A Justiça de São Paulo negou, na tarde desta terça-feira, 29 de julho de 2025, o pedido de habeas corpus do presidente afastado do Corinthians, Augusto Melo, que buscava anular a denúncia contra ele no caso VaideBet. A decisão, proferida pela desembargadora Maria Cecília Leone, da 8ª Câmara de Direito Criminal, mantém Melo e outros ex-dirigentes como réus por crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto qualificado. A investigação, conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público, apura irregularidades no contrato de patrocínio de R$ 370 milhões entre o Corinthians e a casa de apostas VaideBet, firmado em janeiro de 2024. O caso, que envolve repasses de mais de R$ 1 milhão para empresas supostamente ligadas ao crime organizado, abalou a gestão do clube e culminou no afastamento de Melo. A denúncia também exige indenização de R$ 40 milhões ao Corinthians, enquanto o processo segue para análise de defesas.
O caso VaideBet expôs uma complexa rede de transferências financeiras que levantou suspeitas de corrupção. A Polícia Civil identificou que os valores pagos como comissão pela intermediação do contrato percorreram empresas consideradas fantasmas, com destino final em uma agência ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A situação gerou forte repercussão no clube, com reflexos políticos e administrativos, incluindo a votação de impeachment de Melo marcada para 9 de agosto.
- Principais pontos da investigação:
- Contrato de patrocínio de R$ 370 milhões com a VaideBet, assinado em janeiro de 2024.
- Repasse de R$ 1,4 milhão para a Rede Social Media Design, de Alex Cassundé.
- Transferências para empresas como Neoway e UJ Football, suspeitas de lavagem de dinheiro.
- Acusações contra Augusto Melo, Marcelo Mariano, Sérgio Moura e Alex Cassundé.
Detalhes do revés judicial
A tentativa de Augusto Melo de anular a denúncia foi baseada na alegação de que os Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) do COAF, usados como prova, teriam sido obtidos sem autorização judicial. A desembargadora Maria Cecília Leone, porém, considerou que não havia evidência clara de constrangimento ilegal que justificasse a concessão da liminar. Em seu despacho, ela destacou que os réus ainda não foram citados para apresentar defesa prévia, o que torna prematuro discutir nulidades processuais neste momento.
A decisão reforça a gravidade das acusações contra Melo e os ex-dirigentes Marcelo Mariano, ex-diretor administrativo, e Sérgio Moura, ex-superintendente de marketing. A investigação aponta que a inclusão da empresa Rede Social Media Design, de Alex Cassundé, no contrato foi uma manobra para desviar recursos do clube. A denúncia do Ministério Público sustenta que os envolvidos agiram em conluio, utilizando empresas de fachada para ocultar a origem e o destino do dinheiro.
A defesa de Melo já havia tentado, sem sucesso, suspender o processo em outra instância judicial. Agora, com a negativa do habeas corpus, o caso segue para a fase de apresentação de defesas, onde os réus poderão contestar as acusações. A Justiça também analisará o pedido do Ministério Público para bloquear bens dos envolvidos, medida que visa garantir a indenização de R$ 40 milhões exigida para reparar os prejuízos ao Corinthians.
Reportagem do Fantástico sobre o caso VaideBet no Corinthians.
— LIBERTA DEPRE (@liberta___depre) January 20, 2025
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Caminho do dinheiro no caso VaideBet
A investigação revelou um intricado esquema de transferências financeiras que começou com o pagamento de R$ 1,4 milhão pelo Corinthians à Rede Social Media Design, empresa de Alex Cassundé, como comissão pela intermediação do contrato com a VaideBet. Desse montante, R$ 1,042 milhão foram repassados à Neoway Soluções Integradas, registrada em nome de Edna Oliveira dos Santos, uma moradora de Peruíbe que afirmou desconhecer o uso de seu nome, sendo considerada uma “laranja” pela polícia.
Posteriormente, a Neoway transferiu cerca de R$ 1 milhão para a Wave Intermediações Tecnológicas, que, por sua vez, repassou R$ 874.150 à UJ Football Talent Intermediação, agência de gestão de carreiras esportivas de Ulisses Jorge. Além disso, a Victory Trading Intermediação, outra empresa investigada, transferiu R$ 200 mil à UJ Football, totalizando R$ 1,074 milhão recebidos pela agência. A Polícia Civil aponta que a UJ Football seria um braço do PCC no futebol, conforme delação de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, assassinado em novembro de 2024.
- Movimentações financeiras sob suspeita:
- 18 e 21 de março de 2024: Corinthians paga R$ 1,4 milhão à Rede Social Media Design.
- 25 e 26 de março: Rede Social transfere R$ 1,042 milhão à Neoway.
- 26 de março: Neoway envia R$ 1 milhão à Wave Intermediações.
- 26 e 28 de março: Wave e Victory repassam R$ 1,074 milhão à UJ Football.
Repercussões no Corinthians
O caso VaideBet intensificou a crise política no Corinthians, que já enfrentava tensões internas antes mesmo da investigação. Augusto Melo, eleito presidente em 2023, anunciou o contrato com a VaideBet como o maior patrocínio máster da história do futebol brasileiro, com previsão de R$ 370 milhões em três anos. No entanto, a revelação das irregularidades levou à rescisão do contrato em junho de 2024, após a VaideBet acionar uma cláusula anticorrupção, alegando danos à sua reputação.
A crise culminou no afastamento de Melo em 26 de maio de 2025, por decisão do Conselho Deliberativo do clube, que citou gestão temerária e irregularidades no contrato como justificativas. A votação de impeachment, marcada para 9 de agosto, decidirá se Melo será definitivamente destituído ou reconduzido ao cargo. A instabilidade também gerou protestos de torcedores, incluindo uma invasão à sede do clube no Parque São Jorge em junho de 2025.
- Impactos no clube:
- Rescisão do contrato de patrocínio com a VaideBet.
- Afastamento de Augusto Melo e outros diretores.
- Pedido de indenização de R$ 40 milhões pelo Ministério Público.
- Votação de impeachment marcada para 9 de agosto de 2025.
Respostas dos envolvidos
A defesa de Augusto Melo nega qualquer envolvimento com atividades ilícitas e sustenta que as acusações são infundadas. Em nota, os advogados afirmaram que uma investigação defensiva, regulamentada pela OAB, está em curso para comprovar a inocência do presidente afastado. Eles também criticam a condução do processo, apontando supostas irregularidades na coleta de provas pelo Ministério Público.
A UJ Football Talent, por sua vez, emitiu comunicado negando ligação com o crime organizado e afirmando que os valores recebidos da Wave foram referentes à intermediação da transferência do jogador Emerson Royal ao Barcelona, realizada em 2021. A empresa destacou que atua de forma transparente e que nunca foi alvo de investigações por atividades ilícitas. Já Alex Cassundé, dono da Rede Social Media Design, afirmou ter agido de forma lícita e apresentou documentos para comprovar sua relação com a VaideBet.
O Corinthians, em posicionamento oficial, reitera que é vítima das circunstâncias e que não tem controle sobre os repasses feitos por terceiros. O clube enfatiza seu apoio às investigações e o compromisso com a transparência, destacando que cumpre todas as obrigações legais e contratuais.
Próximos passos do caso
Com a negativa do habeas corpus, o processo agora avança para a fase de apresentação de defesas pelos réus. A Justiça de São Paulo analisará os argumentos de Augusto Melo, Marcelo Mariano, Sérgio Moura, Alex Cassundé, Ulisses Jorge e Victor Shimada, que também foram denunciados por lavagem de dinheiro. O juiz de primeiro grau decidirá sobre possíveis nulidades processuais e o bloqueio de bens solicitado pelo Ministério Público.
Paralelamente, o Corinthians enfrenta desafios administrativos e financeiros. A saída da VaideBet deixou o clube sem um patrocinador máster, enquanto negociações com outras empresas, como a LFU, estão em andamento para injetar R$ 57 milhões nos cofres alvinegros. A votação de impeachment de Melo será um marco decisivo para o futuro do clube, que busca estabilidade em meio a uma das maiores crises de sua história.
- Etapas futuras do processo:
- Apresentação de defesas pelos réus.
- Análise de nulidades processuais pelo juiz de primeiro grau.
- Decisão sobre o bloqueio de bens dos envolvidos.
- Votação de impeachment de Augusto Melo em 9 de agosto.