • Contexto internacional: as tarifas de Trump foram motivadas por suposta “perseguição” a Jair Bolsonaro, segundo o presidente norte-americano.

A mobilização na Paulista foi descrita como um marco de resistência, com cartazes que associavam Trump, Bolsonaro e o governador Tarcísio de Freitas como “inimigos da nação”.

Soberania em pauta
A decisão de Donald Trump de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada em 9 de julho de 2025, dominou os discursos no carro de som. A medida, que deve entrar em vigor em 1º de agosto, foi interpretada como uma retaliação às investigações judiciais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, réu por tentativa de golpe de Estado. Manifestantes gritaram palavras de ordem como “Brasil com ‘s’ de soberano” e exibiram cartazes com mensagens como “Trump, tire as mãos do Brasil”.

O deputado Guilherme Boulos, um dos organizadores, destacou a gravidade da interferência externa. Ele acusou Trump de tratar o Brasil como uma “república de bananas” e criticou a postura de políticos brasileiros que, segundo ele, endossam a subserviência aos Estados Unidos. A vereadora Luana Alves (PSOL) também reforçou as críticas, apontando que Eduardo Bolsonaro, atualmente nos EUA, teria pedido sanções contra o Brasil, o que classificou como “traição à pátria”.

O impacto econômico das tarifas preocupa setores industriais e agrícolas. Estima-se que a medida afete diretamente as exportações de soja, carne bovina e minério de ferro, que representam cerca de 30% do comércio brasileiro com os EUA. Em São Paulo, maior polo econômico do país, o prejuízo pode alcançar bilhões de reais, segundo projeções de entidades como a Fiesp.

Reivindicações trabalhistas ganham força
A luta pelo fim da escala 6×1, que prevê seis dias de trabalho consecutivos para apenas um de folga, foi um dos pilares do protesto. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), busca reduzir a jornada semanal de 44 para 36 horas e extinguir esse modelo de trabalho. A deputada discursou no ato, destacando que 70% da população apoia a redução da jornada, conforme pesquisa do Instituto Quaest.

A escala 6×1 é comum em setores como varejo, telemarketing e serviços, afetando principalmente trabalhadores de baixa renda. Manifestantes relataram exaustão física e mental causada pelo regime. Daniela Aparecida, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), enfatizou a sobrecarga das mulheres trabalhadoras, que muitas vezes conciliam longas jornadas com tarefas domésticas.

  • Impactos da escala 6×1:
    • Aumento de casos de depressão e ansiedade entre trabalhadores.
    • Redução do tempo para lazer e convívio familiar.
    • Alta rotatividade em empregos que adotam o modelo.

A PEC enfrenta resistência no Congresso, onde 70% dos parlamentares se posicionam contra a medida, segundo o Quaest. A mobilização na Paulista buscou pressionar deputados a reverem suas posturas.

Manifestantes na Avenida Paulista
Manifestantes na Avenida Paulista – Foto: Reprodução/ TV Globo

Justiça tributária no centro do debate
Outro destaque foi a defesa da taxação dos super-ricos, uma proposta que prevê alíquotas maiores para rendas acima de R$ 50 mil mensais. O governo federal planeja arrecadar R$ 25,22 bilhões em 2026 com a medida, compensando a isenção do Imposto de Renda para salários até R$ 5 mil. A proposta, no entanto, enfrenta resistência do chamado Centrão, grupo de partidos que domina o Legislativo.

Cartazes com a frase “Congresso inimigo do povo” criticavam a revogação de um decreto presidencial que aumentaria o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para operações de crédito e previdência privada acima de R$ 50 mil. A medida, que poderia gerar R$ 20,5 bilhões em 2025, foi derrubada pelo Congresso, alimentando a indignação dos manifestantes.

A coordenadora da Frente Povo Sem Medo, Juliana Donato, afirmou que o ato reflete a frustração com a paralisia legislativa. “A maioria do Congresso governa para os ricos, enquanto o povo paga a conta”, disse. A coleta de assinaturas para o Plebiscito Popular 2025, realizada durante o protesto, busca demonstrar o apoio popular à taxação de grandes fortunas.

Críticas ao Congresso e ao Centrão
O protesto também mirou o Congresso Nacional, acusado de barrar pautas progressistas. O presidente da Câmara, Hugo Motta, foi alvo de críticas por sua postura cautelosa diante das tarifas de Trump e por não avançar com projetos como a taxação dos super-ricos. Manifestantes usaram o mote “Centrão, inimigo do povo” para expressar descontentamento com a influência de partidos conservadores no Legislativo.

Deputados da base do governo, como Rui Falcão (PT) e Orlando Silva (PCdoB-SP), participaram do ato e reforçaram a necessidade de mobilização popular para pressionar o Congresso. Silva destacou que as tarifas de Trump podem unir o país em defesa da soberania, enquanto Falcão criticou a “subserviência” de setores da direita brasileira aos interesses dos EUA.

Mobilização nacional
Além de São Paulo, protestos semelhantes ocorreram em 11 capitais, incluindo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e Salvador. No Rio, o ato na Praça XV incluiu um plebiscito popular sobre a redução da jornada de trabalho. Em Porto Alegre, a mobilização na Esquina Democrática defendeu a soberania nacional e a taxação de grandes fortunas.

As manifestações foram organizadas por frentes como Brasil Popular e Povo Sem Medo, com apoio de centrais sindicais como a CUT e a Intersindical. A presença de movimentos como o MTST e o MST reforçou a diversidade de pautas, que incluíam desde justiça tributária até a luta contra privatizações.

Reações políticas
A manifestação gerou reações imediatas no cenário político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista à TV Record no mesmo dia, criticou as tarifas de Trump e defendeu a soberania brasileira. Lula também sinalizou apoio à redução da jornada de trabalho, prometendo aprofundar o debate no governo.

Por outro lado, o governador Tarcísio de Freitas foi alvo de duras críticas por sua proximidade com Bolsonaro e por culpar o governo Lula pelas tarifas. Guilherme Boulos classificou a postura de Tarcísio como “vergonhosa” e acusou o governador de alinhamento com interesses estrangeiros.

Simbolismo na Paulista
A Avenida Paulista, palco histórico de manifestações no Brasil, voltou a ser o epicentro da resistência popular. O ato de 10 de julho foi comparado a mobilizações históricas, como as Diretas Já, pela sua capacidade de reunir diferentes setores da sociedade. A queima de um boneco de Trump por manifestantes simbolizou a rejeição à interferência externa.

A presença de camisas da seleção brasileira e bandeiras nacionais reforçou o tom patriótico do protesto. Nilza Pereira, da Intersindical, afirmou que a mobilização é uma resposta aos “golpistas” e uma defesa da democracia. “Estamos caçando golpistas, não promovendo caça às bruxas”, disse, em referência às declarações de Trump.

Participação popular
A diversidade de manifestantes chamou atenção. Trabalhadores de setores como varejo, educação e saúde se uniram a estudantes e militantes de movimentos sociais. Ediane Maria, deputada estadual pelo MTST, destacou a importância de taxar “bilionários, banqueiros e bets” para financiar políticas sociais.

A coleta de votos para o Plebiscito Popular 2025, realizada durante o ato, reforçou o engajamento. A consulta pergunta se a população apoia o fim da escala 6×1 e a taxação de rendas acima de R$ 50 mil. Os resultados serão enviados ao Congresso como pressão por mudanças legislativas.

Cenário econômico em jogo
As tarifas de Trump podem agravar a situação econômica do Brasil, especialmente em São Paulo, que responde por 32% do PIB nacional. A Fiesp estima que o setor industrial perderá competitividade no mercado norte-americano, enquanto o agronegócio enfrenta riscos de queda nas exportações. O governo federal já sinalizou que buscará negociações bilaterais para reverter a medida.

A mobilização na Paulista, segundo analistas, pode pressionar o governo a adotar medidas mais duras contra as tarifas, como retaliações comerciais. Enquanto isso, a pauta da taxação dos super-ricos ganha força como alternativa para equilibrar as contas públicas sem sobrecarregar a classe trabalhadora.

Presença de lideranças
Além de Boulos e Erika Hilton, outros parlamentares marcaram presença, como Eduardo Suplicy (PT) e Luciene Cavalcante (PSOL). Suplicy defendeu a renda básica universal como complemento à isenção do Imposto de Renda, enquanto Cavalcante criticou a “chantagem econômica” de Trump. A participação de vereadores e deputados estaduais, como Amanda Paschoal (PSOL), reforçou a capilaridade do ato.

A mobilização também contou com a presença de lideranças sindicais, como Raimundo Suzart, da CUT, que destacou a importância de manter a pressão sobre o Congresso. “O povo está na rua para defender a democracia e os trabalhadores”, afirmou.

Legado do protesto
O ato na Avenida Paulista consolidou a união de pautas trabalhistas, tributárias e de soberania nacional. A mobilização, que superou em público um ato pró-Bolsonaro realizado em 29 de junho (12,4 mil pessoas), sinaliza a força dos movimentos sociais em 2025. A presença de drones para contagem de público, usada pelo Monitor do Debate Político, trouxe precisão aos números, com margem de erro de 12%.

A manifestação também antecipou o debate político para 2026, com críticas à extrema-direita e ao Centrão. Parlamentares como Orlando Silva afirmaram que a resposta às tarifas de Trump “virá nas urnas”, enquanto Boulos destacou a mobilização como um “recado” contra a subserviência política.

To Top