A adultização infantil, prática que força crianças a adotarem comportamentos, responsabilidades ou estéticas de adultos, tem gerado preocupação no Brasil após denúncias recentes sobre exploração nas redes sociais. Em agosto de 2025, o influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, publicou um vídeo no YouTube que viralizou, expondo casos de sexualização precoce e exploração de menores em plataformas digitais. O conteúdo, visto por mais de 30 milhões de pessoas, reacendeu o debate sobre os danos psicológicos, sociais e de saúde causados pela adultização. O fenômeno ocorre quando crianças são expostas a conteúdos inadequados, como danças sensuais ou maquiagens adultas, muitas vezes incentivadas por pais ou influenciadores em busca de engajamento. Essa prática compromete o desenvolvimento saudável, aumentando a vulnerabilidade a abusos e problemas emocionais.
O vídeo de Felca destacou casos como o de jovens que, ainda na pré-adolescência, são incentivados a produzir conteúdos com apelo sexual para atrair visualizações. A discussão ganhou força no Congresso Nacional, com propostas de leis para regulamentar plataformas digitais. Especialistas alertam que a adultização não é apenas um problema individual, mas um reflexo de uma sociedade que normaliza a exposição precoce de crianças.
- Fatores que contribuem para a adultização:
- Exposição a conteúdos adultos nas redes sociais.
- Pressão de pais ou responsáveis por engajamento online.
- Falta de regulação efetiva em plataformas digitais.
O que caracteriza a adultização
A adultização infantil ocorre quando crianças assumem papéis ou comportamentos inadequados para sua idade, como usar roupas sensuais, participar de discussões adultas ou assumir responsabilidades familiares. Segundo a pediatra Anna Bohn, da Sociedade Brasileira de Pediatria, a prática envolve expor crianças a conteúdos que exigem maturidade emocional e cognitiva que ainda não possuem. Esse processo pode ser sutil, como o uso de maquiagens pesadas, ou explícito, como coreografias erotizadas em vídeos online.
A psicóloga Camila Malcher, mestre em Psicologia, explica que a adultização muitas vezes reflete uma sociedade adultocêntrica, que projeta expectativas adultas em corpos infantis. O problema é agravado pelas redes sociais, onde algoritmos amplificam conteúdos inadequados, tornando crianças alvos de exploração. No Pará, por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública registrou 420 delitos virtuais contra menores entre janeiro e julho de 2025, evidenciando a escala do problema.
A prática também varia conforme o contexto social. Crianças de classes mais pobres ou grupos marginalizados são mais vulneráveis, pois muitas vezes enfrentam pressões econômicas que as levam a assumir papéis adultos precocemente. A falta de supervisão parental e a busca por validação digital intensificam esses riscos.
- Sinais de adultização:
- Uso de roupas ou acessórios inadequados à idade.
- Participação em atividades que exigem maturidade emocional.
- Exposição a conteúdos de violência ou sexualidade.
- Pressão para gerar renda ou engajamento online.

Danos psicológicos e sociais
A exposição precoce a comportamentos adultos pode causar danos profundos. Estudos da Fundação Abrinq apontam que crianças adultizadas têm maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e baixa autoestima. A psicóloga convidada por Felca em seu vídeo destacou que a sexualização precoce compromete a formação da identidade, dificultando relações interpessoais saudáveis.
Crianças expostas a conteúdos sexualizados nas redes sociais enfrentam revitimização constante, já que vídeos e fotos permanecem online indefinidamente. Isso pode levar a traumas emocionais duradouros, como insegurança e distorção da autoimagem. A pedagoga Mariana Ruske, da Senses Montessori School, alerta que o cérebro infantil, ainda em formação, não está preparado para processar essas experiências, o que pode levar a decisões impulsivas e comportamentos de risco.
Além disso, a adultização aumenta a vulnerabilidade a abusos. A delegada Lisandréa Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital de São Paulo, afirma que a superexposição de crianças, mesmo em perfis privados, facilita a ação de predadores online. Em 2024, o Brasil registrou 52.999 denúncias de exploração infantil na internet, um número alarmante, embora menor que o recorde de 71.867 em 2023.
- Impactos emocionais:
- Ansiedade e depressão devido à pressão social.
- Dificuldade em estabelecer vínculos afetivos seguros.
- Baixa autoestima por comparações com padrões adultos.
- Risco de ideação suicida em casos extremos.
Papel das redes sociais
As plataformas digitais têm um papel central na amplificação da adultização. Algoritmos projetados para maximizar engajamento frequentemente promovem conteúdos inadequados, como vídeos de crianças em poses sugestivas. Felca demonstrou isso em um experimento, onde, ao curtir fotos de menores em contextos adultizados, o algoritmo do Instagram sugeriu mais conteúdos similares, criando um ciclo perigoso.
A falta de regulação efetiva é outro agravante. Especialistas como Luciana Temer, do Instituto Liberta, defendem que plataformas devem ser obrigadas a monitorar ativamente conteúdos e verificar a idade dos usuários. Na França, por exemplo, leis exigem identificação rigorosa para acesso a conteúdos adultos, algo que o Brasil ainda não implementou. A ausência de moderação ativa permite que vídeos de crianças sejam monetizados, gerando lucro para criadores e plataformas.
A pressão por validação digital também afeta as crianças diretamente. Muitas são incentivadas a buscar curtidas e seguidores, moldando sua autoestima com base em métricas online. Isso cria um ambiente de competição e comparação, com impactos negativos na saúde mental.
- Problemas das plataformas digitais:
- Algoritmos que promovem conteúdos inadequados.
- Falta de verificação de idade robusta.
- Monetização de vídeos com crianças.
- Ausência de moderação ativa de conteúdos.
Ações para proteger a infância
Proteger crianças da adultização exige esforços conjuntos de famílias, escolas, governo e empresas de tecnologia. A pediatra Anna Bohn recomenda que pais limitem o acesso a dispositivos antes dos 13 anos e evitem redes sociais antes dos 16. Conversas abertas sobre os riscos do mundo digital e o fortalecimento da autoestima são essenciais para reduzir a busca por validação online.
No âmbito legislativo, propostas como o Projeto de Lei 2.628/2020 buscam responsabilizar plataformas por conteúdos abusivos, exigindo a remoção imediata de materiais inadequados. O Congresso Nacional, mobilizado após o vídeo de Felca, discute a “Lei Felca”, que propõe penas mais duras para exploração de menores e moderação rigorosa nas redes.
Escolas também têm um papel crucial. Programas de educação digital, como o “Navegue, Não Naufrague”, do Ministério Público do Pará, orientam alunos e professores sobre os perigos da exposição online. Além disso, o fortalecimento de Conselhos Tutelares e centros de saúde mental é vital para apoiar vítimas de adultização.
- Medidas de proteção:
- Limites claros no uso de dispositivos e redes sociais.
- Educação digital nas escolas.
- Acompanhamento psicológico para crianças expostas.
- Regulação rigorosa de plataformas digitais.
Mobilização social e legislativa
O vídeo de Felca gerou uma mobilização sem precedentes, unindo políticos de diferentes espectros, como Érika Hilton e Nikolas Ferreira, em prol da proteção infantil. A proposta de uma CPI das redes sociais, protocolada por senadores como Damares Alves, busca investigar a responsabilidade de influenciadores e plataformas. A sociedade civil também se engajou, com denúncias ao Disque 100 e Conselhos Tutelares aumentando após a viralização do conteúdo.
A advogada Luciana Temer destaca que leis como as da Austrália e Reino Unido, que exigem verificação de idade e proíbem monetização de vídeos infantis, podem servir de modelo. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente já prevê penas de até oito anos para crimes envolvendo exploração de menores, mas a aplicação é limitada pela falta de fiscalização digital.
A conscientização pública é outro fator clave. Campanhas nacionais e programas de capacitação para pais e professores podem ajudar a mudar a cultura que normaliza a adultização. A sociedade precisa reconhecer que proteger a infância é uma responsabilidade coletiva.