A Seleção Brasileira sofreu uma derrota por 1 a 0 para a Bolívia, em El Alto, na última rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, marcada por um ambiente hostil que gerou indignação na Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O jogo, disputado a 4.090 metros de altitude, não foi apenas desafiador pelo fator climático, mas também por atitudes que o presidente da CBF, Samir Xaud, classificou como “antijogo”. Desde a chegada da delegação brasileira, o tratamento recebido incluiu ações de gandulas, arbitragem controversa e até truculência policial, levando a CBF a anunciar uma denúncia formal à Conmebol. A partida, realizada na terça-feira, 9 de setembro de 2025, terminou com um gol de pênalti de Miguelito, garantindo à Bolívia uma vaga na repescagem. A situação expôs tensões no futebol sul-americano e levantou debates sobre a realização de jogos em condições extremas.
A derrota marcou o fim de uma campanha irregular do Brasil, que terminou as Eliminatórias na quinta posição, a pior da história da seleção. Apesar de já estar classificada para o Mundial, a equipe comandada por Carlo Ancelotti enfrentou dificuldades táticas e físicas em El Alto. O estádio Municipal de Villa Ingenio, o segundo mais alto do mundo, foi palco de reclamações que vão além do placar.
- Principais problemas relatados pela CBF:
- Ações de gandulas, como bolas murchas e reposições demoradas.
- Arbitragem questionável, com um pênalti polêmico marcado pelo VAR.
- Atitude truculenta da polícia contra a comissão técnica brasileira.
- Ambiente hostil desde a chegada da delegação ao país.
O episódio reacendeu discussões sobre a viabilidade de jogos em altitudes extremas, um tema recorrente no futebol sul-americano.
Reações da delegação brasileira
O presidente da CBF, Samir Xaud, não mediu palavras ao descrever o cenário enfrentado pela seleção. Ele destacou que o Brasil enfrentou não apenas os 11 jogadores bolivianos, mas também fatores externos que comprometeram a integridade da partida. A frase “uma verdadeira várzea” foi usada para ilustrar o que considerou uma organização precária e atitudes antidesportivas. Xaud afirmou que a CBF formalizará uma denúncia à Conmebol, com imagens e registros que comprovam as irregularidades.
Jogadores como Raphinha também expressaram frustração. O atacante criticou a arbitragem, especialmente a marcação do pênalti que decidiu o jogo, e destacou a dificuldade de atuar em uma altitude tão elevada. “É um outro esporte”, disse o coordenador Rodrigo Caetano, reforçando que o futebol praticado a mais de 4 mil metros exige adaptações que vão além da preparação física.
O técnico Carlo Ancelotti, por sua vez, manteve um tom mais contido, mas não deixou de apontar falhas na organização. Ele reconheceu o mérito da Bolívia, que lutava por uma vaga na repescagem, mas criticou a falta de controle dos oficiais da partida. A derrota foi a primeira sob o comando do italiano, que agora foca na preparação para amistosos na Ásia, contra Coreia do Sul e Japão, em outubro.
Impacto da altitude no desempenho
Jogar em El Alto, a 4.090 metros acima do nível do mar, é um desafio conhecido no futebol sul-americano. O estádio Municipal de Villa Ingenio, usado pela primeira vez pela seleção brasileira, amplifica as dificuldades devido à rarefação do ar, que reduz o oxigênio disponível e altera a dinâmica do jogo. A bola, por exemplo, ganha maior velocidade em chutes de longa distância, o que favorece a estratégia boliviana de explorar esse tipo de jogada.
- Efeitos da altitude no desempenho dos jogadores:
- Menor resistência física devido à baixa oxigenação.
- Dificuldade em manter o ritmo em jogadas de alta intensidade.
- Alteração na trajetória e velocidade da bola em chutes e passes.
- Impacto psicológico pelo ambiente hostil e pressão da torcida.
A seleção brasileira tentou se preparar para essas condições, mas as nove mudanças no time titular em relação ao jogo anterior, contra o Chile, dificultaram a adaptação. Jogadores como Samuel Lino e Richarlison sentiram mais os efeitos da altitude, enquanto Alisson, com defesas importantes, evitou um placar mais elástico.
Histórico de tensões em jogos na Bolívia
A relação entre Brasil e Bolívia em partidas disputadas em grandes altitudes tem um histórico de polêmicas. Desde os anos 1970, quando o técnico Cláudio Coutinho já apontava a dificuldade de jogar em La Paz, a CBF busca estratégias para minimizar o impacto da altitude. Em 1985, a entidade conseguiu transferir um jogo das Eliminatórias para Santa Cruz de la Sierra, a uma altitude menor, para evitar desvantagens.
Em 1997, o Brasil venceu a Bolívia na final da Copa América, mas a estratégia foi chegar à cidade horas antes do jogo, evitando uma exposição prolongada à altitude. Derrotas em 2001 e 2009 reforçaram o trauma brasileiro, enquanto a vitória por 4 a 0 em 2022, sob o comando de Tite, foi uma exceção. A escolha de El Alto como sede, em vez do tradicional estádio Hernando Siles, em La Paz (3.640 metros), intensificou o desafio.
- Momentos marcantes em jogos na Bolívia:
- 1979: Brasil vence nas Eliminatórias, mas já previa dificuldades.
- 1997: Vitória na Copa América com estratégia de chegada tardia.
- 2009: Derrota por 2 a 1 com Dunga como técnico.
- 2022: Goleada por 4 a 0, única vitória recente em La Paz.
Denúncias e providências da CBF
A CBF planeja reunir evidências, como vídeos e relatos, para embasar sua denúncia à Conmebol. Além do pênalti controverso, a entidade aponta ações como bolas murchas, demora na reposição por gandulas e até a introdução de uma segunda bola no gramado durante ataques brasileiros. A truculência policial também foi um ponto de destaque, com relatos de ameaças de prisão contra membros da comissão técnica, incluindo Rodrigo Caetano, que tentou dialogar com o delegado da partida.
A Conmebol, responsável pela organização do futebol sul-americano, ainda não se pronunciou sobre o caso. A entidade já enfrentou críticas em outras ocasiões por jogos em altitudes extremas, como em 2007, quando a FIFA chegou a cogitar proibir partidas acima de 2.500 metros, mas a decisão foi revertida após pressão de países andinos.
- Possíveis medidas da CBF na denúncia:
- Apresentação de vídeos mostrando ações antidesportivas.
- Relato detalhado sobre o comportamento da polícia local.
- Solicitação de revisão das condições de jogo em El Alto.
- Pedido de sanções a responsáveis pelas irregularidades.
Debate sobre jogos em altitude
A derrota reacendeu o debate sobre a realização de partidas em altitudes extremas. Países como Bolívia, Peru e Equador utilizam estádios localizados a mais de 3.000 metros, o que gera críticas de equipes visitantes. A Bolívia, em particular, adota a estratégia de sediar jogos em locais como El Alto para tirar proveito da adaptação de seus jogadores, que vivem e treinam nessas condições. O lema estampado no estádio, “Se juega donde se vive” (“Se joga onde se vive”), reflete essa postura.
Por outro lado, equipes como o Brasil argumentam que a altitude cria um desequilíbrio competitivo, especialmente quando combinada com outros fatores, como organização precária ou arbitragem questionável. O tema já foi discutido em congressos da FIFA e da Conmebol, mas não há consenso sobre mudanças nas regras.
- Argumentos contra jogos em alta altitude:
- Desvantagem física para equipes não adaptadas.
- Risco à saúde de jogadores devido à baixa oxigenação.
- Dificuldade de manter a qualidade técnica do jogo.
- Possibilidade de incidentes extracampo, como os relatados pela CBF.
Preparação para o futuro
Com o fim das Eliminatórias, a Seleção Brasileira agora se prepara para amistosos na Ásia, contra Coreia do Sul (10 de outubro) e Japão (14 de outubro). Ancelotti usará essas partidas para testar novas formações e jogadores, visando a Copa do Mundo de 2026. Apesar da campanha irregular, com 28 pontos e a quinta colocação, o treinador mantém a confiança. “O importante é a Copa”, disse Bruno Guimarães, minimizando o impacto da derrota.
A CBF, enquanto isso, busca garantir que situações como a de El Alto não se repitam. A entidade planeja dialogar com a Conmebol para discutir não apenas as irregularidades do jogo, mas também a questão das partidas em altitudes extremas. O objetivo é assegurar condições mais justas e seguras para competições futuras.
- Próximos passos da Seleção Brasileira:
- Amistosos na Ásia para ajustes táticos e físicos.
- Análise de desempenho dos jogadores em El Alto.
- Reforço da preparação física para jogos em condições adversas.
- Acompanhamento da denúncia junto à Conmebol.