Brasil

Carlos Nobre alerta: Amazônia pode colapsar em 30 anos sem bioeconomia urgente

Amazonia
Amazonia - Foto: MatteoFar8 Amazonia - Foto: MatteoFar8

A Amazônia enfrenta um risco sem precedentes de colapso climático, com a estação seca prolongada em cinco semanas nas últimas décadas, alerta o climatologista Carlos Nobre, pesquisador da USP. Em 2025, com o aquecimento global já ultrapassando 1,5°C, o cientista destaca que a floresta pode se transformar em savana em até 30 anos se nada for feito. A solução, segundo ele, está na bioeconomia baseada na sociobiodiversidade, que pode gerar riqueza e preservar o ecossistema. A proposta ganha urgência com a proximidade da COP30, em Belém, onde o Brasil busca liderar ações climáticas globais. Nobre enfatiza que a restauração florestal é mais rentável que atividades como soja e pecuária, mas enfrenta resistência do agronegócio.

A crise climática, agravada pela ação humana, colocou o planeta em um momento crítico. Nobre, com mais de 40 anos de estudos sobre a Amazônia, compara a situação atual à última grande mudança climática, há 120 mil anos, mas com uma diferença: hoje, a humanidade é a principal responsável. A floresta, que já foi um sumidouro de carbono, hoje absorve menos de 20% do que capturava décadas atrás. O aumento das queimadas, muitas ligadas ao crime organizado, intensifica a degradação.

  • Principais alertas de Nobre:
    • Aquecimento global já superou 1,5°C e pode atingir 2°C até 2050.
    • Estação seca na Amazônia cresceu, ameaçando o ecossistema florestal.
    • Bioeconomia é a única saída viável para o Brasil evitar o colapso.

O cientista reforça que o Brasil tem uma oportunidade única de liderar a transição para um modelo econômico sustentável, mas o tempo é curto.

Amazônia
Foto: Reprodução Internet

Bioeconomia como caminho viável

Carlos Nobre propõe a bioeconomia como uma alternativa econômica e ambiental para salvar a Amazônia. Com 20% das espécies conhecidas do planeta, o Brasil usa menos de 0,5% dessa riqueza em seu PIB. A exploração sustentável de produtos florestais, como óleos, frutos e fibras, pode gerar empregos e renda para comunidades locais. A proposta inclui parcerias com populações indígenas e tradicionais, que detêm conhecimento essencial sobre a biodiversidade.

O cientista cita o mercado de carbono como um motor econômico. Projetos de restauração florestal, como o Arco da Restauração, podem atrair investimentos globais. O plano, lançado na COP28, prevê a recuperação de 240 mil km² de áreas degradadas. Essa iniciativa combina incentivos financeiros, como crédito com juros baixos, e apoio a práticas sustentáveis.

  • Benefícios da bioeconomia:
    • Geração de renda superior à agricultura tradicional em áreas restauradas.
    • Preservação de ecossistemas e aumento da captura de carbono.
    • Fortalecimento de comunidades indígenas e locais.
    • Redução de queimadas e desmatamento ilegal.

Apesar do potencial, a implementação enfrenta barreiras. A resistência de setores do agronegócio, que priorizam monoculturas como soja e gado, é um obstáculo significativo.

Ameaça iminente à Amazônia

A Amazônia está sob pressão crescente. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que 85% dos incêndios na região são causados por ação humana. Mesmo com a redução do desmatamento desde 2023, as queimadas continuam a degradar a floresta. O crime organizado utiliza o fogo para abrir terras, agravando a crise.

Nobre explica que o prolongamento da estação seca, que passou de quatro para cinco meses em algumas áreas, compromete a capacidade da floresta de se regenerar. Se a tendência persistir, a Amazônia pode atingir um ponto de inflexão em que grande parte se tornará uma savana degradada. Isso teria impactos globais, já que a floresta regula o clima e armazena bilhões de toneladas de carbono.

O cientista alerta que o Brasil não está imune aos efeitos. Regiões como o Cerrado podem se transformar em áreas semiáridas, enquanto a Caatinga corre o risco de desertificação. A produtividade agrícola, pilar da economia nacional, seria diretamente afetada.

COP30 e o papel do Brasil

A Conferência do Clima de 2025, a COP30, será realizada em Belém, no coração da Amazônia. Para Nobre, o evento é uma oportunidade para o Brasil assumir a liderança global na luta contra as mudanças climáticas. Ele elogia a meta do governo de alcançar emissões líquidas zero até 2040, dez anos antes do prazo inicial.

O climatologista destaca a importância de países como Brasil, China e Índia na coordenação de esforços globais. A COP30 pode impulsionar acordos para financiar a restauração de ecossistemas e ampliar o mercado de carbono. No entanto, Nobre alerta que as metas atuais de redução de emissões ainda são insuficientes para evitar um aquecimento superior a 2°C.

  • Prioridades para a COP30:
    • Financiamento para projetos de restauração florestal.
    • Ampliação do mercado de carbono para áreas degradadas.
    • Incentivo à bioeconomia em países tropicais.
    • Fortalecimento de políticas contra queimadas e desmatamento.

A conferência também será um momento para pressionar setores resistentes, como o agronegócio, a adotarem práticas mais sustentáveis.

Restauração florestal como solução econômica

A restauração de áreas degradadas é uma das principais apostas de Nobre. Ele argumenta que recuperar florestas é mais lucrativo do que atividades tradicionais como pecuária e monocultura. Um hectare restaurado pode gerar até três vezes mais receita por meio do mercado de carbono e da venda de produtos florestais.

O Arco da Restauração, por exemplo, combina ciência, economia e inclusão social. O projeto prevê a recuperação de áreas críticas da Amazônia com o envolvimento de comunidades locais. Além de mitigar o aquecimento global, a iniciativa pode criar milhões de empregos diretos e indiretos.

Nobre cita exemplos de sucesso em pequena escala, como cooperativas no Pará que produzem óleos essenciais e cosméticos a partir de espécies nativas. Esses modelos podem ser escalados com investimento público e privado.

Resistência do agronegócio e desafios globais

O principal obstáculo à bioeconomia, segundo Nobre, é a resistência do agronegócio. No Brasil, o setor ainda vê a floresta como um entrave ao crescimento econômico. Essa visão, para o cientista, é míope, já que o colapso climático pode reduzir drasticamente a produtividade agrícola.

Globalmente, a lentidão na redução de emissões é outro problema. Mesmo com avanços em energias renováveis, o consumo de combustíveis fósseis permanece elevado. Países desenvolvidos, responsáveis pela maior parte das emissões históricas, precisam financiar a transição em nações tropicais como o Brasil.

  • Barreiras à mudança:
    • Resistência do agronegócio a práticas sustentáveis.
    • Falta de financiamento global para restauração florestal.
    • Metas climáticas insuficientes em acordos internacionais.
    • Aumento de queimadas ligadas ao crime organizado.

Nobre enfatiza que o Brasil tem o potencial de liderar a transição, mas precisa superar interesses econômicos de curto prazo.

O futuro da Amazônia e do Brasil

A Amazônia é essencial não apenas para o Brasil, mas para o equilíbrio climático global. Sua perda teria consequências devastadoras, como o aumento de eventos climáticos extremos e a redução da capacidade do planeta de absorver carbono. Nobre reforça que a bioeconomia é uma solução prática, mas exige vontade política e engajamento social.

O cientista defende que o Brasil invista em educação e tecnologia para escalar projetos de restauração e bioeconomia. Parcerias com universidades, como a USP, onde Nobre atua, podem acelerar a inovação. Além disso, o envolvimento de populações locais é crucial para garantir a sustentabilidade de longo prazo.

A COP30 será um teste para a capacidade do Brasil de liderar a agenda climática. Nobre acredita que, com ações coordenadas, o país pode transformar a crise em uma oportunidade de desenvolvimento sustentável.

To Top