A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou, na sexta-feira, 5 de setembro de 2025, a inclusão dos medicamentos Ozempic e Mounjaro em sua Lista Modelo de Medicamentos Essenciais, um marco que pode transformar o acesso a tratamentos para diabetes tipo 2 em mais de 150 países. A decisão, tomada em Genebra, na Suíça, destaca a eficácia desses fármacos, originalmente desenvolvidos para diabetes, mas amplamente reconhecidos por seus efeitos na perda de peso. A lista, atualizada a cada dois anos, serve como referência para sistemas de saúde globais, orientando compras públicas e coberturas de planos de saúde. A medida responde à crescente prevalência de diabetes e obesidade, condições que afetam milhões de pessoas, e busca garantir maior equidade no acesso a terapias inovadoras, especialmente em nações de baixa e média renda.
A inclusão reflete a análise de um comitê de especialistas da OMS, que considerou evidências científicas robustas sobre os benefícios dos medicamentos para pacientes com diabetes tipo 2, especialmente aqueles com comorbidades como doenças cardiovasculares e renais crônicas. Apesar da popularidade para perda de peso, a OMS enfatizou o uso primário para diabetes, visando priorizar populações vulneráveis.
- Principais medicamentos incluídos: Ozempic (semaglutida), Mounjaro (tirzepatida), além de Trulicity (dulaglutida) e Victoza (liraglutida).
- Impacto esperado: Ampliação do acesso em sistemas de saúde públicos e privados.
- Foco da OMS: Reduzir barreiras de custo e incentivar genéricos.
A decisão da OMS marca um avanço significativo na luta contra duas das maiores crises de saúde pública do século: diabetes e obesidade.
Benefícios comprovados dos novos medicamentos
Os medicamentos incluídos na lista pertencem à classe dos agonistas do receptor GLP-1, que regulam a glicemia e promovem saciedade, oferecendo benefícios além do controle do diabetes. A semaglutida, princípio ativo do Ozempic, e a tirzepatida, do Mounjaro, demonstraram reduzir riscos de eventos cardiovasculares em até 20%, segundo estudos clínicos revisados pela OMS. Esses fármacos também ajudam a desacelerar a progressão de doenças renais crônicas, uma complicação comum em diabéticos.
A inclusão na lista essencial visa atender às necessidades de mais de 800 milhões de pessoas com diabetes no mundo, metade das quais sem acesso a tratamentos adequados, conforme dados da OMS de 2022. Além disso, a obesidade, que afeta mais de 1 bilhão de pessoas, está intimamente ligada a complicações cardiovasculares e renais, reforçando a relevância desses medicamentos. A OMS destacou que a decisão não endossa o uso exclusivo para perda de peso, mas reconhece seus benefícios em pacientes com múltiplas condições cardiometabólicas.

Barreiras de acesso e custos elevados
A incorporação de Ozempic e Mounjaro à lista da OMS enfrenta desafios significativos, especialmente relacionados aos preços. Em muitos países, o custo mensal desses medicamentos pode ultrapassar centenas de dólares, tornando-os inacessíveis para grande parte da população. A OMS alertou que os altos preços limitam o acesso, especialmente em nações de baixa renda, onde os sistemas de saúde enfrentam restrições orçamentárias.
Para contornar essa barreira, a organização defendeu a priorização de pacientes com maior necessidade clínica e o incentivo à produção de genéricos e biossimilares. A patente da semaglutida, por exemplo, expira em 2026 em países como Canadá, Índia e China, o que pode estimular a concorrência e reduzir custos.
- Custo médio mensal: Ozempic pode custar até US$ 900 nos EUA sem cobertura de seguro.
- Países impactados: Mais de 150 nações utilizam a lista da OMS como referência.
- Solução proposta: Produção de genéricos para ampliar acesso.
- Prazo para genéricos: Expiração de patentes a partir de 2026.
A OMS também recomendou que governos e sistemas de saúde implementem programas centrados nos pacientes para garantir distribuição equitativa.
Popularidade e uso além do diabetes
Embora desenvolvidos para diabetes tipo 2, Ozempic e Mounjaro ganharam notoriedade global por seus efeitos na perda de peso, o que impulsionou a demanda e gerou debates sobre seu uso off-label. Em países como os Estados Unidos, celebridades e influenciadores divulgaram o uso desses medicamentos para emagrecimento, levando a picos de procura e, em alguns casos, escassez para pacientes diabéticos.
A OMS esclareceu que a inclusão na lista não endossa o uso exclusivo para obesidade, mas reconhece os benefícios em casos associados a comorbidades. Estudos recentes, como um publicado na revista JAMA em 2025, indicaram que pacientes cardíacos usando esses medicamentos apresentaram 40% menos risco de hospitalização ou morte precoce. Esse dado reforça a relevância dos fármacos para além do controle glicêmico.
Impacto global da decisão da OMS
A atualização da Lista Modelo de Medicamentos Essenciais, que agora inclui 523 itens para adultos e 374 para crianças, é um guia adotado por mais de 150 países. Essa lista orienta desde a aquisição de medicamentos pelo setor público até a inclusão em coberturas de planos de saúde, influenciando diretamente a saúde pública global. A inclusão de medicamentos como Ozempic e Mounjaro pode pressionar governos a reverem políticas de reembolso e subsídios, especialmente em nações onde o acesso a tratamentos inovadores é limitado.
A OMS destacou que a decisão é um passo para enfrentar a crescente epidemia de doenças crônicas. Em 2021, mais de 3,7 milhões de mortes foram atribuídas a condições relacionadas ao sobrepeso e à obesidade, superando o total de óbitos por malária, tuberculose e HIV combinados.
- Países que adotam a lista: Mais de 150, incluindo Brasil, Índia e África do Sul.
- Atualização da lista: Realizada a cada dois anos desde 1977.
- Doenças abordadas: Diabetes, obesidade, câncer e hemofilia.
- Mortes anuais por obesidade: 3,7 milhões em 2021, segundo a OMS.
A medida também pode estimular a pesquisa e o desenvolvimento de novos medicamentos GLP-1, ampliando as opções terapêuticas no futuro.
Riscos e desafios do uso indiscriminado
Apesar dos benefícios, o aumento na demanda por Ozempic e Mounjaro trouxe preocupações. A Anvisa, no Brasil, determinou em abril de 2025 a retenção de receitas para esses medicamentos, visando conter o uso indiscriminado, muitas vezes sem prescrição médica. Casos de falsificação, como lotes apreendidos de Mounjaro em setembro de 2025, também levantaram alertas sobre a segurança dos pacientes.
Produtos falsificados podem conter substâncias perigosas, como bactérias ou álcool, conforme relatado pela Eli Lilly, fabricante do Mounjaro. A OMS reforçou a importância de regulamentações rigorosas para garantir a qualidade dos medicamentos distribuídos.
Futuro dos tratamentos para diabetes e obesidade
A inclusão de Ozempic e Mounjaro na lista da OMS é vista como um marco para a saúde global, mas sua implementação depende de esforços coordenados. A organização defende a cooperação entre governos, indústria farmacêutica e sistemas de saúde para reduzir custos e ampliar o acesso. A expectativa é que, com a expiração de patentes nos próximos anos, versões genéricas tornem esses tratamentos mais acessíveis, especialmente em países em desenvolvimento.
Além disso, a decisão pode incentivar a criação de programas de saúde pública voltados para a prevenção e o manejo de diabetes e obesidade. A OMS destacou a necessidade de políticas que priorizem populações vulneráveis, garantindo que os benefícios desses medicamentos cheguem a quem mais precisa.
- Próximos passos: Incentivo à pesquisa de biossimilares e genéricos.
- Foco em prevenção: Programas para reduzir incidência de diabetes e obesidade.
- Países em desenvolvimento: Principal alvo da ampliação de acesso.
- Expiração de patentes: Prevista para 2026 em mercados-chave.
A medida da OMS reforça o compromisso com a equidade na saúde, mas exige esforços globais para superar barreiras econômicas e logísticas.