A disputa pelo controle da rede de clubes Eagle Football ganhou novos contornos com a tentativa frustrada dos novos controladores do Lyon, liderados pela sul-coreana Michele Kang, de afastar o empresário americano John Textor do comando do Botafogo e de outros clubes da holding. No dia 17 de julho de 2025, uma manobra do lado francês buscou excluir Textor de toda a gestão da Eagle, incluindo o clube carioca e o belga Molenbeek, mas foi barrada por uma carta de apoio do Botafogo associativo. A ação, que ocorreu em meio a tensões financeiras e societárias, reforça a posição de Textor, que agora planeja criar uma nova empresa nas Ilhas Cayman para gerir seus ativos, incluindo o Botafogo. O movimento ocorre após a renúncia de Textor à presidência do Lyon em 30 de junho de 2025, quando Michele Kang assumiu o comando do clube francês. A ruptura entre Lyon e Botafogo, outrora parceiros próximos, parece irreversível, enquanto Textor busca consolidar sua influência no futebol brasileiro e global.
O embate entre Textor e os novos gestores do Lyon reflete um conflito mais amplo dentro da Eagle Football, holding que controla clubes como Botafogo, Lyon, Molenbeek e, até recentemente, Crystal Palace. A tentativa de afastar Textor foi motivada por descontentamentos com a gestão financeira do americano, especialmente após a descoberta de um suposto descontrole nas contas do Lyon. A sul-coreana Michele Kang, que já era acionista da Eagle e presidente do time feminino do Lyon desde 2023, assumiu a liderança do clube francês com o apoio do fundo de investimento Ares, que financiou a compra do Lyon por Textor em 2022. A decisão da Direção Nacional de Controle e Gestão (DNCG) de manter o Lyon na Ligue 1, em 9 de julho de 2025, fortaleceu a posição de Kang, que declarou ter “100% de controle operacional” sobre o clube.
- Principais pontos do conflito:
- Tentativa dos controladores do Lyon de excluir Textor de todos os clubes da Eagle.
- Resistência do Botafogo associativo, liderado por João Paulo Magalhães Lins.
- Criação de uma nova empresa nas Ilhas Cayman por Textor.
- Ruptura na relação entre Botafogo e Lyon.
A crise expõe as fragilidades do modelo multiclubes, que enfrenta desafios regulatórios e financeiros, enquanto Textor busca novos caminhos para manter sua influência no Botafogo.
Origem da crise no Eagle Football
O desentendimento entre John Textor e os controladores do Lyon tem raízes em questões financeiras e estratégicas. Quando Textor adquiriu 77,49% do Lyon em 2022, por cerca de 884 milhões de euros, o fundo Ares forneceu grande parte do capital. No entanto, o empréstimo ainda não foi quitado, gerando tensões com os credores. A gestão de Textor foi criticada por supostas transferências de recursos do Lyon para outros clubes da Eagle, como o Botafogo, o que teria contribuído para a delicada situação financeira do clube francês, que quase foi rebaixado à Ligue 2 em 2024.
Michele Kang, que emergiu como figura central no Lyon após a renúncia de Textor, conduziu uma auditoria nas contas do clube. O processo revelou o que os acionistas classificaram como “descontrole financeiro”, intensificando o desejo de cortar laços com o americano. A sul-coreana, conhecida por sua trajetória no setor de tecnologia da saúde, assumiu a presidência do Lyon e do Eagle Football Group, prometendo uma gestão mais transparente e centralizada.
A tentativa de afastar Textor da holding partiu de uma análise de contratos antigos, que poderiam permitir a exclusão do americano. No entanto, o plano esbarrou em barreiras legais e no apoio do Botafogo associativo, que detém participação minoritária na SAF (Sociedade Anônima do Futebol) do clube carioca.
Apoio incondicional do Botafogo
A reação do Botafogo foi imediata e decisiva. Liderados pelo presidente João Paulo Magalhães Lins, conselheiros do clube associativo assinaram uma carta na madrugada de 18 de julho de 2025, expressando apoio irrestrito a Textor. O documento, enviado à Eagle Football, reforçou a posição do americano como figura central no projeto do clube carioca.
João Paulo Magalhães Lins foi enfático ao defender Textor, destacando sua importância para o Botafogo. Ele afirmou que o empresário “pertence ao clube” e que qualquer tentativa de afastá-lo seria encarada como uma afronta à instituição. A carta contou com o respaldo de figuras como Durcesio Mello, ex-presidente, e André Silva, vice-presidente, consolidando a união do Botafogo em torno de Textor.
A SAF do Botafogo, criada em 2022 após a aquisição de 90% das ações por Textor, depende da aprovação do clube associativo para mudanças significativas. Essa estrutura societária foi essencial para bloquear a manobra do Lyon, garantindo que Textor permanecesse no comando do futebol alvinegro.
Nova empresa nas Ilhas Cayman
Diante da pressão dos controladores do Lyon, Textor anunciou a criação de uma nova empresa, sediada nas Ilhas Cayman, para gerir o Botafogo, o Molenbeek e outros ativos, como o Florida, um projeto ainda não detalhado. A iniciativa visa proteger seus interesses e assegurar maior autonomia na gestão dos clubes fora da influência do Eagle Football Group, agora dominado por Kang e Ares.
A escolha das Ilhas Cayman, conhecida por sua legislação favorável a holdings internacionais, reflete a estratégia de Textor de reorganizar seus investimentos. A nova empresa, chamada Eagle Football Group (não confundir com a holding atual), será responsável por gerir os clubes de forma independente, reduzindo conflitos com os acionistas do Lyon.
- Objetivos da nova empresa:
- Garantir o controle de Textor sobre o Botafogo e Molenbeek.
- Proteger ativos de possíveis ações judiciais ou financeiras do Lyon.
- Facilitar futuras aquisições, como um novo clube na Inglaterra.
A criação dessa estrutura marca um passo significativo na separação entre Textor e o Lyon, sinalizando o fim de qualquer colaboração operacional entre os clubes.
Ruptura entre Botafogo e Lyon
Antes do conflito, Botafogo e Lyon mantinham uma relação próxima, com trocas frequentes de informações sobre jogadores e estratégias de mercado. Transferências como a de Jeffinho, que migrou do clube carioca para o francês, exemplificavam essa sinergia. No entanto, a crise societária acabou com essa cooperação.
Atualmente, não há comunicação direta entre os dois clubes, e a tendência é de uma separação definitiva. A gestão de Michele Kang no Lyon implementou um modelo de controle financeiro rígido, com recursos centralizados e sem a possibilidade de transferências entre clubes da holding. Essa mudança contrasta com a visão de Textor, que defendia um sistema mais integrado, com compartilhamento de recursos entre os clubes da Eagle.
A ruptura também reflete diferenças filosóficas. Enquanto Kang prioriza a estabilidade financeira e a independência do Lyon, Textor foca em um modelo expansivo, com investimentos em novos mercados, como o Brasil e a Inglaterra.
Textor e suas novas alianças
Paralelamente à crise com o Lyon, Textor tem se aproximado de Evangelos Marinakis, dono do Nottingham Forest, Olympiakos e Rio Ave. Essa parceria resultou em negociações recentes, como as contratações de Jair, Igor Jesus e Danilo pelo Botafogo. A relação com Marinakis sugere que Textor busca aliados estratégicos para fortalecer sua posição no mercado global do futebol.
No dia 18 de julho de 2025, Textor usou suas redes sociais para celebrar as contratações do Botafogo, destacando a liberdade de agir “sem algemas” no Brasil. A mensagem, interpretada como uma indireta ao Lyon, reforça sua intenção de focar no clube carioca e em novos projetos, como a possível aquisição de um clube na Inglaterra.
Reação dos torcedores e conselheiros
A tentativa de afastar Textor gerou reações intensas no Botafogo. Torcedores e conselheiros do clube associativo se mobilizaram em defesa do americano, que é visto como peça-chave no sucesso recente do clube, incluindo os títulos do Brasileirão e da Copa Libertadores em 2024. A carta enviada à Eagle foi um marco nesse apoio, consolidando a posição de Textor como líder incontestado no projeto alvinegro.
- Figuras que assinaram a carta:
- João Paulo Magalhães Lins, presidente do clube associativo.
- Durcesio Mello, ex-presidente do Botafogo.
- André Silva, vice-presidente.
A mobilização demonstra a força do vínculo entre Textor e o Botafogo, que se tornou um pilar central de sua estratégia no futebol.
Histórico de tensões no Lyon
A relação entre Textor e o Lyon já vinha se deteriorando antes da tentativa de exclusão. Em novembro de 2024, a DNCG anunciou a rebaixamento provisório do Lyon à Ligue 2 devido a irregularidades financeiras. Embora o clube tenha revertido a decisão em julho de 2025, as críticas à gestão de Textor se intensificaram. A auditoria conduzida por Kang revelou transferências de recursos para outros clubes da Eagle, como o Botafogo, o que gerou descontentamento entre acionistas e credores.
A venda das ações de Textor no Crystal Palace, em junho de 2025, para Woody Johnson, dono do New York Jets, também foi vista como uma tentativa de aliviar a pressão financeira. No entanto, a operação não foi suficiente para apaziguar os conflitos com Kang e Ares, que buscavam maior controle sobre a holding.
Futuro de Textor no futebol
Com a criação da nova empresa nas Ilhas Cayman, Textor sinaliza sua intenção de manter o Botafogo como o centro de sua estratégia no futebol. O clube carioca, que conquistou o Brasileirão e a Libertadores em 2024, é visto como um modelo de sucesso em sua gestão. Além disso, Textor planeja expandir sua influência na Inglaterra, onde já negocia a aquisição de um novo clube após a venda de sua participação no Crystal Palace.
O americano também mantém o controle do Molenbeek, rebatizado como Daring Brussels, e explora oportunidades no mercado norte-americano com o projeto Florida. Essas iniciativas indicam que, apesar das tensões com o Lyon, Textor segue com planos ambiciosos no futebol global.
Impacto no modelo multiclubes
A crise no Eagle Football levanta questões sobre a viabilidade do modelo multiclubes. A tentativa de integrar clubes de diferentes continentes, como Botafogo, Lyon e Molenbeek, enfrentou desafios regulatórios, financeiros e culturais. A ruptura entre Lyon e Botafogo evidencia as dificuldades de manter uma gestão coesa em um sistema que depende de interesses alinhados entre acionistas e gestores.
Textor, por sua vez, parece determinado a adaptar seu modelo, focando em mercados onde tem maior liberdade operacional, como o Brasil. A criação da nova empresa nas Ilhas Cayman é um passo nesse sentido, permitindo que o americano gerencie seus clubes sem as restrições impostas pelo Lyon e pela DNCG.

