Brics Pay e swaps cambiais: bloco busca reduzir dependência do dólar

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moeda do BRICS

moeda do BRICS - Foto: joxxxxjo/istock

Os países do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, planejam intensificar debates sobre alternativas ao dólar no comércio internacional durante a cúpula marcada para 6 e 7 de julho no Rio de Janeiro. Embora a ideia de uma moeda comum tenha sido mencionada em anos anteriores, especialistas descartam sua viabilidade no curto prazo, apontando para o fortalecimento do uso de moedas locais e a criação de sistemas de pagamento independentes, como o Brics Pay. A iniciativa reflete o objetivo do bloco de reduzir a dependência do dólar e do sistema SWIFT, especialmente após sanções econômicas impostas à Rússia. O Brasil, que preside o grupo em 2025, busca liderar discussões para facilitar o comércio intra-Brics, mas enfrenta desafios devido à baixa integração econômica entre os membros.

A proposta de uma moeda única, defendida anteriormente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, perdeu força. Em vez disso, o foco está em soluções práticas, como acordos de swap cambial e plataformas digitais de pagamento. Essas medidas visam impulsionar transações em moedas nacionais, com destaque para o yuan chinês.

  • Principais pontos em discussão:
    • Ampliação do uso de moedas locais no comércio intra-Brics.
    • Desenvolvimento do Brics Pay como alternativa ao SWIFT.
    • Acordos bilaterais de swap cambial, como o entre Brasil e China.

Sistemas de pagamento alternativos

A cúpula do Brics no Rio de Janeiro deve priorizar o aprimoramento de sistemas de pagamento que dispensem o dólar. Um exemplo é o Brics Pay, uma plataforma digital que permite transações em moedas locais, reduzindo custos e a exposição a flutuações cambiais. A iniciativa é vista como um passo estratégico para aumentar a autonomia financeira do bloco.

O Brasil, sob a liderança do presidente Lula, defende a criação de instrumentos que facilitem o comércio e o investimento entre os membros. No entanto, a integração econômica limitada do grupo, com apenas 18% do comércio global dos países sendo intra-Brics, é um obstáculo. Especialistas apontam que, diferentemente da União Europeia antes do euro, o bloco carece de uma coesão econômica suficiente para sustentar uma moeda comum.

  • Vantagens do Brics Pay:
    • Transações mais rápidas e baratas em moedas locais.
    • Redução da dependência de sistemas financeiros ocidentais.
    • Maior inclusão de pequenas empresas no comércio internacional.
    • Segurança contra sanções econômicas externas.

Acordos de swap cambial ganham destaque

Os acordos de swap cambial, como o firmado entre Brasil e China em 2023, no valor de US$ 26 bilhões, são outra alternativa em alta. Esses acordos permitem que transações comerciais sejam realizadas diretamente em reais e yuans, eliminando a necessidade de conversão para dólares. A medida já mostrou resultados positivos, com aumento de 10% no comércio bilateral entre os dois países desde a implementação.

Outros membros do Brics, como Índia e Rússia, também exploram acordos semelhantes. A Rússia, em particular, busca contornar sanções impostas após a invasão da Ucrânia em 2022, utilizando moedas locais em suas trocas comerciais. Apesar do avanço, a disparidade econômica entre os países dificulta a padronização dessas iniciativas.

A China, com sua economia estável e inflação controlada em cerca de 2% ao ano, lidera o uso do yuan no bloco. No entanto, países como Brasil e Índia enfrentam volatilidade cambial, o que limita a confiança em moedas locais para transações de grande escala.

Brics Pay – Foto: Divulgação

Barreiras à moeda comum

A ideia de uma moeda única enfrenta resistência significativa. Além da falta de integração econômica, as diferenças políticas e estratégicas entre os membros do Brics são um entrave. A Índia, por exemplo, teme que uma moeda comum fortaleça demais o yuan, ampliando a influência chinesa no bloco.

O professor Laerte Apolinário, da PUC-SP, destaca que o debate sobre a “desdolarização” é mais amplo e envolve questões geopolíticas. “O Brics não é homogêneo. Cada país tem interesses próprios, e a China, como maior economia do grupo, tende a dominar as discussões”, explica. Essa dinâmica gera receios em nações como a Índia, que busca manter sua autonomia econômica.

  • Principais obstáculos:
    • Economias com diferentes níveis de estabilidade e inflação.
    • Baixa integração comercial entre os membros do bloco.
    • Resistência política à hegemonia chinesa.
    • Dependência de sistemas financeiros globais já estabelecidos.

Papel do New Development Bank

O New Development Bank (NDB), presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff, desempenha um papel crucial nas discussões financeiras do Brics. Cerca de 30% dos empréstimos do banco já são concedidos em moedas locais, uma estratégia que reduz a exposição ao dólar e incentiva o uso de moedas nacionais.

O NDB planeja expandir essa prática até 2030, com foco em projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável. Em 2024, o banco aprovou US$ 5 bilhões em financiamentos, dos quais 35% foram em yuans e reais, um aumento de 12% em relação a 2022. Essa tendência reflete o esforço do bloco em diversificar suas opções financeiras.

O Brasil, como presidente do Brics em 2025, pretende usar a cúpula no Rio para propor metas ambiciosas, como o aumento do comércio intra-Brics em 20% até 2030. Para isso, o país defende a criação de infraestruturas regionais de pagamento e maior cooperação regulatória entre os membros.

Estratégias para o futuro

A presidência brasileira do Brics sinaliza que a cúpula de julho focará em medidas práticas, como a ampliação do uso de moedas locais e o fortalecimento de sistemas como o Brics Pay. O Brasil também busca atrair mais investimentos em economia digital e sustentável, áreas consideradas prioritárias para o crescimento do bloco.

Apesar do consenso limitado entre os membros, especialistas acreditam que o Brics está no caminho certo para reduzir a dependência do dólar, ainda que de forma gradual. A professora Luiza Perruffo, da UFRGS, destaca que o yuan deve ganhar protagonismo, mas sem substituir completamente o dólar no curto prazo. “O processo é lento, mas os acordos bilaterais e o Brics Pay são passos concretos”, afirma.

  • Prioridades do Brasil na cúpula:
    • Fortalecer o comércio intra-Brics com moedas locais.
    • Expandir o uso do Brics Pay em transações internacionais.
    • Aumentar investimentos em infraestrutura e tecnologia.
    • Promover acordos regulatórios para facilitar o comércio.

A cúpula do Rio de Janeiro será um momento decisivo para o futuro financeiro do Brics. Embora a criação de uma moeda comum permaneça improvável, as discussões sobre sistemas alternativos de pagamento e o uso de moedas locais indicam que o bloco está determinado a construir um sistema financeiro mais autônomo.

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