Os países do Brics, grupo formado por 11 nações emergentes, anunciaram o lançamento do Brics Pay, um sistema de pagamentos instantâneos inspirado no Pix brasileiro, com o objetivo de reduzir a dependência do dólar em transações comerciais internacionais. Previsto para iniciar operações ainda em 2025, o sistema permitirá transferências rápidas e seguras entre Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, utilizando moedas locais. A iniciativa, liderada por Brasil, Rússia e China, busca diminuir custos e evitar sanções financeiras globais, promovendo maior autonomia econômica. O projeto, que utiliza tecnologias como blockchain e QR Code, já está em fase de testes, mas enfrenta resistência dos Estados Unidos, que ameaçam retaliar com tarifas.
O Brics Pay, também chamado de Pix Global, é uma resposta direta às tensões geopolíticas e econômicas, especialmente com os EUA, que dominam o sistema financeiro global por meio do dólar. Com a plataforma, o bloco pretende agilizar o comércio, que representa 24% do fluxo global, e fortalecer a soberania financeira de seus membros. A tecnologia, desenvolvida em colaboração entre os países, promete revolucionar as transações internacionais ao eliminar intermediários como o dólar e o euro.
- Principais objetivos do Brics Pay:
- Reduzir custos de transações internacionais.
- Aumentar a velocidade de liquidações comerciais.
- Fortalecer o uso de moedas locais no comércio global.
- Proteger os países contra sanções financeiras externas.
A iniciativa surge em um momento de expansão do Brics, que passou de cinco membros fundadores para 11, incorporando nações como Indonésia e Arábia Saudita, além de 10 países-parceiros, ampliando sua influência global.
Sistema baseado em tecnologias avançadas
O Brics Pay integra sistemas de pagamento já consolidados nos países membros, como o Pix brasileiro, o SBP russo e o UPI indiano. A plataforma utiliza um sistema descentralizado de mensagens fronteiriças (DCMS), desenvolvido pela Universidade Estatal de São Petersburgo, que garante transações seguras e rápidas por meio de criptografia avançada. A ausência de um controlador central, como ocorre no sistema SWIFT, é um diferencial, pois reduz a dependência de grandes bancos ocidentais.
A tecnologia blockchain será a espinha dorsal do sistema, permitindo transações transparentes e rastreáveis. Além disso, carteiras digitais e QR Codes facilitarão o uso em transações do dia a dia, como pagamentos em viagens ou comércio local entre os países do bloco. Por exemplo, um brasileiro poderá pagar por produtos na China com um QR Code vinculado ao Pix, sem conversão para dólar.
- Tecnologias integradas ao Brics Pay:
- Blockchain para segurança e transparência.
- QR Codes para pagamentos instantâneos.
- Carteiras digitais para acessibilidade.
- Canais diretos entre bancos centrais para liquidações rápidas.
O sistema também planeja incorporar moedas digitais de bancos centrais, como o Drex brasileiro, ampliando sua versatilidade. A meta é que, até 2030, o Brics Pay movimente centenas de bilhões em transações anuais, consolidando-se como uma alternativa robusta ao sistema financeiro ocidental.

Testes avançam com liderança de Rússia e China
Rússia e China lideram os testes iniciais do Brics Pay, com transações bilaterais em rublo e yuan já em andamento. O Brasil, que preside o Brics em 2025, planeja integrar o Pix ao sistema até o final de 2026, focando em exportações agrícolas e energéticas para parceiros como China e Índia. A integração de novos membros, como Etiópia e Emirados Árabes Unidos, está prevista para os próximos anos, ampliando o alcance da plataforma.
Os testes iniciais demonstraram que o sistema pode reduzir significativamente os custos de transação, que hoje chegam a até 5% em operações internacionais envolvendo o dólar. Além disso, a liquidação direta em moedas locais elimina a volatilidade cambial, beneficiando setores como o agronegócio brasileiro, que exporta grandes volumes para a Ásia.
Embora a implementação enfrente desafios técnicos, como a harmonização de sistemas bancários distintos, os países do Brics estão comprometidos em acelerar o processo. A Rússia, por exemplo, já utiliza o SBP em mais de 200 instituições financeiras, enquanto a Índia conta com a experiência do UPI, que processa bilhões de transações anuais.
Resistência dos EUA e tensões geopolíticas
A criação do Brics Pay gerou reações imediatas dos Estados Unidos, que veem a iniciativa como uma ameaça à hegemonia do dólar, usado em 84% das transações globais. O presidente americano ameaçou impor tarifas de até 50% sobre importações de países do Brics, alegando que o sistema favorece práticas comerciais desleais. A investigação contra o Pix brasileiro, acusado de concorrência desleal com empresas americanas como Visa e Mastercard, intensificou as tensões.
O governo brasileiro, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, respondeu às ameaças defendendo a soberania econômica do país. Durante o último summit do Brics, em julho de 2025, Lula afirmou que o grupo não busca confrontar os EUA, mas sim promover um comércio mais justo e acessível. Outros líderes, como o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, reforçaram que o Brics Pay é uma ferramenta de cooperação, não de competição.
- Reações às ameaças americanas:
- Brasil: Defesa da soberania e independência econômica.
- China: Ênfase em um sistema financeiro multipolar.
- Rússia: Foco em alternativas para escapar de sanções ocidentais.
- Índia: Posicionamento cauteloso, mantendo laços com os EUA.
Apesar das pressões, especialistas acreditam que o Brics Pay pode atrair países fora do bloco, especialmente aqueles interessados em reduzir custos e riscos associados ao dólar. A Indonésia, novo membro, já demonstrou interesse em usar seu sistema QRIS como base para o Brics Pay.
Benefícios econômicos para o Brasil
O Brasil, como criador do Pix, desempenha um papel central no desenvolvimento do Brics Pay. O sistema brasileiro, lançado em 2020, revolucionou o mercado financeiro nacional, respondendo por 49% das transações não físicas no primeiro trimestre de 2025, com um volume de R$ 7 trilhões. A expertise brasileira está sendo aplicada para garantir a eficiência do Pix Global, especialmente em setores estratégicos como o agronegócio.
A redução de custos nas exportações para países do Brics pode aumentar a competitividade de produtos brasileiros, como soja e carne, que têm a China como principal destino. Além disso, o uso do real em transações internacionais diminui a exposição a flutuações do dólar, beneficiando empresas e consumidores.
O Brics Pay também pode impulsionar o turismo entre os países membros. Viajantes brasileiros, por exemplo, poderão usar o Pix em estabelecimentos na Índia ou na África do Sul, enquanto turistas desses países terão acesso facilitado a pagamentos no Brasil. A integração com o Drex, a moeda digital do Banco Central, deve ampliar ainda mais essas possibilidades.
Futuro do comércio global
O lançamento do Brics Pay marca um passo significativo na reconfiguração do comércio internacional. Com 46% da população mundial e 35,6% do PIB global, o Brics tem peso para desafiar o domínio financeiro ocidental. A plataforma, ao promover transações em moedas locais, reduz a dependência de sistemas como o SWIFT, que muitas vezes impõem restrições a países sob sanções, como Rússia e Irã.
A iniciativa também reflete a crescente influência do Sul Global no cenário econômico. Países como Etiópia e Egito, que enfrentam limitações no acesso a financiamentos ocidentais, veem no Brics Pay uma oportunidade para expandir suas economias sem amarras políticas. No entanto, a falta de coesão política entre os membros, como as tensões entre Índia e China, pode ser um obstáculo para a plena implementação do sistema.
- Possíveis impactos do Brics Pay:
- Aumento da competitividade de exportações.
- Redução de custos em até 5% nas transações internacionais.
- Maior integração econômica entre países do Sul Global.
- Fortalecimento de moedas locais no comércio global.
A longo prazo, o Brics Pay pode pavimentar o caminho para um sistema financeiro mais multipolar, onde o dólar, embora ainda dominante, enfrenta concorrência crescente. A iniciativa, se bem-sucedida, pode inspirar outros blocos econômicos a desenvolverem sistemas semelhantes, redefinindo as dinâmicas do comércio global.