A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada em 9 de julho de 2025, gerou forte reação no Brasil. A medida, justificada por Trump como resposta a uma suposta perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro, é considerada errada por 72% dos brasileiros, segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em 16 de julho. Realizado entre 10 e 14 de julho com 2.004 entrevistados em 120 municípios, o levantamento revela que 79% acreditam que as tarifas prejudicarão suas vidas ou de suas famílias. A pesquisa, com margem de erro de 2 pontos percentuais e 95% de confiança, aponta ainda que 84% defendem a união entre governo e oposição para enfrentar a crise comercial. A tensão diplomática, intensificada por críticas de Lula a Trump durante a Cúpula do Brics, também influenciou a popularidade do governo brasileiro, que registrou leve recuperação.
A rejeição às tarifas de Trump reflete um sentimento nacional de defesa da soberania e da economia. Para 63% dos entrevistados, a afirmação do presidente americano de que a relação comercial entre Brasil e EUA é injusta não procede. A balança comercial, aliás, favorece os EUA desde 2009, com superávit de US$ 1,7 bilhão no primeiro semestre de 2025. Além disso, 57% consideram que Trump não tem direito de interferir no processo judicial contra Bolsonaro, réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.
A pesquisa também destaca a percepção sobre as causas do “tarifaço”. Para 26%, as críticas de Lula a Trump na Cúpula do Brics, realizada no Rio de Janeiro entre 6 e 7 de julho, teriam motivado a decisão. Outros 22% apontam ações do STF contra Bolsonaro como fator determinante, enquanto 17% atribuem a influência do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA desde fevereiro.
- Principais motivos apontados para as tarifas:
- Críticas de Lula no Brics (26%)
- Ações do STF contra Bolsonaro (22%)
- Influência de Eduardo Bolsonaro nos EUA (17%)
- Ações do STF contra big techs americanas (10%)
- Não souberam ou não responderam (25%)
Reação do governo e popularidade de Lula
A resposta de Lula às tarifas, com a promessa de reciprocidade por meio da Lei da Reciprocidade, aprovada em 2025, foi bem recebida por 53% dos entrevistados, que consideram a postura correta. A legislação, ainda pendente de regulamentação, autoriza o Brasil a adotar medidas equivalentes contra países que impuserem barreiras comerciais. A atuação de Lula no embate elevou sua aprovação de 40% para 43%, enquanto a desaprovação caiu de 57% para 53%. A melhora foi mais significativa entre a classe média, pessoas com ensino superior e moradores do Sudeste, segmentos que se percebem mais afetados pelas tarifas.
O confronto com Trump colocou o governo brasileiro em posição de destaque na agenda pública. Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, a crise comercial unificou setores da esquerda e dividiu a direita, especialmente entre bolsonaristas e eleitores de centro-direita. Mesmo entre os apoiadores de Bolsonaro, 48% desaprovam as tarifas, e 74% defendem a união entre governo e oposição para proteger os interesses nacionais.
Impactos econômicos temidos pelos brasileiros
As tarifas de 50%, previstas para entrar em vigor em 1º de agosto, ameaçam setores estratégicos da economia brasileira, como a indústria e o agronegócio. Um relatório do BTG Pactual estima perdas de US$ 7 bilhões em exportações em 2025, podendo alcançar US$ 13 bilhões em 2026, equivalente a 0,6% do PIB. Apesar disso, a capacidade de redirecionar exportações para outros mercados, como a China e a União Europeia, pode mitigar os impactos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) destaca que 60% das exportações brasileiras para os EUA são insumos para cadeias produtivas americanas, o que pode gerar prejuízos também para os EUA.
- Setores mais afetados pelas tarifas:
- Indústria (ex.: Embraer, suco de frutas, equipamentos florestais)
- Agronegócio (ex.: etanol, carne, café)
- Portos (ex.: Santos, Itaguaí, Vitória)
- Trabalhadores de empresas exportadoras (média salarial de R$ 4.624)
São Paulo, responsável por 31,9% das exportações brasileiras aos EUA (US$ 6,4 bilhões no primeiro semestre de 2025), será o estado mais impactado. Outros estados, como Rio de Janeiro (15,9%) e Minas Gerais (12,4%), também enfrentam riscos significativos. A CNI alerta que, para cada R$ 1 bilhão exportado aos EUA, são gerados 24,3 mil empregos e R$ 3,2 bilhões em produção.
Divisão política e o papel de Bolsonaro
A crise reacendeu a polarização política no Brasil, com trocas de acusações entre governo e oposição. Governistas, como o senador Humberto Costa (PT-PE), acusam bolsonaristas de agirem contra os interesses nacionais, enquanto aliados de Bolsonaro, como o governador Romeu Zema (Novo-MG), atribuem a culpa a Lula e ao STF. A pesquisa revela que 44% dos brasileiros consideram que Lula e o PT estão agindo corretamente, contra 29% que apoiam Bolsonaro e seus aliados. Para 15%, nenhum dos lados está certo.
Bolsonaro, inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segue como figura central no debate. A influência de seu filho, Eduardo Bolsonaro, nos EUA, é vista como relevante por 17% dos entrevistados. Eduardo, licenciado desde fevereiro, tem defendido anistia aos envolvidos no 8 de janeiro e sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Contudo, especialistas, como Roberto Goulart Menezes, da UnB, questionam a real influência de Eduardo, sugerindo que Trump pode estar mais alinhado a interesses de big techs americanas, como a plataforma X, de Elon Musk.
Percepção sobre a união nacional
A proposta de união entre governo e oposição para enfrentar as tarifas é amplamente aceita, com 84% de apoio, incluindo 74% entre bolsonaristas. A ideia reflete um sentimento de unidade em defesa da economia e da soberania brasileira. Parlamentares governistas, como o senador Jaques Wagner (PT-BA), reforçam que o Brasil “não é quintal de ninguém”, enquanto oposicionistas, como o senador Izalci Lucas (PL-DF), defendem negociações diplomáticas para evitar retaliações que impactem a inflação, especialmente em medicamentos importados.
- Fatores que reforçam a união nacional:
- Rejeição às tarifas (72%)
- Percepção de impacto econômico negativo (79%)
- Defesa da soberania brasileira (84%)
- Apoio à reciprocidade de Lula (53%)
A Comissão de Relações Exteriores do Senado anunciou esforços para dialogar com os EUA, incluindo uma possível missão parlamentar a Washington. A Amcham Brasil defende uma solução negociada, alertando que as tarifas podem inviabilizar parte das exportações brasileiras.
Expectativas para o futuro
A maioria dos brasileiros (59%) acredita que Trump manterá as tarifas, enquanto 31% esperam um recuo. A percepção de que a medida não influenciará o voto em 2026 é compartilhada por 53% dos entrevistados, com 19% inclinados a apoiar Lula e 19% favoráveis a Bolsonaro ou seu indicado. A crise, porém, fortaleceu a narrativa de Lula como defensor dos interesses nacionais, especialmente entre eleitores menos polarizados.
A tensão comercial também expôs divisões no campo da direita. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), potencial candidato em 2026, enfrenta críticas de bolsonaristas por não defender abertamente a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro. Enquanto isso, governadores como Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Romeu Zema mantêm alinhamento com Bolsonaro, responsabilizando Lula pela crise.
Reações internacionais e contexto global
As tarifas de Trump não são exclusivas ao Brasil. Em 2025, o presidente americano anunciou medidas semelhantes contra México, União Europeia e Colômbia, esta última após tensões sobre deportações. Analistas apontam que as ações refletem uma estratégia de pressão geopolítica, visando reforçar a influência dos EUA na América Latina. A comparação com sanções econômicas, como as aplicadas a Cuba e Venezuela, foi levantada por especialistas, que veem as tarifas como uma ferramenta política mais que econômica.
No Brasil, a crise comercial reforça a importância de diversificar mercados de exportação. A China, maior parceiro comercial do país, e a União Europeia surgem como alternativas para mitigar perdas. A diplomacia brasileira, liderada pelo Itamaraty, busca negociações para evitar uma escalada que prejudique ambos os lados.